Gabriel García Márquez conta um fato muito bonito a respeito do seu início na literatura: que foi A Metamorfose, de Kafka [1883-1924], que o incentivou a escrever; a partir desta leitura, ele desejou contar histórias tão instigantes quanto a que se inicia com “Certa manhã, ao acordar de sonhos intranqïlos, Gregor Samsa encontrou-se, na sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso.” E, convenhamos, ele conseguiu seu intento. Para ficarmos apenas com um exemplo, a primeira frase de Crônica de uma Morte Anunciada — “El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 para esperar el buque en el que llegaba el Obispo” — é tão deliciosa quanto a de A Metamorfose.
Eu não tenho algo tão legal assim para contar a respeito do amor e fascínio que tenho para com a literatura de Kafka. Gosto muito e ponto. Gosto a ponto de a pessoa Kafka também exercer sobre mim grande curiosidade, uma relação idêntica a que os adolescentes estabelecem para com seus ídolos do rock. Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi a semana que passei em Praga, capital da República Checa, onde ele nasceu e viveu. Conheci a casa em que morava, a sinagoga que frequentava, o edifício onde funcionava sua escola, o café no qual se encontrava com seus amigos. Aliás, só para constar como nota, não é muito difícil relacionar-se com Kafka estando em Praga. Seu nome está estampado em camisetas, canecas, chaveiros, canetas, pôsteres, etc., etc. — eis a prova de que o pop não poupa ninguém. Estou seguro de que, se Kafka pudesse ressurgir nas ruas de sua cidade-natal hoje em dia, antes do fim do dia ele já teria cometido suicídio.
Kafka sempre carregou consigo o sentimento de inadaptação. A tudo: do jogo hipócrita e absurdo da socialização, a matéria-prima de sua obra, até mesmo ao amor (são notórios seus fugidios romances). E é sobre os relacionamentos de Kafka que quero falar aqui. Tenho uma teoria que, apesar da falta de provas, tem muita coerência: Kafka é o inventor daquela famosa frase usada para romper relacionamentos — “o problema não é com você, é comigo”.
Até consigo imaginar que, em algum trecho dos seus diários, havia uma nota assim:
“Estou às vésperas de desistir do meu casamento com Felice. Escrevi-lhe uma carta ontem. Sei o quanto vou magoá-lo, mas, Deus, é melhor fazê-lo agora e poupá-la de uma eterna convivência comigo. Se bem conheço Felice e as mulheres, se nos casarmos, ainda que ela sinta, logo nos primeiros meses, o erro que cometeu, não desistirá da idéia que alimenta a sua fantasia a respeito do matrimônio como uma instituição feliz. Como ser feliz ao lado do pior homem que jamais existiu? Sou desprezível enquanto ser humano. E foi isso que tentei explicar-lhe na carta que lhe escrevi, com todo o tato: o problema não está nela, está em mim.”

Provavelmente, dias depois, surgiu a seguinte nota: “Quando contei a Max que havia rompido com Felice, ele não pareceu surpreso. Mostrou-se curioso em escutar os meus porquês, mas algo em meu discurso o fez rir e sair do seu papel de amigo confessor. Dando-me um afetuoso tapinha no ombro, Max disse que eu havia lhe dado uma desculpa perfeita para terminar um relacionamento com uma certa senhorita que já estava lhe causando irritação. Ele não me deixou perguntar qual desculpa teria sido essa até o início da noite, quando retornou ao Arco e, tornando a parabenizar-me, anunciou a mim e aos demais amigos reunidos ali após o trabalho, como de costume, que era novamente um homem solteiro. ‘Afinal, o que você disse a ela, Max?’, perguntei-lhe. ‘Ora, Franz, meu amigo, o mesmo que você disse a Felice: que o problema não era com ela, e sim comigo. No que ela se condoeu de pena e me liberou de qualquer obrigação a seu respeito. Disse-me que tomasse o meu tempo para resolver minhas angústias, pois, de sua parte, ela não iria prejudicar o homem que tanto amava, com seus caprichos de mulher a aumentar minha aflição existencial. E que, quando desejasse, teria sempre os seus macios braços abertos para confortar a minha dor.’ Dito isso, secou os lábios, mas sem perder o ricto de satisfação.”
E foi assim que começou a espalhar-se o maior legado que Kafka deixou para nós, mesmo que suas palavras tenham sido completamente desvirtuadas, a confissão sincera tenha se tornado cinismo velado.
Há quem possa clamar pela ilegitimidade de minha teoria, alegando não haver nada parecido nos diários de Kafka que foram publicados. Ao ingênuo que pensa assim, eu pergunto: tendo sido Max Brod quem, desobedecendo ao último desejo de Kafka, tomou a iniciativa de publicar seus escritos, você acha mesmo que ele deixaria passar denúncia tão grave a respeito de si? Mais importante: Max iria cometer a burrice de popularizar uma desculpa tão eficiente quanto essa, para que ela perdesse o seu valor?
Talvez, na época, ele não imaginasse que esse lance do “problema não é contigo, é comigo” não sairia da rodinha dos Arconautas, como eles chamavam a si próprios, em homenagem ao seu próprio Giga, o Café Arco. Mas sabe como é, né? Impossível frear a globalização e o descaramento masculino.
P.S.: A foto que ilustra o post é de uma estátua de Kafka que fica no bairro judeu de Praga.
q pena q essa fórmula secreta foi revelada.
Eu insisto que vc ainda vai traduzir pensadores para meus filhos lerem.
Kafka é foda.
Ah! Adorei seu artigo na Muito. Pra variar. heheheh
Só perdeu pra entrevista da primeira dama, mas aí tb já era querer demais, né? Ela sempre rouba a cena. hehehehe
=*
Kafka sempre pareceu complexo desde que escuto falar nele. Quando eu era menor, tinha na cabça de que seria uma leitura para minha velhice. Mas, estando em Praga, não se consegue não querer lê-lo.
Quando fui conhecer esse monumento, meu guia barato não dizia nada. Para sorte do meu espanhol e do meu péssimo inglês, encostou no monumento um guia e três pessoas. Eles falavam espanhol e o guia, explicando a escultura, disse: este é Kafka, o homem que não cabia em si. Achei isso lindo e bati uma foto!
[...] pra quê?, perda de tempo!) já foi aceita na nossa cultura urbana. Isto me remete a um texto de Kafka, que diz: Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim o conteúdo dos vasos sacrificiais; isso [...]
amei! hqhqhqh. você é bem arguto pra fazer essas paródias de grandes figuras históricas, vide Jesus naquele continho que saiu na Lupa.