[26/08/09] Este é o primeiro capítulo de uma novelinha inacabada, escrita pelos idos de 2006. Os outros capítulos existentes estavam aqui, mas eu acabo de deletá-los, já que não tive tempo para terminá-la. Espero algum dia dar o ponto final que ela merece.


I

Para os humanos, é apenas o campus de uma universidade, uma reserva florestal incrustada de edifícios de designs esquisitos; mas para outras espécies trata-se de seu último refúgio. Onde mais, em plena cidade grande, poderiam viver em paz cachorros, patos, micos, gatos, etc.?

Viver em paz em relação aos homens, claro. Paz não é bem o que reina ali. Os tempos dourados, quando existia um restaurante universitário central, se foram. Não há mais a moleza de um grande prédio onde se concentra toda a comida. Agora, cada faculdade do campus tem sua própria cantina, e a maioria delas se localiza injustamente nos andares mais altos, longe do alcance dos bichos. (Mesmo o lixo é mantido lá em cima, e só desce para ir direto ao caminhão que o recolhe.) Deste modo, as espécies que antes viviam em harmonia — o que se pode chamar assim sem excluir seus instintos naturais –, atualmente travam uma Guerra Fria, uma guerra sem lutas, mas que pode partir para o conflito físico a qualquer momento. Tudo pelo controle dos poucos restaurantes localizados nos térreos.

Entre os gatos existe uma figura lendária — Bósis, O Pançudo. É um belo felino de pelos negros, com manchas brancas nas patas, nas orelhas, barriga, rabo e focinho; impávidos olhos amarelos; garbos bigodes. Orgulha-se sobretudo de ser gordíssimo, pois, no seu entender, a obesidade transmite impressão de poder e fartura. Seu prestígio e fama já correram o campus tal qual os de Alexandre, O Grande correram o mundo. E merecidamente, diga-se, posto que Bósis, antes de ser O Pançudo, demonstrou-se um talentoso estrategista e líder durante a Guerra dos Gatos, um dos eventos mais brutais que já aconteceu no campus, e que o dever, mais que o desejo, me obriga a narrá-lo:

Na cantina da Faculdade de Matemática, hoje fechada, havia um estudante alérgico a gatos, que gritava sempre para o dono do estabelecimento que se livrasse daqueles “animais nojentos”. A cantina de Matemática era um dos dois pontos exclusivos dos gatos; só eles podiam circular por ali, miando e fazendo caras de coitadinhos*, no intuito de descolar alguma comida fácil e assim não precisarem partir para a caça aos ratos do local. Um dia, o estudante alérgico, em meio a uma forte crise de espirros, arrancou uma perna de uma mesa de plástico e atacou os gatos. Havia oito, dos quais cinco eram filhotes, na ocasião. Um dos pequenos morreu, e os outros quatro saíram com as patas quebradas.

Oh, aquilo exigia retaliação!

Os gatos convocaram uma assembleia para discutir o que fariam, e foi nela que o jovem e ousado Bósis impressionou a todos com seu plano brilhante: sujar a cantina com tanto cocô e xixi que ninguém ficasse indiferente à indignação dos gatos.

Assim foi feito. E apesar de parecer um plano essencialmente simples, não se engane: exigiu um esforço sobrefelino dos gatos, pois, como todos sabem, essa espécie é notória por sua higiene. Cocô e xixi, só em lugares onde se possa cobri-los com terra.

A princípio, não havia gatos suficientes para que a retaliação atingisse as proporções planejadas. E aí Bósis se destaca mais uma vez, por ter conseguido apoio mesmo dos pacatos cachorros e dos egoístas micos, que nunca se solidarizavam com as causas alheias.

Ao pobre estudante, também estava reservado seu quinhão no atentado. Por onde andava e sentava esbarrava-se com um cocô. Os micos, em especial, deram-lhe vários banhos de xixi quando este passava por debaixo de alguma árvore.

Mas a Guerra dos Gatos teve um fim imprevisto: por diversos motivos — que iam de medo de um segundo atentado até mesmo a consideração para com os gatos –, os estudantes passaram a não mais frequentar a cantina da Faculdade de Matemática, que foi obrigada a fechar. E o antes adorado Bósis recebeu a ojeriza de seus iguais, que o culpavam por ter perdido um dos dois pontos somente deles.

Magoado, Bósis decidiu abandonar a política e adentrar o submundo, dedicando-se, a partir de então, somente a causas de seu interesse.

E assim nasceu a máfia felina Os Gatunos.

* Como é sabido, os gatos em geral não são nada bons em fazer cara de coitadinho. Mas os do campus são uma exceção, graças a um curso com o renomado fisionomiologista canino Estanislavisque (os cachorros são mestres nesta arte).


Davi B.
fez um comentário

July 24, 2009 @ 01:37

Negão, tu não podes nunca esquecer dos famosos cachorros da Facom: Wilson, Benjamin e Monclar. Estranhamente, todos eles desapareceram na mesma época. Dizem por aí que a culpa é de um certo dogue alemão albino…

Lígia
fez um comentário

July 24, 2009 @ 07:59

Fantástico o resgate deste episódio crucial da história felina. Muito bom, adorei!

Rafael Lins
fez um comentário

August 27, 2009 @ 18:30

Eu li este capítulo ainda em 2006. E até hoje xingo o autor pelo ponto final não dado.

Comente




XHTML: Você pode usar as seguintes tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>