“Fo-en! Fo-en!”

Foen, aqui na Bahia, é sinônimo de fanho, aquela pessoa que tem voz nasalada.

“Fo-en! Fo-en!” — era assim que as outras crianças me perturbavam.

Eu nasci com algumas deformações no lado direito do rosto. (Não gosto dessa palavra deformação, porque ela está ligada a idéias ruins, e aí eu fico me sentindo um ogro. Escrevi-a porque é mais entendível do que o termo que os médicos usam para nomear um problema como o meu: má formação congênita.) Tinha uma espécie de verruga logo abaixo do olho; não tinha o osso que dá forma à maçã do rosto; tinha a boca torta e maior desse lado; tenho até hoje uma saliência do lado do nariz por conta de um canal lacrimal que, digamos, estufou; e também sou fanho. Contudo, dessas “más formações congênitas” as outras crianças não faziam troça, mas perguntas, do tipo: “o que aconteceu com você pra ser assim?” “É-É.. De nascença”, dizia eu cabisbaixo, numa vozinha triste, cheio de pena de mim mesmo por me achar um anormal, alguém diferente de um modo ruim.

Zombaria era me chamar de “fo-en! fo-en!” Eu abria o berreiro e ia correndo pro colo da minha vó, que me consolava dizendo que eu não tinha que me importar com o que diziam sobre minha aparência física, e sim sobre o meu comportamento, as minhas idéias. “Por isso, estude bastante, leia bastante, para ser bem inteligente. Pois pessoas inteligentes nunca são motivo de chacota”, me dizia ela.

Quando eu ganhei minha primeira coleção de livros, a história que mais me cativou foi a do patinho feio. Lia e relia, e relia, e relia; sempre sonhando com o dia em que eu cresceria e, talvez, me tornasse um belo cisne, fazendo desaparecer como que por mágica todas as minhas “má formações congênitas”. No fundo, não acreditava na minha avó, dizendo que eu devia não me importar com a aparência. Porque, puxa!, eu me sentia incomodado com as perguntas e falações, eu queria que elas parassem.

E pararam. Em parte porque as outras crianças, como todas as pessoas, aprenderam com o tempo que há certas coisas que têm de ser ditas com bastante cuidado, para não magoar ninguém; em parte porque fiz algumas cirurgias plásticas. Mas, sobretudo, porque minha vó estava certa: se eu não tivesse lido e estudado bastante, de nada adiantariam as cirurgias. Eu ia ter uma boca ajeitada, porém só ia sair bobagem dela, e eu continuaria sofrendo deboche. Seria um cisne desafinado.


[cronicazinha escrita para um projeto do meu editor, Luis Camargo, com crianças da 1a série da rede de ensino público do Rio de Janeiro e publicado em A Tardinha, na edição de hoje]