Dos tempos vividos na Galícia:
Lá estava ela, sentada no banco justo ao lado do quadro de aulas que eu checava três vezes ao dia para saber a que sala me dirigir. Roía o canto da unha do indicador direito e olhava para o nada, as pernas paradas num lindo ângulo torto, as pontas das sapatilhas, enfeitadas com desenhos e imitações de pequenas pérolas, se beijando; um pedacinho do pé branquelo se insinuando. E, ah!, a franjinha ondulada, que quase lhe ocultava a metade do olho direito e saltava para frente toda vez que cuspia um pedacinho de unha ou de pele.
Estava sozinha, e éramos os únicos presentes ali no foyeur. Sentei-me ao seu lado, como quem não quer nada, assim que o cheiro de baunilha que ela exalava — feromônios cheiram a baunilha? — pulou do seu cocuruto direto para minhas narinas, meio metro acima.
– Não tem muito aula de tarde, não é?
– Hum? — ela se assustou com meu comentário repentino. — Ahn… É — dise, tirando o dedo da boca.
– Você estuda aqui ou é intercambista?
– Não, não sou intercambista.
Sem saber o que fazer com as mãos, começou a apalpar a bolsa que mantinha no colo, junto com cadernos e folhas de papel.
– Legal. Jornalismo ou audiovisual?
– Jornalismo — disse, puxando um jornal gratuito do meio das folahs e o erguendo e
– Legal, eu também.
…e abrindo-o e se escondendo atrás dele.
– V-
…
– Bem, até logo — disse eu, começando a me levantar.
– Tchau — respondeu, sem sair detrás da edição que estampava a foto de algum atleta posando com sua taça.
Fui-me embora. E lá ficou ela, sozinha, as pernas paradas num lindo ângulo torto, as pontas das sapatilhas se beijando.



