FADE IN
INT. COPA – NOITE
HOMEM, MULHER e CRIANÇA (UM GAROTINHO DE 6 ANOS) estão sentados ao redor de uma mesa pequena, comendo. O homem está na cabeceira. A mulher à sua esquerda, o garoto à sua direita. Ouve-se o som dos talheres.
A criança pára de comer e encara, perplexa, o prato do homem.
HOMEM
Quê?
A criança aponta para a peça de JOGO AMERICANO abaixo do prato do homem.
CRIANÇA
Seu apoio de prato… Tá invertido.
O homem mastiga preguiçosamente.
HOMEM (DESINTERESSADO)
E daí?
A criança olha de relance para a mulher, que lhe retribui o olhar. A criança se volta para o homem.
CRIANÇA
A mamãe falou que não é assim, que o lado onde tem o desenho tem sempre de ficar pra cima.
A criança aponta para sua própria peça de jogo americano.
O homem engole o que mastigava e encara seriamente a criança; curva-se um pouco em sua direção.
A mulher, cabisbaixa, ergue os olhos, escondidos pelos cabelos, para o homem.
HOMEM
Escuta só: nem tudo que lhe dizem que funciona de uma determinada maneira funciona somente como lhe disseram.
O homem aponta para a sua peça de jogo americano.
HOMEM
Vê? E daí que tá invertido? O importante é continuar funcionando.
A criança volta os olhos para a mulher. O homem percebe esse gesto e, diante do silêncio dela, ele, que voltara a comer, também a encara.
Ela ainda demora um pouco para falar.
MULHER (MEIO RECEOSA)
Por favor, não fale essas coisas pra ele.
HOMEM
Mas eu não falei nada demais, eu só tava ensinando ele a não se comportar maquinalmente, cumprindo as funções mais inúteis sem questionamentos.
MULHER (UM POUCO MAIS SEGURA QUE ANTES)
Você não tava ensinando ele a questionar, e sim a ser desobediente.
HOMEM
O QUÊ?! De-Desobediente?! Você chama de desobediência o fato de ele não querer seguir um padrão idiota?
O homem ergue o prato da criança e vira seu apoio de prato.
HOMEM
Pronto, filho. Não se importe com essas coisas. Guarde os neurônios para as questões maiores.
A mulher se debruça sobre a mesa e conserta a peça de jogo americano do menino.
MULHER (UM TANTO RAIVOSA)
Em primeiro lugar, ele não é seu filho. Em segundo, isto é importante sim.
HOMEM (DEBOCHADO)
Ó, que importância! Talvez os filósofos não tenham descoberto o sentido da vida porque perdiam o tempo olhando pro alto, em vez de olhar para baixo, pro seus jogos americanos.
MULHER
É importante, sim! Cria um… um… uma unidade visual. É harmônico. É estético!
O homem repete o ato de inverter o apoio de prato da criança.
HOMEM
Não dê ouvidos a esse lenga-lenga de estética e harmonia. Essas porcarias foram feitas pra não deixar cair comida na toalha da mesa. Então pouco importa se o desenhinho tá pra cima ou pra baixo. Aliás, a gente nem precisaria dessa tralha, era só estender uns guardanapos, ou mesmo folhas de jornal por debaixo dos pratos. Ou então tirar a droga da toalha e botá-la de volta depois. Repito, e preste bastante atenção, guri, essa é uma das lições mais importantes da vida e, ei, eu tô lhe dando de graça: a maioria das coisas não têm um único jeito de serem feitas, capisci?
A criança assente balançando a cabeça devagar.
A mulher torna a se debruçar, não sem certa brusquidão, sobre o prato do filho, para ajustar o apoio de prato.
MULHER
Não dê ouvidos a ele, querido. Faça como a mamãe disser e termin-
O homem segura o braço da mulher com força e a repele com rudeza, forçando-a a se sentar novamente. Ela não consegue ajeitar a peça de jogo americano do filho.
HOMEM
Porra, não tá vendo que tamos tendo uma conversa de homem pra homem? Acredite, um dia você vai me agradecer por isto. Vamos lá, guri. Eu quero agora que você me dê um exemplo que prove que você entendeu o que eu te disse.
A criança alterna o olhar entre a mulher (que está séria, indignada) e o homem (que lhe sorri, afável). Parece ponderar se deve falar algo ou não.
O homem dá um tapa na mesa.
HOMEM (ELEVANDO A VOZ)
Vamos! Eu quero um exemplo!
CRIANÇA
Eh… Ahn… Bom, eu gosto de comer pizza com a mão, mas a mamãe diz que não pode, principalmente fora de casa…
O homem sorri de satisfação.
HOMEM
Tá vendo? Tá vendo que bobas são certas regras? O importante não é saborear uma deliciosa pizza? Que seja com a mão, então! Quer saber, eu vou comer esse bife com a mão agora. Depois eu lavo e pronto.
O homem cata um pedaço de carne no seu prato com a mão e o atira na boca. Mastiga-o com deleite.
HOMEM
Será que você é capaz de me dar outro exemplo? Esse primeiro foi muito bom, mas de certa forma ainda tem relação com o lance do jogo americano. Agora eu quero um que não tenha a ver com comida.
A criança pensa por uns instantes, agora sem se importar (nem mesmo reparar) com o olhar de repreensão da mulher.
CRIANÇA
Hum… A mamãe me faz arrumar a cama todo dia de manhã, mas eu nunca entendi pra que fazer isso, se de noite a gente vai bagunçar ela de novo.
O homem gargalha e aplaude.
HOMEM
Bravo! Bravo!
O homem lança um olhar meio debochado para a mulher e em seguida torna a fitar a criança.
HOMEM
E você já comentou isso com ela alguma vez?
CRIANÇA
Já, mas ela manda eu ficar quieto e diz: Obedeça a mamãe, obedeça sempre a mamãe.
HOMEM
É mesmo? E você acha essa uma resposta convincente?
CRIANÇA
Acho que sim, já que todo mundo diz sempre que a gente tem de obedecer às mamães.
A mulher sorri.
MULHER
Viu só? Ele sabe que a mamãe só quer o bem dele, e que só pede a ele para fazer isso porque são coisas boas para ele.
O homem se mostra um pouco abalado.
HOMEM (ENFÁTICO)
As escolas! Elas só prestam pra reproduzir esse modelo caduco de vida que aí está. Provas, estrelinha de melhor aluno, punição… que tipo de educação é esta?! Pois se ele fosse meu filho, ia ser educado em casa, ou então em algum liceu como os da Grécia Antiga. Deve existir alguma escola progressista que copie o modelo grego…
MULHER
Graças a Deus, ele não é seu filho.
HOMEM
Uh! Agora você não precisa mais da figura paterna que vive me pedindo para ser, né? Que bom, eu estou fora então. E acho até boa a possibilidade de ele virar gay por falta de figura paterna. Assim você aprende que tem certas coisas que não funcionam só de uma maneira.
A mulher se levanta de vez.
MULHER
De toda sorte, ele cresceria longe de você, o que já seria ótimo! Eu não quero essas suas filosofias na cabeça do meu filho! Nada desse negócio de regras idiotas, de não ser errado fazer as coisas de tal ou tal forma. A gente sabe muito bem onde isso pode levar, né? Hoje é o jogo americano que pode ser usado invertido. Amanhã pode ser alguém que pode ser morto porque era um filho da p… um… um… alguém que não presta!
O homem também se levanta, bruscamente, levando a mão direita às costas. Encara a mulher com seriedade.
MULHER
E, no fundo, a gente sabe que pensar desse jeito é só uma desculpa pra você deitar a cabeça em paz num travesseiro, né?
O homem continua encarando a mulher, sério. Em instantes, toda a confiança dela se esvai, o medo emerge em seu rosto. O homem anda vagarosamente em direção à criança, ainda com a mão direita nas costas, escondida sob a blusa. Ele pega um pedaço de carne grande do prato da criança e lhe entrega em mãos. Limpa a mão no guardanapo e a coloca sobre o ombro do garoto. Guia-o até fora da copa, fechando a porta. Tudo isso sem desviar o olhar da mulher.
INT. CORREDOR – NOITE
A porta atrás da criança acaba de se fechar. Ela recosta-se na porta, mas gira o pescoço para o lado, para o ouvido ficar mais próximo à porta e tentar ouvir alguma coisa. Ainda segura o pedaço de carne nas mãos. Ouve cochichos ininteligíveis. Depois, ouve a mãe gritando.
MULHER (V.S.)
Na-Não! Não!
A criança volta o rosto para frente, para a janela na parede oposta à porta. Tem os olhos arregalados. Aí atenta para a carne em suas mãos e morde-a. Enquanto mastiga, calmamente, ouve um TIRO.
FADE OUT.



