abre parêntese (

João, o cafetão & o pé de feijão

Ilustração da página principal: Roberto Weigand


Era uma vez um garoto franzino chamado João. Ele tinha onze anos e vivia no interior do nordeste, numa casinha de barro, com seu pai, sua madrasta e sua irmã Maria, de sete anos. Eles eram muito, muito pobres.

Um dia, quando a seca mais uma vez acabou com a esperança de realizar uma boa colheita, a ração rareou; a madrasta, que cantava de galo em casa, sugeriu ao pai que largasse os filhos em algum lugar no meio da caatinga, pois eram crianças e não aguentariam muito aquela vida; era melhor “irem embora” logo. “Além do mais, se for nós que morre, quem cuida deles?”

Então o pai inventou uma desculpa qualquer para pedi-los que o acompanhassem até a cidadezinha ao lado, enveredou com estes meninos por outros caminhos e, quando estavam bem afastados de casa, mandou que o esperassem ali, enquanto ele ia cagar.

Estranhando a ausência do pai por mais de duas horas, e já famintos e com sede, resolveram voltar para casa. Os pais nunca deveriam subestimar a inteligência dos filhos. Não foi tão difícil assim para João e Maria encontrarem o caminho de volta, pois obtiveram ajuda de uma jaguatirica que mandava no pedaço – a princípio ela queria comê-los, mas, vendo que eram só pele e osso, achou melhor levá-los para casa; quem sabe, mais tarde, não se tornariam apetitosos?

Pensando que o pai os esquecera e, naquele momento, estaria preocupadíssimo, eles se aproximaram do casebre em surdina, no intuito de fazer-lhe uma surpresa. Esconderam-se embaixo de uma janela.

Pobres João e Maria! Ouviram tudo, todo o plano cruel da madrasta e o relato aflito do pai, contanto a dificuldade que teve para resistir à tentação de não voltar atrás.

Apesar de tudo, seus coraçõezinhos se compadeceram daqueles dois adultos desalmados pela Fome; resolveram que seria melhor ir embora e não dar-lhes mais preocupações.

Tomaram o caminho da cidade. Mas estavam tão famintos, sedentos e cansados que dormiram agarrados um ao outro, na beira da estrada. Pela manhã, bem cedinho, passou por ali um homem numa carroça. Ele os acordou e os interrogou. Os garotos contaram sua triste história, e o homem então, bonzinho que era, ofereceu-lhes uma solução. Ele lhes daria algum dinheiro, e João poderia voltar para casa. Já Maria deveria seguir com ele; primeiro porque seria uma boca a menos para alimentar; depois porque ele a levaria para um lugar muito alegre, onde ela seria bem tratada, teria uma porção de amiguinhas para brincar e um monte de roupas novas e enfeites.

Como poderiam recusar?

Assim, João voltou; a felicidade estampada em seu rosto. Agora tudo ficaria bem: ele não precisaria mais sair de casa, pois tinha dinheiro para comprar comida para todos. E sua irmãzinha querida estaria bem acolhida, com tudo que sempre quis.

Mas em outro ponto da estrada, João se encontrou com um segundo homem. Este lhe perguntou o que fazia um garotinho ali, sozinho, àquela hora, e o menino contou toda a sua história de final feliz. O homem ouviu com atenção e, ao fim, fez-lhe uma proposta: ele tinha um saco de feijões mágicos, que vingariam até na mais terrível seca. Tais feijões eram muito raros (e caros!), mas como ele era um homem bom, faria o sacrifício de vendê-los a João pela bagatela de todo o dinheiro de que o garoto dispunha.

João ficou atônito. Aquilo era bom demais para ser verdade! Por que não fazer o negócio? Como o homem mesmo lhe disse: “Pense bem, garoto. Com o dinheiro, você só vai ter comida agora. Com os feijão, você vai ter por muitos e muitos anos.”

E lá foi João, abraçado ao saco de feijão, pensando em quão vibrantes ficariam seu pai e madrasta quando lhes contasse tudo.

Foi realmente um choque para os adultos. A princípio, uma felicidade para o pai e uma decepção para a sua esposa; mas quando João terminou de contar sua história, o pai se enfureceu como nunca, deu um soco na mesa, arrancou o saco de feijão das mãos do filho e o atirou pela janela. Como ele poderia ter caído naquele conto do vigário? Como ele teve coragem de vender a irmã? Foi até a parede e pegou o chicote que estava lá pendurado. João levou a maior surra da sua pequena vida, machucou-lhe até a alma.
Ao cair da noite, trancado em seu quarto, triste e dolorido, João percebeu o quão tolo havia sido. Em um instante era o salvador da família; no outro, voltava a ser um estorvo. Decidiu então que ele não merecia ficar ali; aliás, não merecia ficar em lugar nenhum. Ele devia morrer.

Pulou a janela do quarto e partiu para o meio da caatinga. Encontrou-se com quem queria: sua amiga jaguatirica. Contou-lhe toda a sua história, que foi triste e feliz, e ao fim pediu-lhe para acabar com sua vida. Como boa amiga que era, a jaguatirica não poderia se negar a atender tão importante favor. Imediatamente pulou em cima do garoto e abocanhou seu pescoço.

No meio da madrugada, o céu cobriu-se por inteiro de pesadas nuvens. Um temporal aterrador começou a cair. Parecia que, enfim, o sertão viraria mar. Em frente à pobre casinha de barro, onde antes viviam João, um garoto franzino de onze anos, seu pai, sua madrasta e sua irmã Maria, de sete anos, começou a brotar, estranhamente veloz, uma enorme quantidade de palmas, que os adultos haviam plantado uma semana antes.

Comente