Moro num 21º andar. Considerando a média de altura de 3 metros por andar, e não abolindo a portaria, estou 66 metros acima do solo. Uma vez dentro do elevador, levo um minuto e meio no deslocamento minha casa – rua — isto caso ele não faça nenhum pit stop.
Na minha rotina, saio de casa às 6h30 da manhã e só retorno à noite, ou seja, gasto diariamente ao menos três minutos no elevador. Numa semana, isto são 21 minutos — 1 hora e 24 minutos por mês, 13 horas e 36 minutos em um ano!
Há apenas dois elevadores no meu prédio. Imaginando que eu utilize ambos o mesmo número de vezes, isto significa que eu gasto, em um ano, seis horas e quarento e oito minutos olhando-me no espelho do elevador social, o que me atenta para o fato de eu ser mais vaidoso do que pensava. Já no elevador de serviço, o único passatempo que eu tenho é tirar meleca do nariz. Desculpe-me a confissão nojenta, mas, veja bem, o fato de eu não tirar meleca do nariz na presença dos vizinhos mas de continuar me olhando, de esguelha, no espelho na frente deles faz de mim alguém mais vaidoso que nojento. O próprio fato de me preocupar em sair à rua sempre com um nariz limpinho corrobora o traço vaidoso, não é verdade?
É tão verdade que, frequentemente, sou paquerado no meu elevador. E aqui preciso fazer um parêntese:
Quem não é baiano, chega a Salvador e se sente a pessoa mais desejada do mundo, quase tanto quanto se estivesse passeando pelas vitrines do Distrito da Luz Vermelha em Amsterdã. É que o baiano olha muito pras pessoas; somos um povo muito analítico, e se Freud não tivesse inventado a Psicanálise lá na Áustria, seguramente algum baiano o teria feito tempos depois, porque essa coisa de analisar, interrogar, escutar sobre a vida dos outros é hábito aqui. Terapia de grupo? Pegue um ônibus, e a sessão iniciar-se-á ainda no ponto, com alguém te perguntando a hora ou simplesmente comentando despretensiosamente “Calor, né?”. Mas calhou de a gente ter praia, e carnaval, e Skol gelada com acarajé ou beiju de creme de aipim e carne seca lá na Dinha, e a chuva só interrompe nossa festa poucas vezes ao ano. Com tudo isso, não seria possível ser pioneiro nas coisas que demandam confinamento, como a Academia, né? (Obviamente, não tô falando da de ginástica.)
Tudo isso para dizer que, por toda essa bagagem inerente à minha baianidade, não sou desses que acham que está sendo paquerado o tempo inteiro. Eu sei diferenciar o aproximamento clínico do aproximamento amoroso, e este último é que compõe a natureza das investidas que recebo no elevador.
Tenho histórias memoráveis destes meus flertes, conto aqui duas, rapidinho.
A primeira foi o policial gordinho que entrou junto comigo no elevador social depois que haviam-no limpado. O ambiente exalava eucalitpo. Depois de um certo tempo, ele pôs a gola da blusa sobre o nariz e, sorrindo, comentou “Ai, que cheiro forte!”, e riu-se todo. “Se eu desmaiar, você me seguuuuura?”, e riu-se mais. Por sorte eu estava com sacolas de supermercado nas mãos.
A segunda foi a da menininha de uns dez, onze anos, a quem ajudei quando ela tentava em vão alcançar o botão para o seu andar no painel. “Obrigada!” “De nada, querida”, respondi-lhe afagando o cabelo. “Você viu o cachorro que mordeu a mulher agorinha na rua?” “Não, onde?” “Aqui mesmo, em frente.” “Nossa, não vi mesmo! Mas que perigo! Tá tudo bem com ela?” “Não sei, ela foi pra o hospital. Ainda bem que você não viu.” Pensei então em fazer o tipo tio politicamente incorreto e confessei-lhe “Poxa, que ruim pra ela, mas eu nunca vi um cachorro morder alguém, queria saber como é.” E ela: “É, mas se você estivesse o cachorro podia ter mordido você, e você não merece!”
Diante de tamanha cantada, mal tive sagacidade para tergiversar, perguntar se ela estava dizendo aquilo porque a mulher era má e, portanto, merecia ser mordida, enquanto eu era um bom vizinho, que lhe apertava o botão no elevador. Eu corei e ela sorriu, a danadinha. Na saída, ainda comentou “Amanhã é meu aniversário”, e eu fiquei sem saber se aquilo era uma espécie de “Quer jantar comigo?” de uma menina de onze anos.
Há ainda o caso da velhinha tarada por universitários, a feinha da academia e muitos outros. Contarei-os em outra oportunidade. Neste ínterim, continuarei olhando-me no espelho e tirando meleca do nariz sempre que possível durante minhas pequenas viagens diárias de elevador. Vai que eu encontro o meu amor no meio do trajeto?