Manual do Paulistano Moderno e DescoladoSabe aquele amigo que só vê filme “de arte”? Ou aquele que fecha a cara quando gritavam “toca Anna Julia!” em show do Los Hermanos? Ou ainda aquela amiga hetero que deu pra beijar outras garotas em festas? Pois se está procurando um presente para algum deles, o Manual do Paulistano Moderno e Descolado [Martins Fontes, 118 p., R$ 20,80], de Gustavo Piqueira, é ideal.

Não se engane com o título: de manual e de bairrista, o livro não tem nada. Trata-se de um conjunto de crônicas que, com ironia quase nunca deslizante e bastante fluidez, criticam a pose de quem ambiciona os rótulos de cool-indie-hype. O narrador [com alto teor biográfico] teve a idéia de escrevê-lo quando leu para uma namorada a seguinte nota: “Se você nunca ouviu falar no Cansei de Ser Sexy, deve ter morado os dois últimos anos em Marte”; no que ela retrucou: “Em quem?”

Este é o primeiro de 14 relatos do seu dia-a-dia de jovem adulto de classe média — notória em parecer mais do que efetivamente é. A tese sustentada por Piqueira é a de que quem quer aparecer [e não tem perfil de Big Brother] só tem a exibir hoje cultura e dinheiro.

Mas o repertório cultural por si só não garante mais admiração, e se valer tão-somente do poder aquisitivo é demasiado cafona. “A correta dosagem é fundamental”, escreve.

Ainda a despeito do título, temos cá um livro tradicional, propondo uma discussão. Nada daquelas obras modernas e descoladas, que escondem o discurso [se houver] sob camadas de símbolos e jogam a responsabilidade para o leitor “interpretar como quiser/puder”


[publicado no Caderno Dez! em junho de 2008]

Você está numa exposição, ou numa festa, no shopping, em qualquer lugar, e cruza com aquele amigo (ou amiga) que não vê há dias ou há anos. Cumprimentos, um dedo de prosa, cada um vai pro seu lado. Você continua circulando e, daqui a pouco, está à frente dele (ou dela) novamente. Como agir? As opções são muitas: podem trocar sorrisos, trocar olhares significativos, daqueles com sobrancelha erguida, novos apertos de mão, um tapinha no ombro (um beliscãozinho no pneuzinho abdominal, no caso dela), ou podem simplesmente fingir que não se viram.

Eu nunca sei o que fazer. O simpático leitor, a bonita leitora devem estar agora pensando que, ora, tudo depende do grau de intimidade que se tem com a outra pessoa, mesmo porque — hão de argumentar alguns —, se alguém e tão íntimo a ponto de você dar um beliscãozinho no abdômen dele, deve ser íntimo também para você convidar a continuar a seu lado durante a exposição, a festa ou o passeio pelo shopping. Refuto este argumento dizendo que sou baiano, e caso ele não signifique nada para você, trago à luz a seguinte situação: você está com sua namorada e encontra sua ex com o novo namorado, e aí?, tem coragem de manter o duque?

Como eu dizia, nunca sei direito como agir. E cada reencontro desse tipo me enche de angústia e me faz ter a certeza de que, se eu pudesse escolher um poder de X-Man, seria o de ficar invisível (e olha que essa é uma das minhas maiores dúvidas existenciais). Lá está a pessoa outrora cumprimentada. Eu estou indo ao bar, ela está voltando. Olho imediatamente para ver se existe a possibilidade de desviar a rota. Porra!, não há! Ok, prossigamos, tem muita gente indo e vindo, talvez eu possa despistar ficando atrás deste grandalhão aqui. Mas que merda, grandalhão, volte, eu pago a sua cerv — Ahn… er… o-oi de novo…

Felizmente, existem aqueles que sabem dominar invejavelmente bem situações assim. Eu mesmo tenho uma conhecida que é mestra na arte de passar e fingir que não viu, o que, se me alivia por um lado, confesso que me deixa meio ressentido também, com a sensação de ter sido esnobado. É por isso que eu evito ao máximo usar essa estratégia, e acabo dando uma de chato. Uma vez eu estava no clube e, embarreirando a entradinha para a piscina, um amigo tentava ganhar uma garota. Aparentemente não estava se saindo muito bem, de longe eu via as longas pausas, a cara de enfado dela e mesmo uma dissipada fumacinha pairando sobre a cabeça dele, típica de cérebro procurando assunto pertinente para seduzi-la. Eu já o tinha cumprimentado um milhão de vezes naquela tarde, sempre esfuziantemente. Portanto, não hesitei em concluir que a melhor solução seria apertar sua mão mais uma vez, o que inclusive o aliviaria da tensão da iminência de um insucesso e lhe daria mais tempo para pensar em algo.

Mal dei-lhes as costas, ouvi:

— Esse cara é maluco, se ele me vir vinte vezes, me aperta a mão vinte vezes! — No que ela caiu na risada.

Outra vez humilhado por não saber dar oi de novo, pensei. Que bom que, pelo menos, eu ajudei meu amigo a cativar uma garota.

Sonhei que fazia um post colocando o vídeo abaixo; como não sou de desobedecer meu inconsciente…

Refusal of years tem sido o disco que mais ouço neste começo de ano. Nunca prestara muita atenção ao trabalho de Morrissey, mesmo na sua época de The Smiths. Seu nome me era familiar apenas pelas inúmeras referências que o Renato Russo fazia a ele. Ouvi I’m throwing my arms around Paris por um link disponibilizado via Twitter e achei-a linda, tocante. O disco inteiro é muito bom, é cheio, envolvente; apesar de não ter nada soando a novidade, nada experimental, tudo é tão bem carrilado que o álbum, mesmo sendo deste ano, tem um ar de clássico do rock. Vale ainda destacar as letras de Morrissey, com uma profundidade rara de se encontrar hoje em dia nas canções em inglês. I’m throwing… entra não somente pelo sonho, mas por mostrar todas as caraterísticas mencionadas aqui. Aumenta o som e canta junto.

Ontem, na TV, uma loja começava um anúncio de celulares da seguinte forma:

Seu celular dançou na Avenida? Aproveite as ofertas da…

Por mais sagaz que tenha sido a piadinha com o carnaval, ver aquilo me fez pensar que, pronto!, se já estamos vendo piadas sobre roubos no horário nobre da TV, então já nos acostumamos definitivamente à coisa, a possibilidade de ser roubado ou assaltado (e ver-se obrigado a comprar novos objetos para repôr o que nos tomaram, afinal, dar queixa pra quê?, perda de tempo!) já foi aceita na nossa cultura urbana. Isto me remete a um texto de Kafka, que diz:

Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim o conteúdo dos vasos sacrificiais; isso se repete sempre; finalmente, torna-se previsível e é incorporado ao ritual.

Já fui assaltado quatro vezes. Um mendigo com um caco de vidro. Um grupo de meninos de rua. Três caras com facas no meu pescoço. Um cara com uma arma na minha cabeça. A perda material não é nada. O sentimento de fraqueza, de incapacidade e de fragilidade é que destrói a gente; destrói mesmo, passei dois ou três anos mal saindo de casa, por medo, depois das duas últimas vezes. Por isto não achei graça no comercial e me recuso a fazer o papel clichê da velhinha que sempre aparece após algum assalto, somente pra comentar que esse mundo anda mesmo violento e não há nada que a gente possa fazer, não é, meu filho?

Se seu celular dançou na Avenida, antes de correr para a loja que está com uma oferta imperdível de celulares, preste queixa, reclame.

No elevador

February 16, 2009

Moro num 21º andar. Considerando a média de altura de 3 metros por andar, e não abolindo a portaria, estou 66 metros acima do solo. Uma vez dentro do elevador, levo um minuto e meio no deslocamento minha casa – rua — isto caso ele não faça nenhum pit stop.

Na minha rotina, saio de casa às 6h30 da manhã e só retorno à noite, ou seja, gasto diariamente ao menos três minutos no elevador. Numa semana, isto são 21 minutos — 1 hora e 24 minutos por mês, 13 horas e 36 minutos em um ano!

Há apenas dois elevadores no meu prédio. Imaginando que eu utilize ambos o mesmo número de vezes, isto significa que eu gasto, em um ano, seis horas e quarento e oito minutos olhando-me no espelho do elevador social, o que me atenta para o fato de eu ser mais vaidoso do que pensava. Já no elevador de serviço, o único passatempo que eu tenho é tirar meleca do nariz. Desculpe-me a confissão nojenta, mas, veja bem, o fato de eu não tirar meleca do nariz na presença dos vizinhos mas de continuar me olhando, de esguelha, no espelho na frente deles faz de mim alguém mais vaidoso que nojento. O próprio fato de me preocupar em sair à rua sempre com um nariz limpinho corrobora o traço vaidoso, não é verdade?

É tão verdade que, frequentemente, sou paquerado no meu elevador. E aqui preciso fazer um parêntese:

Quem não é baiano, chega a Salvador e se sente a pessoa mais desejada do mundo, quase tanto quanto se estivesse passeando pelas vitrines do Distrito da Luz Vermelha em Amsterdã. É que o baiano olha muito pras pessoas; somos um povo muito analítico, e se Freud não tivesse inventado a Psicanálise lá na Áustria, seguramente algum baiano o teria feito tempos depois, porque essa coisa de analisar, interrogar, escutar sobre a vida dos outros é hábito aqui. Terapia de grupo? Pegue um ônibus, e a sessão iniciar-se-á ainda no ponto, com alguém te perguntando a hora ou simplesmente comentando despretensiosamente “Calor, né?”. Mas calhou de a gente ter praia, e carnaval, e Skol gelada com acarajé ou beiju de creme de aipim e carne seca lá na Dinha, e a chuva só interrompe nossa festa poucas vezes ao ano. Com tudo isso, não seria possível ser pioneiro nas coisas que demandam confinamento, como a Academia, né? (Obviamente, não tô falando da de ginástica.)

Tudo isso para dizer que, por toda essa bagagem inerente à minha baianidade, não sou desses que acham que está sendo paquerado o tempo inteiro. Eu sei diferenciar o aproximamento clínico do aproximamento amoroso, e este último é que compõe a natureza das investidas que recebo no elevador.

Tenho histórias memoráveis destes meus flertes, conto aqui duas, rapidinho.

A primeira foi o policial gordinho que entrou junto comigo no elevador social depois que haviam-no limpado. O ambiente exalava eucalitpo. Depois de um certo tempo, ele pôs a gola da blusa sobre o nariz e, sorrindo, comentou “Ai, que cheiro forte!”, e riu-se todo. “Se eu desmaiar, você me seguuuuura?”, e riu-se mais. Por sorte eu estava com sacolas de supermercado nas mãos.

A segunda foi a da menininha de uns dez, onze anos, a quem ajudei quando ela tentava em vão alcançar o botão para o seu andar no painel. “Obrigada!” “De nada, querida”, respondi-lhe afagando o cabelo. “Você viu o cachorro que mordeu a mulher agorinha na rua?” “Não, onde?” “Aqui mesmo, em frente.” “Nossa, não vi mesmo! Mas que perigo! Tá tudo bem com ela?” “Não sei, ela foi pra o hospital. Ainda bem que você não viu.” Pensei então em fazer o tipo tio politicamente incorreto e confessei-lhe “Poxa, que ruim pra ela, mas eu nunca vi um cachorro morder alguém, queria saber como é.” E ela: “É, mas se você estivesse o cachorro podia ter mordido você, e você não merece!”

Diante de tamanha cantada, mal tive sagacidade para tergiversar, perguntar se ela estava dizendo aquilo porque a mulher era má e, portanto, merecia ser mordida, enquanto eu era um bom vizinho, que lhe apertava o botão no elevador. Eu corei e ela sorriu, a danadinha. Na saída, ainda comentou “Amanhã é meu aniversário”, e eu fiquei sem saber se aquilo era uma espécie de “Quer jantar comigo?” de uma menina de onze anos.

Há ainda o caso da velhinha tarada por universitários, a feinha da academia e muitos outros. Contarei-os em outra oportunidade. Neste ínterim, continuarei olhando-me no espelho e tirando meleca do nariz sempre que possível durante minhas pequenas viagens diárias de elevador. Vai que eu encontro o meu amor no meio do trajeto?

Lembra daquela história de que um grupo de amigos que se conheceu no colégio ou na faculdade resolveu se juntar para formar uma banda? Pois é… Esqueça a banda. Aqui um grupo de amigos resolveu se juntar com um único propósito: fazer barulho.

MUITO BARULHO POR NADA, além de ser uma honrosa menção ao mestre Shakespeare, é também uma forma de (não) deixar clara a despretensão que permeia esse projeto. Aqui vale fazer barulho com tudo: música, prosa, poesia, literatura, cinema, teatro, conversas, risos, espirros, roncos e o que mais a improvisação nos sugerir.

Nada mais a declarar.

Muito Barulho a fazer.

“O resto é silêncio”, como diria o camarada Hamlet…

www.coletivomuitobarulhopornada.blogspot.com

Un ligue

February 8, 2009

Dos tempos vividos na Galícia:

Lá estava ela, sentada no banco justo ao lado do quadro de aulas que eu checava três vezes ao dia para saber a que sala me dirigir. Roía o canto da unha do indicador direito e olhava para o nada, as pernas paradas num lindo ângulo torto, as pontas das sapatilhas, enfeitadas com desenhos e imitações de pequenas pérolas, se beijando; um pedacinho do pé branquelo se insinuando. E, ah!, a franjinha ondulada, que quase lhe ocultava a metade do olho direito e saltava para frente toda vez que cuspia um pedacinho de unha ou de pele.

Estava sozinha, e éramos os únicos presentes ali no foyeur. Sentei-me ao seu lado, como quem não quer nada, assim que o cheiro de baunilha que ela exalava — feromônios cheiram a baunilha? — pulou do seu cocuruto direto para minhas narinas, meio metro acima.

– Não tem muito aula de tarde, não é?

– Hum? — ela se assustou com meu comentário repentino. — Ahn… É — dise, tirando o dedo da boca.

– Você estuda aqui ou é intercambista?

– Não, não sou intercambista.

Sem saber o que fazer com as mãos, começou a apalpar a bolsa que mantinha no colo, junto com cadernos e folhas de papel.

– Legal. Jornalismo ou audiovisual?

– Jornalismo — disse, puxando um jornal gratuito do meio das folahs e o erguendo e

– Legal, eu também.

…e abrindo-o e se escondendo atrás dele.

– V-

– Bem, até logo — disse eu, começando a me levantar.

– Tchau — respondeu, sem sair detrás da edição que estampava a foto de algum atleta posando com sua taça.

Fui-me embora. E lá ficou ela, sozinha, as pernas paradas num lindo ângulo torto, as pontas das sapatilhas se beijando.

Minha avó, de 79 anos, é a única pessoa da minha família que gosta de ler como eu. Todavia, apesar de ela ter me criado dos zero aos 12 anos, sua influência na minha formação como leitor não se deu de modo tão direto. Morávamos numa cidade pequena, sem biblioteca e, se bem que houvesse uma estante com pouco mais de 50 livros em casa, desses antigos, de capa dura e boa encadernação, nada ali era infantil, exceto por uma coleção com os clássicos — Pinóquio, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho & cia — dada por minha mãe. Mas eu não dava muita bola, a princípio, para estes livros. O que eu gostava mesmo era das histórias que ela me contava antes de dormir: lendas folclóricas, causos de sua juventude, quando morava na roça, anedotas e mesmo alguma invenção própria.

Com o tempo, porém, seu repertório minguou, ao contrário da minha sede por histórias novas. Por sorte, minha mãe me fez uma assinatura da Turma da Mônica nessa época, o que me sustentou pelos anos seguintes. Em seguida, descobri por uma amiga de meu pai a coleção Vagalume, da editora Ática. Eu devorava tudo, eu queria histórias. Os dois únicos livros de não-ficção com os quais tive relação na minha infância foram um dicionário de inglês Michaelis e a parte de uma enciclopédia Universal, do começo do século, que contava a história das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, com lindíssimas ilustrações. Por conta disto, me considero mais ficcionista que escritor: o que eu gosto é de inventar histórias, só calhou de as ter descoberto primeiro nos livros, já que a TV era constantemente controlada por minha vó porque, quando o aparelho ficava quente, ela achava que era hora de desligar, para não queimar.

O fato, aliás, de minha avó preferir o meu primeiro livro me deixa com uma pulga atrás da orelha: O Mistério da Casa da Colina foi a única coisa que sobrou de uma fase sem preocupação literária. Como escreveu Joca Reiners Terron em um conto de Sonho Interrompido Por Guilhotina, teria eu deixado de ser escritor quando me “profissionalizei” e perdi, assim, a “inocência necessária à alquímica transformação do desejo em ficção”?

Ah, mas cá estou eu de novo fazendo rodeios antes de entrar no assunto principal (não é à toa que este blogue se chama Abre Parêntese). Vamos a ele: o gosto literário de minha avó.

Minha avó está aqui em Salvador, de visita, e como sempre tenho que separar uma razoável quantidade de livros para ela ler agora e também para ela levar para o interior. Ela está lendo neste momento Precisamos falar sobre o Kevin, de uma norte-americana chamada Lionel Shriver, que conta a história de um fictício columbine day. Mas ela não gosta de literatura inglesa, porque não consegue falar os nomes das pessoas corretamente e muito menos compreende as referências dadas. A única exceção desde então foi Harry Potter. Eu morava na Espanha quando saiu o livro 7, e ela tomou a iniciativa de comprá-lo e deixá-lo na minha estante, para eu ler quando voltasse. Ela descobriu que agora pode comprar livros por um catálogo de cosméticos, lá no interior. Que só tem o que tá na lista de best-sellers, né? O bróder de O Caçador de Pipas (que ela insiste para que eu leia, um dia talvez), Dan Brown, Zibia Gasparetto, etc., etc. Ela adora a todos. Hoje de manhã, alegou que Zibia escreve melhor que Machado! Corri para a cozinha e tomei um copo d’água com açúcar. Ao voltar ao quarto,  ficamos ambos olhando para minha estante, rememorando nossas leituras. Ela se lembrou de que gosta muitíssimo de O Mundo de Sofia, e deseja relê-lo pela terceira vez; que Oscar Wilde não fede nem cheira (o que me irritou); que Günter Grass é tão chato quanto Cervantes, ela prefere Flaubert e Tólstoi. Brigamos feio na hora de passar a vista pelos livros de Paulo Coelho, tivemos uma pequena reconciliação ao lembrar das histórias de Dos Passos em Pilatos, de Carlos Heitor Cony e definitivamente nos abraçamos e declaramos amor eterno e prova de parentesco indelével quando assumimos que não há quem escreva melhor que João Ubaldo Ribeiro. Neste momento, ela decidiu parar com o “difícil” Precisamos falar sobre o Kevin e reler o “engraçado” Arte & Ciência de Roubar Galinha, do Ubaldo. Eu fui inventar de dizer que, apesar da ótima releitura, ela andava era com preguiça de forçar a mente para coisas novas, no que ela, apontando para uma coleção completa de Jorge Amado da década de 70, que era sua mas agora é minha, disse:

– Você já leu isso tudo aí?

– Não, vó. Só uns dois ou três.

– Pois você pode até saber ler esses nomes complicados desse livro aí do Kevin, mas enquanto não ler tudo de Jorge Amado, não tem moral para discutir comigo!

E cá estou eu, às 4 da manhã, embalando minha insônia com Seara Vermelha.

No último post, falei sobre a versatilidade da expressão baiana “é nenhuma”. É preciso fazer uma retificação contudo:

“É nenhuma” é — até onde eu saiba — uma expressão exclusivamente soteropolitana. Há quem possa, de repente, tê-la levado para Vitória da Conquista ou Ilhéus, mas será mais uma questão de intercâmbio léxico interestadual que a prova de unificação cultural.

Por tratar-se da capital, é esperado que os hábitos, o modo de falar, a música de Salvador e região metropolitana acabem sendo tomados como manifestações baianas. Só que grande parte da Bahia tem um perfil muito mais parecido com o cenário de Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos, que com o sangue, suor e cerveja dos personagens de Jorge Amado. Eu mesmo vivi por doze anos em uma minúscula e pobre cidade da região sudoeste, a quase 800km de Salvador, chamada Riacho de Santana. Nascida na época de ouro do algodão, sofrendo há anos a crise do desmatamento que a produção (nem sempre legal) de carvão vegetal proporcionou, hoje Riacho de Santana vai sobrevivendo com o que der, sem muitas expectativas ou ilusões.

Sem acarajé, sem mar e sem capoeira, o riachense cria a sua cultura de uma mescla do que absorve de Salvador; de São Paulo, por conta do grande número de pessoas que migram para lá (além da antena parabólica que tem em toda casa); um pouquinho de coisa do norte de Minas; e também de outras cidades da região, como Macaúbas, terra de Pepe Moreno, notória pela artisticidade do seu povo, ou Bom Jesus da Lapa, com a qual mantemos a política da boa vizinhança baseada em uma saudável troca de impropérios — “Seus comedores de peixe com abroba!”, gritamos; “Pés-vermelhos [de terra]!”, retrucam.

Assim que, com toda essa influência, o riachês, nosso delicioso dialeto, é dotado de expressões bem particulares, que podem confundir o forasteiro. Mas não se preocupe, simpático leitor, bonita leitora. Caso esteja pensando em dar uma passadinha por lá, tomar uma cerveja no bar de Dim e conhecer a legendária figura de Tetê Poca Oi, o brilhante Gato Rosa (que merece um post separado aqui), fiz um pequeno dicionário que lhe será muito útil, ei-lo:

- Adoido - Interjeição. Indica surpresa, espanto, admiração. Quanto mais se estende o primeiro “o” (que tem som de “u”), mais surpreso/espantado/admirado se está. Ex.: Cê comeu 15 goiabas de vez? Adoooooooooooooooooooido!

- Bandaia - Substantivo ou adjetivo, usado exclusivamente para as mulheres. É um ponto não-fixo na linha que opõe uma puta e uma festeira.

- Botar de sal e de doce - O equivalente em riachês para o baianês “Botar pra foder”, ou pro malhaçãonês “Ah, moleque!, mandou bem! (Isso merece uma rodada de suco pra galeara! [sic])”. O jeito correto de pronunciar é não transformando o “l” de “sal” em “u”, falar “doce” como 2 em espanhol e, com exceção do “botar”, transformar a expressão numa palavra só. Ex.: – Fiz três gols no baba de hoje! – Adoooido!, botou de salededossss.

- Que nem brita - Locução adverbial. Indica quantidade grande, às vezes tão grande que exige o uso de “adoido”. Ex.: Adoooido!, comi goiaba que nem brita! Variação: Que nem duas de dez.

- Só tá o lóro - Expressão usada para indicar mal-acabamento, algo que não está em seu melhor estado. Há quem traduza para “A coisa tá preta”, mas acho que isso poda tanto sua abrangência quanto seu feeling. Ex.: (1) Rapaz, o cara teve uma queda feia de moto. Só tá o lóro! (2) Rapaz, eu bebi demais ontem: só tô o lóro! Variações: Só tá o pau da rabiola; Só tá o cu e a catinga (Só tá o couro e a catinga para os mais púdicos).

E aproveite a estadia!

É nenhuma

February 1, 2009

Quando estava de intercâmbio em Santiago de Compostela, na Espanha, certa festa brinquei de telefone sem fio (telefone árabe, para eles) com pessoas de várias nacionalidades. Porém, como os meus amiguinhos não falavam espanhol tão bem,  resolvemos experimentar frases na língua de cada um: teve italiano, francês, galego, português (“tenho saudade de você”), flamenco e até mesmo afegão (! Algo que queria dizer “adoro você” e cujo som era algo parecido a “la dolce vita”). Acabadas as línguas, passamos aos dialetos, e eu inventei de soltar, em bom baianês, “é nenhuma, meu rei”. Foi a sensação da noite. Me pediram para escrevê-lo e ficaram repetindo a expressão todo o tempo.

Para os não-baianos:

A regra que rege o baianês é versatilidade. Nossas expressões mais corriqueiras se adequam aos mais diversos contextos com bastante eficácia. O caso mais conhecido é o do “porra”, a palavra mais funcional do nosso idioma. Pode ser interjeição (“Porra! O que você fez?”), adjetivo (“O que você fez, seu porra?”), substantivo (“Pega essa porra aí pra mim”), sem contar as mais variadas locuções adverbiais – de lugar (“Esse bar fica na casa da porra!”), de quantidade (“Comprei chocolate pra porra!”), de distância (“É longe pra porra!), etc; etc. E quem disser que baiano vive com a boca cheia de porra vai ser assaltado em cada ponto turístico que visitar quando for a Salvador.

Todavia falava eu do “é nenhuma (, meu rei)” — hoje em dia estão tentando substituí-la pela péssima “tá de boa (, negão)”, mas quanto a isso sou conservador. Usamo-la para se dizer que está tudo bem, tranquilo, em paz. Dois baianos, quando se encontram, podem iniciar a conversação assim:

– E aí, é nenhuma?
– É nenhuma!

Mas também é útil em outras situações, como quando alguém esbarra em você e te pede desculpas. Ou quando você quer saber a opinião de outro para a nova posição de um objeto (“Esse porta-retrato assim tá é nenhuma? É nenhuma”); ou quando você está, sei lá, comprando algo por quilo, e o vendedor quer saber se a quantidade que pôs estava boa; ou…

Passado um pouco o frisson, eu ainda quis impressionar com o dialeto dos traficantes cariocas, mais “alemão” foi a primeira palavra que me veio à cabeça, e preferir calar-me em respeito à linda alemã que estava presente. E que não quis nada comigo, mas… é nenhuma.