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Miss Lonelyhearts“A vida, para a maioria de nós, parece uma terrível batalha de dor e desilusão, sem esperança ou alegria. Ah, meus queridos leitores, apenas parece ser assim. Todo homem, não importa quão pobre ou humilde, pode aprender a usar seus sentidos. Vejam o céu pontilhado de nuvens, o mar que se veste de espuma… As melhores coisas da vida são de graça”

Você acredita nisto? Nem o próprio autor destas palavras, Miss Lonelyhearts, o Srta. Corações Solitários. Quando o contrataram para dar conselhos aos leitores de um jornal, apesar de considerar o trabalho um atraso de vida e uma piada, ele o aceitou na esperança de que poderia levá-lo a uma coluna de fofocas e, de qualquer forma, estava cansado de ser repórter. Mas, depois de vários meses, a piada começou a perder a graça; ele percebeu que a maioria das cartas eram súplicas profundamente humildes por conselhos morais ou espirituais, expressões inarticuladas de um sofrimento genuíno. Ciente de que seus correspondentes o levavam a sério, ele agora é obrigado a examinar seus valores, e “esse exame lhe mostra que é a vítima da piada, e não seu perpetrador.”

Publicada em 1933, Miss Lonelyhearts [Imago, 100 p., R$24], do  norte-americano Nathanael West [1903–1940, é uma obra-prima do humor negro. A sobriedade com a qual West se vale da fé para ridicularizar o mítico valor ocidental da satisfação plena [felicidade, se preferir] chega, por vezes, a ser nauseante. O editor de Miss Lonelyhearts talvez esteja certo: nós somos homens de engolir camelos só para fazer força na privada.


[publicado no caderno Dez! em 14/10/08]

Depois de esperar dez temporadas de Arquivo-X na expectativa de vê-lo dando uns pegas na Scully, depois de me decepcionar com o insosso beijo sem língua que eles trocam no final do último episódio, qual não foi minha surpresa ao ver o Ag. Mulder (David Duchovny), no piloto da série Californication (2007-), tendo sonhos eróticos com freiras e pegando ninfetas de 16? Sensacional.

Em Californication, criado por Tom Kapinos (Dawson’s Creek), Duchovny é o escritor Hank Moody, um maldito, cuja vida degringolou após deixar a cinzenta Nova Iorque pela ensolarada Los Angeles, para trabalhar na adaptação de seu best-seller, God Hates Us All (Deus Odeia Todos Nós), e vê-lo ser transformado em uma comédia romântica com o ridículo título de This Crazy Little Thing Called Love (Essa Coisinha Chamada Amor). Fossem outros os tempos, Moody, esse “cara analógico num mundo digital”, talvez resolvesse se vingar de Hollywood com um romance ácido, mas o problema — o problema maior, de fato — é que ele está na crise da meia-idade, e tenta o tempo inteiro revertê-la, ou melhor, esquecê-la, entorpecendo-se com álcool e cigarros; sobretudo após a mulher da sua vida, Karen (Natascha McElhone), ter se separado dele para ir morar com outro, levando junto a sua adorada filhinha gótica Becca (Madeline Zima), 12.

Eu até me enveredaria por uma comparação de Moody com Bukowski, mas, para ficar no universo de séries, em algum grau, ele lembra também o dr. House. Ambos são personagens inteligentes, de ironia refinada, solitários e com um problema que só eles podem resolver, embora este problema seja a origem do seu charme. Mas Californication tem uma estética mais underground, tosca, desde a abertura com imagens em super-8 (?); seus personagens são mais caricatos — destaque para o punheteiro Charlie Runkle (Evan Handler), agente de Moody, e sua esposa Marcy (Pamela Adlon), com seu molejo de Queen Latifa branca –; e o sexo é sempre um dos temas principais, com cenas de nu e piadas sobre paus, xoxotas e orgasmos. Ah, as piadas! Os diálogos são muito, muito bons. As cenas de Moody com Becca, que é uma versão em miniatura do pai, são antológicas.

Não sei como anda a repercussão da série, que parte para a terceira temporada agora em 2009. Aqui se fala pouco. Os três ou quatro fãs que conheci eram, como eu, caras que, sob algum aspecto, se identificavam com o protagonista. Tudo bem. Moody gostaria de saber que ele é Lado C.



Californication:cenas selecionadas do piloto

Caso meu projeto de comercialização de últimas frases não deslanche (sabe como é, às vezes o mundo não está preparado para certas idéias), hei de seguir a dica empreendedora de Ugo Sangiorgi e migrar para o ramo da publicidade. No teto.

Graças à grande popularidade de ferramentas como o Google Maps, os tetos agora são um ponto de propaganda estratégico! Imagine você utilizando uma delas para ver fotos aéreas de Salvador e, de repente, pá!, vê o teto do Iguatemi todo pintado de vermelho, com o logo da Coca-Cola, ou um conjunto de edifícios que permitam pintar, enorme, o logo da McDonald’s. Não é genial?!

Dizque Alfred Hitchcock, consagrado diretor de thrillers, como Um Corpo Que Cai (1958) e Psicose (1960), pediu que seu epitáfio fosse: “É isto que acontece com os maus garotos” — mas não realizaram seu desejo.

Eu nunca acreditei na veracidade das últimas palavras geniais. Se mesmo nos textos de Shakespeare os moribundos falam coisas superficiais, do tipo “Oh! Mataram-me!” [Polônio, conselheiro do rei da Dinamarca, em Hamlet], imagine na vida real.

Uma vez pensei em montar um negócio de criação de últimas palavras. O cliente que nos contratasse teria sua vida estudada e, a partir disto, faríamos um levantamento das maneiras mais prováveis dele morrer. Assim, criaríamos uma frase específica para cada situação possível. Tudo sob o seu crivo, claro. Desta forma, quando ele viesse a bater as botas, daríamos um jeito de forjar a cena da morte e trazer à tona as suas… caham… últimas palavras. E ninguém correria o risco de levar fama eterna por algo que não fosse do seu apreço.

Em 1998, quando a internet ainda se apresentava no Brasil, e verbetes como “blog” ou “redes sociais” não participavam do nosso vocabulário, um grupo de jovens escritores em Salvador se valeu da rede para fazer literatura — inclusive fazendo experimentações com a potencialidade do hipertexto.

Através do Internet Archive (http://www.archive.org), um grande histórico da internet, é possível encontrar armazenados tanto resquícios de sites que não estão mais no ar quanto versões antigas de sites que ainda funcionem. Foi através dele que pude conhecer um dos e-zines (fanzines eletrônicos) pioneiros da Bahia, o K Zine, e também conhecer o Textorama, essa experimentação literária envolvendo a não-linearidade do hipertexto. Caras como Patrick Brock, Wladimir Cazé e outros são vanguardistas; tiro meu chapéu não só pela iniciativa como pelo ótimo texto (coisa da qual ando sentindo falta nos nossos destaques de hoje).

Para conhecer um pouco desta história, talvez a maior iniciativa literária feita na última década aqui na Bahia, leia uma entrevista que fiz com Brock para a Lupa Digital.

Aproveito para indicar, aos que se interessam também por jornalismo cultural, uma busca no Internet Archive pelo finado Claque, assinado por Juliana Protásio, Greice Schneider, Gabriela Almeida, Lucas Falcão, Rodrigo Barreto, Érico Monte e colaboradores. O melhor jornalismo cultural feito aqui desde que me entendo por gente. Difícil encontrar um conjunto tão bom hoje, embora tenhamos, agora espalhadas pelos seus próprios blogs, pessoas preparadíssimas, aqui na Bahia, fazendo jornalismo cultural, a exemplo do crítico de cinema Saymon Nascimento.

O amigo Marcelino Freire, bróder da prosa afiada, esteve na IX Bienal do Livro Bahia e nos deu a honra de passar uns dias cá em Salvador, trocando ideias e risadas com a gente, do Coletivo Muito Barulho Por Nada. Pra quem não conhece o MBPN ainda, trata-se de uma galera, da qual faço parte, que decidiu se juntar para produzir coisas.

O projeto nasceu quando o poeta e ator baiano Gabriel Pardal, que atualmente vive no Rio, fez uma participação improvisada nas jam sessions que rolam no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) aos sábados. A performance de Pardal, que tem textos fantásticos, inspirou João Vinícius (ex-Roleta Russa) a bolar um projeto que mesclasse literatura & música. João convocou a Gabriel Camões (ex-Roleta Russa) e a mim para uma reunião e começamos a lapidar sua idéia. Um dia depois, encontramos Mariele Góes, fotógrafa, pelo Rio Vermelho e, num bate-papo informal, ela trouxe a fotografia para o balaio. Daí resolvemos escancarar de vez as portas e abraçar toda forma de expressão artística que aparecesse. No nosso blogue tem de tudo: de música instrumental a videoclipe, de curtametragens a declamações.

Efetivamente, por uma questão de interesse, de traquejo e de interação entre os atuais membros, a dobradinha literatura-música acaba impondo sua presença com mais frequência. Eis duas amostras do que se pode encontrar no nosso blogue:

Carta pra Driu foi nosso texto inaugural. É uma carta de amor que eu havia escrito, e que aqui é lida por Camões; a música é de João.

Já o próximo áudio é um excerto do clássico romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, um dos meus livros prediletos. Estava na casa de João, vendo filmes, conversando sem compromisso, e ele decidiu gravar a leitura que eu fazia. Cebola Pessoa, em seguida, pegou este material e criou uma base que é — putz, de uma beleza inefável.

Assine o feed do blogue do MBPN porque, nas próximas semanas, vem muita coisa bacana, inclusive um texto inédito do Marcelino. E, em breve, eu volto com este assunto aqui no abre parêntese (, mas desta vez será para convidar você para nossas primeiras apresentações ao vivo. Bó fazer barulho!

Daniel Galera, 29, nasceu em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. Foi lá que, junto com amigos, fundou a editora independente Livros do Mal. Com quatro livros publicados, é um dos principais autores da nova geração.

Daniel Galera_Como nasceu o Daniel Galera escritor?

Depois de tentar inutilmente transcender a introspecção falando, pintando, desenhando e compondo músicas, arrisquei escrever contos. Eu já tinha uns 16, 17 anos. Funcionou. Sentia que tinha algum talento para aquilo, ainda que mínimo, que a prosa de ficção era uma forma viável e potente de me expressar. Fui um leitor voraz desde a infância. As primeiras publicações na internet me permitiram encontrar um pequeno público leitor, e a partir dali a escrita se tornou parte essencial da minha vida.

_Além da literatura, a que atividades você se dedica?

Natação, corrida, churrasco e videogame.

_Quais as peculiaridades da aproximação que você mantém com os seus leitores pela internet?, participando dos debates na sua comunidade no Orkut, por exemplo.

Tenho um site pessoal e uso Orkut, Facebook, MSN, Skype. Gosto de manter contato com leitores. O depoimento de um leitor é a etapa final da publicação de um livro, é quando o círculo da experiência literária se fecha.

_Qual o comentário mais marcante que você recebeu a respeito da sua obra?

“Obrigado.”

_Em seu extingo blog, você escreveu que percebia, entre as pessoas de sua idade e classe social, certa apatia causada por “um excesso de possibilidades que desnorteava (…), tornava tudo no mundo equivalente, e portanto igualmente desinteressante.” O desejo da protagonista de “Cordilheira” de ter um filho seria uma forma de lutar contra esta apatia?

Escrevi que percebia essa tendência de comportamento numa certa parcela da minha geração, não acho que seja um traço onipresente. Tratei disso de forma mais ampla no meu primeiro romance, “Até o dia em que o cão morreu”, em que o protagonista manifesta essa tendência de forma exacerbada, paralisante. No caso da Anita, protagonista do “Cordilheira”, não era minha intenção tratar disso. Pensei nela mais como anti-heroína em meio a ideais cultivados por mulheres urbanas modernas. Anita desdenha de carreira, independência, liberdade, realização emocional. Quer ter um filho e ser, nas palavras dela, “nada mais que a mulher de um homem”.

_Você sofre deste desnorteamento pelo excesso de possibilidades?

As possibilidades me deixam meio tonto, às vezes, mas creio que na maior parte do tempo consigo manter o foco no que interessa. Não sou uma pessoa de muitas expectativas. Quando noto um excesso, eu as decepo.

_Você quer ter filhos?

Quero três coisas: uma mulher que fale pouco, uma piazinha ranhenta com os joelhos ralados e um Blue Heeler que aprenda a me acompanhar sem coleira.

_Pode contar algo a respeito do próximo livro?
Cedo demais. Mas tenho quatro idéias e pretendo escrever as quatro.



[publicada na revista Muito em 19/04/2009]

O encontro

April 20, 2009

O Encontro

Ele vinha correndo, e eu, sentada no banco ao lado da entrada, podia assisti-lo atravessar todo o pátio que separava o seu prédio da portaria. A corrida era inútil, afinal, eu já estava ali, e não faria diferença esperar um ou dois ou dez minutos, mas ele corria, driblando os guris que jogavam futebol, pulando por sobre a cabeça das meninas que pulavam corda, porque eu havia chegado mais cedo do que o previsto, ele ainda estava no banho quando o porteiro interfonou para seu apartamento, e não queria que eu o esperasse muito. Talvez ele é quem não quisesse esperar muito para me ver, mesmo só fazendo vinte e duas horas e dez minutos desde que me vira pela última vez, quinze dias desde que me vira pela primeira vez, numa sessão fechada da minha nova peça, A Paixão No Tribunal, na qual ele só entrou por ser amigo de um amigo do elenco, da qual ele só não saiu porque, nas entrelinhas do texto cheio de clichês, pôde deslumbrar na advogada de tailleur uma mulher capaz de não romantizar a paixão em excesso, de não encobrir suas partes feias, virar a cara nem tratá-las com cinismo, e, ainda assim, uma mulher disposta a entregar-se a uma paixão como uma mãe é capaz de amar seu filho natimorto. Foi isso que ele me escreveu no convite de amizade no Orkut, e foi o que reiterou quando eu o aceitei no MSN, logo depois de mencionar a beleza dos meus olhos, dos meus cachos, meu sorriso, minha bunda.

Enquanto ele corria para mim, eu adivinhava em cada músculo que se retesava o desejo represado no dia anterior, numa feijoada da galera do teatro em Guarajuba, quando todos nos deixaram a sós, eu na rede, ele no chão, me balançando, me empurrando para longe e para perto, menos longe e mais pra perto, mais pra perto, e então pra longe. Ele corria, e no suor da testa escorria a frustração de não ter me visto na formatura de ontem à noite, que eu teria ido só por ele, mas não com ele, e que perdera porque o amigo que me daria convite e carona me levou para uma outra festa. Eu não soube o que fazer. À meia noite ele me ligou, o ruído da música das duas festas não deixou a gente conversar direito, quando ele disse Eu quero te ver, bem poderia ter sido Eu vou te esquecer, e aí sim eu soube o que fazer, pedi pra ir embora e fiquei até as três da manhã despetalando metade do buquê que ele me mandara e ouvindo o mp3 que me enviou, com Cazuza cantando que tinha um medo, que medo!, de dizer que me amava, e eu queria ser amada por aquele cara – o cara que via em mim uma mulher de curvas lindas, de opiniões firmes e de amor incondicional; o cara que havia ido à feijoada com o amigo de um amigo só para me ver; que, não tendo coragem de me beijar, me empurrava para longe, mas aí tentava de novo, e de novo — e essas tentativas já anunciavam todas as brigas que superaríamos, com ele me puxando para perto sempre que eu ousasse me afastar. Queria, sim, amar aquele cara que corria, arrodeando as meninas que brincavam de rodinha, se esquivando dos meninos que brincavam de pega-pega, e que tinha me ligado logo cedo convidando para comer um acarajé, de modo tão inesperado que eu, num ato falho, dissera-lhe que acabara de comer um, no que ele contestou com um E que tal um abará agora?, e eu ri e logo depois estava na casa dele, esperando no banco da portaria, enquanto ele vinha correndo.

Finalmente, ele chegou. Largou-se ao meu lado no banco, pôs os óculos antes de me encarar e, arfando, sorrindo, exclamou:

– Oi.


[publicado no Dez! em 31/03/2009. Ilustração: Aziz]

Hoje começa a IX Bienal do Livro Bahia, que vai até dia 26 de abril. No dia 26, aliás, estarei lá, a partir das 15h, no stand da editora FTD. Mas este agora é que será o fim de semana mais interessante pra mim, com a presença de dois dos meus autores favoritos: Moacyr Scliar (sábado, 15h) e Marcelino Freire (domingo, 19h). Não perderei a oportunidade de ouvi-los e de receber um autógrafo nos meus exemplares de Manual da Paixão Solitária (Scliar) e Rasif (Marcelino), seus últimos lançamentos, ambos muito bons. Nos vemos?

A seguir, entrevista feita por mim com sir Scliar pra Muito.



Com o coração e as tripas

O gaúcho Moacyr Scliar, que completa 72 anos amanhã, é um dos mais prolíficos autores brasileiros, com cerca de 70 livros, entre ensaios, romances, contos e crônicas. Scliar é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003.

Atualmente, o senhor se dedica a quais outras atividades, além da literatura?

Sou médico de saúde pública e durante muito tempo tratei de compatibilizar minhas atividades nesta área com a literatura. Agora trabalho menos em saúde, mas ‘mantenho meus vínculos. Viajo muito, dou muitas palestras, escrevo para jornais e revistas no país e no exterior – enfim, é uma existência movimentada…

Há quem defenda que o papel do escritor sofreu uma radical mudança nos últimos anos; sendo, anterioramente, alguém lido pela capacidade de nos levar a pontos desconhecidos da emoção, da compreensão das coisas, hoje ele seria um igual, que compartilha conosco sentimentos já conhecidos; e isto afetaria em muito a literatura produzida, sem paixão, sem coragem. O senhor enxerga alguma mudança no papel do escritor e na literatura ocorrida nos últimos tempos?

Não há dúvida de que, com o avanço da tecnologia, a atividade literária – durante muito tempo algo elitista, inclusive porque pouca gente tinha acesso à palavra escrita – agora está ao alcance de muito mais gente, através dos blogs, por exemplo. Claro, o risco da banalização, do culto ao ego, existe; mas, como no passado, literatura tem de ser feita com emoção, com o coração e com as tripas, se possível.

Há uma citação do senhor que diz: “Escrevo pelo prazer de criar situações e personagens (nesta ordem, infelizmente).” A que se deve este “infelizmente”?

Sempre achei que a literatura deveria partir do personagem e a partir dele criar situações; não por outra razão escritores se imortalizam através de personagens: Dom Quixote, Hamlet, Capitu. Mas para mim estas situações, a trama que as une, são fundamentais. O personagem vai sendo gerado em função delas. Mas é meu jeito…

O senhor sempre diz que Jorge Amado foi um dos autores que te influenciou bastante. Qual a sua visão da obra de Jorge?

Conheci Jorge e Zelia desde a minha infância – eles eram amigos de minha família. E desde criança os admirava. A obra de Jorge me fascinava sobretudo pelo engajamento, pela espontaneidade, pelo retrato do Brasil que representava. Nesta obra, e o tempo o mostra, as qualidades superam os defeitos.

Em “O Texto, ou: A Vida”, que conta a sua trajetória literária e onde se pode ler seus escritos inicias, a sua Porto Alegre, o seu Rio Grande do Sul são muito pessoais. O senhor, que foi ligado ao movimento juvenil, nunca cogitou escrever algo mais denuncista, em que os dramas da cidade e do estado tivessem notoriedade?

Vejo a denúncia como uma atividade sobretudo jornalística. A ficção pode, e deve, mostrar problemas sociais, mas de uma forma diferente, mediada pela imaginação. É o que acontece em muitos de meus livros. O primeiro deles “O Carnaval dos Animais”, reúne uma série de contos nos quais, em linguagem metafórica, eu falava da ditadura, então em seu auge.

Existe algum personagem que o senhor gostaria de reencontrar? Aliás, existe algum plano para este reencontro?

Parto do princípio de que meus personagens, e meus livros em geral, fazem parte de determinadas épocas. Não costumo me reler, nem costumo voltar a temas e/ou personagens. Para mim vale o desafio do novo, do desconhecido.

Qual a história da vez? Pode contar algo sobre ela?

Estou trabalhando num ensaio sobre medicina e poder, estudando as figuras de médicos que, como Che Guevara, trocaram o estetoscópio pelo fuzil.

A sua relação com o judaísmo envolve, tanto quanto formação cultural, a prática da fé?

Não. Não religioso, embora respeite a fé religiosa das pessoas. Minha aproximação ao judaísmo é histórica, é cultural, sobretudo literária; aprendi, e continuo aprendendo muito, com os escritores de temática judaica de vários países.


[publicada na revista Muito de 22/03/2009]

Notícias

April 16, 2009

Olá, bonitos leitores.

Que sacanagem, a minha, deixar vocês sem posts durante quase dois meses, hein?

É que eu tive um raro problema de saúde. Aos 22, fui diagnosticado com osteoporose, no quadril esquerdo. “Até na doença você é precoce”, gozou uma amiga. Os médicos não sabem como diabos isto aconteceu, o diagnóstico foi tão surpreendente que eu devo ser um dos principais temas das rodas de conversa do Clube dos Médicos da Bahia atualmente. Desconfia-se que eu carrego um gene de uma doença muito pancadona, chamada osteogenesis imperfecta (pelo menos o nome é charmoso, se for isto mesmo, mando tatuar). Veja bem, não que eu tenha a doença, que originalmente provoca deformação óssea assim que a pessoa nasce — ao que parece, a osteoporose seria uma forma branda de a doença se manifestar, quase uma sequela por tão-somente postar o gene. Nada foi confirmado, efetivamente. O fato é que estou de muletas desde janeiro, e a previsão atual é que não me livre delas até junho. Além desta medida de precaução, meu tratamento está sendo feito à base de comprimidos de cálcio e de um medicamento relativamente novo, Actonel. Nem queiram ver a lista de possíveis efeitos colaterais. Mas até então tem dado tudo certo, a inflamação cedeu bastante e não sinto mais dores. A única parte chata é que é preciso, após ingerir o remédio, ficar meia-hora de pé, para evitar uma esofagite. Agora, imagine quão agradável era ficar em pé estando de muletas, terminantemente proibido de pôr peso sobre a perna doente? PQP! Agora, pelo menos, estou liberado para, vezenquando, usar apenas uma muleta, que eu tratei de substituir por uma bengala, no melhor estilo Dr. House. Falta só aprender a girá-la feito uma baqueta.

Agora que você está compadecido com o meu drama, nem preciso explicar que, em tese, eu deveria era ter aproveitado este tempo de bastante repouso para postar mais, mas que enjoei rapidinho do ex-novo template do blogue, que era muito vivo, nada condizente com minha natureza sóbria e algo pra baixo. O novo layout, ainda em construção, acabou sendo muito parecido com o primeiro. No post inaugural desta versão 2.0, fiz um discurso bonito sobre as mudanças. Caí no clichê das promessas de Ano Novo. Até!