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Escrito em 09 Oct 2011. Categoria(s): Brasília, Crônica, Salvador.

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Não gosto do mar

Não gosto do mar. É isso mesmo: não gosto. Os que me conhecem não me darão crédito, haja vista minha defesa ferrenha, ao longo dos anos, pela impossibilidade de se viver longe dele. Os argumentos que usei foram dos mais batidos, como a praia, a brisa, a beleza do cenário, a alguns mais elaborados, como a reconfortante lógica de continuidade histórica por trás da existência de uma cidade à beira d’água, ponto de origem por excelência, além de limite natural, ao contrário da aleatoriedade angustiante de uma cidade nascida no ponto xis, em vez do ponto xis mais um, com a possibilidade de, com o perdão do verbo, se espraiar para todos os lados.

Sempre achei que gostasse do mar, sensação empiricamente compravada ao morar em cidades sem mar e no litoral pelo mesmo intervalo de tempo. Mas, para explicar minha recente constatação, é preciso ressaltar que, por doze anos, vivi em Salvador e, agora, faz apenas dois meses, moro em Brasília.

Por que isso é importante?

Ora, eu descobri que viver em Salvador, ser soteropolitano meio criado ali, gerou efeitos curiosos na minha personalidade, que passam pelo mar. Aqui, ouso generalizar e afirmo que viver na ponta do Brasil e do continente, em uma cidade tão ligada culturalmente a terras d’além-mar (Portugal e oeste da África) te impele a olhar sempre em direção ao oceano, porém não para ele necessariamente. O mar é o circuito descampado dos sonhos com as regiões distantes, com o que está do outro lado do Atlântico e parece de difícil alcance ainda hoje. A consequência efetiva desse olhar-o-longe é voltar as costas para o que está imediatamente atrás. Dentro de tal contexto, é inviável despertar qualquer sentimento de latinidade em grande escala no povo soteropolitano.

Assim, todas as vezes que saia de Salvador, me sentia confuso, desnorteado. Pensava eu que era a falta do mar, quando na verdade era a falta da fantasia para a qual ele era pretexto. Tanto que, a caminho de minha cidade-madrasta, Riacho de Santana, oitocentos quilômetros distante da capital da Bahia, eu parava para contemplar os rios por sobre os quais passava — o rio das Contas, em Jequié; o São Francisco, em Bom Jesus da Lapa –, e eles nunca tiveram o mesmo efeito sobre mim.

Ao mesmo tempo, nas duas vezes em que cruzei o Atlântico em busca da tal fantasia só encontrei frustração. Foi decepcionante, já na saída do aeroporto, encontrar árvores e asfalto, quando eu esperava qualquer coisa alienígena. Por isso voltei; resolvi arriscar e, não sem certo desconforto, girar os calcanhares.

Brasília não poderia ser mais oposta a Salvador do que é: essa é a mais velha metrópole do Brasil; aquela, a mais recente. Salvador é a casa da umidade, Brasília é seca como o deserto. Salvador é barroca, Brasília é pós-moderna. Salvador é turística, Brasília é administrativa, etc., etc. Pois foi aqui, na antípoda de minha terra natal, que eu me desconstrui (e não era de se esperar?). Paulatinamente, fui absorvido pelo hic et nunc e troquei a cabeça nas nuvens pelos pés no chão, esse chão vermelho de onde brotam árvores cubistas. Com alguma verve de Policarpo Quaresma, diria até que fui tomado por uma brasilidade que nunca experimentara antes da semana passada, quando abri um mapa e me vi a um passo de dedo Mato Grosso, da Região Norte e do Nordeste sertanejo, quando, até então, minha carta topográfica pessoal do Brasil, à exceção de São Paulo e de algumas cidadezinhas de Minas Gerais, era praticamente borrada onde não era costa.

No fim das contas, a fantasia do mundo novo estava nessa parte, sobre a qual mal estudei na escola e da qual sinto ter menos referências que do País Basco, dos bereberes ou dos japoneses.

Foi culpa do mar ter demorado tanto para notar tamanha falta. Ele me iludiu — e ainda tem esse poder, de me tirar de onde estou e me fazer focar além. É por isso que eu não gosto dele. Prefiro as águas do lago Paranoá, que, como poetizou Nicolas Behr, não vão dar no mar, mas viram nuvens e ficam paradas no ar.

1 comentário

  1. nana
    October 9, 2011

    adorei o texto, breninho! meu problema com cidade sem mar é a sensação de que, no litoral, o ar está sempre novinho em folha, como se a brisa que vem de fora viesse do ponto zero do mundo; enquanto o ar no interior me parece gasto, meio velho e sem forças. ainda não sei como é que se vive sem o ventinho gostoso que vem mar, que não tem igual em brasília e nem em interior nenhum. lembro que são petersburgo é uma cidade litorânea e cheia de rios. eu não vi o mar nenhuma vez quando estava lá, mas dava pra sentir um vento novo vindo lá daquele lado da cidade, um vento muito frio, mas praticamente recém-nascido. dá uma impressão estranha de que você é a primeira pessoa a sentir aquele vento, que ele veio exatamente na sua direção e não encontrou barreiras pelo caminho.
    (fui inventar de crescer em guarajuba, fiquei estragada, ta vendo? hahaha)
    no fim, acho que toda cidade litorânea usa o mesmo método navegar-é-preciso pra ser o que é. é só chegar perto do mar, fechar os olhos e é como se estivesse lá do outro lado do mundo.
    beijos!

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