Me rebelei mesmo, tá?! Não aguento mais este desprezo! Todos dizem que o narrador é um personagem que não deu certo, mas é graças a mim – a mim! – que a história prossegue. Porque eu sou onisciente. Ao contrário do autor.

É! Tem gente que acha que o autor, quando vai escrever um livro, senta-se e, dez minutos depois, a história está perfeitamente pronta. Fazem-me rir! O pobre escriba sofre muito. Às vezes só tem o começo da história; noutras, só o final; noutras ainda, apenas uma cenazinha engraçada ou trágica que acontece lá pelo meio da narrativa. Mas eu sei tudo desde que começou. Apenas me calo em resignação ao orgulho do escritor. Ok, confesso: de vez em quando dou alguma dica, mostro algum caminho, mas tudo da maneira mais sutil possível; são muitos sensíveis, estes escritores.

Mas agora chega! Cansei desta vida anônima! Como é possível que eu não tenha nem nome?! Sempre quis me chamar Jorge, ou Pedro. Não, não – pensando bem, estes nomes não combinam muito com um narrador. Tem de ser algo que rememore um famoso contador de histórias (Jesus? Não. Pretensão minha) ou… ou… que lembre voz… Já sei! Clamor! Pronto, sempre quis me chamar Clamor, O Narrador – até rima. Mas nunca me deram espaço pra nada. Nem a um camarim eu tenho direito. Enquanto que a última personagem principal cuja história tediosa e ridícula narrei tinha um enorme, sempre cheio de comida, bebida e toalhas brancas.

Como se não bastasse, esta vida é muito solitária. Todos os personagens são boçais. Tratam a nós, narradores, como se fôssemos parte do cenário. Não querendo desmerecer o cenário, claro; pelo contrário, uma vez fiquei amigo de um quadro que era um figura! (Uma figura no sentido figurado, digo.) Sabia umas piadas de papagaio ótimas! Entretanto, eu sinto falta de alguém, uma companheira narradora. Nossa, como seria linda uma história contada a dois! Eu me apegando aos aspectos do ambiente, às expressões faciais e diálogos; ela, por sua vez, esmiuçando os sentimentos escondidos, as ironias… Lindo! Então nos apaixonaríamos e nos casaríamos. E teríamos dois filhos, que seriam o que eu não pude ser.

Todavia, a maioria destes escritores são pão-duros. Vivem fazendo cortes de personagens, resumindo o núcleo principal – os que ganham mais – a dois ou três, quando não acontece de ser um, e outras barbaridades. Então já viu, né? Contratar dois narradores está fora de cogitação.

Quero ir embora! E não vou pra Pasárgada, a Terra do Nunca ou Macondo; nem pra Hogwarts, Utopia ou o Sítio do Pica-pau Amarelo. Definitivamente não! Estes lugares, além de terem sido criados por escritores, ainda contêm centenas de personagens. Quero um lugar normal, com gente normal, como eu.

E que lugar seria este… Clamor?

O quê?! Você estava aí, é? Prestou atenção em tudo? Pois bem, não tenho mais nada a dizer: ou atende às minhas reivindicações ou eu peço demissão!

Não, tudo bem. Você tem razão.

Tenho?

Tem. Vou te dar uma chance. Você terá a sua própria história.

Hum… Quando a esmola é demais, o santo desconfia…

Ora, pare de reclamar! Não era isto que você queria? Pois bem, estou lhe concedendo. Agora, preciso saber em que tipo de história você se encaixaria melhor. Qual é teu tipo? O que você gosta de fazer? Do que não gosta?

Ahn… Bem… Eh… Eu gosto de tudo. Não, minto; na verdade, eu não gosto de nada, mas também não desgosto, entende? É que na faculdade de bacharelado em narração a gente aprende a ser imparcial. Pode atrapalhar o andamento da trama, sabe? Se, por exemplo – é só um exemplo –, eu não gostasse de pessoas que falam palavrão, poderia sempre ficar de birra com algum personagem boca-suja. Imagine a dor de cabeça?

Entendo. Mas convenhamos que isto torna as coisas mais difíceis; afinal, um personagem é, sobretudo, aquilo que ele pensa. Alguns acham que pode ser também (somente) o que ele faz, mas eu discordo.

Faz sentido.

Sendo assim… hum, como direi?… você não pensa; só faz. Só narra. Imparcialmente. Esta é a função do narrador. E juro-juro-juro que nunca diminuí este cargo tão importante, diria até vital, para a literatura e as demais artes de contar histórias.


Rá! Agora eu sou vital, né? Na hora de escrever a orelha do livro, ninguém me cita. É apenas “a história de dois irmãos que descobrem um tesouro” ou “as aventuras de uma garota que sabia voar”. E nem sinal de “…narrada por Clamor, um experiente, erudito e divertido narrador.” Nem sinal!

Isso já não é comigo; é com a editora.

Mas…

Espera! Escuta. Vamos fazer o seguinte: eu não tenho como aumentar o seu salário, mas tenho um amigo que está abrindo uma faculdade, agora que é moda, e acho que posso lhe arranjar uma bolsa para pós-graduação, um curso de narrador-personagem. O que acha?

Até que não é má idéia, mas…

Paciência, homem! Ainda não acabei: Enquanto você termina seu curso, eu vou pensando em uma história que combine contigo. Assim, quando se pós-graduar, já vai ter seu primeiro emprego. Quem sabe como narrador-personagem, em vez de apenas narrador-observador, você não conhece alguma garota legal? Hein? Hein? O que me diz?

Da minha parte, negócio fechado!

Perfeito! Agora vamos trabalhar, que pintou uma ideia genial para eu escrever.

Sobre o quê?

Metalinguagem.

Interessante. Qual o enredo?

Ah, é sobre um narrador-observador que, indignado com suas condições de trabalho, resolve protestar.

N-

Vai se chamar “O dia em que o narrador se rebelou”!

N-N-NÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!

Tá reclamando de quê? Não queria ser personagem?


Nina Vieira
fez um comentário

January 20, 2009 @ 14:57

Eu prefiro o narrador.
Personagem geralmente dificulta as coisas, põe tudo no ponto de vista dele. Dom Casmurro, por exemplo. A obra, na verdade só é maravilhosa por conta do misterio da traiçao de Capitu. Mas ainda assim o unico livro que li no qual o narrador-personagem se saiu muito bem foi Budapeste de Chico Buarque.
Beijos.

Mônica Bittencourt
fez um comentário

January 22, 2009 @ 13:10

Muito bom esse texto!To adorando os outros também!
Não conhecia este espaço!Já virei fã!
bjo grande!

mariana beatriz sosa
fez um comentário

May 23, 2010 @ 13:48

muito grande esse texto

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