Ele é uma mescla de Bukowski, Flaubert, música brega e boemia. Um role model do cabra homi. Cronista-mor de costumes de boteco da República. Ou cronista-mor da República de costumes de boteco. Ou ainda botequeiro-mor da República acostumada cronicamente a… Deixa pra lá. Ele é Xico Sá.
Entrevistei-o em meados de 2010, quando do lançamento de Chabadabadá — aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha (Record, 187 p., R$ 37,90), compilação de crônicas sobre relacionamentos que, juntas, demonstram a falha da máxima wildeana: estamos todos na sarjeta, sim, mas não é preciso olhar para as estrelas para encontrar a beleza.
Para tomar uma dose dos textos de El Xico, visite seu blogue, O Carapuceiro.
Quem é macho mais perdido da literatura clássica? E a fêmea que mais se acha?
Vamos pegar um exemplo brasileiro: o Euclydes da Cunha sofreu muito com mulher, ficou tonto de chifre, coitado, tentou matar o amante da mulher e foi assassinado por ele. A fêmea mais metida é a comadre Simone de Beauvoir – pior é que tinha razão, gostemos ou não, era uma grande mulher e ainda teve que aguentar o mala do Sartre.
Por que será que há mais escritores que escritoras?
As mulheres são mais sábias: sacam logo cedo que escrever é uma roubada! Ô ramo difícil, minha Nossa Senhora do Bom Parto.
Que escritora te deu importantes lições ou dicas?
Clarice Lispector, pela loucura e pelo mulherzismo exagerado e genial. Outras que curto: Dorothy Parker e a Suzana Flag que encarnava no Nelson Rodrigues.
Você tem frescura na hora de escrever?
Não é frescura, é quase exigência: quando não faço sexo – nem que seja comigo mesmo –, não consigo me concentrar.
Haute culture, para você, é…
Frescura da grossa.
O que faz Xico Sá chorar?
Traição, cachaça, cinema e morte de parente ou amigo.
Qual a máxima de amor mais bonita que você já escreveu?
Homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite.
Do que um aspirante a cronista precisa?
Leitura e um bom ouvido para escutar as confidências da mesa do bar ao lado.
Embora assumidamente mal diagramado, você é muito cortejado? Qual foi a maior cantada que você já levou?
Digamos que eu não tenho do que reclamar, afinal de contas a vida é como uma luta de boxe em que os bonitões ganham por nocaute e os feios ganham por pontos, minando o juízo das moças devagarzinho. Rapaz, não sou o Wando, mas já recebi uma calcinha dentro de um envelope em uma noite de autógrafos. Foi lindo.
Como morar décadas em São Paulo e não ter as raízes nordestinas diluídas [Xico nasceu no Crato, Ceará, em 1962]?
Estou há quase 20 anos em São Paulo, mas, além de ir sempre para o Nordeste, convivo muito com os novos-baianos daqui, isso ajuda a não se afrescalhar, não deixa perder o sotaque nem a autenticidade da origem.
Há distinção entre o atual homem metropolitano do Nordeste e o homem metropolitano do Sudeste?
Pegando carona no foclórico e no caricatural, diria que os do Nordeste são mais machos do que os daqui.
E no que diz respeito à mulher?
Essa raça é igual em qualquer canto, por isso que amo. E até na braveza são iguais: no cosmopolitismo de SP, já namorei duas que eram praticamente a mesmo pessoa em matéria de pau de macarrão na minha cabeça, embora D. fosse filha de pais da Calábria e A. uma legítima fêmea do sertão da Bahia.
Se Deus existe, o que ele pensa de você?
Acho que ele diz: deixa esse velho maluco e safado se divertir, não me custa nada.
Como Xico Sá gostaria de ser lembrado na posteridade?
Com um sorriso cada vez que o meu santo nome for pronunciado entre as mulheres. Porque as broxadas são inesquecíveis, elas sempre vão lembrar e rir um pouco disso.

Chabadabadá (2010): o título vem da trilha do melodrama francês Um Homem, Uma Mulher (1966), parodiado outrora assim: Sábado ela dá, sábado ela dá...
[publicado originalmente na revista Muito, em 05/06/2010]
[...] atento ao nome “Benicio”. Seu último trabalho que vi foram as ilustrações para Chabadabadá (2010), do Xico Sá. Taí, inclusive, um ótimo exemplo para quem acha que ilustrações são [...]