O crítico José Onofre, falecido no ano passado, dizia que, até antes das grandes guerras, a literatura cumpria o papel de nos levar a pontos desconhecidos da emoção e do entendimento das coisas. Porém o escritor, hoje, não seria mais aquele bravo que nos pega pela mão para saltarmos juntos no abismo, e sim um igual, alguém que partilha conosco sentimentos que já conhecemos. Dito deste modo, não parece tão ruim; mas na hora da produção literária, “falta aquela sensação que se tem diante de uma casa escura, uma estrada vazia, um cheiro de fogo. Uma literatura como se produz hoje provoca a inevitável sensação de ter saído do word processor.” – escreveu Onofre, certa feita, à revista CartaCapital [n°450].
Vá lá que esta seja uma visão romântica ou conservadora, mas quando se lê um livro como Do Fundo Do Poço Se Vê A Lua (Cia. das Letras, 280 p., R$ 43), de Joca Reiners Terron, não dá para não reparar em como ele se diferencia justamente por uma trama que foge do espelho da vida medíocre e dos personagens estóicos. Das histórias e da gente que poderiam ser nós ou nossos vizinhos. Neste romance, lançado no meio do ano e que acaba de vencer o Prêmio Machado de Assis 2010 da Biblioteca Fundação Nacional, Terron apresenta uma incomum narrativa sobre gêmeos e transexualidade passada no Egito!
Tudo começa com um postal que traz a imagem de Elizabeth Taylor vestida de Cleópatra, no clássico filme homônimo de 1963, de Joseph L. Mankiewicz. Na mensagem, a dançarina Cleópatra reestabelece contato com seu irmão gêmeo que não vê há mais de duas décadas — quando Cleópatra nem era ela, mas ele, Wilson, e vivia confinado num apartamento em São Paulo com seu gêmeo William, órfãos de mãe e com um pai ator perseguido pela ditadura. Os motivos da separação fraterna são o que o livro explora — incidentes, acidentes e acontecimentos inusitados, numa trama que dosa bem o quinhão de análise psicológica e a ação.
Amores Expressos
Do Fundo Do Poço Se Vê A Lua é o sétimo livro do cuiabano radicado em São Paulo Joca Reiners Terron, 42, e o primeiro a sair por uma grande editora. A obra faz parte do Projeto Amores Expressos que, entre 2007 e 2008, levou alguns escritores de destaque a passarem um mês em algumas cidades do mundo com o intuito de escrever uma história de amor. Daniel Galera, Bernardo Carvalho, Luiz Rufatto e João Paulo Cuenca são os outros autores a terem suas histórias feitas para o projeto publicadas até então.
Terron, contudo, foi talvez aquele que melhor conseguiu alcançar o objetivo de incorporar a cidade a cidade à trama, quase como um personagem. O Cairo que Joca apresenta é cinza, coberto pela areia trazido por El Khamasin, o vento quente do deserto e com construções que podem desabar a qualquer momento; é um Cairo de trânsito caótico e gente pedindo esmola; com os alto-falantes das mesquitas a ressoarem pelos muazins, convocando os fiéis a oração. Mas é também o Cairo do aroma de miske, da dança do ventre (proibida). Aspectos que ele já havia captado bem nas crônicas do seu diário de bordo que antecedeu ao livro, reunidas em http://blogdojocaterron.blogspot.com.
Pop e cult
Em cossonância a uma época em que se pode falar com o mesmo entusiasmo intelectual tanto de Nietzsche quanto da Hello Kitty, Joca sabe mesclar bem as referências pop e cult.
A epígrafe de Do Fundo Do Poço… são versos da canção Some girls are bigger than others, dos Smiths. Do universo pop, também merecem citações Billy The Kid e o músico Khaled. Ao mesmo tempo, Terron apresenta um amplo repertório de textos clássicos que tratam do assunto da gemialidade, do doppelgänger, do sósia. O mito grego dos irmãos Castor e Pólux; Os menecmos, do romano Plauto; A calandra, do cardeal Bibbiena; Titã, de Johan Paul Friedrich Richter. Há ainda referências a Lolita, de Nabokov, e a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.
A mescla pop/cult está ainda na linguagem, sem rebuscamentos mas que não chega a ser seca, cheia de pequenas epifanias. Na cena que antecede o clímax, duas narrativas paralelas conseguem um ritmo impressionante. E numa forte cena de estupro, a delicadeza de sugerir a situação assim: “E me puxou para dançar.”
Mesclando cenário exótico, mitos e uma história que envolve amnésias, assassinatos e catástrofes, Joca consegue fazer com que sintamos a poeira do Cairo em nossos olhos durante a leitura. E, se não consegue nos lançar no abismo, nos empurra ao menos para o fundo do poço. De onde se vê a lua.

[...] E qual será a próxima publicação? O livro do Amores Expressos? [leia a resenha] [...]
Terminei hoje de ler o livro e realmente as descrições feitas do Egito são quase reais. Uma obra incomum e de tirar o fôlego. Me prendeu mesmo!