Em setembro do ano passado, escrevi uma matéria sobre arte feita em zonas de guerra, que figurou como capa do Caderno 2+ do jornal A TARDE. Foi a minha primeira matéria de capa e, por sinal, aquela cujo resultado mais me deixou orgulhoso. Abaixo, o texto principal da reportagem. Aqui, o PDF com o conteúdo completo [1,6MB].
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O muro que separa, ao longo de 700km, o território palestino na Cisjordânia do Estado de Israel vem sendo construído desde 2002, sob severa reprovação da Organização das Nações Unidas (ONU). Há poucos dias, a organização lançou o curta-metragem Walled Horizons [Horizontes Murados], estrelando o pinkfloyd Roger Waters como apresentador da muralha e de como ele afeta a vida dos palestinos.
“Essencialmente, ele faz da Palestina a mais prisão a céu aberto do mundo”, declarou o artista urbano inglês Banksy em seu livro Wall and Piece. Cultuado mundialmente, Banksy é o autor de uma série de graffitis no muro da Cisjordânia. Eles rompem a opressão da estrutura e faz dela mero fundo para as irreverentes imagens de portas, janelas, buracos e escapismo.
A arte pode ser de grande valia quando um país se encontra em conflito. Para Monclar Valverde, pesquisador no campo da estética e professor do Instituto de Humanidades, Artes & Ciências Professor Milton Santos (IHAC) da Universidade Federal da Bahia, quando a sobrevivência e a dignidade estão ameaçadas, a argumentação política e o discurso moral perdem sua eficácia. Assim, a razão em crise, resta-nos o plano da sensibilidade para nos expressarmos.
Mas nem todos os artistas têm o status de um Banksy ou um Roger Waters. Ao sul de Israel, na Faixa de Gaza, um coletivo de artes visuais luta contra a a falta de visibilidade. É o Eltiqa (A Assembleia). “O principal obstáculo é a falta de viagens para workshops, exibições e outros eventos. Elas são impedidas por conta do sitiamento de Gaza. Este isolamento também atrapalha o nosso desenvolvimento técnico”, relata o artista plástico Mohammed al Hawajri, integrante do Eltiqa.
Seguramente, eles não são os únicos a enfrentarem dificuldades para criar no meio do fogo cruzado. Segundo relatório de setembro da ONG International Crisis Group, cerca de 70 regiões no mundo apresentam conflito em andamento ou pronto a estourar a qualquer momento. A maioria delas está na África, efetivamente uma sequela do recente processo de descolonização do continente.
Nollywood
Uma dos cenários mais interessantes de produção cultural da atualidade é a Nigéria. O país enfrenta dois conflitos paralelos: os radicais islâmicos da Boko Haram e os guerrilheiros do Movimento para a Emancipação do Delta do Níger (Mend).
Mesmo assim, a indústria cinematográfica nigeriana consolidou-se como a terceira maior do mundo. Nollywood, como é conhecida, está atrás somente de Bollywood, na Índia e, claro, de Hollywood.
Em um Ted Talk, evento de curtas conferências, o cineasta ítalo-zambiano Franco Sacchi estimou que Nollywood poderia produzir 2 mil filmes por ano ano. O custo médio de uma produção seria de 10 mil dólares e demoraria sete dias para ser rodada.
A qualidade técnica e narrativa podem deixar a desejar, mas a ideia é que estes filmes, que circulam em CDs e custam pouco, sejam commodities. “Fazemos filmes para a massa, e não para a elite e pessoas em casas de vidro. Eles podem dar-se ao luxo de assistir seu Robocop“, diz uma uma produtora no documentário exibido por Sacchi durante o seminário.
Ter Nollywood não quer dizer que o cine nigeriano não tenha obras mais elaboradas. Ezra, do diretor Newton Aduaka, é um perfeito exemplo disto. O filme, aliás, conta a história de um outro conflito: o da guerra civil de Serra Leoa (1991-2002), marcante pela grande presença de crianças soldados. Aclamada em diversos festivais, a fita infelizmente teve uma passagem relâmpago por Salvador, exibida apenas durante o I Encontro de Cinema Negro Brasil-África, realizado na sala Walter da Silveira em 2007.
Engajamento e Panfletarismo
A pergunta é inevitável: a arte feita em um clima de guerra é necessariamente enjada?
“Não. Há inúmeros artistas que foram coniventes com os tiranos. Salvador Dalí, por exemplo, esteve sempre a favor do franquismo. E se beneficiou muito dele”, revela Luiz Freire, professor de História da Arte Brasileira na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia.
Outra pergunta importante é: numa situação delicada de conflito, como não cair no panfletarismo? Segundo Valverde, a arte só obtém êxito quando não resvala para o discurso, a declaração ou a propaganda. E arremata:“O melhor testemunho de uma situação paradoxal é uma expressão enigmática e profunda da própria perplexidade. Não é a toa que muitas vezes teatro e cinema rimam humor e dor.”