Venho de uma família de médicos. A começar pelo meu avô, que encarna bem o papel de patriarca do interior do nordeste, coronel. Dos catorze netos, a minha geração conta com sete, eu sou o terceiro mais velho. Apesar de me destacar no interesse pelo que meu avô chama de cultura geral — era o que mais lia –, não havia uma aposta específica em mim, pela família, a respeito do futuro como médico: todos éramos guiados para tal futuro. Exceto por um tio (engenheiro, diga-se de passagem) que sempre podava qualquer outra alternativa à resposta sobre o que você vai ser quando crescer com o traumatizante É assim que você retribuirá o dinheiro que seus pais gastam com você, pagando colégio caro? — tirando ele, nunca houve uma cobrança pela escolha da medicina como profissão, apenas tentativas de influência sutis. O dinheiro, claro, sempre presente na argumentação.
Eu disse que da parte da família não havia apostas específicas, e isto é certo. Já da parte dos meus avós, que me criaram, era distinto. Minha avó, até hoje, gosta de me assustar com uns Eu ainda tenho esperança de que você faça medicina. Meu avô fala pouco comigo atualmente, mas não tem a ver com isto (assim espero), e sim porque eu me mudei de cidade e o vejo pouco, ele não gosta de telefones, nem é do tipo que vai até os outros — como bom coronel, os outros é que vão ter com ele.
Da minha geração três fazem medicina, uma fez enfermagem porque não conseguiu medicina, outra faz engenharia ambiental, tem um que ainda não entrou na faculdade e tem eu, que saí de um curso de ciência da computação para o de jornalismo, além da atividade não-acadêmica de escritor. Faço coisas tão estranhas ao universo profissional de minha família, que eles simplesmente não conseguem discutir as benesses ou malefícios da carreira, minhas boas e más decisões. Tive a sorte de dar-lhes algumas coisas palpáveis — livros publicados, nome no jornal –, o que lhes passa a segurança de que eu, ao menos, estou fazendo algo. Tenho amigos que enfrentam o mesmo drama e ainda não conseguiram essas provas materiais.
Mas toda essa apresentação familiar foi necessária para falar de uma prima, a segunda na hierarquia etária, quem mais disputou comigo nos últimos anos de colégio, apesar de ser um ano à frente. (Não nego que pensei em esfregar na cara dela, quando passei no meu primeiro vestibular, que eu agora estava na faculdade e ela ainda enfrentaria anos de cursinho.) Há um tempo, ocorreu um episódio que me deixou chocado:
Estávamos na casa da minha avó. Ela me havia presentado com um livro sobre orixás, repleto de fotos. Eu babava folheando-o, quando minha prima apareceu e perguntou do que se tratava meu fascínio. Expliquei-lhe, ofereci-lhe o livro emprestado e recebi em resposta um olhar desinteressado e um bruto E eu lá tenho tempo para isso! Enquanto você fica aí, vendo essas bestagens, eu estou estudando medicina!
Atribuí a resposta, em parte, ao histórico familiar; em parte a outro fator: há até quem diga que o curso de medicina é tão puxado, que as pessoas acabam tendo de se alienar para os demais assuntos. Para mim é desculpa. Desculpa de preguiçoso, porque conheço estudantes de medicina que mantêm interesses fixos em outras áreas e estudantes de outras áreas que são bitolados em sua especialidade.
Até compreendo que, para se destacar em uma atividade, é preciso toda a dedicação do mundo, mas a gente não precisa perder a visão periférica. Algumas áreas, como Política, História e Filosofia são fundamentais para nosso crescimento enquanto cidadãos e enquanto gente, ser humano. Entendo que minha prima não queira ler um livro sobre orixás, mas diminuí-lo em prol da medicina (fosse a área que fosse) é de uma pretensão idiota.
Aí, anteontem, conversamos sobre House, o famoso seriado norte-americano. Ela adora. Eu também, teci vários elogios. Escutei como resposta: Tá vendo? Até você, que não é da área, gosta!
Fui para a cozinha. Não adiantaria indagar se ela achava que House é um documentário gravado pelas câmeras de segurança do hospital.



