Quando eu entrei no gibi, me senti oco – como se tivesse perdido todos os órgãos, todo o meu sangue. A arma, presa na cintura, pareceu triplicar de peso, e a segurei para não cair. Então, algo cheirando a suor passou voando rente ao meu nariz e eu quase me desequilibrei. Um grito: Cebola! Vamo, véi! Aquela voz de quem parecia ter um ovo na boca era minha conhecida. Ouvi-a muitas vezes num VHS de minha infância, A rádio do Chico Bento. Bons tempos. Quando o mundo parecia ter uma ordem clara e imutável; quando eu sabia que, depois da primeira série, o lógico seria ir para a segunda, e depois para a terceira, e quarta, e…

Agora, o caos. Cheguei ao terceiro ano e me disseram: Vá para onde quiser, conquanto seja para a universidade – e eu não soube escolher o que cursar, mas foi até bom, porque aí me disseram: Vá para o cursinho, até saber – e, por um instante, a ordem do mundo que eu conhecia pareceu voltar. Havia, contudo, qualquer coisa de frágil nela, e isto se revelou pela primeira vez quando o papa João Paulo II morreu. Ele, que eu julgava imortal. Dois anos depois, ACM, outro imortal, morre. Sandy & Jr se separam. Todos estes pilares da minha infância sendo destruídos, e eu incapaz de fazer algo para impedir. Mas com a Turma da Mônica ia ser diferente. Eu não os deixaria crescer. Por isso entrei naquele gibi. Por isso — e por maior que fosse a vontade de abraçar o Cebolinha (meu predileto) quando o vi sair de casa e se aproximar do Cascão – por isso eu atirei. O mundo precisava voltar à sua ordem.

Passei pelos corpos caídos e parei no meio da rua. Saquei um bombom do bolso e o abri fazendo o maior ruído possível com a embalagem. A garota que meteu a cabeça para fora de casa só podia ser ela. Me olhou suplicante. Eu sorri e ofereci o doce com um gesto. Ela aceitou e sumiu da janela, mas não chegou a pôr os pés na rua: assim que a porta se abriu, o tiro a fez tombar para dentro.

Só restava a Mônica, e eu sabia que iria encontrá-la na primeira página. Tomei um atalho pelo rodapée cheguei a um quarto de menina adolescente, com pôsteres de galãs nas paredes e ursinhos nas prateleiras, disputando espaço com CDs. Vi dois pés de unhas pintadas se balançando na cabeceira alta da cama. Uma voz lia alguma coisa, e eu também conhecia a sua dona. Acerquei-me devagar, agachado. Espreitei por cima da cabeceira e vi um par de pernas roliças e desnudas, que terminavam numa calcinha azul-bebê, cujo coelhinho da estampa, com um olho tampado pela camisola desalinhada, parecia piscar para mim. Ouvi: Estou crescida – e não tive dúvidas. Repousei a arma no chão e pulei na cama, em cima das pernas da Mônica. Que, sim, estava crescida. E felizmente ainda não usava aparelho nos dentes.

[Publicado na revista Lupa #6, inverno/2009]


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