Minha avó, de 79 anos, é a única pessoa da minha família que gosta de ler como eu. Todavia, apesar de ela ter me criado dos zero aos 12 anos, sua influência na minha formação como leitor não se deu de modo tão direto. Morávamos numa cidade pequena, sem biblioteca e, se bem que houvesse uma estante com pouco mais de 50 livros em casa, desses antigos, de capa dura e boa encadernação, nada ali era infantil, exceto por uma coleção com os clássicos — Pinóquio, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho & cia — dada por minha mãe. Mas eu não dava muita bola, a princípio, para estes livros. O que eu gostava mesmo era das histórias que ela me contava antes de dormir: lendas folclóricas, causos de sua juventude, quando morava na roça, anedotas e mesmo alguma invenção própria.
Com o tempo, porém, seu repertório minguou, ao contrário da minha sede por histórias novas. Por sorte, minha mãe me fez uma assinatura da Turma da Mônica nessa época, o que me sustentou pelos anos seguintes. Em seguida, descobri por uma amiga de meu pai a coleção Vagalume, da editora Ática. Eu devorava tudo, eu queria histórias. Os dois únicos livros de não-ficção com os quais tive relação na minha infância foram um dicionário de inglês Michaelis e a parte de uma enciclopédia Universal, do começo do século, que contava a história das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, com lindíssimas ilustrações. Por conta disto, me considero mais ficcionista que escritor: o que eu gosto é de inventar histórias, só calhou de as ter descoberto primeiro nos livros, já que a TV era constantemente controlada por minha vó porque, quando o aparelho ficava quente, ela achava que era hora de desligar, para não queimar.
O fato, aliás, de minha avó preferir o meu primeiro livro me deixa com uma pulga atrás da orelha: O Mistério da Casa da Colina foi a única coisa que sobrou de uma fase sem preocupação literária. Como escreveu Joca Reiners Terron em um conto de Sonho Interrompido Por Guilhotina, teria eu deixado de ser escritor quando me “profissionalizei” e perdi, assim, a “inocência necessária à alquímica transformação do desejo em ficção”?
Ah, mas cá estou eu de novo fazendo rodeios antes de entrar no assunto principal (não é à toa que este blogue se chama Abre Parêntese). Vamos a ele: o gosto literário de minha avó.
Minha avó está aqui em Salvador, de visita, e como sempre tenho que separar uma razoável quantidade de livros para ela ler agora e também para ela levar para o interior. Ela está lendo neste momento Precisamos falar sobre o Kevin, de uma norte-americana chamada Lionel Shriver, que conta a história de um fictício columbine day. Mas ela não gosta de literatura inglesa, porque não consegue falar os nomes das pessoas corretamente e muito menos compreende as referências dadas. A única exceção desde então foi Harry Potter. Eu morava na Espanha quando saiu o livro 7, e ela tomou a iniciativa de comprá-lo e deixá-lo na minha estante, para eu ler quando voltasse. Ela descobriu que agora pode comprar livros por um catálogo de cosméticos, lá no interior. Que só tem o que tá na lista de best-sellers, né? O bróder de O Caçador de Pipas (que ela insiste para que eu leia, um dia talvez), Dan Brown, Zibia Gasparetto, etc., etc. Ela adora a todos. Hoje de manhã, alegou que Zibia escreve melhor que Machado! Corri para a cozinha e tomei um copo d’água com açúcar. Ao voltar ao quarto, ficamos ambos olhando para minha estante, rememorando nossas leituras. Ela se lembrou de que gosta muitíssimo de O Mundo de Sofia, e deseja relê-lo pela terceira vez; que Oscar Wilde não fede nem cheira (o que me irritou); que Günter Grass é tão chato quanto Cervantes, ela prefere Flaubert e Tólstoi. Brigamos feio na hora de passar a vista pelos livros de Paulo Coelho, tivemos uma pequena reconciliação ao lembrar das histórias de Dos Passos em Pilatos, de Carlos Heitor Cony e definitivamente nos abraçamos e declaramos amor eterno e prova de parentesco indelével quando assumimos que não há quem escreva melhor que João Ubaldo Ribeiro. Neste momento, ela decidiu parar com o “difícil” Precisamos falar sobre o Kevin e reler o “engraçado” Arte & Ciência de Roubar Galinha, do Ubaldo. Eu fui inventar de dizer que, apesar da ótima releitura, ela andava era com preguiça de forçar a mente para coisas novas, no que ela, apontando para uma coleção completa de Jorge Amado da década de 70, que era sua mas agora é minha, disse:
– Você já leu isso tudo aí?
– Não, vó. Só uns dois ou três.
– Pois você pode até saber ler esses nomes complicados desse livro aí do Kevin, mas enquanto não ler tudo de Jorge Amado, não tem moral para discutir comigo!
E cá estou eu, às 4 da manhã, embalando minha insônia com Seara Vermelha.



