Amanhã, primeira segunda-feira pós-Carnaval,  seguindo a tradição soteropolitana, é que o ano novo começa. Somando esta particularidade do tempo aqui na Bahia ao ao meu desejo de fazer algum top — esta “sutil e obsessiva arte”, como bem diz Denis Pacheco, do Topismos — eis cá um top 5 das minhas leituras de 2008. Mas não vou pôr em ordem de predileção (isto faz do meu top somente uma lista, né?, tudo bem, é bonito ficar chamando-a de top 5), acho que aí embaixo tem coisas com tamanho grau de qualidade que dizer se isto é melhor que aquilo é uma discussão sobre o sexo dos anjos.

top52008

MÚSICA PERDIDA [Luis Antonio de Assis Brasil]

O Livro começa cheio de Letras Maiúsculas, e você logo pensa: iiih, lá vem. Então, no primeiro virar de página — O Maestro exeprimenta a presença da morte. Sentiu-a faz alguns dias, instalada e dilatando-se em seu corpo. Se lhe perguntassem, não saberia dizer se é essa tontura ou a náusea angustiada, essa repugância, ou esses fogos que cruzam por sua retina, ou são os pés, que sente presos ao chão. Mais do que o transtorno corporal, é a certeza metafísica de que vive seus últimos instantes. [...] Ademais, os velhos morrem em agosto e agosto está no fim.

O romance conta a história do maestro Joaquim José de Mendanha, ou melhor, a história que Assis Brasil cria para ele, a despeito de Medanha ter, efetivamente, existido (é o autor do hino do Rio Grande do Sul). E essa história é uma busca enlouquecedora por uma cantata, sua obra-prima da juventude, nunca executada, cuja partitura se perdeu e cuja memória não consegue mais alcançar. É a história de um gênio reduzido a maestro de igreja e compositor de hinos sob encomenda — reduzido, enfim, à mediocridade aplaudida. Pois é isso o que resta a quem, um dia, atingiu a perfeição.

Vale destacar a narrativa lacônica: conta pouco, mas diz tudo que precisamos saber — e se não o diz, é na falta do que nos dá que está também seu charme.

A VIAGEM DO ELEFANTE [José Saramago]

Literatura da ironia mais refinada, este é o relato, baseado em fatos reais, do elefante Salomão, que, tendo antes sido trazido de Goa a Lisboa, é ofertado ao arquiduque austríaco Maximiliano, e, assim, empreende viagem até Viena, surpreendendo as gentes pelo caminho não apenas pelo seu porte, tamanho, tromba ou barrito, mas também pelos seus atos, tais quais ser capaz de refrear um coice ao perceber que havia um padre atrás de si, abraçar carinhosamente os seus serviçais, ou mesmo ajoelhar-se diante do arquiduque. Seus porquês são um mistério, posto que não nos é dado o privilégio de entrar na mente elefantina, todavia fica-nos sempre a prova do tato e da paciência que é preciso ter um elefante ao relacionar-se com os homens. Entre os elefantes recordam-se com freqüência as famosas palavras pronunciadas por um dos seus profetas, aquelas que dizem, Perdoai-lhes, senhor, porque eles não sabem o que fazem, eles sendo nós.

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR [Luigi Pirandello]

Pirandello, o mais importante dramaturgo italiano do século XX, escreveu, em 1921, esta peça sobre seis personagens que, rechaçados pelo seu criador, invadem um ensaio para convencer o diretor a encenar sua história. Fazerem crer-se de que são personagens reais, embora inventados por um autor, e que seus dramas são reais, embora em relação ao palco, suscita uma discussão metalinguística a respeito do teatro, e uma busca das relações entre arte e vida real. Pelo fato de o diretor não ter em mãos um roteiro, dominado por um narrador, a versão de cada personagem para o drama que lhes ocorreu adianta aí, em quase 40 anos, a base da noção de teatralização do cotidiano, do sociólogo canadense Ervin Goffman.

O INIMIGO DO REI [Lira Neto]

Não é ficção, mas uma biografia. A biografia de José de Alencar, escrita com um esmero de Jornalismo Literário que, seguramente, revelou-se das mais penosas tarefas, uma vez que Lira Neto tinha apenas registros escritos como base.

Sempre tive um ranço para com o estilo de Alencar, e não engolia aquele papo sobre sua obra ser deveras importante, a precursora de um retrato do Brasil. Até ler O Inimigo do Rei.

Essa deliciosa narrativa vem para tirar a poeira da obra de Alencar e render merecida homenagem ao romancista que [como diz o subtítulo] colecionava desafetos, azucrinava d. Pedro II e acabou inventando o Brasil.

SEARA VERMELHA [Jorge Amado]

Nesta obra, de 1946, Jorge Amado cria uma verdadeira saga, protagonizada por uma família de imigrantes nordestinos que, expulsos da fazenda onde se formou, vão em busca do sonho de fazer a vida em São Paulo. É a fome e a doença, os cadáveres vão ficando pelo caminho, estrumando a terra da caatinga, e mais viçosos nascem os mandacarus, maiores os espinhos para rasgar novas carnes dos sertanejos fugidos.

Os personagens de Jorge são brutos, mas vivem sob um código de ética estrito, a hipocrisia não faz parte da sua realidade, a honra é o único tesouro que carregam. Já a caatinga de Jorge é de uma beleza dura, espinhos e mandacarus, cangaceiros e beatos. Seara Vermelha é, assim, um quê de Cem Anos de Solidão, uma quê de O Senhor dos Anéis, arquitetada pelo gênio singular e prolífico de Jorge Amado.