De repente, teve uma vontade desvairada de rir. Como se acabasse de ganhar na sena. Ou como se a maior das desgraças, de dimensões infinitas, acabasse de lhe acontecer. A muito custo controlou a explosão; riu pouco, mas com gosto. Os dentes cobertos de saliva, o copo descartável com vodka e coca balançando perigosamente próximo à sua calça cáqui.
Teve vontade de mandar a garota ao seu lado ir à merda. Lá estava ela, os olhos revelando toda a impaciência e ansiedade que o resto do corpo (incluindo as mãos) dissimulava. Ridícula. A boca de lábios fartos num sorriso de vitrine, o nariz se impondo arrebitado como um general, ordenando que ele continuasse a falar. Na certa, supunha que aquele riso viera à tona junto com alguma lembrança, uma história interessante que ele começaria a contar, cumprindo assim seu papel no ritual da conquista. Sua função era ousar, bem sabia, enquanto a dela era recusar. Ele então deveria ousar mais; ela, recusar mais – e a intensidade dessa disputa aumentando até culminar num beijo longo, alguns amassos e o objetivo final: fazer amor.
Sim, ela parecia ser do tipo que faz amor.
E amor se faz?
A vida inteira até ali ele preferiu foder, trepar, copular – gozar e deitar lado a lado, uma barreira de fumaça de cigarro entre nós. Mas estava se cansando daquilo, daquela forma de ser homem. Seu gozo nunca lhe trouxera mais que arrependimento. Culpa. Ele não deveria estar fazendo aquilo, não com ela. Não seria legal. E se não for másculo, às favas com a virilidade. Cansou de provas. Ele não precisava se provar e não dava a mínima para o que os outros pudessem comentar. Não queria mais transar, comer, fornicar. Queria, ele também, fazer amor. (E amor se faz?) Decerto não com ela; sua pompa de quem se achava no direito de experimentar o amor dele só a fazia mais ridícula e risível. Aquele amor, nunca compartilhado até então, só pertenceria a uma mulher especial, que soubesse dialogar no silêncio – no silêncio total: de palavras, de olhares, de corpo. Uma mulher forte o bastante para enxergar toda a podridão inerente à personalidade dele e que, ainda assim, aceitasse-o – sem pena, sem fascinação.
Ele só queria esperar.
No embalo desses devaneios, o riso se transformou em vazio. Algo próximo da amargura, mas era vazio. Permaneceu calado, olhando para o bico dos sapatos. Seu amigo e anfitrião da festa passou trôpego por eles, carregado por uma garota de piercing no nariz. A um sinal da outra, garota ao seu lado respirou fundo, como se houvesse no ar o gás da coragem.
Ela lhe chamou pelo nome, tocando-lhe a perna com uma ternura incógnita (verdadeira ou falsa?), repugnante. Perguntou-lhe se estava bem. Ele meneou a cabeça e soltou um “não é nada”, sem desviar os olhos vazios dos sapatos. Ela tocou-lhe carinhosamente a face, com uma mão quente e suada, obrigando-o a fitá-la. A insensível não foi capaz de perceber o vazio estampado nos olhos dele, porque às vezes ficamos assim: vazios, e a maioria das pessoas confunde esse vácuo existencial com depressão, sem atentar para o detalhe que, para dar-se à melancolia, é preciso ter alguma noção, mesmo errônea, do que seja a felicidade. Mas ela em nada disso reparou, pois baixou os olhos para a boca fina e ressecada dele e o beijou. Beijou-o como se com a língua pudesse sondar, sugar seus pensamentos. O corpo dela se aproximou, suas mãos se entrelaçaram atrás da nuca dele, enquanto a língua tentava cutucar-lhe a ferida, encontrar a sua alma. E os lábios dela eram de uma quentura confortante, que fazia esquecer.
Ele tentou permanecer de olhos fechados, tentou esquecer, só mais daquela vez, mas não era possível. Abriu-os; suas retinas sugaram o mundo como aspiradores. De repente, enxergava tudo mais de perto, mesmo os quadros de mau gosto no fim do corredor; via tudo mais próximo e com uma riqueza aflitiva de detalhes. Doía ver tudo daquela forma.
Ela, mesmo percebendo o bloqueio, enfiava a língua mais fundo, apertava mais os olhos e puxava a cabeça dele para si com mais força, na esperança inútil de o não começado não terminar. Seus motivos, um mistério. Toda mulher é um mistério. A maioria, um mistério medíocre, mas ainda assim mistério.
Foi em vão. Ele se livrou dela com um empurrão brusco e encarou-a com estranheza, medo e raiva (o vazio, enfim, preenchido). Ela se preparava para se indignar ou chorar – ainda não havia se decidido –, mas não houve tempo: a mão que lhe veio de encontro à face era pesada, o tapa doído a desconcertou, todos os pensamentos migraram para a bochecha, onde começaram a arder.
Com o rosto de lado, seu olho deslizou timidamente para o canto e, escondido sob a vasta cabeleira loura, pôde ver o momento em que ele se levantou, cuspiu no copo com nojo e saiu do apartamento.
[Publicado no e-zine Paralelepípedos, 003]