No último post, falei sobre a versatilidade da expressão baiana “é nenhuma”. É preciso fazer uma retificação contudo:
“É nenhuma” é — até onde eu saiba — uma expressão exclusivamente soteropolitana. Há quem possa, de repente, tê-la levado para Vitória da Conquista ou Ilhéus, mas será mais uma questão de intercâmbio léxico interestadual que a prova de unificação cultural.
Por tratar-se da capital, é esperado que os hábitos, o modo de falar, a música de Salvador e região metropolitana acabem sendo tomados como manifestações baianas. Só que grande parte da Bahia tem um perfil muito mais parecido com o cenário de Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos, que com o sangue, suor e cerveja dos personagens de Jorge Amado. Eu mesmo vivi por doze anos em uma minúscula e pobre cidade da região sudoeste, a quase 800km de Salvador, chamada Riacho de Santana. Nascida na época de ouro do algodão, sofrendo há anos a crise do desmatamento que a produção (nem sempre legal) de carvão vegetal proporcionou, hoje Riacho de Santana vai sobrevivendo com o que der, sem muitas expectativas ou ilusões.
Sem acarajé, sem mar e sem capoeira, o riachense cria a sua cultura de uma mescla do que absorve de Salvador; de São Paulo, por conta do grande número de pessoas que migram para lá (além da antena parabólica que tem em toda casa); um pouquinho de coisa do norte de Minas; e também de outras cidades da região, como Macaúbas, terra de Pepe Moreno, notória pela artisticidade do seu povo, ou Bom Jesus da Lapa, com a qual mantemos a política da boa vizinhança baseada em uma saudável troca de impropérios — “Seus comedores de peixe com abroba!”, gritamos; “Pés-vermelhos [de terra]!”, retrucam.
Assim que, com toda essa influência, o riachês, nosso delicioso dialeto, é dotado de expressões bem particulares, que podem confundir o forasteiro. Mas não se preocupe, simpático leitor, bonita leitora. Caso esteja pensando em dar uma passadinha por lá, tomar uma cerveja no bar de Dim e conhecer a legendária figura de Tetê Poca Oi, o brilhante Gato Rosa (que merece um post separado aqui), fiz um pequeno dicionário que lhe será muito útil, ei-lo:
- Adoido - Interjeição. Indica surpresa, espanto, admiração. Quanto mais se estende o primeiro “o” (que tem som de “u”), mais surpreso/espantado/admirado se está. Ex.: Cê comeu 15 goiabas de vez? Adoooooooooooooooooooido!
- Bandaia - Substantivo ou adjetivo, usado exclusivamente para as mulheres. É um ponto não-fixo na linha que opõe uma puta e uma festeira.
- Botar de sal e de doce - O equivalente em riachês para o baianês “Botar pra foder”, ou pro malhaçãonês “Ah, moleque!, mandou bem! (Isso merece uma rodada de suco pra galeara! [sic])”. O jeito correto de pronunciar é não transformando o “l” de “sal” em “u”, falar “doce” como 2 em espanhol e, com exceção do “botar”, transformar a expressão numa palavra só. Ex.: – Fiz três gols no baba de hoje! – Adoooido!, botou de salededossss.
- Que nem brita - Locução adverbial. Indica quantidade grande, às vezes tão grande que exige o uso de “adoido”. Ex.: Adoooido!, comi goiaba que nem brita! Variação: Que nem duas de dez.
- Só tá o lóro - Expressão usada para indicar mal-acabamento, algo que não está em seu melhor estado. Há quem traduza para “A coisa tá preta”, mas acho que isso poda tanto sua abrangência quanto seu feeling. Ex.: (1) Rapaz, o cara teve uma queda feia de moto. Só tá o lóro! (2) Rapaz, eu bebi demais ontem: só tô o lóro! Variações: Só tá o pau da rabiola; Só tá o cu e a catinga (Só tá o couro e a catinga para os mais púdicos).
E aproveite a estadia!
Adoro dicionários independentes sobre a cultura baiana.
Li tambem o post anterior. É nenhuma, meu rei.
Muito bom… escreva mais sobre Riacho… nos merecemos.