“Nenhuma vida está completa sem um grande desastre”, afirma o professor Benjamim Schianberg em seu livro O que vemos no mundo. Em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios [Cia. Das Letras, 229 p., R$ 41,50], de Marçal Aquino, o desastre é o amor.
É uma história simples: Cauby é um fotógrafo paulista morando numa cidade de garimpo do Pará. Um dia, conhece Lavínia, por quem se apaixona. Ela é casada e tem dupla personalidade, mas é a primeira pessoa por quem Cauby sente aquilo, ele vai encarar os riscos.
Nos últimos anos, o escritor paulista Marçal Aquino tem se destacado mais nos roteiros de cinema. Já [co-]assinou sete longas, entre os quais O Invasor, Nina, O Cheiro do Ralo e Cão Sem Dono. Com tal currículo, poderíamos esperar um romance com forte pegada cinematográfica, mas, ao que parece, ele sabe bem distinguir o que é próprio de cada linguagem: Aquino mostra a força da palavra numa trama de ritmo ágil, cheia de parágrafos curtos e incivisos. E com humor bem peculiar, a começar pelo nome do protagonista — Cauby — como o cantor?, é! — , pelo tresloucado professor Benjamim Schianberg e seu ensaio sobre a vida citado a todo momento, ou mesmo pelos títulos dos capítulos — “O amor é sexualmente transmissível”, “Postais de Sodoma à luz do primeiro fogo”.
Além do mais, ele consegue dar um desfecho que surpreende e comove, que nos faz manter os cantos dos lábios suspensos até o ponto final. E, depois, pôr o livro sobre o peito e olhar pro teto, pensando em nossos próprios desastres. Digo, amores.



