Un ligue

February 8, 2009

Dos tempos vividos na Galícia:

Lá estava ela, sentada no banco justo ao lado do quadro de aulas que eu checava três vezes ao dia para saber a que sala me dirigir. Roía o canto da unha do indicador direito e olhava para o nada, as pernas paradas num lindo ângulo torto, as pontas das sapatilhas, enfeitadas com desenhos e imitações de pequenas pérolas, se beijando; um pedacinho do pé branquelo se insinuando. E, ah!, a franjinha ondulada, que quase lhe ocultava a metade do olho direito e saltava para frente toda vez que cuspia um pedacinho de unha ou de pele.

Estava sozinha, e éramos os únicos presentes ali no foyeur. Sentei-me ao seu lado, como quem não quer nada, assim que o cheiro de baunilha que ela exalava — feromônios cheiram a baunilha? — pulou do seu cocuruto direto para minhas narinas, meio metro acima.

– Não tem muito aula de tarde, não é?

– Hum? — ela se assustou com meu comentário repentino. — Ahn… É — dise, tirando o dedo da boca.

– Você estuda aqui ou é intercambista?

– Não, não sou intercambista.

Sem saber o que fazer com as mãos, começou a apalpar a bolsa que mantinha no colo, junto com cadernos e folhas de papel.

– Legal. Jornalismo ou audiovisual?

– Jornalismo — disse, puxando um jornal gratuito do meio das folahs e o erguendo e

– Legal, eu também.

…e abrindo-o e se escondendo atrás dele.

– V-

– Bem, até logo — disse eu, começando a me levantar.

– Tchau — respondeu, sem sair detrás da edição que estampava a foto de algum atleta posando com sua taça.

Fui-me embora. E lá ficou ela, sozinha, as pernas paradas num lindo ângulo torto, as pontas das sapatilhas se beijando.


any valette
fez um comentário

April 26, 2009 @ 20:42

já tinha lido, mas o comentário via twitter foi tudo, HAHA.

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