Recebi um email com um crônica na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher quando é convidada para jantar. É preocupar-se com a forma; fazer mão e pé; e escova e hidratação; é pensar na roupa certa; aceitar o aperto dos sapatos bonitos e o desconforto da calcinha sexy. É tanta coisa, que já esqueci metade, embora tenha me esforçado para memorizar, juro.
Contudo, durante a leitura me pareceu que ela tentava fortalecer seu ponto alegando um total descompromisso da parte masculina para com a situação. “Ele diz, como se fosse a coisa mais simples do mundo ‘Vamos jantar amanhã?’.” Daí resolvi explicar um pouco o lado masculino também.
Oscar Wilde escreveu: assim como os homens amam com os olhos, as mulheres amam com os ouvidos. Essa frase tem lá sua verdade, mas não está bem calibrada. Podemos dizer assim: os homens são extremamente visuais, enquanto as mulheres trabalham todos os seus sentidos. E mais — trabalham a sua imaginação. As mulheres são muito afeitas à narrativa, ao contexto, à progressão das coisas. Assim, convidá-la para jantar é fazê-la entrar em um filme, desde o momento em que abre a porta da casa até o momento em que volta a abri-la. Cada encontro, para ser bem sucedido, tem de dar um trabalho digno de produção hollywoodiana.
Primeiro, o cenário. A locação é muito importante para as mulheres. Homens não costumam reparar nela, e os filmes pornô são a maior prova disto. O seu primeiro desafio, então, é escolher um restaurante que seja minimamente badalado mas sem perder o tom intimista, e com boa decoração.
Percebeu? São três qualidades extremamente abstratas, que envolvem mais que a mera visualização. Você conhece um lugar assim? Difícil. Você só frequenta este tipo de ambiente quando convida mulheres para jantar, porque, no dia-a-dia, qualquer boteco onde se possa comer bem e beber cerveja em copo que não seja de plástico já está valendo. O lugar mais arrumadinho e intimista disponível na sua memória é uma pizzaria — você acaba de confundir intimista com caseiro, por conta das toalhas xadrez que te lembram a casa da sua avó  – ou um restaurante chinês, com a calmaria que seus aquários nas paredes inspiram. Mas, ei, pizzaria e chinês são muitas vezes vistos com maus olhos, como parentes do boteco ou da barraquinha de cachorro-quente. Não, não pode ser nenhum dos dois — ou até pode, só quem com um outro fator de dificuldade acrescido: deve ser um lugar desconhecido. Nada que tenha saído na Veja ou no caderno cultural recentemente. O que elimina todos os japoneses que você conhece também.
As mulheres querem sempre ser surpeendidas, e se você não é capaz de fazê-lo, você não tem chances com ela. Se você só vive o básico da urbanidade moderna, isto é, tem um trabalho monótono e transita entre a academia, o baba, a praia, o cinema, o bar, algum show e casa — rá, se fodeu. Arranje um hobby perigoso, um trabalho glamouroso, algo que faça de você especial, sui generis. Eu conheço uma garota que namorava um apaixonado por camping e trilhas. Ela, que até então nunca tinha ido nem em fazenda, vivia o acompanhando e me falava com verdadeira fascinação das aventuras que encaravam. Quando terminaram, ela nunca mais voltou a acampar. Nem por trauma dele nem nada; simplesmente não lhe interessava mais.
Ou seja, em paralelo à produção do cenário, você precisa compor o seu personagem de mocinho psicologicamente. Ele deve ser um James Bond ou Indiana Jones, com um timing de piadas do Seinfeld ou do friend Chandler. A cada jantar, temos de fazer um show de stand up comedy. Uma vez eu ouvi um “ui, ficamos sem papo” e, acredite, não foi nada bom.
Vamos agora a um outro aspecto:
Quando você vê alguém indo ao banheiro em um filme? Ou pegando fila? Atravessando a rua ou preso num engarrafamento?
Resposta correta — somente quando isto tem importância dramática.
Nas histórias, o que é irrelevante não precisa ser contado. Esta regra narrativa nos obriga a transformar todo e qualquer momento do encontro em significante. Por exemplo, no caminho entre a casa dela e o restaurante. O carro está limpo? A seleção de músicas foi minimamente pensada? Let’s get it on está seguramente incluída e posicionada para tocar na volta para casa? Você vai conseguir iniciar o stand up enquanto dirige e presta atenção redobrada aos ladrões que sempre podem te surpreender no trânsito? E quando você descer e os três flanelinhas da rua se aproximarem, ameaçadores, cobrando 10 reais — você vai aceitar a extorsão com aquela engasgada que dá sempre nessas situações, dando a ela inconscientemente a certeza de que você não é herói porra nenhuma, ou vai peitá-los e mostrá-la quão bravo você, ainda que isso lhe valha uma surra?
Bom, mas supunhamos que tudo ocorra bem, e os caras só cobrem 2 reais. Depois de jantar, aonde quer que vocês forem, e até se separarem, o filme continua. Um novo cenário deslumbrante é preciso, um nova temporada de stand ups também e, assaz importante, Let’s get it on não deve ser tocada no trajeto para a esticada na boate.
Eu poderia terminar dizendo algo do tipo: tá vendo, a gente tem muito mais trabalho que vocês, nossas responsabilidades dependem de muitos outros fatores, mas é bobagem. Um encontro é realmente como um filme, e cinema é trabalho coletivo, não dá pra fazer sozinho.
Bom apetite e desliguem seus celulares. :)

Recebi um email com um crônica na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher quando é convidada para jantar. É preocupar-se com a forma; fazer mão e pé; e escova e hidratação; é pensar na roupa certa; aceitar o aperto dos sapatos bonitos e o desconforto da calcinha sexy. É tanta coisa, que já esqueci metade, embora tenha me esforçado para memorizar, juro.

Contudo, durante a leitura me pareceu que ela tentava fortalecer seu ponto alegando um total descompromisso da parte masculina para com a situação. “Ele diz, como se fosse a coisa mais simples do mundo ‘Vamos jantar amanhã?’” Daí resolvi explicar um pouco o lado masculino também.

Oscar Wilde escreveu: assim como os homens amam com os olhos, as mulheres amam com os ouvidos. Essa frase tem lá sua verdade, mas não está bem calibrada. Podemos dizer assim: os homens são extremamente visuais, enquanto as mulheres trabalham todos os seus sentidos. E mais — trabalham a sua imaginação. As mulheres são muito afeitas à narrativa, ao contexto, à progressão das coisas. Assim, convidá-la para jantar é fazê-la entrar em um filme, desde o momento em que abre a porta da casa até o momento em que volta a abri-la. Cada encontro, para ser bem sucedido, dá um trabalho digno de produção hollywoodiana.

Primeiro o cenário. A locação é muito importante para as mulheres. Homens não costumam reparar nela, e os filmes pornô são a maior prova disto. O seu primeiro desafio, então, é escolher um restaurante que seja minimamente badalado mas sem perder o tom intimista, e com boa decoração.

Percebeu? São três qualidades  abstratas, que envolvem mais que a mera visualização. Você conhece um lugar assim? Difícil. Você só frequenta este tipo de ambiente quando convida mulheres para jantar, porque, no dia-a-dia, qualquer boteco onde se possa comer bem e beber cerveja em copo que não seja de plástico já está valendo. O lugar mais arrumadinho e intimista disponível na sua memória é uma pizzaria — você acaba de confundir intimista com caseiro, por conta das toalhas xadrez que te lembram a casa da sua avó  – ou um restaurante chinês, com a calmaria que seus aquários nas paredes inspiram. Mas, ei, pizzaria e chinês são muitas vezes vistos com maus olhos, como parentes do boteco ou da barraquinha de cachorro-quente. Não, não pode ser nenhum dos dois — ou até pode, só quecom um outro fator de dificuldade acrescido: deve ser um lugar desconhecido. Nada que tenha saído na Veja ou no caderno cultural recentemente. O que elimina todos os japoneses que você conhece, por sinal.

Uma mulher quer sempre ser surpreendida, e se você não é capaz de fazê-lo, você não tem chances com ela. Se você só vive o básico da urbanidade moderna, isto é, tem um trabalho monótono e transita entre a academia, o baba, a praia, o cinema, o bar, algum show e casa — rá, se fodeu. Arranje um hobby perigoso, um trabalho glamouroso, algo que faça de você especial, sui generis. Eu conheço uma garota que namorava um apaixonado por camping e trilhas. Ela, que até então nunca tinha ido nem em fazenda, vivia o acompanhando e me falava com verdadeira fascinação das aventuras que encaravam. Quando terminaram, ela nunca mais voltou a acampar. Nem por trauma dele nem nada; simplesmente não lhe interessava mais.

Ou seja, em paralelo à produção do cenário, você precisa compor o seu personagem de mocinho psicologicamente. Ele deve ser um James Bond ou Indiana Jones, com um timing de piadas do Seinfeld ou do friend Chandler. A cada jantar, temos de fazer um show de stand up comedy. Uma vez eu ouvi um “ui, ficamos sem papo” e, acredite, não foi nada bom.

Vamos agora a um outro aspecto:

Quando você vê alguém indo ao banheiro em um filme? Ou pegando fila? Atravessando a rua ou preso num engarrafamento?

Resposta correta — somente quando isto tem importância dramática.

Nas histórias, o que é irrelevante não precisa ser contado. Esta regra narrativa nos obriga a transformar todo e qualquer momento do encontro em significante. Por exemplo, no caminho entre a casa dela e o restaurante. O carro está limpo? A seleção de músicas foi minimamente pensada? Let’s get it on está seguramente incluída e posicionada para tocar na volta para casa? Você vai conseguir iniciar o stand up enquanto dirige e presta atenção redobrada aos ladrões que sempre podem te surpreender no trânsito? E quando você descer e os três flanelinhas da rua se aproximarem, ameaçadores, cobrando 10 reais — você vai aceitar a extorsão com aquela engasgada que dá sempre nessas situações, dando a ela inconscientemente a certeza de que você não é herói porra nenhuma; ou vai peitá-los e mostrá-la sua bravura, ainda que isso lhe valha uma surra?

Bom, suponhamos que tudo ocorra bem, e os caras só cobrem 2 reais. Depois de jantar, aonde quer que vocês forem, e até se separarem, o filme continua. Um novo cenário deslumbrante é preciso, um nova temporada de stand ups também e, assaz importante, Let’s get it on não deve ser tocada no trajeto para a esticada na boate.

Eu poderia terminar dizendo algo do tipo: tá vendo?, a gente tem muito mais trabalho que vocês, nossas responsabilidades dependem de muitos outros fatores. Mas é bobagem. Um encontro é realmente como um filme, e cinema é trabalho coletivo, não dá pra fazer sozinho.

Bom apetite e desliguem seus celulares.