Outro dia eu fui à banca de revistas e encontrei uma edição vagabundíssima de Ecce Homo, de Nietzsche. Era um livro molenga, com uma capa verde-cocô-de-diarréia e a clássica foto de perfil do filósofo abaixo do título, em tamanho 3×4.
Até aí nada demais. De hoje que as bancas vendem livros filosóficos, não é mesmo? O intrigante, aqui, é que ele estava na seção de publicações pornográficas, ao lado de uma G Magazine.
Partindo do pressuposto de que o dono da banca não conhece Nietzsche, sua lógica foi implacável: um livro com a palavra HOMO no título, seguido de uma foto com um bigodudo nos moldes que o Tom Cavalcante, baseado no figurino do Village People (?), criou para seu personagem Pit Bicha — deve se tratar, realmente, de algo voltado para uma parcela do público gay masculino.
Oh, isto renderia um diálogo engraçadíssimo sobre o que aconteceria caso um comprador assíduo de Playboy, Brazil, Sexxxy e afins decidisse comprar aquele livro na mão daquele vendedor. O vendedor, do tipo heterossexual conservador se passando por descolado, não conseguiria esconder seu espanto. O cliente, embora não tivesse problema algum com a homossexualidade, tentando provar para o outro que se tratava apenas de um livro filosófico, abriria em uma página aleatória e leria:
“Pobre quem nunca esteve enfermo o bastante, como para GOZAR desta ‘VOLUPTUOSIDADE DO INFERNO’ (…) Creio que conheço melhor que ninguém as façanhas gigantescas que WAGNER é capaz de realizar”.
Antes que eu pudesse escrever algo, porém, li uma crônica no blogue de Antonio Prata que gerou alguma polêmica pelo fato de um personagem seu utilizar o termo “bicha” de forma depreciativa. Prata pediu desculpas no post seguinte, assumindo que “os preconceitos, assim como os clichês e as gripes, são males que contraímos e distribuímos sem perceber.” Esta, aliás, foi uma das questões discutidas por Foucault em sua obra: como o discurso se constrói, como herdamos e reproduzimos um conjunto de afirmações que julgamos serem a Verdade, quando se trata apenas de uma construção histórica.
Para dar um exemplo rápido e relacionado ao assunto, quem estuda sobre a Grécia Antiga seguramente vai se bater com a informação de que a relação entre homens fazia parte da sua cultura. (Em Banquete, de Platão, uma belíssima obra sobre o amor, um dos personagens chega a falar que os melhores homens para companheiros são os que estão no início da puberdade.) Como dizer que um hábito cultural é errado, inatural? De natural, só temos nossos corpos, e olhe lá, senhoras e senhores vacinados.
Por compreender que construir aquele diálogo só ajudaria a corroborar o discurso homofóbico, com o qual não concordo, desisti dele. O que me levou, por outro lado, a pensar na pretensa liberdade criativa e discursiva da literatura. Era uma situação engraçada, afinal — e não falo aqui de um cara tentando convencer o outro de que ele não é gay, mas de encontrar Nietzsche ao lado de uma G Magazine.
No fim das contas, saiu este post.



