Hoje é meu aniversário. E, em vez de parabéns, pererê, caixinha de fósforo, eu gostaria de receber o seguinte presente seu:

Eu gostaria de saber a respeito de uma certeza que você adquiriu na vida e sobre a vida e que sustenta por agora. Se você não é de sustentar certezas, que ao menos me conte uma de suas suspeitas, por favor.

Aproveite a multiplicidade de linguagens que a internet oferece e dê este meu presente da maneira que se sentir mais confortável, da maneira que conseguir melhor se expressar: aceito relatos, fábulas, máximas, excertos de trechos, letras de música, mp3, vídeos, links — o que for possível enviar-me por email, para o brenofernandes (at) gmail.com

Muito obrigado e, eu sei, feliz aniversário para mim. Para você também.

Obrigado,

B.

Não costumo misturar o blog do Coletivo Muito Barulho Por Nada com o abre parêntese, mas abro uma exceção para o áudio abaixo. Trata-se da gravação de uma performance do Coletivo na qual eu declamo, de improviso, um soneto que havia escrito há tempos, inspirado num trecho do extinto blog de Daniel Galera.

Galera escrevera, a respeito do contexto de criação de Até o dia em que o cão morreu, que chamava a sua atenção “um fenômeno de certa apatia entre as pessoas da minha idade e minha classe social, um excesso de possibilidades que desnorteava as pessoas, tornava tudo no mundo equivalente, e portanto igualmente desinteressante.”

Eu percebo algo similar em muitas pessoas da minha idade e minha classe social, eu inclusive. Sonhamos em fazer um pouco de tudo na vida, mas, sem saber por onde começar — ou ter ânimo para começar –, às vezes optamos por continuar sentados na mesa do bar, sonhando. Nos dá pavor a ideia de escolher um caminho e gastar a carta da escolha.

Estamos parados na encruzilhada das possibilidades infinitas. Mas o poema que Gabriel Camões lançou em seguida é como um abraço amigo. E a música que Cebola Pessoa fez, para ambientar, de improviso, é das coisas mais lindas, que dão nó no olho e cisco no peito da gente.

PS: O Coletivo se apresenta, neste sábado, às 20h, no sebo Praia dos Livros, no Porto da Barra. A entrada é franca. Apareça.

De repente, teve uma vontade desvairada de rir. Como se acabasse de ganhar na sena. Ou como se a maior das desgraças, de dimensões infinitas, acabasse de lhe acontecer. A muito custo controlou a explosão; riu pouco, mas com gosto. Os dentes cobertos de saliva, o copo descartável com vodka e coca balançando perigosamente próximo à sua calça cáqui.

Teve vontade de mandar a garota ao seu lado ir à merda. Lá estava ela, os olhos revelando toda a impaciência e ansiedade que o resto do corpo (incluindo as mãos) dissimulava. Ridícula. A boca de lábios fartos num sorriso de vitrine, o nariz se impondo arrebitado como um general, ordenando que ele continuasse a falar. Na certa, supunha que aquele riso viera à tona junto com alguma lembrança, uma história interessante que ele começaria a contar, cumprindo assim seu papel no ritual da conquista. Sua função era ousar, bem sabia, enquanto a dela era recusar. Ele então deveria ousar mais; ela, recusar mais – e a intensidade dessa disputa aumentando até culminar num beijo longo, alguns amassos e o objetivo final: fazer amor.

Sim, ela parecia ser do tipo que faz amor.

E amor se faz?

A vida inteira até ali ele preferiu foder, trepar, copular – gozar e deitar lado a lado, uma barreira de fumaça de cigarro entre nós. Mas estava se cansando daquilo, daquela forma de ser homem. Seu gozo nunca lhe trouxera mais que arrependimento. Culpa. Ele não deveria estar fazendo aquilo, não com ela. Não seria legal. E se não for másculo, às favas com a virilidade. Cansou de provas. Ele não precisava se provar e não dava a mínima para o que os outros pudessem comentar. Não queria mais transar, comer, fornicar. Queria, ele também, fazer amor. (E amor se faz?) Decerto não com ela; sua pompa de quem se achava no direito de experimentar o amor dele só a fazia mais ridícula e risível. Aquele amor, nunca compartilhado até então, só pertenceria a uma mulher especial, que soubesse dialogar no silêncio – no silêncio total: de palavras, de olhares, de corpo. Uma mulher forte o bastante para enxergar toda a podridão inerente à personalidade dele e que, ainda assim, aceitasse-o – sem pena, sem fascinação.

Ele só queria esperar.

No embalo desses devaneios, o riso se transformou em vazio. Algo próximo da amargura, mas era vazio. Permaneceu calado, olhando para o bico dos sapatos. Seu amigo e anfitrião da festa passou trôpego por eles, carregado por uma garota de piercing no nariz. A um sinal da outra, garota ao seu lado respirou fundo, como se houvesse no ar o gás da coragem.

Ela lhe chamou pelo nome, tocando-lhe a perna com uma ternura incógnita (verdadeira ou falsa?), repugnante. Perguntou-lhe se estava bem. Ele meneou a cabeça e soltou um “não é nada”, sem desviar os olhos vazios dos sapatos. Ela tocou-lhe carinhosamente a face, com uma mão quente e suada, obrigando-o a fitá-la. A insensível não foi capaz de perceber o vazio estampado nos olhos dele, porque às vezes ficamos assim: vazios, e a maioria das pessoas confunde esse vácuo existencial com depressão, sem atentar para o detalhe que, para dar-se à melancolia, é preciso ter alguma noção, mesmo errônea, do que seja a felicidade. Mas ela em nada disso reparou, pois baixou os olhos para a boca fina e ressecada dele e o beijou. Beijou-o como se com a língua pudesse sondar, sugar seus pensamentos. O corpo dela se aproximou, suas mãos se entrelaçaram atrás da nuca dele, enquanto a língua tentava cutucar-lhe a ferida, encontrar a sua alma. E os lábios dela eram de uma quentura confortante, que fazia esquecer.

Ele tentou permanecer de olhos fechados, tentou esquecer, só mais daquela vez, mas não era possível. Abriu-os; suas retinas sugaram o mundo como aspiradores. De repente, enxergava tudo mais de perto, mesmo os quadros de mau gosto no fim do corredor; via tudo mais próximo e com uma riqueza aflitiva de detalhes. Doía ver tudo daquela forma.

Ela, mesmo percebendo o bloqueio, enfiava a língua mais fundo, apertava mais os olhos e puxava a cabeça dele para si com mais força, na esperança inútil de o não começado não terminar. Seus motivos, um mistério. Toda mulher é um mistério. A maioria, um mistério medíocre, mas ainda assim mistério.

Foi em vão. Ele se livrou dela com um empurrão brusco e encarou-a com estranheza, medo e raiva (o vazio, enfim, preenchido). Ela se preparava para se indignar ou chorar – ainda não havia se decidido –, mas não houve tempo: a mão que lhe veio de encontro à face era pesada, o tapa doído a desconcertou, todos os pensamentos migraram para a bochecha, onde começaram a arder.

Com o rosto de lado, seu olho deslizou timidamente para o canto e, escondido sob a vasta cabeleira loura, pôde ver o momento em que ele se levantou, cuspiu no copo com nojo e saiu do apartamento.


[Publicado no e-zine Paralelepípedos, 003]

“Fo-en! Fo-en!”

Foen, aqui na Bahia, é sinônimo de fanho, aquela pessoa que tem voz nasalada.

“Fo-en! Fo-en!” — era assim que as outras crianças me perturbavam.

Eu nasci com algumas deformações no lado direito do rosto. (Não gosto dessa palavra deformação, porque ela está ligada a idéias ruins, e aí eu fico me sentindo um ogro. Escrevi-a porque é mais entendível do que o termo que os médicos usam para nomear um problema como o meu: má formação congênita.) Tinha uma espécie de verruga logo abaixo do olho; não tinha o osso que dá forma à maçã do rosto; tinha a boca torta e maior desse lado; tenho até hoje uma saliência do lado do nariz por conta de um canal lacrimal que, digamos, estufou; e também sou fanho. Contudo, dessas “más formações congênitas” as outras crianças não faziam troça, mas perguntas, do tipo: “o que aconteceu com você pra ser assim?” “É-É.. De nascença”, dizia eu cabisbaixo, numa vozinha triste, cheio de pena de mim mesmo por me achar um anormal, alguém diferente de um modo ruim.

Zombaria era me chamar de “fo-en! fo-en!” Eu abria o berreiro e ia correndo pro colo da minha vó, que me consolava dizendo que eu não tinha que me importar com o que diziam sobre minha aparência física, e sim sobre o meu comportamento, as minhas idéias. “Por isso, estude bastante, leia bastante, para ser bem inteligente. Pois pessoas inteligentes nunca são motivo de chacota”, me dizia ela.

Quando eu ganhei minha primeira coleção de livros, a história que mais me cativou foi a do patinho feio. Lia e relia, e relia, e relia; sempre sonhando com o dia em que eu cresceria e, talvez, me tornasse um belo cisne, fazendo desaparecer como que por mágica todas as minhas “má formações congênitas”. No fundo, não acreditava na minha avó, dizendo que eu devia não me importar com a aparência. Porque, puxa!, eu me sentia incomodado com as perguntas e falações, eu queria que elas parassem.

E pararam. Em parte porque as outras crianças, como todas as pessoas, aprenderam com o tempo que há certas coisas que têm de ser ditas com bastante cuidado, para não magoar ninguém; em parte porque fiz algumas cirurgias plásticas. Mas, sobretudo, porque minha vó estava certa: se eu não tivesse lido e estudado bastante, de nada adiantariam as cirurgias. Eu ia ter uma boca ajeitada, porém só ia sair bobagem dela, e eu continuaria sofrendo deboche. Seria um cisne desafinado.


[cronicazinha escrita para um projeto do meu editor, Luis Camargo, com crianças da 1a série da rede de ensino público do Rio de Janeiro e publicado em A Tardinha, na edição de hoje]

Jogo Americano

November 25, 2009

FADE IN

INT. COPA – NOITE

HOMEM, MULHER e CRIANÇA (UM GAROTINHO DE 6 ANOS) estão sentados ao redor de uma mesa pequena, comendo. O homem está na cabeceira. A mulher à sua esquerda, o garoto à sua direita. Ouve-se o som dos talheres.

A criança pára de comer e encara, perplexa, o prato do homem.

HOMEM

Quê?

A criança aponta para a peça de JOGO AMERICANO abaixo do prato do homem.

CRIANÇA

Seu apoio de prato… Tá invertido.

O homem mastiga preguiçosamente.

HOMEM (DESINTERESSADO)

E daí?

A criança olha de relance para a mulher, que lhe retribui o olhar. A criança se volta para o homem.

CRIANÇA

A mamãe falou que não é assim, que o lado onde tem o desenho tem sempre de ficar pra cima.

A criança aponta para sua própria peça de jogo americano.

O homem engole o que mastigava e encara seriamente a criança; curva-se um pouco em sua direção.

A mulher, cabisbaixa, ergue os olhos, escondidos pelos cabelos, para o homem.

HOMEM

Escuta só: nem tudo que lhe dizem que funciona de uma determinada maneira funciona somente como lhe disseram.

O homem aponta para a sua peça de jogo americano.

HOMEM

Vê? E daí que tá invertido? O importante é continuar funcionando.

A criança volta os olhos para a mulher. O homem percebe esse gesto e, diante do silêncio dela, ele, que voltara a comer, também a encara.

Ela ainda demora um pouco para falar.

MULHER (MEIO RECEOSA)

Por favor, não fale essas coisas pra ele.

HOMEM

Mas eu não falei nada demais, eu só tava ensinando ele a não se comportar maquinalmente, cumprindo as funções mais inúteis sem questionamentos.

MULHER (UM POUCO MAIS SEGURA QUE ANTES)

Você não tava ensinando ele a questionar, e sim a ser desobediente.

HOMEM

O QUÊ?! De-Desobediente?! Você chama de desobediência o fato de ele não querer seguir um padrão idiota?

O homem ergue o prato da criança e vira seu apoio de prato.

HOMEM

Pronto, filho. Não se importe com essas coisas. Guarde os neurônios para as questões maiores.

A mulher se debruça sobre a mesa e conserta a peça de jogo americano do menino.

MULHER (UM TANTO RAIVOSA)

Em primeiro lugar, ele não é seu filho. Em segundo, isto é importante sim.

HOMEM (DEBOCHADO)

Ó, que importância! Talvez os filósofos não tenham descoberto o sentido da vida porque perdiam o tempo olhando pro alto, em vez de olhar para baixo, pro seus jogos americanos.

MULHER

É importante, sim! Cria um… um… uma unidade visual. É harmônico. É estético!

O homem repete o ato de inverter o apoio de prato da criança.

HOMEM

Não dê ouvidos a esse lenga-lenga de estética e harmonia. Essas porcarias foram feitas pra não deixar cair comida na toalha da mesa. Então pouco importa se o desenhinho tá pra cima ou pra baixo. Aliás, a gente nem precisaria dessa tralha, era só estender uns guardanapos, ou mesmo folhas de jornal por debaixo dos pratos. Ou então tirar a droga da toalha e botá-la de volta depois. Repito, e preste bastante atenção, guri, essa é uma das lições mais importantes da vida e, ei, eu tô lhe dando de graça: a maioria das coisas não têm um único jeito de serem feitas, capisci?

A criança assente balançando a cabeça devagar.

A mulher torna a se debruçar, não sem certa brusquidão, sobre o prato do filho, para ajustar o apoio de prato.

MULHER

Não dê ouvidos a ele, querido. Faça como a mamãe disser e termin-

O homem segura o braço da mulher com força e a repele com rudeza, forçando-a a se sentar novamente. Ela não consegue ajeitar a peça de jogo americano do filho.

HOMEM

Porra, não tá vendo que tamos tendo uma conversa de homem pra homem? Acredite, um dia você vai me agradecer por isto. Vamos lá, guri. Eu quero agora que você me dê um exemplo que prove que você entendeu o que eu te disse.

A criança alterna o olhar entre a mulher (que está séria, indignada) e o homem (que lhe sorri, afável). Parece ponderar se deve falar algo ou não.

O homem dá um tapa na mesa.

HOMEM (ELEVANDO A VOZ)

Vamos! Eu quero um exemplo!

CRIANÇA

Eh… Ahn… Bom, eu gosto de comer pizza com a mão, mas a mamãe diz que não pode, principalmente fora de casa…

O homem sorri de satisfação.

HOMEM

Tá vendo? Tá vendo que bobas são certas regras? O importante não é saborear uma deliciosa pizza? Que seja com a mão, então! Quer saber, eu vou comer esse bife com a mão agora. Depois eu lavo e pronto.

O homem cata um pedaço de carne no seu prato com a mão e o atira na boca. Mastiga-o com deleite.

HOMEM

Será que você é capaz de me dar outro exemplo? Esse primeiro foi muito bom, mas de certa forma ainda tem relação com o lance do jogo americano. Agora eu quero um que não tenha a ver com comida.

A criança pensa por uns instantes, agora sem se importar (nem mesmo reparar) com o olhar de repreensão da mulher.

CRIANÇA

Hum… A mamãe me faz arrumar a cama todo dia de manhã, mas eu nunca entendi pra que fazer isso, se de noite a gente vai bagunçar ela de novo.

O homem gargalha e aplaude.

HOMEM

Bravo! Bravo!

O homem lança um olhar meio debochado  para a mulher e em seguida torna a fitar a criança.

HOMEM

E você já comentou isso com ela alguma vez?

CRIANÇA

Já, mas ela manda eu ficar quieto e diz: Obedeça a mamãe, obedeça sempre a mamãe.

HOMEM

É mesmo? E você acha essa uma resposta convincente?

CRIANÇA

Acho que sim, já que todo mundo diz sempre que a gente tem de obedecer às mamães.

A mulher sorri.

MULHER

Viu só? Ele sabe que a mamãe só quer o bem dele, e que só pede a ele para fazer isso porque são coisas boas para ele.

O homem se mostra um pouco abalado.

HOMEM (ENFÁTICO)

As escolas! Elas só prestam pra reproduzir esse modelo caduco de vida que aí está. Provas, estrelinha de melhor aluno, punição… que tipo de educação é esta?! Pois se ele fosse meu filho, ia ser educado em casa, ou então em algum liceu como os da Grécia Antiga. Deve existir alguma escola progressista que copie o modelo grego…

MULHER

Graças a Deus, ele não é seu filho.

HOMEM

Uh! Agora você não precisa mais da figura paterna que vive me pedindo para ser, né? Que bom, eu estou fora então. E acho até boa a possibilidade de ele virar gay por falta de figura paterna.  Assim você aprende que tem certas coisas que não funcionam só de uma maneira.

A mulher se levanta de vez.

MULHER

De toda sorte, ele cresceria longe de você, o que já seria ótimo! Eu não quero essas suas filosofias na cabeça do meu filho! Nada desse negócio de regras idiotas, de não ser errado fazer as coisas de tal ou tal forma. A gente sabe muito bem onde isso pode levar, né? Hoje é o jogo americano que pode ser usado invertido. Amanhã pode ser alguém que pode ser morto porque era um filho da p… um… um… alguém que não presta!

O homem também se levanta, bruscamente, levando a mão direita às costas. Encara a mulher com seriedade.

MULHER

E, no fundo, a gente sabe que pensar desse jeito é só uma desculpa pra você deitar a cabeça em paz num travesseiro, né?

O homem continua encarando a mulher, sério. Em instantes, toda a confiança dela se esvai, o medo emerge em seu rosto. O homem anda vagarosamente em direção à criança, ainda com a mão direita nas costas, escondida sob a blusa. Ele pega um pedaço de carne grande do prato da criança e lhe entrega em mãos. Limpa a mão no guardanapo e a coloca sobre o ombro do garoto. Guia-o até fora da copa, fechando a porta. Tudo isso sem desviar o olhar da mulher.

INT. CORREDOR – NOITE

A porta atrás da criança acaba de se fechar. Ela recosta-se na porta, mas gira o pescoço para o lado, para o ouvido ficar mais próximo à porta e tentar ouvir alguma coisa. Ainda segura o pedaço de carne nas mãos. Ouve cochichos ininteligíveis. Depois, ouve a mãe gritando.

MULHER (V.S.)

Na-Não! Não!

A criança volta o rosto para frente, para a janela na parede oposta à porta. Tem os olhos arregalados. Aí atenta para a carne em suas mãos e morde-a. Enquanto mastiga, calmamente, ouve um TIRO.

FADE OUT.

Simpático leitor, bonita leitora,

Ando sumido, eu sei, mas o motivo é justo: nos últimos meses, eu e o resto da galera que faz parte do Coletivo Muito Barulho Por Nada vínhamos ensaiando uns pocket shows com nossa mescla de literatura e música. A partir deste fim de semana, começamos a apresentá-lo.

A estreia não podia ser melhor: estaremos, neste sábado, 21/11, na Balada Literária, em São Paulo. A convite do amigo Marcelino Freire, nos apresentaremos na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros, junto com os coletivos Urros Masculinos (Recife) e Poesia Moloqueirista (São Paulo), em intervenções rapidinhas entre as mesas de debate nas quais estarão presentes os poetas Chacal, Nicolas Behr, Dani Umpi e Michel Melamed. A partir das 19h.

Já no dia 27/11, sexta-feira, participaremos do lançamento da Revista Fraude, da Faculdade de Comunicação da UFBA, no River’s Pub (Rio Vermelho), junto com a foderosa Quarteto de Cinco. Também a partir das 19h.

Os dois eventos têm entrada franca. A gente se vê, né?

Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar guardadas naquele livro. Ao abri-lo, soltou um grito de horror. “Elas estão mortas!”
Em cada página, havia uma borboleta diferente colada e protegida com um plástico duro por cima. Todas sem vida. Ida decidiu que nunca colecionaria bichos mortos, ainda mais as borboletas, tão bonitinhas. Ao fechar o álbum, leu na capa o nome butterfly. Que era? O pai explicou ser equivalente à palavra borboleta em inglês, e que a tradução ao pé da letra seria bicho-manteiga. Aquilo deu uma ideia à garota.
De certa forma, ela prosseguiu a coleção do pai. Só que, em vez do inseto, Ida colecionava o nome usado para falar borboleta em outras línguas. Ao lado de cada termo, desenhava uma borboleta, o tamanho e as cores inspirados pela forma como ele lhe chegava aos ouvidos. Mariposa, papillon, farfalla, tagfalter… Quando Ida descobriu pelo Google que já haviam catalogado quase 7 mil línguas, pensou consigo mesma:
“Bom, pelo menos eu também vou ter uma coleção para a minha filha completar!”

Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar guardadas naquele livro. Ao abri-lo, soltou um grito de horror. “Elas estão mortas!”

Em cada página, havia uma borboleta diferente colada e protegida com um plástico duro por cima. Todas sem vida. Ida decidiu que nunca colecionaria bichos mortos, ainda mais as borboletas, tão bonitinhas. Ao fechar o álbum, leu na capa o nome butterfly. Que era? O pai explicou ser equivalente à palavra borboleta em inglês, e que a tradução ao pé da letra seria bicho-manteiga. Aquilo deu uma ideia à garota.

De certa forma, ela prosseguiu a coleção do pai. Só que, em vez do inseto, Ida colecionava o nome usado para falar borboleta em outras línguas. Ao lado de cada termo, desenhava uma borboleta, o tamanho e as cores inspirados pela forma como ele lhe chegava aos ouvidos. Mariposa, papillon, farfalla, tagfalter… Quando Ida descobriu pelo Google que já haviam catalogado quase 7 mil línguas, pensou consigo mesma:

“Bom, pelo menos eu também vou ter uma coleção para a minha filha completar!”

acacadoradeborboletas

[publicado em A Tardinha, 17/10]

Recebi um email com um crônica na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher quando é convidada para jantar. É preocupar-se com a forma; fazer mão e pé; e escova e hidratação; é pensar na roupa certa; aceitar o aperto dos sapatos bonitos e o desconforto da calcinha sexy. É tanta coisa, que já esqueci metade, embora tenha me esforçado para memorizar, juro.
Contudo, durante a leitura me pareceu que ela tentava fortalecer seu ponto alegando um total descompromisso da parte masculina para com a situação. “Ele diz, como se fosse a coisa mais simples do mundo ‘Vamos jantar amanhã?’.” Daí resolvi explicar um pouco o lado masculino também.
Oscar Wilde escreveu: assim como os homens amam com os olhos, as mulheres amam com os ouvidos. Essa frase tem lá sua verdade, mas não está bem calibrada. Podemos dizer assim: os homens são extremamente visuais, enquanto as mulheres trabalham todos os seus sentidos. E mais — trabalham a sua imaginação. As mulheres são muito afeitas à narrativa, ao contexto, à progressão das coisas. Assim, convidá-la para jantar é fazê-la entrar em um filme, desde o momento em que abre a porta da casa até o momento em que volta a abri-la. Cada encontro, para ser bem sucedido, tem de dar um trabalho digno de produção hollywoodiana.
Primeiro, o cenário. A locação é muito importante para as mulheres. Homens não costumam reparar nela, e os filmes pornô são a maior prova disto. O seu primeiro desafio, então, é escolher um restaurante que seja minimamente badalado mas sem perder o tom intimista, e com boa decoração.
Percebeu? São três qualidades extremamente abstratas, que envolvem mais que a mera visualização. Você conhece um lugar assim? Difícil. Você só frequenta este tipo de ambiente quando convida mulheres para jantar, porque, no dia-a-dia, qualquer boteco onde se possa comer bem e beber cerveja em copo que não seja de plástico já está valendo. O lugar mais arrumadinho e intimista disponível na sua memória é uma pizzaria — você acaba de confundir intimista com caseiro, por conta das toalhas xadrez que te lembram a casa da sua avó  – ou um restaurante chinês, com a calmaria que seus aquários nas paredes inspiram. Mas, ei, pizzaria e chinês são muitas vezes vistos com maus olhos, como parentes do boteco ou da barraquinha de cachorro-quente. Não, não pode ser nenhum dos dois — ou até pode, só quem com um outro fator de dificuldade acrescido: deve ser um lugar desconhecido. Nada que tenha saído na Veja ou no caderno cultural recentemente. O que elimina todos os japoneses que você conhece também.
As mulheres querem sempre ser surpeendidas, e se você não é capaz de fazê-lo, você não tem chances com ela. Se você só vive o básico da urbanidade moderna, isto é, tem um trabalho monótono e transita entre a academia, o baba, a praia, o cinema, o bar, algum show e casa — rá, se fodeu. Arranje um hobby perigoso, um trabalho glamouroso, algo que faça de você especial, sui generis. Eu conheço uma garota que namorava um apaixonado por camping e trilhas. Ela, que até então nunca tinha ido nem em fazenda, vivia o acompanhando e me falava com verdadeira fascinação das aventuras que encaravam. Quando terminaram, ela nunca mais voltou a acampar. Nem por trauma dele nem nada; simplesmente não lhe interessava mais.
Ou seja, em paralelo à produção do cenário, você precisa compor o seu personagem de mocinho psicologicamente. Ele deve ser um James Bond ou Indiana Jones, com um timing de piadas do Seinfeld ou do friend Chandler. A cada jantar, temos de fazer um show de stand up comedy. Uma vez eu ouvi um “ui, ficamos sem papo” e, acredite, não foi nada bom.
Vamos agora a um outro aspecto:
Quando você vê alguém indo ao banheiro em um filme? Ou pegando fila? Atravessando a rua ou preso num engarrafamento?
Resposta correta — somente quando isto tem importância dramática.
Nas histórias, o que é irrelevante não precisa ser contado. Esta regra narrativa nos obriga a transformar todo e qualquer momento do encontro em significante. Por exemplo, no caminho entre a casa dela e o restaurante. O carro está limpo? A seleção de músicas foi minimamente pensada? Let’s get it on está seguramente incluída e posicionada para tocar na volta para casa? Você vai conseguir iniciar o stand up enquanto dirige e presta atenção redobrada aos ladrões que sempre podem te surpreender no trânsito? E quando você descer e os três flanelinhas da rua se aproximarem, ameaçadores, cobrando 10 reais — você vai aceitar a extorsão com aquela engasgada que dá sempre nessas situações, dando a ela inconscientemente a certeza de que você não é herói porra nenhuma, ou vai peitá-los e mostrá-la quão bravo você, ainda que isso lhe valha uma surra?
Bom, mas supunhamos que tudo ocorra bem, e os caras só cobrem 2 reais. Depois de jantar, aonde quer que vocês forem, e até se separarem, o filme continua. Um novo cenário deslumbrante é preciso, um nova temporada de stand ups também e, assaz importante, Let’s get it on não deve ser tocada no trajeto para a esticada na boate.
Eu poderia terminar dizendo algo do tipo: tá vendo, a gente tem muito mais trabalho que vocês, nossas responsabilidades dependem de muitos outros fatores, mas é bobagem. Um encontro é realmente como um filme, e cinema é trabalho coletivo, não dá pra fazer sozinho.
Bom apetite e desliguem seus celulares. :)

Recebi um email com um crônica na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher quando é convidada para jantar. É preocupar-se com a forma; fazer mão e pé; e escova e hidratação; é pensar na roupa certa; aceitar o aperto dos sapatos bonitos e o desconforto da calcinha sexy. É tanta coisa, que já esqueci metade, embora tenha me esforçado para memorizar, juro.

Contudo, durante a leitura me pareceu que ela tentava fortalecer seu ponto alegando um total descompromisso da parte masculina para com a situação. “Ele diz, como se fosse a coisa mais simples do mundo ‘Vamos jantar amanhã?’” Daí resolvi explicar um pouco o lado masculino também.

Oscar Wilde escreveu: assim como os homens amam com os olhos, as mulheres amam com os ouvidos. Essa frase tem lá sua verdade, mas não está bem calibrada. Podemos dizer assim: os homens são extremamente visuais, enquanto as mulheres trabalham todos os seus sentidos. E mais — trabalham a sua imaginação. As mulheres são muito afeitas à narrativa, ao contexto, à progressão das coisas. Assim, convidá-la para jantar é fazê-la entrar em um filme, desde o momento em que abre a porta da casa até o momento em que volta a abri-la. Cada encontro, para ser bem sucedido, dá um trabalho digno de produção hollywoodiana.

Primeiro o cenário. A locação é muito importante para as mulheres. Homens não costumam reparar nela, e os filmes pornô são a maior prova disto. O seu primeiro desafio, então, é escolher um restaurante que seja minimamente badalado mas sem perder o tom intimista, e com boa decoração.

Percebeu? São três qualidades  abstratas, que envolvem mais que a mera visualização. Você conhece um lugar assim? Difícil. Você só frequenta este tipo de ambiente quando convida mulheres para jantar, porque, no dia-a-dia, qualquer boteco onde se possa comer bem e beber cerveja em copo que não seja de plástico já está valendo. O lugar mais arrumadinho e intimista disponível na sua memória é uma pizzaria — você acaba de confundir intimista com caseiro, por conta das toalhas xadrez que te lembram a casa da sua avó  – ou um restaurante chinês, com a calmaria que seus aquários nas paredes inspiram. Mas, ei, pizzaria e chinês são muitas vezes vistos com maus olhos, como parentes do boteco ou da barraquinha de cachorro-quente. Não, não pode ser nenhum dos dois — ou até pode, só quecom um outro fator de dificuldade acrescido: deve ser um lugar desconhecido. Nada que tenha saído na Veja ou no caderno cultural recentemente. O que elimina todos os japoneses que você conhece, por sinal.

Uma mulher quer sempre ser surpreendida, e se você não é capaz de fazê-lo, você não tem chances com ela. Se você só vive o básico da urbanidade moderna, isto é, tem um trabalho monótono e transita entre a academia, o baba, a praia, o cinema, o bar, algum show e casa — rá, se fodeu. Arranje um hobby perigoso, um trabalho glamouroso, algo que faça de você especial, sui generis. Eu conheço uma garota que namorava um apaixonado por camping e trilhas. Ela, que até então nunca tinha ido nem em fazenda, vivia o acompanhando e me falava com verdadeira fascinação das aventuras que encaravam. Quando terminaram, ela nunca mais voltou a acampar. Nem por trauma dele nem nada; simplesmente não lhe interessava mais.

Ou seja, em paralelo à produção do cenário, você precisa compor o seu personagem de mocinho psicologicamente. Ele deve ser um James Bond ou Indiana Jones, com um timing de piadas do Seinfeld ou do friend Chandler. A cada jantar, temos de fazer um show de stand up comedy. Uma vez eu ouvi um “ui, ficamos sem papo” e, acredite, não foi nada bom.

Vamos agora a um outro aspecto:

Quando você vê alguém indo ao banheiro em um filme? Ou pegando fila? Atravessando a rua ou preso num engarrafamento?

Resposta correta — somente quando isto tem importância dramática.

Nas histórias, o que é irrelevante não precisa ser contado. Esta regra narrativa nos obriga a transformar todo e qualquer momento do encontro em significante. Por exemplo, no caminho entre a casa dela e o restaurante. O carro está limpo? A seleção de músicas foi minimamente pensada? Let’s get it on está seguramente incluída e posicionada para tocar na volta para casa? Você vai conseguir iniciar o stand up enquanto dirige e presta atenção redobrada aos ladrões que sempre podem te surpreender no trânsito? E quando você descer e os três flanelinhas da rua se aproximarem, ameaçadores, cobrando 10 reais — você vai aceitar a extorsão com aquela engasgada que dá sempre nessas situações, dando a ela inconscientemente a certeza de que você não é herói porra nenhuma; ou vai peitá-los e mostrá-la sua bravura, ainda que isso lhe valha uma surra?

Bom, suponhamos que tudo ocorra bem, e os caras só cobrem 2 reais. Depois de jantar, aonde quer que vocês forem, e até se separarem, o filme continua. Um novo cenário deslumbrante é preciso, um nova temporada de stand ups também e, assaz importante, Let’s get it on não deve ser tocada no trajeto para a esticada na boate.

Eu poderia terminar dizendo algo do tipo: tá vendo?, a gente tem muito mais trabalho que vocês, nossas responsabilidades dependem de muitos outros fatores. Mas é bobagem. Um encontro é realmente como um filme, e cinema é trabalho coletivo, não dá pra fazer sozinho.

Bom apetite e desliguem seus celulares.

Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!
Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.
Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!
Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.
Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.
Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.
Quem diria, hein?!
Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.
Entretanto, assim como a sorte vem… No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.
– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?
– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo…

Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!

Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.

Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!

Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.

Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.

Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.

Quem diria, hein?!

Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.

Entretanto, assim como a sorte vem… No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.

– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?

– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo…

Ai, quase morro de emoção agora há pouco! Bom, não deixaria de ser irônico: é que meu caixão acaba de chegar da capital. Encomendei-o na melhor funerária do estado. Demorou uns três meses para ficar do jeitinho que eu queria, mas valeu a pena esperar. Ele está lá na sala, sendo admirado pelos filhos, netos e vizinhos. É de cerejeira, branco, com tampa de vidro, para deixar o corpo inteiro à mostra; nas laterais há rosas douradas e o final do Salmo 23 – “Minha morada é a casa do Senhor por dias sem fim” –, em letras também douradas. Ai, como é lindo meu caixão! Dá até vontade de morrer logo. Brincadeirinha. Quero viver por muito tempo ainda. Sem contar que faltam muitos preparativos para o funeral. Agora, com sua licença, vou contemplá-lo mais um tiquinho.

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Minha filha bate, revoltada, à porta do quarto. Ela está fora de si, em prantos, falando disparates. Ora, qual é o mal de se comprar o próprio caixão? Já estou com 74 anos. Cedo ou tarde eu não teria um? Pois que seja do meu gosto. Tudo do meu jeito: caixão, mortalha, coroas de flores, velório, enterro e missa de sétimo dia. Já tenho quase tudo planejado. No velório, quero que distribuam balas de tamarindo na entrada, o sabor ajudará as pessoas a canalizarem a emoção certa para essas ocasiões: inconformidade e encantamento. Sim, senhor, é assim que deve ser.

Ainda não terminei de escrever a mensagem que virá impressa no convite da missa de sete dias; quero um texto bem bonito e tocante. Estou lendo muito para me inspirar. Gosto da maneira como a Henriqueta Lisboa aborda o tema morte. Já dos ultra-românticos, aqueles do mal-do-século, não gosto muito.  Também separei algumas reflexões shakespearianas sobre o assunto. “A imagem da morte deve ser como a imagem de um espelho que nos ensina o quanto a vida é um sopro passageiro.” (Oh, esse moço sabia das coisas.)

Minha filha parou de bater à porta, depois de ter ameaçado sair de casa com seus filhos, caso eu não devolvesse ou jogasse fora o meu caixão. Muito engraçado. Até parece que ela tem para onde ir. Quem sabe volta para a casa daquele biltre do ex-marido dela, que já a expulsou uma vez, e divide a cama com ele e a nova mulher. Será que ela não percebe que estou fazendo isto para poupá-la destas preocupações menores quando, ao contrário do que eu gostaria, ela desabar, tornar-se um caco físico e emocional perante a minha passagem?  Já meu filho não deu grande importância. Achou até engraçado. Soltou um “mamãe, você é louca!” e, cinco minutos depois, saiu para o futebol. Provavelmente vai trazer os amigos para verem meu lindo caixão. Ai, é melhor eu preparar uns petiscos e fazer um cafezinho.

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Ufa! Já é quase meia-noite, e não faz quinze minutos que a última visita saiu. Nossa, quanta gente! Espero que todos compareçam com o mesmo empenho no “dia oficial”.

Ai, estou tão entusiasmada!

Assisti ao meu primeiro enterro quando tinha três anos de idade – era o da minha bisavó. Apesar de ser muito novinha, lembro de algumas imagens, algumas cenas das quais eu participava como espectador ignorante. Lembro-me, por exemplo, das pessoas chorando; da minha avó e seus irmãos orando no quarto, ao redor do corpo jazido na cama; da minha mãe me abraçando forte e tampando meus olhinhos durante a passagem do caixão pela sala.

O segundo foi o da minha avó. Eu contava então com 12 anos. Ali que realmente captei a reação das pessoas diante da morte. Mas eu não compartilhava dos mesmos sentimentos delas; não sentia pena, tristeza ou indignação – apenas uma ligeira saudade adiantada, confesso. Achava, e acho, que vovó havia ido para um lugar melhor. Abalo mesmo foi ver minha mãe chorando, abraçada a mim do mesmo modo que eu me agarrava a ela na minha infância. E também me chocou uma discussão durante a preparação do cadáver. Minha mãe e minha tia-madrinha queriam usar um vestido branco, simbolizando a paz; uma outra tia minha, porém, jurava de pé juntos que vovó lhe confidenciara a vontade de ser enterrada com o vestido azul que usara no seu último aniversário. Por maioria de votos, o branco ganhou. Creio ter sido aí que, meio inconscientemente, jurei a mim mesma ser a organizadora do meu próprio funeral.

A propósito, eu pretendo ser enterrada de azul. Tenho um vestido perfeito para a ocasião, e já o estou adaptando para uma manipulação mais fácil, trocando os botões por velcro.

Desde os 40 eu pretendia comprar meu caixão, e depois minha vaga no cemitério. Mas meu finado marido, Afrânio, que Deus o tenha, nunca me permitiu. Ele tinha pavor de tocar no assunto morte. Nem lia nos jornais as reportagens envolvendo assassinatos ou acidentes fatais. Há três anos, faleceu. Foi uma trabalheira arranjar tudo de última hora! Menina de Deus, você não tem noção!

Agora que Afrânio não está aqui para se incomodar, resolvi me permitir este grande e antigo sonho. Meu funeral será divino!

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Não tenho ideia de que horas sejam. É tarde; já se passaram mais de duas horas desde a minha última anotação.

O fato é que eu não consigo dormir. Então decidi me levantar. Fiquei a escutar se havia barulho em casa, não há. Protegida pela madrugada, vou experimentar meu caixão. Dar uma deitadinha rápida, para ter uma prévia da sensação, saber se é apertado lá dentro, essas coisas. Mas acho melhor tomar uma caneca de café antes. Minha filha acorda cedo para ir trabalhar. Vai que eu adormeço no meu caixão, e ela se depara com a cena. Do jeito que é aquela ali, é bem capaz de ter um troço e cair morta. E eu não pretendo ceder meu caixão dos sonhos a ninguém, nem aos meus familiares mais íntimos.