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Só sei do inútil

Por ora, tenho frequentado algumas aulas em renomado estabelecimento voltado para o “concurseiro” (tem algo de muito errado com esse termo, não devia ter sido inventado), experiência que tem se provado deveras interessante, tanto pelo que se me apresenta de novo — noções de economia e de direito –, quanto pela oportunidade de reviver, a essa altura, o clima de vestibular, em que você deve se preocupar com fórmulas, macetes e pegadinhas.

Voltar a estudar me lembrou de que sempre me interessei pelos detalhes ínfimos, inúteis dos conteúdos que enfrentei. Guardo mais anedotas e notas biográficas dos autores lidos que suas ideias e teorias. Desde os tempos de escola, a lenda da maçã caindo na cabeça de Newton e lhe provocando uma epifania me envolve mais que os princípios da mecânica. Outro exemplo: não consigo explicar as nuances semióticas do conceito de mito de Barthes, que vi e revi na faculdade, mas nunca me esquecerei de que ele morreu de maneira esdrúxula, atropelado por uma caminhonete numa rua de Paris.

Mesmo na literatura, minha área de trabalho e de maior interesse, dá-se de não reter belas passagens de livros, só causos dos escritores. Oscar Wilde é um dos meus autores favoritos, e não consigo parafrasear mais que duas máximas dele, porém sei com detalhes episódios infames de sua vida, como quando foi aos EUA palestrar e, perguntado na alfândega o que tinha a declarar, soltou, Só meu gênio! Ou quando, em temporada em Paris com seu amante, doente, largado pelo parceiro sozinho em um muquifo, pediu a ele, quando esse se deu ao luxo de aparecer para checá-lo, um copo de leite e foi vítima de um rompante de violência que o fez correr, de camisola, pela rua, gritando por socorro!

Acredito piamente que é do interesse de todos saber como os notórios — da história, do showbizz — viveram e têm vivido. E creio, igualmente, que conhecer fatos da vida de alguém cujas ideias se está estudando ajuda a humanizar tudo aquilo. Todavia, há algo de errado quando, na sua aula para concurso de direito, você vai discutir Rui Barbosa, tenta puxar dados de sua importância jurídica, mas só vem à mente o fato de que ele tinha uma cabeçorra e, reza a lenda, colecionava sinônimos para “chicote” e “prostituta”. Nessas horas, me sinto o Leão Lobo do mundo intelectual. O James Joyce Pascowitch, do antigo Calúnia Social.

Com esse tipo de informação, só passo em um concurso público se repristinarem o cargo de Bobo da Corte.

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