Manual do Paulistano Moderno e DescoladoSabe aquele amigo que só vê filme “de arte”? Ou aquele que fecha a cara quando gritavam “toca Anna Julia!” em show do Los Hermanos? Ou ainda aquela amiga hetero que deu pra beijar outras garotas em festas? Pois se está procurando um presente para algum deles, o Manual do Paulistano Moderno e Descolado [Martins Fontes, 118 p., R$ 20,80], de Gustavo Piqueira, é ideal.

Não se engane com o título: de manual e de bairrista, o livro não tem nada. Trata-se de um conjunto de crônicas que, com ironia quase nunca deslizante e bastante fluidez, criticam a pose de quem ambiciona os rótulos de cool-indie-hype. O narrador [com alto teor biográfico] teve a idéia de escrevê-lo quando leu para uma namorada a seguinte nota: “Se você nunca ouviu falar no Cansei de Ser Sexy, deve ter morado os dois últimos anos em Marte”; no que ela retrucou: “Em quem?”

Este é o primeiro de 14 relatos do seu dia-a-dia de jovem adulto de classe média — notória em parecer mais do que efetivamente é. A tese sustentada por Piqueira é a de que quem quer aparecer [e não tem perfil de Big Brother] só tem a exibir hoje cultura e dinheiro.

Mas o repertório cultural por si só não garante mais admiração, e se valer tão-somente do poder aquisitivo é demasiado cafona. “A correta dosagem é fundamental”, escreve.

Ainda a despeito do título, temos cá um livro tradicional, propondo uma discussão. Nada daquelas obras modernas e descoladas, que escondem o discurso [se houver] sob camadas de símbolos e jogam a responsabilidade para o leitor “interpretar como quiser/puder”


[publicado no Caderno Dez! em junho de 2008]


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