Como o doutor Billy alcançou a reputação que tem hoje ninguém sabe. Diz ele que não fala sobre isso porque em breve vai lançar uma autobiografia, provisoriamente intitulada Rock, Chantilly & Chocolate (ou esse era o livro de contos pornô que ele está fazendo? Opa, acho que me perdi nas anotações).

O fato é que doutor Billy é um dos maiores psicoterapeutas do mundo, o único a utilizar tão-somente rock and roll com seus pacientes. Foi ele quem descobriu o quanto Jimi Hendrix é bom para sociopatas, Velvet Underground para esquizofrênicos, AC/DC para bipolares, Smashing Pumpkins para casais em crise, e por aí vai.

Seu consultório faz jus à fama. Na parede atrás da mesa, podemos ver seus vários diplomas, troféus de vencedor de quizes sobre rock, além de várias fotos autografadas (“Billy, you’re the best! Love, Eric.” “Billy, you motherfucker, we need to do that again! Kiss my ass. Jimmy.” “Billy, you haven’t gimme a new towel yet, but I still love you. Bobby.”). Em outras duas paredes, prateleiras com vinis e CDs pendem do teto ao rodapé, dividindo espaço com caixas de som de dois metros de altura e design pós-moderno. Destacam-se ainda um divã e um pequeno tablado, com duas guitarras, bateria de sete pratos e um contrabaixo repousados. Quando o paciente é novato, doutor Billy sempre vai até a porta e lhe cumprimenta, metido em seu jaleco com o nome bordado dentro de um prisma igual ao da capa de The Dark Side of the Moon. Se é um paciente com algum tempo de casa, ele se mantém sentado, com as botas sobre a mesa. Os que fazem terapia há anos já o encontram sem camisa, em cima do tablado, afinando a guitarra.

“Dona Layla, que confusão é esta aí na recepção?”, perguntou através da linha interna. “Ah, doutor, é mais um pai desesperado por causa do filho emo.” “A senhora já lhe disse que só atendo esse tipo de caso na quarta?” “Sim, mas ele insiste em ver o senhor hoje, imediatamente.” “Peça-lhe para esperar pelos pacientes que já têm hora marcada então. E, ah, dona Layla, ponha o terceiro disco do Velvet como música ambiente.” “Pode deixar, doutor.” “Mande o próximo entrar.”

O homem de meia-idade não retribuiu à mão estendida do doutor, ocupado que estava em torcer suas próprias. “Doutor, meu casamento está em crise! Eu amo minha mulher e nunca a trai nem a trairei, mas estamos há mais de cinco meses sem fazer sexo!” “Na manha, Billy. Qual foi de mesma da abstinência?” “Ah, doutor, ela me trocou pelo Roberto Carlos desde que viu na novela das oito que ouvir Côncavos & Convexos na hora de dormir dava orgasmo. Nela, têm sido múltiplos!” “E o que você já tentou fazer?” “Usei viagra, comecei a fazer um curso de sexo tântrico que achei na internet e até propus que ela dormisse com outro cara, mas ela só quer saber de Côncavos & Convexos. Tentei até cantar pra ela, mas não surtiu efeito.” “Ih, Billy, o bicho tá pegando mesmo. Mas é nenhuma. Vai rolar, vai rolar.”

Doutor Billy se encaminhou até uma das prateleiras e tirou de lá um LP – Through The Past Darkly. “Rolling Stones, doutor?” “Claro! Você acha que o Mick Jagger come todas é com aquela rebolada ridícula?”

Quando o homem já estava com a mão na maçaneta, doutor Billy lhe interrompeu. “Ei, leva esse aqui também, ó. Caso o plano A não funcione, pelo menos por essa noite você não vai se incomodar em não fazer sexo.” E lhe deu Blue, de Joni Mitchell.


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