Hoje começa a IX Bienal do Livro Bahia, que vai até dia 26 de abril. No dia 26, aliás, estarei lá, a partir das 15h, no stand da editora FTD. Mas este agora é que será o fim de semana mais interessante pra mim, com a presença de dois dos meus autores favoritos: Moacyr Scliar (sábado, 15h) e Marcelino Freire (domingo, 19h). Não perderei a oportunidade de ouvi-los e de receber um autógrafo nos meus exemplares de Manual da Paixão Solitária (Scliar) e Rasif (Marcelino), seus últimos lançamentos, ambos muito bons. Nos vemos?
A seguir, entrevista feita por mim com sir Scliar pra Muito.
Com o coração e as tripas
O gaúcho Moacyr Scliar, que completa 72 anos amanhã, é um dos mais prolíficos autores brasileiros, com cerca de 70 livros, entre ensaios, romances, contos e crônicas. Scliar é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003.
Atualmente, o senhor se dedica a quais outras atividades, além da literatura?
Sou médico de saúde pública e durante muito tempo tratei de compatibilizar minhas atividades nesta área com a literatura. Agora trabalho menos em saúde, mas ‘mantenho meus vínculos. Viajo muito, dou muitas palestras, escrevo para jornais e revistas no país e no exterior – enfim, é uma existência movimentada…
Há quem defenda que o papel do escritor sofreu uma radical mudança nos últimos anos; sendo, anterioramente, alguém lido pela capacidade de nos levar a pontos desconhecidos da emoção, da compreensão das coisas, hoje ele seria um igual, que compartilha conosco sentimentos já conhecidos; e isto afetaria em muito a literatura produzida, sem paixão, sem coragem. O senhor enxerga alguma mudança no papel do escritor e na literatura ocorrida nos últimos tempos?
Não há dúvida de que, com o avanço da tecnologia, a atividade literária – durante muito tempo algo elitista, inclusive porque pouca gente tinha acesso à palavra escrita – agora está ao alcance de muito mais gente, através dos blogs, por exemplo. Claro, o risco da banalização, do culto ao ego, existe; mas, como no passado, literatura tem de ser feita com emoção, com o coração e com as tripas, se possível.
Há uma citação do senhor que diz: “Escrevo pelo prazer de criar situações e personagens (nesta ordem, infelizmente).” A que se deve este “infelizmente”?
Sempre achei que a literatura deveria partir do personagem e a partir dele criar situações; não por outra razão escritores se imortalizam através de personagens: Dom Quixote, Hamlet, Capitu. Mas para mim estas situações, a trama que as une, são fundamentais. O personagem vai sendo gerado em função delas. Mas é meu jeito…
O senhor sempre diz que Jorge Amado foi um dos autores que te influenciou bastante. Qual a sua visão da obra de Jorge?
Conheci Jorge e Zelia desde a minha infância – eles eram amigos de minha família. E desde criança os admirava. A obra de Jorge me fascinava sobretudo pelo engajamento, pela espontaneidade, pelo retrato do Brasil que representava. Nesta obra, e o tempo o mostra, as qualidades superam os defeitos.
Em “O Texto, ou: A Vida”, que conta a sua trajetória literária e onde se pode ler seus escritos inicias, a sua Porto Alegre, o seu Rio Grande do Sul são muito pessoais. O senhor, que foi ligado ao movimento juvenil, nunca cogitou escrever algo mais denuncista, em que os dramas da cidade e do estado tivessem notoriedade?
Vejo a denúncia como uma atividade sobretudo jornalística. A ficção pode, e deve, mostrar problemas sociais, mas de uma forma diferente, mediada pela imaginação. É o que acontece em muitos de meus livros. O primeiro deles “O Carnaval dos Animais”, reúne uma série de contos nos quais, em linguagem metafórica, eu falava da ditadura, então em seu auge.
Existe algum personagem que o senhor gostaria de reencontrar? Aliás, existe algum plano para este reencontro?
Parto do princípio de que meus personagens, e meus livros em geral, fazem parte de determinadas épocas. Não costumo me reler, nem costumo voltar a temas e/ou personagens. Para mim vale o desafio do novo, do desconhecido.
Qual a história da vez? Pode contar algo sobre ela?
Estou trabalhando num ensaio sobre medicina e poder, estudando as figuras de médicos que, como Che Guevara, trocaram o estetoscópio pelo fuzil.
A sua relação com o judaísmo envolve, tanto quanto formação cultural, a prática da fé?
Não. Não religioso, embora respeite a fé religiosa das pessoas. Minha aproximação ao judaísmo é histórica, é cultural, sobretudo literária; aprendi, e continuo aprendendo muito, com os escritores de temática judaica de vários países.
[publicada na revista Muito de 22/03/2009]