Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!
Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.
Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!
Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.
Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.
Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.
Quem diria, hein?!
Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.
Entretanto, assim como a sorte vem… No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.
– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?
– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo…

Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!

Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.

Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!

Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.

Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.

Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.

Quem diria, hein?!

Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.

Entretanto, assim como a sorte vem… No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.

– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?

– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo…


Mônica Bittencourt
fez um comentário

August 30, 2009 @ 22:55

Seus textos são uma cachaça. Leio um e quando vou ver já li uns cinco!
É um capítulo de Lost, um bis, um copo de cerveja.. São geniais, mas atrapalham minha vida!

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