Uma das primeiras coisas que faço ao ter um livro em mãos é ler sua frase inicial. Não é raro que eu ignore orelhas e as aspas da contracapa. Quando estou na livraria, olhando títulos aleatoriamente, apanho uma obra, leio sua primeira frase ou primeiro parágrafo, devolvo-a à estante e passo para a seguinte. A frase inicial é, mesmo, um dos principais fatores de decisão na hora da compra.
Ao comentar tal idiossincrasia no Twitter, o amigo Leonardo Pastor, do Vísceras Literárias, me enviou um link com um top 100 de melhores inícios de narrativas, feito pela American Book Review. Com a modéstia que cabe à situação, decidi fazer a minha própria lista, mas não com 100 itens, apenas 10. A bem da verdade, não é propriamente um top, já que não pretendo, nem faz sentido, estabelecer uma classificação de superioridade para os excertos abaixo. Fui-os elencando à medida que me vinham à mente. São todos memoráveis.
Admito: sou interno de um hospício.
[Günter Grass, O Tambor]
Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
[Franz Kafka, A Metamorfose]
No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5:30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.
[Gabriel García Márquez, Crônica de uma Morte Anunciada]
Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.
[Leon Tolstoi, Anna Karenina]
O meu dono, Baltazar Van Dum, só sentiu os calções mijados cá fora, depois de ter sido despedido pelo director Nieulant.
[Pepetela, A Gloriosa Família]
Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daquia pouco chegarão com o mar.
[João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro]
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.
[José de Alencar, Iracema]
Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.
[José de Alencar, Senhora]
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas “Memórias póstumas”.
[Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas -- dando função literária à página de dedicatória]
No século XVIII viveu na França um homem que pertenceu à galeria das mais geniais e detestáveis figuras daquele século nada pobre em figuras geniais e detestáveis.
[Patrick Süskind, O Perfume]



