Daniel Galera, 29, nasceu em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. Foi lá que, junto com amigos, fundou a editora independente Livros do Mal. Com quatro livros publicados, é um dos principais autores da nova geração.

Daniel Galera_Como nasceu o Daniel Galera escritor?

Depois de tentar inutilmente transcender a introspecção falando, pintando, desenhando e compondo músicas, arrisquei escrever contos. Eu já tinha uns 16, 17 anos. Funcionou. Sentia que tinha algum talento para aquilo, ainda que mínimo, que a prosa de ficção era uma forma viável e potente de me expressar. Fui um leitor voraz desde a infância. As primeiras publicações na internet me permitiram encontrar um pequeno público leitor, e a partir dali a escrita se tornou parte essencial da minha vida.

_Além da literatura, a que atividades você se dedica?

Natação, corrida, churrasco e videogame.

_Quais as peculiaridades da aproximação que você mantém com os seus leitores pela internet?, participando dos debates na sua comunidade no Orkut, por exemplo.

Tenho um site pessoal e uso Orkut, Facebook, MSN, Skype. Gosto de manter contato com leitores. O depoimento de um leitor é a etapa final da publicação de um livro, é quando o círculo da experiência literária se fecha.

_Qual o comentário mais marcante que você recebeu a respeito da sua obra?

“Obrigado.”

_Em seu extingo blog, você escreveu que percebia, entre as pessoas de sua idade e classe social, certa apatia causada por “um excesso de possibilidades que desnorteava (…), tornava tudo no mundo equivalente, e portanto igualmente desinteressante.” O desejo da protagonista de “Cordilheira” de ter um filho seria uma forma de lutar contra esta apatia?

Escrevi que percebia essa tendência de comportamento numa certa parcela da minha geração, não acho que seja um traço onipresente. Tratei disso de forma mais ampla no meu primeiro romance, “Até o dia em que o cão morreu”, em que o protagonista manifesta essa tendência de forma exacerbada, paralisante. No caso da Anita, protagonista do “Cordilheira”, não era minha intenção tratar disso. Pensei nela mais como anti-heroína em meio a ideais cultivados por mulheres urbanas modernas. Anita desdenha de carreira, independência, liberdade, realização emocional. Quer ter um filho e ser, nas palavras dela, “nada mais que a mulher de um homem”.

_Você sofre deste desnorteamento pelo excesso de possibilidades?

As possibilidades me deixam meio tonto, às vezes, mas creio que na maior parte do tempo consigo manter o foco no que interessa. Não sou uma pessoa de muitas expectativas. Quando noto um excesso, eu as decepo.

_Você quer ter filhos?

Quero três coisas: uma mulher que fale pouco, uma piazinha ranhenta com os joelhos ralados e um Blue Heeler que aprenda a me acompanhar sem coleira.

_Pode contar algo a respeito do próximo livro?
Cedo demais. Mas tenho quatro idéias e pretendo escrever as quatro.



[publicada na revista Muito em 19/04/2009]


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