O cenário: uma sala comunal de albergue, cujo único atrativo é um home theater. Os personagens: um bando de rapazes, dos mais diversos tipos e nacionalidades. A ação: todos estão assistindo atentamente a uma comédia romântica estrelada pela Jennifer Aniston, eu inclusive.
Nas últimas semanas, assisti às quatro primeiras temporadas da sitcom How I Met Your Mother (2005-), criada por Carter Bays e Craig Thomas. Descendente direta de Friends, HIMYM também conta a história de um grupo de amigos que vivem em Nova York e estão chegando aos 30 anos de idade — à vida adulta, no seu ponto de vista. Há o casal que namora desde os tempos da universidade e agora está pensando em casamento: Marshall e Lily (Jason Segel e Alyson Hannigan). Há o cara que só quer aproveitar a ótima fase física e financeira pela qual está passando para conquistar uma garota diferente a cada noite: Barney (Neil Patrick Harris). Há a garota que põe sua carreira acima de tudo e tem pavor às palavras “casamento” e “filhos”: Robin (Cobie Smulders). E, por fim, há o cara que justamente só pensa em casamento e filhos: Ted (Josh Radnor), o protagonista. O tempo de ação de HIMYM é, na verdade, 2030, quando Ted começa a contar a seus filhos a história de como ele conheceu a mãe deles. Assim, os episódios são constituídos quase integralmente por flashbacks; e a tirar pelo quantidade deles que já foi ao ar, vocês podem perceber que é uma longa história.
Sempre que eu penso em Ted, penso também na cena do albergue que presenciei/participei. E tenho a impressão de que HIMYM é o ápice momentâneo de uma linha de produtos ficcionais que contam histórias de amor para homens e que constroem e fortalecem, com sucesso, o que eu chamo de mito da Princesa Encantada. Chamo-o assim porque não me parece que estejamos falando do velho mito da Mulher Amada, inaugurado talvez por Goethe (1749-1832) e seu Os sofrimentos do jovem Werther, a história de um rapaz que se mata por amor, obra que é considerada fundadora do Romantismo literário.
O mito da Princesa Encantada é a evolução do mito da Mulher Amada e surge quando a Indústria Cultural se apropria deste. O mito da Princesa Encantada também está ligado diretamente a uma nova formação discursiva do que é ser homem, surgida graças aos movimentos de contra-cultura da metade do século XX. É a partir dos gays, me parece, que a preocupação com o vestir-se e com o corpo se reconfigura no universo masculino a ponto de, hoje em dia, podermos falar de metrossexualidade. E com os hippies, julgo eu, pudemos começar a ver homens comuns, e não apenas artistas, falando sobre seus sentimentos, falando sobre o amor. Tudo isto alcança aquele bando de jovens que gastou um fim de tarde em Praga vendo uma história de amor; alcança Ted, cujo objetivo principal é encontrar uma mulher para constituir família, no estilo mais conservador possível. Ted é capaz de sentir o som do mundo sumir e o tempo desacelerar quando encontra uma garota que julga ser sua Princesa Encantada; é capaz mesmo de estragar o primeiro encontro perfeito por soltar um “eu te amo” precoce — uma situação que, na ficção, vemos sempre ser protagonizada por uma mulher, e sempre uma mulher desesperada, que nunca é a mocinha da trama.
O mito da Princesa Encantada está disponível a homens de todas as idades. Para os adolescentes, temos American Pie ou Show de Vizinha. Para os jovens adultos, How I Met Your Mother ou Hitch – Conselheiro Amoroso. Para os de meia-idade, filmes como Um Lugar Chamado Notting Hill ou Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada. E, finalmente, para os de idade inteira, Alguém Tem Que Ceder ou Revelações. Efetivamente, em alguns desses filmes, como Alguém Tem Que Ceder ou Um Lugar Chamado Notting Hill, há uma certa dialética no modo de endereçamento, uma divisão do protagonismo, o que faz tanto homens quanto mulheres se encaixarem, em níveis muito próximos, no papel de espectador-ideal. Os demais citados aqui, porém, são claramente filmes dirigidos primariamente a um público masculino.
A ficção sempre teve muitas funções para nós. Desde a ludicidade até mesmo à politização, passando pela educação moral. Hoje em dia, como afirmou o psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo Contardo Calligaris, em uma entrevista dada ao A Tarde cerca de dois anos atrás, ela também serve para nos oferecer modelos de vida. “O sujeito moderno aprende a viver na ficção. (…) A partir do momento em que já não há códigos nem norma de conduta, no lugar disso você tem um imenso repertório de vidas possíveis nas quais você vai encontrando inspiração.”
A grande questão que me faço é como o mito da Princesa Encantada associado à função modelar da ficção mudam/mudaram/vêm mudando o modo pelo qual os homens buscam, imaginam, vivenciam os relacionamentos amorosos. É preciso cuidado para responder a isto, e não me sinto pronto para fazê-lo. Sei, pelo menos, que não devemos fazer apenas uma transferência do que pensamos do mito do Príncipe Encantado para este novo — embora este ato não seja de todo errôneo, e digo isto pensando em mim próprio, que perco noites em devaneios e suspiros pela Princesa Encantada da vez; que me pego com frequência buscando a fórmula do “e viveram felizes para sempre”. Assim como Ted. E, talvez, assim como aqueles meus colegas de albergue.



