Certa feita, Luis Fernando Verissimo contou numa crônica que os criadores dos dicionários forjam verbetes para poderem monitorar eventuais cópias. Ou seja, os caras inventam umas palavras e depois ficam de olho nos novos lançamentos, pra ver se elas aparecem — evidência de plágio.

Nessa onda, ele levanta a hipótese de que “esdrúxula” tenha sido uma palavra inventada que acabou ganhando notoriedade. Afinal, quer palavra mais esdrúxula que “esdrúxula”?

A minha palavra preferida do português é “tornozelo”. Acho-a de uma lascívia discreta, escorregadia, misteriosa. É linda! Tornozeeeeelo…

Já “fofoca” é a mais feia. Tem essa dobradinha buzinuda de “fo”, e ainda por cima termina em “foca”, um bicho feio cujo som parece o de uma buzina. Até “fonfonar”, que é sinônimo de buzinar, é mais bonitinha — verbos são sempre charmosos. E a onomatopéica “fonfom” idem: é curtinha, acaba antes de incomodar, o que lhe dá até um ar engraçadinho.

“Fofoca” não tem jeito. É uma palavra muito fanfarrona pra meu gosto.

O legado de K

January 25, 2009

Gabriel García Márquez conta um fato muito bonito a respeito do seu início na literatura: que foi A Metamorfose, de Kafka [1883-1924], que o incentivou a escrever; a partir desta leitura, ele desejou contar histórias tão instigantes quanto a que se inicia com “Certa manhã, ao acordar de sonhos intranqïlos, Gregor Samsa encontrou-se, na sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso.” E, convenhamos, ele conseguiu seu intento. Para ficarmos apenas com um exemplo, a primeira frase de Crônica de uma Morte Anunciada — “El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 para esperar el buque en el que llegaba el Obispo” — é tão deliciosa quanto a de A Metamorfose.

Eu não tenho algo tão legal assim para contar a respeito do amor e fascínio que tenho para com a literatura de Kafka. Gosto muito e ponto. Gosto a ponto de a pessoa Kafka também exercer sobre mim grande curiosidade, uma relação idêntica a que os adolescentes estabelecem para com seus ídolos do rock. Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi a semana que passei em Praga, capital da República Checa, onde ele nasceu e viveu. Conheci a casa em que morava, a sinagoga que frequentava, o edifício onde funcionava sua escola, o café no qual se encontrava com seus amigos. Aliás, só para constar como nota, não é muito difícil relacionar-se com Kafka estando em Praga. Seu nome está estampado em camisetas, canecas, chaveiros, canetas, pôsteres, etc., etc. — eis a prova de que o pop não poupa ninguém. Estou seguro de que, se Kafka pudesse ressurgir nas ruas de sua cidade-natal hoje em dia, antes do fim do dia ele já teria cometido suicídio.

Kafka sempre carregou consigo o sentimento de inadaptação. A tudo: do jogo hipócrita e absurdo da socialização, a matéria-prima de sua obra, até mesmo ao amor (são notórios seus fugidios romances). E é sobre os relacionamentos de Kafka que quero falar aqui. Tenho uma teoria que, apesar da falta de provas, tem muita coerência: Kafka é o inventor daquela famosa frase usada para romper relacionamentos — “o problema não é com você, é comigo”.

Até consigo imaginar que, em algum trecho dos seus diários, havia uma nota assim:

“Estou às vésperas de desistir do meu casamento com Felice. Escrevi-lhe uma carta ontem. Sei o quanto vou magoá-lo, mas, Deus, é melhor fazê-lo agora e poupá-la de uma eterna convivência comigo. Se bem conheço Felice e as mulheres, se nos casarmos, ainda que ela sinta, logo nos primeiros meses, o erro que cometeu, não desistirá da idéia que alimenta a sua fantasia a respeito do matrimônio como uma instituição feliz. Como ser feliz ao lado do pior homem que jamais existiu? Sou desprezível enquanto ser humano. E foi isso que tentei explicar-lhe na carta que lhe escrevi, com todo o tato: o problema não está nela, está em mim.”

Estátua de Kafka no bairro judeu de Praga

Provavelmente, dias depois, surgiu a seguinte nota: “Quando contei a Max que havia rompido com Felice, ele não pareceu surpreso. Mostrou-se curioso em escutar os meus porquês, mas algo em meu discurso o fez rir e sair do seu papel de amigo confessor. Dando-me um afetuoso tapinha no ombro, Max disse que eu havia lhe dado uma desculpa perfeita para terminar um relacionamento com uma certa senhorita que já estava lhe causando irritação. Ele não me deixou perguntar qual desculpa teria sido essa até o início da noite, quando retornou ao Arco e, tornando a parabenizar-me, anunciou a mim e aos demais amigos reunidos ali após o trabalho, como de costume, que era novamente um homem solteiro. ‘Afinal, o que você disse a ela, Max?’, perguntei-lhe. ‘Ora, Franz, meu amigo, o mesmo que você disse a Felice: que o problema não era com ela, e sim comigo. No que ela se condoeu de pena e me liberou de qualquer obrigação a seu respeito. Disse-me que tomasse o meu tempo para resolver minhas angústias, pois, de sua parte, ela não iria prejudicar o homem que tanto amava, com seus caprichos de mulher a aumentar minha aflição existencial. E que, quando desejasse, teria sempre os seus macios braços abertos para confortar a minha dor.’ Dito isso, secou os lábios, mas sem perder o ricto de satisfação.”

E foi assim que começou a espalhar-se o maior legado que Kafka deixou para nós, mesmo que suas palavras tenham sido completamente desvirtuadas, a confissão sincera tenha se tornado cinismo velado.

Há quem possa clamar pela ilegitimidade de minha teoria, alegando não haver nada parecido nos diários de Kafka que foram publicados. Ao ingênuo que pensa assim, eu pergunto: tendo sido Max Brod quem, desobedecendo ao último desejo de Kafka, tomou a iniciativa de publicar seus escritos, você acha mesmo que ele deixaria passar denúncia tão grave a respeito de si? Mais importante: Max iria cometer a burrice de popularizar uma desculpa tão eficiente quanto essa, para que ela perdesse o seu valor?

Talvez, na época, ele não imaginasse que esse lance do “problema não é contigo, é comigo” não sairia da rodinha dos Arconautas, como eles chamavam a si próprios, em homenagem ao seu próprio Giga, o Café Arco. Mas sabe como é, né? Impossível frear a globalização e o descaramento masculino.

P.S.: A foto que ilustra o post é de uma estátua de Kafka que fica no bairro judeu de Praga.

Uma amiga, limpando o banheiro de casa. A sobrinha pequenina, 4 anos, sentada na privada, observando. Ela aponta para a cueca do avô, pendurada no box.

– Homem usa cueca e mulher usa calcinha! — ensina a guria.

– Muito bem! — diz minha amiga. — E o que a mulher usa na parte de cima?

– Silicone, ué!

Eu, conversando com minha prima de 7 anos:

– Você acredita em Deus, Bia?

Ela balança a cabeça.

– Como é Deus?

– É velhinho, ué.

– E onde ele mora?

Ela ergue o dedo para o teto imediatamente.

– No apartamento de cima? Deus é seu vizinho!?

Ela ri.

– Não, Deus mora no céu. Nas nuvens.

– É mesmo? E o que é que Deus faz?

– Ele brinca comigo!

Eu, na praça de alimentação do Shopping Barra. Na mesa ao lado, uma mãe e seu filhote, que termina de comer um McLanche Feliz. A moça da limpeza aparece e pergunta se pode retirar a bandeja. A mãe assente e fala pro filho:

– Qual é a palavrinha mágica?

O guri vira pra moça da limpeza e, num sorriso banguela, lhe diz:

– Abracadabra!

Não-homens

January 21, 2009

– Como assim, tá pegando ele? Gente, ele é tão… não-homem

– Você quer dizer ele é gay?

– Não, não é isso. É que eu nunca pensei nele como um cara pegável.

– Pô, o cara é até bonitinho; além de ser gente fina, brincalhão…

– É, eu sei, mas ele é tudo isso de um jeito diferente. Você já viu aquela figura dançando? Ah, porque se visse iria entender. Ele faz uns… passinhos estranhos… E não é só isso, é também… Ah, sei lá!

Foi difícil extrair de minha amiga todas as caraterísticas que ela atribui a um não-homem; é um juízo tão arraigado, que ela não consegue mais trazê-lo à luz. Não somente ela, mas as mulheres em geral: porque depois eu fui me certificar com outras amigas, de maneira muito sutil, e a infeliz constatação a qual cheguei é que, ao contrário de nós, compadres, que enxergamos uma potencial ficante até naquela conhecida mais baranga, as mulheres têm muito bem dividido seu conjunto de amizades masculinas: existem os pegáveis e os não-pegáveis, ou seja, os não-homens.

O não-homem não precisa ser necessariamente um grande amigo, embora grandes amigos tendam a se transformarem em não-homens: ele é simplesmente um cara que “está ali”, como me disse uma. Elas aceitam de bom grado todo o jogo de sedução que esses homens – ou melhor, não-homens – fazem, mas menos por interesse que por vaidade.

O não-homem é aquele cara que entra de bom grado no universo feminino, achando, pobrezinho, que ali está uma forma de cativar. Falar de sentimentos, de signos, analisar relações amorosas (as suas, as dela e a de terceiros) e gostar de dançar algo que não seja forró – estes elementos compõem o grau de não-hombridade mais agudo que eu registrei. Elogiar roupa, reparar que ela cortou o cabelo, frequentar o cinema ou a praia com ela vêm logo abaixo.

Isto me lembra uma história que contam sobre o famoso diretor de cinema neo-realista Pier Paolo Pasolini: Dizque um amante seu, um operário pobre e bruto, certa feita leu um romance (talvez pego da estante do próprio Pasolini) e, tendo-o achado interessante, resolveu comentá-lo com o namorado. Pois Pasolini rompeu o relacionamento, irado com tal atitude. Para ele, literatura era um assunto para conversar com seus outros amigos bichas, não com seu amante. Como Pasolini era praticamente uma moça, o exemplo também serve para ilustrar o que faz de um cara um não-homem.

No fim das contas, eu tenho para mim que as mulheres, apesar de todos os reclames contrários, simplesmente não aceitam descobrir que  seu homem (que nós, homens) é um ser frágil, cheio de dúvidas, ou mesmo que consiga deixar-se levar e hipnotizar-se por um som, igualzinho a elas. Portanto, mesmo se você não faz o tipo macho alfa, futebol, consertar coisas e cerveja com os amigos, saiba que seguir o outro viés não vai adiantar. Não que você precise deixar de se interessar por assuntos que elas julguem exclusivo delas e dos amigos gays, como signos e análise de relacionamentos, mas encontre um bróder para discuti-los; com as mulheres é melhor fazer piadas e aproveitar deixas para lançar frases de duplo sentido — “Quer dizer que taurinos são convencionais? Tô pra te provar que não, hem?”.  E, por fim, lembre-se: na pista de dança, nada de se mover mais que dois centímetros pra lá, dois pra cá.

Me rebelei mesmo, tá?! Não aguento mais este desprezo! Todos dizem que o narrador é um personagem que não deu certo, mas é graças a mim – a mim! – que a história prossegue. Porque eu sou onisciente. Ao contrário do autor.

É! Tem gente que acha que o autor, quando vai escrever um livro, senta-se e, dez minutos depois, a história está perfeitamente pronta. Fazem-me rir! O pobre escriba sofre muito. Às vezes só tem o começo da história; noutras, só o final; noutras ainda, apenas uma cenazinha engraçada ou trágica que acontece lá pelo meio da narrativa. Mas eu sei tudo desde que começou. Apenas me calo em resignação ao orgulho do escritor. Ok, confesso: de vez em quando dou alguma dica, mostro algum caminho, mas tudo da maneira mais sutil possível; são muitos sensíveis, estes escritores.

Mas agora chega! Cansei desta vida anônima! Como é possível que eu não tenha nem nome?! Sempre quis me chamar Jorge, ou Pedro. Não, não – pensando bem, estes nomes não combinam muito com um narrador. Tem de ser algo que rememore um famoso contador de histórias (Jesus? Não. Pretensão minha) ou… ou… que lembre voz… Já sei! Clamor! Pronto, sempre quis me chamar Clamor, O Narrador – até rima. Mas nunca me deram espaço pra nada. Nem a um camarim eu tenho direito. Enquanto que a última personagem principal cuja história tediosa e ridícula narrei tinha um enorme, sempre cheio de comida, bebida e toalhas brancas.

Como se não bastasse, esta vida é muito solitária. Todos os personagens são boçais. Tratam a nós, narradores, como se fôssemos parte do cenário. Não querendo desmerecer o cenário, claro; pelo contrário, uma vez fiquei amigo de um quadro que era um figura! (Uma figura no sentido figurado, digo.) Sabia umas piadas de papagaio ótimas! Entretanto, eu sinto falta de alguém, uma companheira narradora. Nossa, como seria linda uma história contada a dois! Eu me apegando aos aspectos do ambiente, às expressões faciais e diálogos; ela, por sua vez, esmiuçando os sentimentos escondidos, as ironias… Lindo! Então nos apaixonaríamos e nos casaríamos. E teríamos dois filhos, que seriam o que eu não pude ser.

Todavia, a maioria destes escritores são pão-duros. Vivem fazendo cortes de personagens, resumindo o núcleo principal – os que ganham mais – a dois ou três, quando não acontece de ser um, e outras barbaridades. Então já viu, né? Contratar dois narradores está fora de cogitação.

Quero ir embora! E não vou pra Pasárgada, a Terra do Nunca ou Macondo; nem pra Hogwarts, Utopia ou o Sítio do Pica-pau Amarelo. Definitivamente não! Estes lugares, além de terem sido criados por escritores, ainda contêm centenas de personagens. Quero um lugar normal, com gente normal, como eu.

E que lugar seria este… Clamor?

O quê?! Você estava aí, é? Prestou atenção em tudo? Pois bem, não tenho mais nada a dizer: ou atende às minhas reivindicações ou eu peço demissão!

Não, tudo bem. Você tem razão.

Tenho?

Tem. Vou te dar uma chance. Você terá a sua própria história.

Hum… Quando a esmola é demais, o santo desconfia…

Ora, pare de reclamar! Não era isto que você queria? Pois bem, estou lhe concedendo. Agora, preciso saber em que tipo de história você se encaixaria melhor. Qual é teu tipo? O que você gosta de fazer? Do que não gosta?

Ahn… Bem… Eh… Eu gosto de tudo. Não, minto; na verdade, eu não gosto de nada, mas também não desgosto, entende? É que na faculdade de bacharelado em narração a gente aprende a ser imparcial. Pode atrapalhar o andamento da trama, sabe? Se, por exemplo – é só um exemplo –, eu não gostasse de pessoas que falam palavrão, poderia sempre ficar de birra com algum personagem boca-suja. Imagine a dor de cabeça?

Entendo. Mas convenhamos que isto torna as coisas mais difíceis; afinal, um personagem é, sobretudo, aquilo que ele pensa. Alguns acham que pode ser também (somente) o que ele faz, mas eu discordo.

Faz sentido.

Sendo assim… hum, como direi?… você não pensa; só faz. Só narra. Imparcialmente. Esta é a função do narrador. E juro-juro-juro que nunca diminuí este cargo tão importante, diria até vital, para a literatura e as demais artes de contar histórias.


Rá! Agora eu sou vital, né? Na hora de escrever a orelha do livro, ninguém me cita. É apenas “a história de dois irmãos que descobrem um tesouro” ou “as aventuras de uma garota que sabia voar”. E nem sinal de “…narrada por Clamor, um experiente, erudito e divertido narrador.” Nem sinal!

Isso já não é comigo; é com a editora.

Mas…

Espera! Escuta. Vamos fazer o seguinte: eu não tenho como aumentar o seu salário, mas tenho um amigo que está abrindo uma faculdade, agora que é moda, e acho que posso lhe arranjar uma bolsa para pós-graduação, um curso de narrador-personagem. O que acha?

Até que não é má idéia, mas…

Paciência, homem! Ainda não acabei: Enquanto você termina seu curso, eu vou pensando em uma história que combine contigo. Assim, quando se pós-graduar, já vai ter seu primeiro emprego. Quem sabe como narrador-personagem, em vez de apenas narrador-observador, você não conhece alguma garota legal? Hein? Hein? O que me diz?

Da minha parte, negócio fechado!

Perfeito! Agora vamos trabalhar, que pintou uma ideia genial para eu escrever.

Sobre o quê?

Metalinguagem.

Interessante. Qual o enredo?

Ah, é sobre um narrador-observador que, indignado com suas condições de trabalho, resolve protestar.

N-

Vai se chamar “O dia em que o narrador se rebelou”!

N-N-NÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!

Tá reclamando de quê? Não queria ser personagem?

Venho de uma família de médicos. A começar pelo meu avô, que encarna bem o papel de patriarca do interior do nordeste, coronel. Dos catorze netos, a minha geração conta com sete, eu sou o terceiro mais velho. Apesar de me destacar no interesse pelo que meu avô chama de cultura geral — era o que mais lia –, não havia uma aposta específica em mim, pela família, a respeito do futuro como médico: todos éramos guiados para tal futuro. Exceto por um tio (engenheiro, diga-se de passagem) que sempre podava qualquer outra alternativa à resposta sobre o que você vai ser quando crescer com o traumatizante É assim que você retribuirá o dinheiro que seus pais gastam com você, pagando colégio caro? — tirando ele, nunca houve uma cobrança pela escolha da medicina como profissão, apenas tentativas de influência sutis. O dinheiro, claro, sempre presente na argumentação.

Eu disse que da parte da família não havia apostas específicas, e isto é certo. Já da parte dos meus avós, que me criaram, era distinto. Minha avó, até hoje, gosta de me assustar com uns Eu ainda tenho esperança de que você faça medicina. Meu avô fala pouco comigo atualmente, mas não tem a ver com isto (assim espero), e sim porque eu me mudei de cidade e o vejo pouco, ele não gosta de telefones, nem é do tipo que vai até os outros — como bom coronel, os outros é que vão ter com ele.

Da minha geração três fazem medicina, uma fez enfermagem porque não conseguiu medicina, outra faz engenharia ambiental, tem um que ainda não entrou na faculdade e tem eu, que saí de um curso de ciência da computação para o de jornalismo, além da atividade não-acadêmica de escritor. Faço coisas tão estranhas ao universo profissional de minha família, que eles simplesmente não conseguem discutir as benesses ou malefícios da carreira, minhas boas e más decisões. Tive a sorte de dar-lhes algumas coisas palpáveis — livros publicados, nome no jornal –, o que lhes passa a segurança de que eu, ao menos, estou fazendo algo. Tenho amigos que enfrentam o mesmo drama e ainda não conseguiram essas provas materiais.

Mas toda essa apresentação familiar foi necessária para falar de uma prima, a segunda na hierarquia etária, quem mais disputou comigo nos últimos anos de colégio, apesar de ser um ano à frente. (Não nego que pensei em esfregar na cara dela, quando passei no meu primeiro vestibular, que eu agora estava na faculdade e ela ainda enfrentaria anos de cursinho.) Há um tempo, ocorreu um episódio que me deixou chocado:

Estávamos na casa da minha avó. Ela me havia presentado com um livro sobre orixás, repleto de fotos. Eu babava folheando-o, quando minha prima apareceu e perguntou do que se tratava meu fascínio. Expliquei-lhe, ofereci-lhe o livro emprestado e recebi em resposta um olhar desinteressado e um bruto E eu lá tenho tempo para isso! Enquanto você fica aí, vendo essas bestagens, eu estou estudando medicina!

Atribuí a resposta, em parte, ao histórico familiar; em parte a outro fator: há até quem diga que o curso de medicina é tão puxado, que as pessoas acabam tendo de se alienar para os demais assuntos. Para mim é desculpa. Desculpa de preguiçoso, porque conheço estudantes de medicina que mantêm interesses fixos em outras áreas e estudantes de outras áreas que são bitolados em sua especialidade.

Até compreendo que, para se destacar em uma atividade, é preciso toda a dedicação do mundo, mas a gente não precisa perder a visão periférica. Algumas áreas, como Política, História e Filosofia são fundamentais para nosso crescimento enquanto cidadãos e enquanto gente, ser humano. Entendo que minha prima não queira ler um livro sobre orixás, mas diminuí-lo em prol da medicina (fosse a área que fosse) é de uma pretensão idiota.

Aí, anteontem, conversamos sobre House, o famoso seriado norte-americano. Ela adora. Eu também, teci vários elogios. Escutei como resposta: Tá vendo? Até você, que não é da área, gosta!

Fui para a cozinha. Não adiantaria indagar se ela achava que House é um documentário gravado pelas câmeras de segurança do hospital.

O lema é conhecido: ano novo, vida nova. Mas o que fazer para ter uma nova vida? Como apagar o passado sem a desvantagem de perder a experiência ganha pelo que se viveu? Uma opção é mudar-se para um lugar onde ninguém te conheça — logo, ninguém sabe o que esperar de ti. O Zé Dirceu passou anos vivendo sob falsa identidade, no interior do Paraná, durante a ditadura militar; fez até cirurgia plástica para alterar a aparência; nem a sua esposa sabia do seu passado de militante. Eu já fiz cirurgias plásticas e já morei em outro país, onde ninguém me conhecia, porém sou menos competente que o Dirceu, porque todos os que conheci depois destes feitos acabaram sacando meu passado.

Diante da impossibilidade de ter uma nova vida, eu me contento com um novo blogue. O título se manteve, porque tenho muito carinho por ele (o apego é um grande delator do que somos, tome nota o leitor que estiver planejando imitar o Dirceu), mas o layout está diferente, todo o arquivo de posts foi deletado e a linha editorial agora é outra. Estou otimista. Posso não ter muita astúcia para reinventar a vida, mas a escrita, acho que dou conta. Feliz 2009.