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	<title>abre parêntese ( &#187; Crônica</title>
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		<title>Só sei do inútil</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Oct 2011 11:32:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Por ora, tenho frequentado algumas aulas em renomado estabelecimento voltado para o “concurseiro” (tem algo de muito errado com esse termo, não devia ter sido inventado), experiência  que tem se provado deveras interessante, tanto pelo que se me apresenta de novo &#8212; noções de economia e de direito &#8211;, quanto pela oportunidade de reviver, a essa altura, o clima de vestibular, em que você deve se preocupar com fórmulas, macetes e pegadinhas.</p>
<p>Voltar a estudar me lembrou de que sempre me interessei pelos detalhes ínfimos, inúteis dos conteúdos que enfrentei. Guardo mais anedotas e notas biográficas dos autores lidos que suas ideias e teorias. Desde os tempos de escola, a lenda da maçã caindo na cabeça de Newton e lhe provocando uma epifania me envolve mais que os princípios da mecânica. Outro exemplo: não consigo explicar as nuances semióticas do conceito de mito de Barthes, que vi e revi na faculdade, mas nunca me esquecerei de que ele morreu de maneira esdrúxula, atropelado por uma caminhonete numa rua de Paris.</p>
<p>Mesmo na literatura, minha área de trabalho e de maior interesse, dá-se de não reter belas passagens de livros, só causos dos escritores. Oscar Wilde é um dos meus autores favoritos, e não consigo parafrasear mais que duas máximas dele, porém sei com detalhes episódios infames de sua vida, como quando foi aos EUA palestrar e, perguntado na alfândega o que tinha a declarar, soltou, Só meu gênio! Ou quando, em temporada em Paris com seu amante, doente, largado pelo parceiro sozinho em um muquifo, pediu a ele, quando esse se deu ao luxo de aparecer para checá-lo, um copo de leite e foi vítima de um rompante de violência que o fez correr, de camisola, pela rua, gritando por socorro!</p>
<p>Acredito piamente que é do interesse de todos saber como os notórios &#8212; da história, do<em> showbizz</em> &#8212; viveram e têm vivido. E creio, igualmente, que conhecer fatos da vida de alguém cujas ideias se está estudando ajuda a humanizar tudo aquilo. Todavia, há algo de errado quando, na sua aula<em> para concurso</em> de direito, você vai discutir Rui Barbosa, tenta puxar dados de sua importância jurídica, mas só vem à mente o fato de que ele tinha uma cabeçorra e, reza a lenda, colecionava sinônimos para “chicote” e “prostituta”. Nessas horas, me sinto o Leão Lobo do mundo intelectual. O James Joyce Pascowitch, do antigo <em><a href="http://colorsplash.zip.net/" target="_blank">Calúnia Social</a></em>.</p>
<p>Com esse tipo de informação, só passo em um concurso público se <em>repristinarem</em> o cargo de Bobo da Corte.</p>
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		<title>Não gosto do mar</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Oct 2011 11:16:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasília]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Não gosto do mar. É isso mesmo: não gosto. Os que me conhecem não me darão crédito, haja vista minha defesa ferrenha, ao longo dos anos, pela impossibilidade de se viver longe dele. Os argumentos que usei foram dos mais batidos, como a praia, a brisa, a beleza do cenário, a alguns mais elaborados, como a reconfortante lógica de continuidade histórica por trás da existência  de uma cidade à beira d’água, ponto de origem por excelência, além de limite natural, ao contrário da aleatoriedade angustiante de uma cidade nascida no ponto xis, em vez do ponto xis mais um, com a possibilidade de, com o perdão do verbo, se espraiar para todos os lados.</p>
<p>Sempre achei que gostasse do mar, sensação empiricamente compravada ao morar em cidades sem mar e no litoral pelo mesmo intervalo de tempo. Mas, para explicar minha recente constatação, é preciso ressaltar que, por doze anos, vivi em Salvador e, agora, faz apenas dois meses, moro em Brasília.</p>
<p>Por que isso é importante?</p>
<p>Ora, eu descobri que viver em Salvador, ser soteropolitano meio criado ali, gerou efeitos curiosos na minha personalidade, que passam pelo mar. Aqui, ouso generalizar e afirmo que viver na ponta do Brasil e do continente, em uma cidade tão ligada culturalmente a terras d’além-mar (Portugal e oeste da África) te impele a olhar sempre em direção ao oceano, porém não para ele necessariamente. O mar é o circuito descampado dos sonhos com as regiões distantes, com o que está do outro lado do Atlântico e parece de difícil alcance ainda hoje. A consequência efetiva desse olhar-o-longe é voltar as costas para o que está imediatamente atrás. Dentro de tal contexto, é inviável despertar qualquer sentimento de latinidade em grande escala no povo soteropolitano.</p>
<p>Assim, todas as vezes que saia de Salvador, me sentia confuso, desnorteado. Pensava eu que era a falta do mar, quando na verdade era a falta da fantasia para a qual ele era pretexto. Tanto que, a caminho de minha cidade-madrasta, Riacho de Santana, oitocentos quilômetros distante da capital da Bahia, eu parava para contemplar os rios por sobre os quais passava &#8212; o rio das Contas, em Jequié; o São Francisco, em Bom Jesus da Lapa &#8211;, e eles nunca tiveram o mesmo efeito sobre mim.</p>
<p>Ao mesmo tempo, nas duas vezes em que cruzei o Atlântico em busca da tal fantasia só encontrei frustração. Foi decepcionante, já na saída do aeroporto, encontrar árvores e asfalto, quando eu esperava qualquer coisa alienígena. Por isso voltei; resolvi arriscar e, não sem certo desconforto, girar os calcanhares.</p>
<p>Brasília não poderia ser mais oposta a Salvador do que é: essa é a mais velha metrópole do Brasil; aquela, a mais recente. Salvador é a casa da umidade, Brasília é seca como o deserto. Salvador é barroca, Brasília é pós-moderna. Salvador é turística, Brasília é administrativa, etc., etc. Pois foi aqui, na antípoda de minha terra natal, que eu me desconstrui (e não era de se esperar?). Paulatinamente, fui absorvido pelo <em>hic et nunc</em> e troquei a cabeça nas nuvens pelos pés no chão, esse chão vermelho de onde brotam árvores cubistas. Com alguma verve de Policarpo Quaresma, diria até que fui tomado por uma brasilidade que nunca experimentara antes da semana passada, quando abri um mapa e me vi a um passo de dedo Mato Grosso, da Região Norte e do Nordeste sertanejo, quando, até então, minha carta topográfica pessoal do Brasil, à exceção de São Paulo e de algumas cidadezinhas de Minas Gerais, era praticamente borrada onde não era costa.</p>
<p>No fim das contas, a fantasia do mundo novo estava nessa parte, sobre a qual mal estudei na escola e da qual sinto ter menos referências que do País Basco, dos bereberes ou dos japoneses.</p>
<p>Foi culpa do mar ter demorado tanto para notar tamanha falta. Ele me iludiu &#8212; e ainda tem esse poder, de me tirar de onde estou e me fazer focar além. É por isso que eu não gosto dele. Prefiro as águas do lago Paranoá, que, como poetizou Nicolas Behr, não vão dar no mar, mas viram nuvens e ficam paradas no ar.</p>
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		<title>Microperfis</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jul 2011 02:32:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais uma colaboração para O Purgatório. Foto de abertura do post: Lino Matos. O homem à margem do infinito Na primeira vez em que Lahcen se perdeu no deserto ele tinha sete anos. Hoje, após [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Mais uma colaboração para </em><a href="http://ilpurgatorio.wordpress.com/" target="_blank">O Purgatório</a><em>.<br />
Foto de abertura do post: <a href="http://br.olhares.com/olho_a_lupa_foto1696291.html" target="_blank">Lino Matos</a>. </em></p>
<p><strong>O homem à margem do infinito</strong></p>
<p>Na primeira vez em que Lahcen se perdeu no deserto ele tinha sete anos. Hoje, após mais de duas décadas, o berebere marroquino ganha a vida levando turistas para duas, três noites no Saara, ou em solitárias excursões de dois, três meses no deserto, em busca de meteoritos. Estudioso do céu, Lahcen acredita que em 2029 um meteoro cairá na Rússia, provocará um verão de três anos e será o começo do fim dos tempos. Mas não está preocupado. É que, para ele, homem de carne, osso e areia, o deserto é a margem do infinito; sendo assim, está mais próximo que qualquer um de nós de saber o que virá.</p>
<p><strong>Colombina</strong></p>
<p>Marzia é calabresa e mora em Roma há dez anos. Ela é atriz. Sabe cantar, dançar, andar sobre pernas de pau, e trabalha com animação de eventos porque não consegue viver só de teatro. Apaixonada pela <em>comedia dell’arte</em>, conta que, numa montagem de <em>Cem anos de solidão</em>, valendo-se apenas de movimentos corporais, teve que incorporar Úrsula, e Amaranta, e Remédios, e Rebeca, enquanto atravessava o palco de uma ponta a outra. O anticlímax: nenhuma tempestade varreu a plateia.</p>
<p><strong>A colecionadora de borboletas</strong></p>
<p>Juanita é colombiana. Estuda literatura e é apaixonada por Faulkner. Seu pai era colecionador de borboletas, mas Juanita, amante das letras e prova de que algumas teorias freudianas estão certas, coleciona apenas os nomes para designar borboleta nas variadas línguas. Mariposa, papillon, farfalla, butterfly, tagfalter, sommerfugl… Conheci-a em Oslo; era primavera e não havia nenhum vestígio de borboleta nos bosques e parques da cidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Vai, cometa!</title>
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		<pubDate>Fri, 06 May 2011 13:22:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[2061]]></category>
		<category><![CDATA[chuva de meteoros]]></category>
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		<category><![CDATA[futuro]]></category>
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		<description><![CDATA[O sono, infelizmente, me impediu de asssistir à chuva de meteoros do cometa Halley visível nesta madrugada em todo o hemisfério sul. Mas não pude deixar de refletir se estaria vivo e o que estaria fazendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O sono, infelizmente, me impediu de asssistir à <a href="http://chc.cienciahoje.uol.com.br/blogue-do-rex/2011/uma-chuva-vinda-do-espaco" target="_blank">chuva de meteoros do cometa Halley</a> visível nesta madrugada em todo o hemisfério sul. Mas não pude deixar de refletir se estaria vivo e o que estaria fazendo quando da próxima passagem do Halley, em 2061. Eu, que nasci no ano da sua última aparição, em 1986.</p>
<p>Imaginar meu próprio futuro a tamanho prazo é difícil; contudo, conhecendo o caráter festeiro do meu país, antevi o seguinte cenário no Brasil de 2061:</p>
<p>Para não ficar fora da Festa do Cometa, seguramente teremos, já em 2058, ano de eleição presidencial, a proposta do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) Halley, agregador de projetos de melhorias na infraestrutura do país, visando atrair turistas para ver a visita do Halley daqui do Brasil, cujo céu tem mais estrelas, todo mundo sabe. Salvador, inclusive, deve entrar na briga pelo posto de cidade de abertura da passagem, alegando que, se o Brasil nasceu na Bahia, e Deus é brasileiro, é lógico que o Halley tenha todo o interesse do mundo em começar sua volta ao mundo daqui. Há mesmo grandes chances de o metrô, cujas obras começaram em 1999, ser inaugurado neste período, com o slogan: &#8220;Demorou um pouquinho, mas é mais rápido que o Cometa!&#8221;</p>
<p>Por falar em Bahia, a criatividade do baiano vai pôr pra tocar nas ruas o pagode <em>Eu Halley o dia inteiro / e agora eu vim te ver</em>; ao mesmo tempo, no Rio, as escolas de samba farão da passagem seu tema principal; e o Restart &#8212; que, pela época, já teria terminado &#8212; voltará à cena do show bizz cantando o sucesso <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=hDMH7R5FlRM" target="_blank">Pegar carona nessa cauda de cometa</a></em>.</p>
<p>Vai ser uma maravilha!</p>
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		<title>Diário da Bélgica: panique au salon de coiffure</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2011 17:37:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bélgica]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando morei um ano na Espanha, entre 2007 e 2008, não fui uma vez sequer ao cabelereiro. A princípio, não era meu intuito criar a cabeleira, mas sempre que me postava diante das vitrines dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_824" class="wp-caption alignright" style="width: 85px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/02/referencias.jpg"><img class="size-medium wp-image-824" title="De Tim Maia a Adamastor Pitaco, passando por Johnny Bravo e Sai Baba: referências de penteado" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/02/referencias-75x300.jpg" alt="De Tim Maia a Adamastor Pitaco, passando por Johnny Bravo e Sai Baba: referências de penteado" width="75" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">De Tim Maia a Adamastor Pitaco, passando por Johnny Bravo e Sai Baba: referências de penteado</p></div>
<p>Quando morei um ano na Espanha, entre 2007 e 2008, não fui uma vez sequer ao cabelereiro. A princípio, não era meu intuito criar a cabeleira, mas sempre que me postava diante das vitrines dos <em>peluqueros</em>, via um punhado de homens aderindo, de bom grado, ao melhor estilo Chitãozinho &amp; Xororó, com mullets e cabelo arrepiadinho no cocuruto; não era muito encorajador. Depois, acabei por descobrir que meu cabelo meio cacheado, meio afro fazia sucesso na terra dos fios lambidos pela vaca genética e incorporei o Tim Maia <em>Soul Brasil</em>.</p>
<p>De volta ao Brasil, decidi abandonar a praticidade da máquina número dois e experimentar como era ir a salões com corte a mais de sete reais. Estou nessa até hoje.</p>
<p>Contudo, em Bruxelas venta mais do que ventava em Santiago de Compostela e em Salvador, e assim passei os últimos quinze dias a apresentar os mais variados penteados, a depender do caminho que tomava entre as correntes de vento. Num dia em que fui pego a sotavento (lá ele!), ganhei um topete à Johnny Bravo. Noutra ocasião, estava a cara do Sathya Sai Baba. Houve até uma vez na qual o vento me deixou com um <em>look</em> Adamastor Pitaco.</p>
<p>De um lado, não ter um estilo fixo estava me irritando; do outro, o receio de ir ao cabelereiro na Europa, por conta daquele um ano, já havia se transmutado em uma leve fobia. Irritação versus fobia, a irritação venceu &#8212; por pontos, não por nocaute. Tão logo saí à rua hoje, entrei no primeiro salão que encontrei &#8212; um que oferecia lavagem e corte por 19 euros, não muito barato, convenhamos.</p>
<p>Era um lugar elegante, na não menos elegante Avenue Des Arts, uma das principais da cidade. O local se revelou um núcleo de cabelereiras jovens e bonitinhas. Sem traquejo do processo ou da língua, só me restava contar com o charme. De cara, porém, recebi olhares &#8212; assim me pareciam &#8212; um tanto assustados.</p>
<p>O processo até a cadeira das <em>coiffeuses</em> era longo: espera no sofá, vai até um vestiário depositar o casaco e vestir um robe, senta na seção de lavagem, lava a cabeça, espera uma cadeira vagar e é encaminhado até lá &#8212; mas não sem antes esperar as mocinhas<em> très, très jolies</em> espanarem a cadeira e cabeceira em frente a ela, varrerem o chão e depositarem o hobby do último cliente no cesto de roupa suja. Tão logo me dei conta desse ritual, percebi que, na minha vez de ser chamado, as três mais novinhas começaram a disputar uma competição de lerdeza, arranjada telepaticamente. Concentraram-se, todas elas, em se certificar de que cada fio loiro-quase-branco cortado ao longo da existência daquele salão tinha sido catado do chão marmóreo; que os pentes, o espelho, as máquinas e o secador estavam livres de quaisquer pelos. No decorrer de emocionante torneio, volta e meia, julgando-me distraído com a leitura de uma revista, olhavam para mim com receio.</p>
<p>Captei o seu medo, era medo de ser aquela a encarar o desafio do meu corte. Por mais que usasse todo o meu arsenal de sorrisos aprendidos com meu sósia Seth Rogen para romper a barreira do temor, não obtinha sucesso. O fila começou a empacar na penúltima etapa até a cadeira; meu cabelo recém lavado quase secou. E nada de me chamarem. Então a quarta cabelereira do local, mais velha, com ar de proprietária, sentiu-se compadecida de suas padawans e, apressando o trabalho que fazia, liberou-se para me atender.</p>
<p>Ela olhou, olhou, olhou. Perguntou o que eu queria fazer. Respondi que gostaria de tê-lo mais curto, mas não muito. Ela perguntou se eu queria os <em>boucles</em>. O <a href="http://www.wordreference.com" target="_blank">WordReference</a> agora me confirma que <em>boucles </em>são cachos, mas naquela hora eu não sabia, eu estava nervoso e, por um segundo, após assentir com a pouca firmeza que me restava, receei que ela tivesse indagado se eu não desejaria experimentar algum produto <em>Wella</em>.</p>
<p>O próximo passo, já esperado, foi me pedir para tirar os óculos. A partir daí, não tive noção do que aconteceu, nem da reação das cabelereirinhas. A encarregada de mim fazia perguntas se tava bom e, encabulado em lhe contar de minha quase cegueira, eu só balança a cabeça positivamente e murmurava oue, oue; c&#8217;est super; bien sûr. Ao fim, pus os óculos e&#8230; e&#8230;</p>
<p>Não ficou tão ruim, né?</p>
<p><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/02/cortepelo.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-825" title="cortepelo" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/02/cortepelo.jpg" alt="" width="450" height="358" /></a></p>
<p>Quando deixei o salão, olhei de relance pela vitrine e tive a impressão de ver, lá dentro, pessoas aplaudindo.</p>
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		<title>Diário da Bélgica: a tatuagem</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Jan 2011 15:59:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bélgica]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Vida Real]]></category>
		<category><![CDATA[Caminho de Santiago]]></category>
		<category><![CDATA[diário de viagem]]></category>
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		<description><![CDATA[No creo en brujas, pero que las hay, las hay Em março de 2008 eu completava seis meses vivendo em Santiago de Compostela, na Espanha, e até então nunca havia entrado na Catedral, embora passasse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>No creo en brujas, pero que las hay, las hay</em></p>
<p>Em março de 2008 eu completava seis meses vivendo em Santiago de Compostela, na Espanha, e até então nunca havia entrado na Catedral, embora passasse em frente a ela todos os dias. De certo modo, via a igreja como um portal que me tiraria da espécie de sonho que estava vivendo e me levaria de volta para casa &#8212; pelo menos nos dois primeiros meses. Depois, a consciência do bloqueio se esvaneceu e só restou o tabu.</p>
<p>Contudo, como sempre digo, é mais fácil viver em Salvador à margem da cultura carnavalesco-industrial do que habitar Santiago sem se envolver com a peregrinação. Na pequena cidade, ela é a principal fonte de renda, e não há dia sequer que você não cruze com um peregrino pelas ruas. Assim, na véspera da Semana Santa de 2008, eu e um grupo de amigos decidimos fazer parte do Caminho de Santiago. 150 km, desde a fronteira galega, em O Cebreiro, o suficiente para ganhar o certificado, apreciar a paisagem mais bonita e, para mim, vencer a batalha contra o receio de adentrar a Cadetral.</p>
<p>Rememoro esta história porque, no penúltimo dia de Caminho, meu joelho travou e tive um pequeno surto de fé, como você pode conferir no pequeno diário daquela viagem postado abaixo. Eu, que sou agnóstico, prometi a Santiago que me tatuaria com seu símbolo, a concha, se conseguisse terminar o percurso restante. Mas devo confessar que, naquele momento, passava pelo meu julgamento a ideia de que ali estava um símbolo que preencheria todos os requisitos de quem quer fazer uma tatuagem: guardar resquícios de uma experiência marcante, encontrar um desenho pouco badalado, etc.</p>
<p>Quinta-feira, quase três anos depois de feita a promessa, cumpri-a. Foi bom ter esperado tanto, pois tive todo o tempo do mundo para deixar o subconsciente analisar a questão do possível arrependimento. Se eu não fosse voltar à Europa, talvez não tivesse tomado a decisão, mas, sabe como é?, <em>no creo en brujas, pero que las hay, las hay</em>, ainda que descrente eu não ousaria pisar de novo no Velho Continente sem cumprir o que prometi ao cara, que vive por lá.</p>
<div id="attachment_752" class="wp-caption aligncenter" style="width: 491px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/tatuagem.jpg"><img class="size-full wp-image-752" title="A conha é o símbolo de Santiago e está espalha por todo o Caminho. A tatuagem é de Gabi, do estúdio JP Tattoo" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/tatuagem.jpg" alt="A conha é o símbolo de Santiago e está espalha por todo o Caminho. A tatuagem é de Gabi, do estúdio JP Tattoo" width="481" height="270" /></a><p class="wp-caption-text">A concha é o símbolo de Santiago e está espalha por todo o Caminho. A tatuagem é de Gabi, do estúdio JP Tattoo</p></div>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>DIÁRIO DE UM PEREGRINO</strong></p>
<p>Diz a lenda que o nome Compostela significa “campo de estrelas”, e que foram elas que guiaram o eremita Paio, no fim do século I, até onde estariam os restos do apóstolo Santiago e de dois discípulos seus. A catedral começou a ser construída em 874, acima das ruínas de um necrotério romano, por ordem do rei Afonso II, após voltar da sua peregrinação ao local.</p>
<p>Existem, hoje, vários Caminhos de Santiago: o primitivo, o inglês, o português, o via da prata (sul da Espanha), o francês… Pode-se fazê-los a pé, de bicicleta ou a cavalo. Os que chegam, recebem um certificado de peregrinação, a chamada Compostela.</p>
<p>Como disse no post anterior, é impossível viver em Santiago e ficar alheio à peregrinação. Ao contrário, você se sente obrigado a experimentá-la, mesmo que seja o trecho mais curto para se ganhar a Compostela, 100km. Foi por isso que eu e uns amigos decidimos embarcar na esquisita aventura de sair de casa para voltar a ela caminhando. E foi assim:</p>
<p><strong>DIA 1</strong></p>
<p>Depois de uma noite muito mal dormida, acordo às 6h da madrugada e preparo o café, para mim e uma das companheiras, a qual eu deveria buscar na estação de trem às 7h, voltar para casa para deixar suas coisas e, então, seguirmos juntos para a rodoviária, onde os outros cinco participantes estariam nos esperando para o ônibus das 8h. Não conseguimos chegar a tempo, o jeito foi pegar o próximo carro, das 9h45.</p>
<p>Ao chegar na rodoviária, fico sabendo que uma das companheiras acordou, arrumou a mochila, sentou-se no sofá e desistiu. Mulher de pouca fé. Então éramos seis – três homens e três mulheres. E mais de três horas tivemos de viajar até chegar a Pedrafita do Cebreiro, um <em>pueblo</em> com, no máximo, 20 casas. Paramos ao lado de um posto de gasolina e de uma placa que indicava a direção para o Caminho de Santiago.</p>
<p>Começamos a empreitada alegres, com piadas; eu comecei a vender garrafinhas de Gatorage por sete euros e fui chamado de farsante por ter comprado duas meias antibolhas, a seis euros o par. Meia hora subindo montanhas e ninguém conseguia mais contar piadas sem interrupção. Caminhamos nove quilômetros margeando a pista e pelo meio do mato até Hotel da Condessa, um povoado com cara de abandonado, de ar fantasmagórico. O albergue dos peregrinos nos surpreendeu pelo asseamento. Como o pagamento “não obrigatório” de três euros impede de ter lençóis e fronhas limpos todos os dias, recebemos roupa de cama descartável. Água quente para o banho só existiu para um. De jantar, barrinhas de cereal e Gatorage, já hiperfaturado para 5 euros, o gole.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<div id="attachment_756" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/seta.jpg"><img class="size-medium wp-image-756" title="O Caminho é inteiramente bem sinalizado por setas amarelas" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/seta-300x225.jpg" alt="O Caminho é inteiramente bem sinalizado por setas amarelas" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">O Caminho é inteiramente bem sinalizado por setas amarelas</p></div>
<p><strong> DIA 2</strong></p>
<p>É regra ter de deixar o albergue antes das 8h. Mais barrinhas de cereal e Gatorage no desjejum.</p>
<p>O plano era chegar a Sárria (km 110), onde por suposto nos esperariam mais três companheiras – a de pouca fé inclusive &#8211;, passando por Samos, uma das poucas bifurcações do Caminho, e que aumentaria o nosso trajeto em uns três quilômetros.</p>
<p>Caminhamos até as 11h em meio a um nevoeiro denso, a baixa temperatura congelando as gotas de umidade no meu cabelo. Estávamos a mais de 1.300 m de altitude. O Caminho abandonara o acostamento e adentrava uns metros a mata. A primeira ladeira que tivemos de subir é de preocupar o coração dos fumantes e ociosos. Sem contar os caninos enormes que nos grunhiam e que não sabíamos ser cães ou lobos, estes tão comuns na Galícia. Em um dos muitos povoados fantasmas pelos quais passamos, habitados somente pelos cachorros/lobos, uma velha bruxa surge da neblina nos oferecendo crepes. Eu tenho a certeza de que a comida está enfeitiçada, mas sou obrigado a comer um pedaço de massa de crepe que ela oferece a um amigo, pensando: vai que ela se sente ofendida e lança sobre mim uma azaração – ou, pior, um <em>avada kedrava</em>. Ela pede um euro pelo crepe, e meu amigo lhe dá, com as mãos trêmulas.</p>
<p>Adiante, fazemos uma pequena pausa para um café e a primeira selada do dia. É que o passaporte do peregrino que recebemos deve ser selado duas vezes por dia – em uma igreja, albergue ou qualquer negócio –, um controle mambembe de que você continua no Caminho. Um cachorro pequenino, branco com pintas marrons e de ar vulpino nos enche o saco.</p>
<p>Lá pelas 12h30 concluímos os 16 quilômetros até Triacastela, parada para almoço. À entrada da cidade, encontramos um húngaro que estava fazendo o Caminho francês completo e, pasmem!, o cão vulpino que, em momento algum, nos ultrapassou ou nos seguiu. Comemos um delicioso menu do dia – dois pratos + vinho por oito euros – e seguimos. Uma companheira começa a sentir o incômodo das primeiras bolhas e dores no joelho. Ela começa a ficar para trás, se perde da gente uma vez e, às 5h da tarde, após termos passado por Samos, pensa em voltar para esta cidade e passar a noite, porque não aguentaria os supostos 15 km que faltavam até Sárria. As outras meninas e um dos meninos também começam a sentir as bolhas. Após uma pausa para discutir se deveríamos aceitar ou não a dica-logro de um campesino de seguir pela estrada, e não pela mata, para encurtar caminho, rumamos todos para a mais difícil das caminhadas. Chegamos a Sárria pelas 20h30, semimortos. Lá, o cão vulpino nos surpreende de novo. Eu o batizo de Uni, pois tenho a certeza de que, como a bebê unicórnio de <em>Caverna do Dragão</em>, por trás daquela carinha fofinha se esconde um ser do mal, que atrapalhará a chegada ao nosso destino. Nos encontramos com as demais companheiras, mas não há vaga para todos no albergue dos peregrinos. Por sorte, nós, meninos, encontramos ao lado um albergue confortável por cinco euros. Antes de dormir, encaramos o prato de filé com batatas fritas, ovos e bacon mais gorduroso de todos os mundos possíveis.</p>
<div id="attachment_757" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/uni.jpg"><img class="size-medium wp-image-757" title="Uni" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/uni-300x225.jpg" alt="Uni" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Uni</p></div>
<p><strong>DIA 3</strong></p>
<p><a href="http://twitter.com/_camillacosta" target="_blank">Camilla Costa</a>, mais sábia e lacônica que eu, disse tudo no seu diário de peregrina [<em>não mais disponível online</em>]: “Aí começa de verdade o caminho da iluminação. Você acorda e se encontra no ponto exato onde Buda começou sua jornada rumo ao Nirvana: descobrindo que tudo é dor.” Às 2h, depois de andar uns 12 km, finalizados pela pior descida da jornada, paramos para almoçar em Portomarín, cidade à beira do Miño (o mesmo rio da <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BYa0UfsKF2w" target="_blank">famosa canção jovenguardista galega</a>). O grupo se divide: as novatas, sem compreender a necessidade de carne para continuar a andar, resolvem ir ao supermercado, comprar material para sanduíche e outras besteiras para beliscar. Ao tirar o sapato, uma das três meninas que iniciaram a jornada em O Cebreiro vê o estrago causado por uma bolha mal estourada na noite anterior: pus e sangue. Ela anuncia sua desistência. As piadinhas à Capitão Nascimento feitas durante os dois outros dias – “quem vai ser o zero-um?”, “pede pra sair!” — não aparecem. Na verdade, todos ficam muito sentidos, sem saber o que dizer ou fazer para ajudá-la; me sinto como esses participantes do <em>Big Brother</em> quando alguém deixa a casa. É, o Caminho deixa a gente meio brega, mas poderia ser pior: poderia ter sido minha a frase que um peruano disse, no quarto ou quinto dia — “Eu aprendi que o Caminho é como a vida: tem baixadas e subidas, e é preciso continuar”.</p>
<p>O frio aperta e o caminho até Gonzar, onde pensamos em passar a noite, é sofrido. Pela primeira vez a pergunta-chave – “por que eu tô fazendo isso?” — toma conta da cabeça. Superação física, orgulho de terminar o que já foi começado e a insistência em buscar a tal transformação que o Caminho proporciona, unidas, são boas respostas. Uma das novatas, que me gastara 16 euros no supermercado, percebendo a imprudência, começa a tentar se desfazer dos víveres, sem se importar para a mescla fatal que é chouriço com nescau.</p>
<p>Chegando em Gonzar, a notícia de que só havia uma vaga no albergue do peregrino, e o outro custava oito euros. A menina que, no segundo dia, começou a ficar para trás se desespera. Não consegue mais andar, mas não quer ficar sozinha ali. O jeito, então, é caminhar mais quatro quilometrozinhos (uma hora) até Ventas de Narón, onde certamente terá vaga. A menina que não consegue andar liga para o pai, aos prantos, em busca de consolo. Chegamos a Ventas (km 81 aprox.) congelados e exaustos, mas temos a sorte de pegar o melhor albergue de todos, com água quente, muita, para uma ducha de meia hora. Eu, além das dores nas pernas, ganho assaduras nas virilhas. Ando feito um cavaleiro sem cavalo.</p>
<p>Nenhum sinal de Uni. Isso me conforta.</p>
<div id="attachment_758" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/minho-e1295712880488.jpg"><img class="size-medium wp-image-758" title="O tren que me leva pola beira do Miño..." src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/minho-e1295712880488-300x225.jpg" alt="O tren que me leva pola beira do Miño..." width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">O tren que me leva pola beira do Miño...</p></div>
<p><strong>DIA 4</strong></p>
<p>A menina do chouriço com nescau desiste do Caminho logo no café da manhã. Zero-dois. Quem fica forma quatro ritmos: os meninos à frente; as duas novatas atrás; a menina do telefonema, munida de um pedaço de pau transformado em cajado; e, surpreendentemente, uma das decanas, que vinha bem, sente o joelho e fica na traseira de todos. Até o almoço ela será a zero-três, nossa última baixa. O caminho deveria inspirar bondade e compaixão, mas, carregando a mochila da zero-três quando não podíamos mais nem com as nossas, nós, meninos, somos invadidos por certo individualismo, advindo do objetivo de superação e, talvez, pela responsabilidade que, invariavelmente, os homens tendem a assumir sempre pelas mulheres ao seu lado. Decidimos conversar, e elas nos compreendem quando maldizemos a dificuldade que é diminuir o ritmo e fazer paradas que esfriam o corpo acostumado ao movimento. Combinamos de nos reunir com mais esparsamento, tipo de duas em duas horas, nas pausas para descansar.</p>
<p>O objetivo da tarde era chegar em Melide (km 52). Nos arredores da cidade, num lugar de descanso para peregrinos, encontramos quem?, quem? Sim, Uni! A menina do telefonema abraça o cachorrinho e está segura de que ela é nosso protetor. Começo a achar, no íntimo, o mesmo, mas mantenho a opinião anterior pelo bom humor.</p>
<p>Chegamos ao albergue às 6h e, mesmo sem sono, ficamos na cama o resto da noite, descansando o corpo. O chuveiro, de água fria e que funcionava só durante uns três segundos a cada pressionada no botão, é motivo de piadas. Encontramos o amigo húngaro e duas senhoras de La Coruña, que estavam fazendo o Caminho pela terceira vez e disseram-nos que a experiência o torna mais fácil. É muito forte, essa ligação entre os peregrinos. Durante as caminhadas, é de lei desejar un “buen camino” a todos, além de trocar umas palavras sobre a vida, bolhas e tudo mais. Não sinto mais os dedões dos pés: eles são só calos. As meias continuam a funcionar.</p>
<div id="attachment_761" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/placa.jpg"><img class="size-medium wp-image-761" title="A concha é símbolo de Santiago. Na forma estilizada, serve também como seta que que guia o Caminho" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/placa-e1295713356881-300x261.jpg" alt="A concha é símbolo de Santiago. Na forma estilizada, serve também como seta que que guia o Caminho" width="300" height="261" /></a><p class="wp-caption-text">A concha é símbolo de Santiago. Na forma estilizada, serve também como seta que que guia o Caminho</p></div>
<p><strong>DIA 5</strong></p>
<p>O sol, que já vinha nos abandonando aos poucos desde o terceiro dia, some de vez no quinto. Chuva, chuva, chuva. Eu me sinto mais cansado que nunca. O fato de já ter andado dois terços é que me impele a seguir. Chegando a Arzúa (km 37), onde combináramos de nos encontrar com as meninas para o almoço, sinto o joelho doer, e forte. A cada passo uma fisgada, e a imagem do histórico deslocamento de rótula do Ronaldinho toma minha cabeça. Começo a andar como uma tartaruga, mas os meus outros companheiros me motivam, parando sempre para me esperar. Pego um pedaço de madeira e faço-o de cajado, melhora um pouco. A força que ponho na mão que segura o cajado é tanta que me arranca um naco de pele, deixando a carne à mostra.</p>
<p>O trajeto da tarde era de 20 km até Arca O Pino, a 13 km de Santiago. A dor e o frio começam a fazer efeito na metade do trajeto: começo a enlouquecer. Rio, falo sozinho, começo a gritar para os outros que deveríamos ir até Santiago de uma vez só, no fundo porque eu não sabia se meu joelho iria funcionar no dia seguinte. Decido tatuar-me a concha de Santiago. Nunca antes eu tivera vontade de fazer uma tatuagem, sempre alegando que nada na minha vida era tão perene. Mas aquele sofrimento merecia uma homenagem, eu precisava de uma marca além de um possível joelho podre para o resto da vida. Depois fico pensando no Eterno Retorno nietzschiano, e me causa pânico imaginar que tenha de enfrentar o Caminho infinitamente. Em dado momento, encontro um altar a um peregrino que morrera durante o Caminho. Aquilo aumenta a loucura e penso na minha própria morte.</p>
<p>A três quilômetros de Arca, em Santa Irene, vejo, à porta de um albergue, um monte de cajados melhores que os meus. Com dor na consciência, deixo o meu e pego dois, um dos quais jogo fora com pesar, pois parte de mim queria voltar e deixá-lo de novo no lugar.</p>
<p>Os dois companheiros, por insistência minha, desistiram de me esperar. Andam alguns metros mais à frente. Na entrada de Arca, uma mulher passando de carro me buzina e me faz um gesto de “força!” com o punho fechado e erguido posto fora da janela. Me sinto como se estivesse fazendo a melhor das boas ações que jamais fizera e os pensamentos loucos me deixam, agora é só paz. Ou cansaço. Ao chegar ao albergue, compramos uma garrafa de vinho no supermercado ao lado, para afogar a alma e aquecer as mágoas.</p>
<div id="attachment_759" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/altar.jpg"><img class="size-medium wp-image-759" title="Nos últimos 50km, encontra-se um altar em memória a um peregrino que enfartou durante o Caminho" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/altar-300x225.jpg" alt="Nos últimos 50km, encontra-se um altar em memória a um peregrino que enfartou durante o Caminho" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Em algum canto dos últimos 50km, encontra-se um altar em memória a um peregrino que enfartou durante o Caminho</p></div>
<p><strong>DIA 6</strong></p>
<p>Domingo de Páscoa. Todos ansiosos para chegar a Santiago a tempo para a missa do peregrino de meio dia. Tento acordar todos às cinco da manhã, como o planejado, mas ninguém se move. Acordam só lá pelas seis e partimos às sete. Vejo meninos de 9 e 12 anos fazendo o Caminho. Também uma menina paraplégica, com sua família. Penso se o peregrino dono do meu cajado roubado conseguirá chegar sem ele. Me acho o ser mais desprezível de todos. Mas logo, na subida até o Monte do Gozo (que tem esse nome porque é dele a primeira vista de Santiago), os pensamentos se acabam, sou só corpo, moído, aleijado, mas que anda, anda, anda, porque não há o que fazer, e porque está tão perto… O ritmo de quatro quilômetros por hora já não existe, e cinco quilômetros me parecem dez. Uma peregrina me dá a dica de não andar pelo asfalto, mas pela terra, disse que é melhor para os pés. Sem pestanejar, obedeço-a.</p>
<p>Apesar da vista do Monte do Gozo ser frustrante, pois não dá para ver a Catedral, o fato de já estar na entrada de Santiago recupera o meu humor, eu começo a conversar com alguns outros jovens peregrinos. Ao entrar nas ruas, o Caminho perde a magia, eu me sinto um tico idiota em caminhar todo sujo e torto diante de lojas e restaurantes da zona nova, mas então entro na rua São Pedro de Mezonzo, que faz parte da velha cidade, e a sensação de vitória, a emoção de estar perto de casa, de ver Ste, Mari e Betta, meus <em>roomates</em>, minha família aqui, toma conta de mim. Não ligo para os olhares dos turistas ao baixar a Praça Cervantes e, com um nó na garganta, vejo a Catedral. Espero os outros para entrarmos juntos. A menina do telefonema, que sofreu muito mais que eu, com o joelho fisgando desde o segundo dia, me abraça e chora como um bebê. Zero-um, zero-dois e zero-três aparecem para nos receber. Betta e Ste também. Entro na catedral pela primeira vez, enquanto o coro gregoriano entoa algo que me conforta, apesar do frio que faz. Me sento nas escadas e sou só música. Quando ela para, reconheço os peregrinos que encontrei durante todos os dias e os cumprimento. Depois, vou pegar o meu certificado, a Compostela, que – ninguém me avisou! — não veio em latim por eu não ter alegado motivos religiosos no formulário que preenchi. Me perco de todos na saída e decido ir pra casa sozinho. Pela primeira vez, sinto uma falta danada de Uni.</p>
<div id="attachment_760" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/catedral.jpg"><img class="size-medium wp-image-760" title="A fachada da Catedral de Santiago de Compostela" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/catedral-300x225.jpg" alt="A fachada da Catedral de Santiago de Compostela" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">A fachada da Catedral de Santiago de Compostela</p></div>
<p><strong> </strong></p>
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		<title>Eu era um patinho feio</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 04:03:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[A Tardinha]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[O Patinho Feio]]></category>

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		<description><![CDATA[“Fo-en! Fo-en!” Foen, aqui na Bahia, é sinônimo de fanho, aquela pessoa que tem voz nasalada. “Fo-en! Fo-en!” — era assim que as outras crianças me perturbavam. Eu nasci com algumas deformações no lado direito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">“Fo-en!  Fo-en!”</p>
<p style="text-align: left;">Foen,  aqui na Bahia, é sinônimo de fanho, aquela pessoa que tem voz  nasalada.</p>
<p style="text-align: left;">“Fo-en!  Fo-en!” — era assim que as outras crianças me perturbavam.</p>
<p style="text-align: left;">Eu  nasci com algumas deformações no lado direito do rosto. (Não gosto  dessa palavra deformação, porque ela está ligada a idéias ruins,  e aí eu fico me sentindo um ogro. Escrevi-a porque é mais entendível  do que o termo que os médicos usam para nomear um problema como o meu:  má formação congênita.) Tinha uma espécie de verruga logo abaixo  do olho; não tinha o osso que dá forma à maçã do rosto; tinha a  boca torta e maior desse lado; tenho até hoje uma saliência do lado  do nariz por conta de um canal lacrimal que, digamos, estufou; e também  sou fanho. Contudo, dessas “más formações congênitas” as outras  crianças não faziam troça, mas perguntas, do tipo: “o que aconteceu  com você pra ser <em>assim</em>?” “É-É.. De nascença”, dizia  eu cabisbaixo, numa vozinha triste, cheio de pena de mim mesmo por me  achar um anormal, alguém diferente de um modo ruim.</p>
<p style="text-align: left;">Zombaria  era me chamar de “fo-en! fo-en!” Eu abria o berreiro e ia correndo  pro colo da minha vó, que me consolava dizendo que eu não tinha que  me importar com o que diziam sobre minha aparência física, e sim sobre  o meu comportamento, as minhas idéias. “Por isso, estude bastante,  leia bastante, para ser bem inteligente. Pois pessoas inteligentes nunca  são motivo de chacota”, me dizia ela.</p>
<p style="text-align: left;">Quando  eu ganhei minha primeira coleção de livros, a história que mais me  cativou foi a do patinho feio. Lia e relia, e relia, e relia; sempre  sonhando com o dia em que eu cresceria e, talvez, me tornasse um belo  cisne, fazendo desaparecer como que por mágica todas as minhas “má  formações congênitas”. No fundo, não acreditava na minha avó,  dizendo que eu devia não me importar com a aparência. Porque, puxa!,  eu me sentia incomodado com as perguntas e falações, eu queria que  elas parassem.</p>
<p style="text-align: left;">E  pararam. Em parte porque as outras crianças, como todas as pessoas,  aprenderam com o tempo que há certas coisas que têm de ser ditas  com bastante cuidado, para não magoar ninguém; em parte porque fiz  algumas cirurgias plásticas. Mas, sobretudo, porque minha vó estava  certa: se eu não tivesse lido e estudado bastante, de nada adiantariam  as cirurgias. Eu ia ter uma boca ajeitada, porém só ia sair bobagem  dela, e eu continuaria sofrendo deboche. Seria um cisne desafinado.</p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<h4>[cronicazinha escrita para um projeto do meu editor, Luis Camargo, com crianças da 1a série da rede de ensino público do Rio de Janeiro e publicado em A Tardinha, na edição de hoje]</h4>
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		<title>Resposta a &#8220;Jantar com o bofe&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Sep 2009 07:31:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[casal]]></category>
		<category><![CDATA[encontros]]></category>
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		<category><![CDATA[trilha sonora romântica]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebi um email com um crônica na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Recebi um email com um crônica na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher quando é convidada para jantar. É preocupar-se com a forma; fazer mão e pé; e escova e hidratação; é pensar na roupa certa; aceitar o aperto dos sapatos bonitos e o desconforto da calcinha sexy. É tanta coisa, que já esqueci metade, embora tenha me esforçado para memorizar, juro.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Contudo, durante a leitura me pareceu que ela tentava fortalecer seu ponto alegando um total descompromisso da parte masculina para com a situação. &#8220;Ele diz, como se fosse a coisa mais simples do mundo &#8216;Vamos jantar amanhã?&#8217;.&#8221; Daí resolvi explicar um pouco o lado masculino também.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Oscar Wilde escreveu: assim como os homens amam com os olhos, as mulheres amam com os ouvidos. Essa frase tem lá sua verdade, mas não está bem calibrada. Podemos dizer assim: os homens são extremamente visuais, enquanto as mulheres trabalham todos os seus sentidos. E mais &#8212; trabalham a sua imaginação. As mulheres são muito afeitas à narrativa, ao contexto, à progressão das coisas. Assim, convidá-la para jantar é fazê-la entrar em um filme, desde o momento em que abre a porta da casa até o momento em que volta a abri-la. Cada encontro, para ser bem sucedido, tem de dar um trabalho digno de produção hollywoodiana.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Primeiro, o cenário. A locação é muito importante para as mulheres. Homens não costumam reparar nela, e os filmes pornô são a maior prova disto. O seu primeiro desafio, então, é escolher um restaurante que seja minimamente badalado mas sem perder o tom intimista, e com boa decoração.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Percebeu? São três qualidades extremamente abstratas, que envolvem mais que a mera visualização. Você conhece um lugar assim? Difícil. Você só frequenta este tipo de ambiente quando convida mulheres para jantar, porque, no dia-a-dia, qualquer boteco onde se possa comer bem e beber cerveja em copo que não seja de plástico já está valendo. O lugar mais arrumadinho e intimista disponível na sua memória é uma pizzaria &#8212; você acaba de confundir intimista com caseiro, por conta das toalhas xadrez que te lembram a casa da sua avó  &#8211; ou um restaurante chinês, com a calmaria que seus aquários nas paredes inspiram. Mas, ei, pizzaria e chinês são muitas vezes vistos com maus olhos, como parentes do boteco ou da barraquinha de cachorro-quente. Não, não pode ser nenhum dos dois &#8212; ou até pode, só quem com um outro fator de dificuldade acrescido: deve ser um lugar desconhecido. Nada que tenha saído na Veja ou no caderno cultural recentemente. O que elimina todos os japoneses que você conhece também.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">As mulheres querem sempre ser surpeendidas, e se você não é capaz de fazê-lo, você não tem chances com ela. Se você só vive o básico da urbanidade moderna, isto é, tem um trabalho monótono e transita entre a academia, o baba, a praia, o cinema, o bar, algum show e casa &#8212; rá, se fodeu. Arranje um hobby perigoso, um trabalho glamouroso, algo que faça de você especial, sui generis. Eu conheço uma garota que namorava um apaixonado por camping e trilhas. Ela, que até então nunca tinha ido nem em fazenda, vivia o acompanhando e me falava com verdadeira fascinação das aventuras que encaravam. Quando terminaram, ela nunca mais voltou a acampar. Nem por trauma dele nem nada; simplesmente não lhe interessava mais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ou seja, em paralelo à produção do cenário, você precisa compor o seu personagem de mocinho psicologicamente. Ele deve ser um James Bond ou Indiana Jones, com um timing de piadas do Seinfeld ou do friend Chandler. A cada jantar, temos de fazer um show de stand up comedy. Uma vez eu ouvi um &#8220;ui, ficamos sem papo&#8221; e, acredite, não foi nada bom.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Vamos agora a um outro aspecto:</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Quando você vê alguém indo ao banheiro em um filme? Ou pegando fila? Atravessando a rua ou preso num engarrafamento?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Resposta correta &#8212; somente quando isto tem importância dramática.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Nas histórias, o que é irrelevante não precisa ser contado. Esta regra narrativa nos obriga a transformar todo e qualquer momento do encontro em significante. Por exemplo, no caminho entre a casa dela e o restaurante. O carro está limpo? A seleção de músicas foi minimamente pensada? Let&#8217;s get it on está seguramente incluída e posicionada para tocar na volta para casa? Você vai conseguir iniciar o stand up enquanto dirige e presta atenção redobrada aos ladrões que sempre podem te surpreender no trânsito? E quando você descer e os três flanelinhas da rua se aproximarem, ameaçadores, cobrando 10 reais &#8212; você vai aceitar a extorsão com aquela engasgada que dá sempre nessas situações, dando a ela inconscientemente a certeza de que você não é herói porra nenhuma, ou vai peitá-los e mostrá-la quão bravo você, ainda que isso lhe valha uma surra?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Bom, mas supunhamos que tudo ocorra bem, e os caras só cobrem 2 reais. Depois de jantar, aonde quer que vocês forem, e até se separarem, o filme continua. Um novo cenário deslumbrante é preciso, um nova temporada de stand ups também e, assaz importante, Let&#8217;s get it on não deve ser tocada no trajeto para a esticada na boate.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Eu poderia terminar dizendo algo do tipo: tá vendo, a gente tem muito mais trabalho que vocês, nossas responsabilidades dependem de muitos outros fatores, mas é bobagem. Um encontro é realmente como um filme, e cinema é trabalho coletivo, não dá pra fazer sozinho.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Bom apetite e desliguem seus celulares. <img src='http://abreparentese.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </div>
<p>Recebi um email com <a href="http://vilamulher.terra.com.br/comunidade/perfil/lemdobro/blog/outros/42536-jantar-com-o-bofe.html" target="_blank">um crônica</a> na qual a narradora contava, com inadequada histeria (o mundo ainda é machista e preconceituoso para com as mulheres), a odisseia que é a preparação feita por uma mulher quando é convidada para jantar. É preocupar-se com a forma; fazer mão e pé; e escova e hidratação; é pensar na roupa certa; aceitar o aperto dos sapatos bonitos e o desconforto da calcinha sexy. É tanta coisa, que já esqueci metade, embora tenha me esforçado para memorizar, juro.</p>
<p>Contudo, durante a leitura me pareceu que ela tentava fortalecer seu ponto alegando um total descompromisso da parte masculina para com a situação. &#8220;Ele diz, como se fosse a coisa mais simples do mundo &#8216;Vamos jantar amanhã?&#8217;&#8221; Daí resolvi explicar um pouco o lado masculino também.</p>
<p>Oscar Wilde escreveu: assim como os homens amam com os olhos, as mulheres amam com os ouvidos. Essa frase tem lá sua verdade, mas não está bem calibrada. Podemos dizer assim: os homens são extremamente visuais, enquanto as mulheres trabalham todos os seus sentidos. E mais &#8212; trabalham a sua imaginação. As mulheres são muito afeitas à narrativa, ao contexto, à progressão das coisas. Assim, convidá-la para jantar é fazê-la entrar em um filme, desde o momento em que abre a porta da casa até o momento em que volta a abri-la. Cada encontro, para ser bem sucedido, dá um trabalho digno de produção hollywoodiana.</p>
<p>Primeiro o cenário. A locação é muito importante para as mulheres. Homens não costumam reparar nela, e os filmes pornô são a maior prova disto. O seu primeiro desafio, então, é escolher um restaurante que seja minimamente badalado mas sem perder o tom intimista, e com boa decoração.</p>
<p>Percebeu? São três qualidades  abstratas, que envolvem mais que a mera visualização. Você conhece um lugar assim? Difícil. Você só frequenta este tipo de ambiente quando convida mulheres para jantar, porque, no dia-a-dia, qualquer boteco onde se possa comer bem e beber cerveja em copo que não seja de plástico já está valendo. O lugar mais arrumadinho e intimista disponível na sua memória é uma pizzaria &#8212; você acaba de confundir intimista com caseiro, por conta das toalhas xadrez que te lembram a casa da sua avó  &#8211; ou um restaurante chinês, com a calmaria que seus aquários nas paredes inspiram. Mas, ei, pizzaria e chinês são muitas vezes vistos com maus olhos, como parentes do boteco ou da barraquinha de cachorro-quente. Não, não pode ser nenhum dos dois &#8212; ou até pode, só quecom um outro fator de dificuldade acrescido: deve ser um lugar desconhecido. Nada que tenha saído na Veja ou no caderno cultural recentemente. O que elimina todos os japoneses que você conhece, por sinal.</p>
<p>Uma mulher quer sempre ser surpreendida, e se você não é capaz de fazê-lo, você não tem chances com ela. Se você só vive o básico da urbanidade moderna, isto é, tem um trabalho monótono e transita entre a academia, o baba, a praia, o cinema, o bar, algum show e casa &#8212; rá, se fodeu. Arranje um hobby perigoso, um trabalho glamouroso, algo que faça de você especial, sui generis. Eu conheço uma garota que namorava um apaixonado por camping e trilhas. Ela, que até então nunca tinha ido nem em fazenda, vivia o acompanhando e me falava com verdadeira fascinação das aventuras que encaravam. Quando terminaram, ela nunca mais voltou a acampar. Nem por trauma dele nem nada; simplesmente não lhe interessava mais.</p>
<p>Ou seja, em paralelo à produção do cenário, você precisa compor o seu personagem de mocinho psicologicamente. Ele deve ser um James Bond ou Indiana Jones, com um timing de piadas do Seinfeld ou do friend Chandler. A cada jantar, temos de fazer um show de stand up comedy. Uma vez eu ouvi um &#8220;ui, ficamos sem papo&#8221; e, acredite, não foi nada bom.</p>
<p>Vamos agora a um outro aspecto:</p>
<p>Quando você vê alguém indo ao banheiro em um filme? Ou pegando fila? Atravessando a rua ou preso num engarrafamento?</p>
<p>Resposta correta &#8212; somente quando isto tem importância dramática.</p>
<p>Nas histórias, o que é irrelevante não precisa ser contado. Esta regra narrativa nos obriga a transformar todo e qualquer momento do encontro em significante. Por exemplo, no caminho entre a casa dela e o restaurante. O carro está limpo? A seleção de músicas foi minimamente pensada? <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=NZZcQCs2KEo" target="_blank">Let&#8217;s get it on</a></em> está seguramente incluída e posicionada para tocar na volta para casa? Você vai conseguir iniciar o stand up enquanto dirige e presta atenção redobrada aos ladrões que sempre podem te surpreender no trânsito? E quando você descer e os três flanelinhas da rua se aproximarem, ameaçadores, cobrando 10 reais &#8212; você vai aceitar a extorsão com aquela engasgada que dá sempre nessas situações, dando a ela inconscientemente a certeza de que você não é herói porra nenhuma; ou vai peitá-los e mostrá-la sua bravura, ainda que isso lhe valha uma surra?</p>
<p>Bom, suponhamos que tudo ocorra bem, e os caras só cobrem 2 reais. Depois de jantar, aonde quer que vocês forem, e até se separarem, o filme continua. Um novo cenário deslumbrante é preciso, um nova temporada de stand ups também e, assaz importante, <em>Let&#8217;s get it</em> on não deve ser tocada no trajeto para a esticada na boate.</p>
<p>Eu poderia terminar dizendo algo do tipo: tá vendo?, a gente tem muito mais trabalho que vocês, nossas responsabilidades dependem de muitos outros fatores. Mas é bobagem. Um encontro é realmente como um filme, e cinema é trabalho coletivo, não dá pra fazer sozinho.</p>
<p>Bom apetite e desliguem seus celulares.</p>
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		<title>Deixa beijar</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Aug 2009 01:41:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Sei que esse papo da complexidade das mulheres é tema já batido e surrado, mas fiz uma descoberta revolucionária e, portanto, preciso revolvê-lo um pouco mais. Como sabemos, as mulheres são seres minuciosos, e é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sei que esse papo da complexidade das mulheres é tema já batido e surrado, mas fiz uma descoberta revolucionária e, portanto, preciso revolvê-lo um pouco mais.</p>
<p>Como sabemos, as mulheres são seres minuciosos, e é preciso ser um sherlock para apreender cada sinal enviado por elas. Ainda que a natureza da mensagem seja a mais simples possível, verbal, não se deixe enganar pelos seus ouvidos. Muitas dizem &#8220;talvez&#8221; quando querem dizer &#8220;não&#8221; e dizem &#8220;quem sabe&#8221; quando querem dizer &#8220;sim&#8221; – percebe a sutileza?</p>
<p>Pesquisas recentes estimam que apenas 30% da nossa comunicação se estabeleça pelo diálogo. A linguagem corporal reina, com 70% de participação. Agora, trata-se de uma média entre o comportamento de ambos os sexos. Como um representante dos homens, posso  afirmar que devemos ceder ao corpo, quando muito, uns 10% de crédito em nossa comunicação. Logo, para chegarmos à média de 70%, temos de considerar a linguagem corporal feminina como 130% atuante. Os números parecem absurdos, eu sei, eu nunca fui bom com eles; porém, dentro do contexto, até que soam razoáveis, não é?</p>
<p>Alguns destes sinais corporais já são absolutamente claros para nós: quando ela mexe o cabelo ou se inclina em nossa direção, temos ciência de ser um modo de demonstrar interesse. Pergunto-me quantos séculos os homens demoraram para decifrar este código, e a única resposta satisfatória envolve  a  hipótese de que uma mulher tenha revelado o segredinho a um amigo, e este tratou de espalhá-lo. Sendo assim, o mérito não é todo nosso.</p>
<p>O discurso vigente é que, se estamos <em>lost in translation</em>, é por pura negligência, compadres. Então, ao levar bronca por não termos reparado que ela aparou as pontas do cabelo ou está com os cotovelos menos ressecados, nos sentimos mal e reiteramos nossa culpa. Mas quer saber? Nem elas mesmas caem nessa lorota de negligência. O fato é que somos incapazes de alcançar o grau de comunicabilidade desenvolvido pelas mulheres. Elas sabem disto e, se usam este argumento simplório da incúria, é só para não ter de dar maiores explicações; afinal, não dá para explicar à garotada da 3ª série que os interesses financeiros e políticos estão por trás de todos os grandes eventos históricos, não é?  3ª série – é onde estamos.</p>
<p>A minha descoberta é prova irrevogável da tremenda evolução feminina. Pois eu descobri, meus amigos, que existe uma cor de esmalte chamada Deixa Beijar.</p>
<p>Sim, sim, sim. Enquanto os homens ainda estão desenvolvendo sua visão para além das 20 e poucas cores, incluindo aí os tons claros e escuros; enquanto eles demoram anos para identificar a cor salmon sem confundi-la com o goiaba; enquanto tentam utilizar as novas teorias no campo da física quântica para decifrar cores como henna e gelo fosco – enquanto tudo isto acontece, as mulheres já elaboraram um sistema no qual as cores não expressam simplesmente cores.</p>
<p>Não falo nem do clássico estado de espírito que a cromoterapia, o Feng Shui e suas variantes estabeleceram em nossa cultura. Refiro-me a estados de espírito condizentes com o sujeito pós-modernidade (Sexy, Preguicinha, Energia); estou falando da capacidade feminina de expressar, com as cores, as condições climáticas (Amanhecer, <em>Fog</em>); as regiões político-geográficas (Nova York, França, Arábia); os ritmos musicais (Samba, Blues, Jazz); comida (Leite de Coco, Cappuccino, Maçã do Amor); a história (Rosa Antigo); as coisas mais variadas, como Poema, Videoclipe, Blecaute&#8230; Existe mesmo uma cor Vida e uma Via Láctea!</p>
<p>Ao contrário de nós, <em>homus sapiens oculus primitivus</em>, as mulheres já se configuraram seres<em> oculus sapiens sapiens</em>, e conseguem encontrar uma cor para tudo que é, que foi e que será. As pontas de seus dedos não mais se restringem ao ato de nos chamar, nos fazer aquelas cosquinhas leves ou mesmo tirar meleca do nariz: elas são um espaço de discurso para as mulheres. Deve-se ter cuidado quando tocar as unhas dela; você pode descompassar o seu samba, perturbá-la durante sua preguicinha ou mesmo meter a manopla suja na sua deliciosa maçã do amor.</p>
<p>Como saber o que estaremos enfrentando?</p>
<p>Particularmente, nenhuma dessas cores me deixa tão angustiado quanto o Deixa Beijar. Agora, quando uma garota estiver falando comigo e passar a mão pelos lábios ou pelo pescoço – ela estará apenas se coçando ou se insinuando, provocando, falando com todos os dedos que ela me Deixa Beijar? Entrementes, e se não for o Deixa Beijar mas o Tem Que Morder? Ou mesmo o Não Me Toque? Um erro pode ser fatal e acabar com todo o sonho.</p>
<p>Que Deus nos ajude, camaradas, sobretudo aos que têm problema de visão como eu. A implacável lei darwiniana da sobrevivência do mais apto logo nos alcançará com força, e daqui pra frente só os que conseguirem montar um degradê perfeito sobreviverão.</p>
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		<title>Making of de uma crônica</title>
		<link>http://abreparentese.com/2009/06/making-of-de-uma-cronica/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2009 18:41:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Outro dia eu fui à banca de revistas e encontrei uma edição vagabundíssima de Ecce Homo, de Nietzsche. Era um livro molenga, com uma capa verde-cocô-de-diarréia e a clássica foto de perfil do filósofo abaixo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia eu fui à banca de revistas e encontrei uma edição vagabundíssima de <em>Ecce Homo</em>, de Nietzsche. Era um livro molenga, com uma capa verde-cocô-de-diarréia e a clássica foto de perfil do filósofo abaixo do título, em tamanho 3&#215;4.</p>
<p>Até aí nada demais. De hoje que as bancas vendem livros filosóficos, não é mesmo? O intrigante, aqui, é que ele estava na seção de publicações pornográficas, ao lado de uma <em>G Magazine</em>.</p>
<p>Partindo do pressuposto de que o dono da banca não conhece <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche" target="_blank">Nietzsche</a>, sua lógica foi implacável: um livro com a palavra HOMO no título, seguido de uma foto com um bigodudo nos moldes que o Tom Cavalcante, baseado no figurino do Village People (?), criou para seu personagem <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2002/bigbrotherbrasil/images/19tom2.jpg" target="_blank">Pit Bicha</a> &#8212; deve se tratar, realmente, de algo voltado para uma parcela do público gay masculino.</p>
<p>Oh, isto renderia um diálogo engraçadíssimo sobre o que aconteceria caso um comprador assíduo de <em>Playboy</em>, <em>Brazil</em>, <em>Sexxxy</em> e afins decidisse comprar aquele livro na mão daquele vendedor. O vendedor, do tipo heterossexual conservador se passando por descolado, não conseguiria esconder seu espanto. O cliente, embora não tivesse problema algum com a homossexualidade, tentando provar para o outro que se tratava apenas de um livro filosófico, abriria em uma página aleatória e leria:</p>
<blockquote><p>&#8220;Pobre quem nunca esteve enfermo o bastante, como para GOZAR desta &#8216;VOLUPTUOSIDADE DO INFERNO&#8217; (&#8230;) Creio que conheço melhor que ninguém as façanhas gigantescas que WAGNER é capaz de realizar&#8221;.</p></blockquote>
<p>Antes que eu pudesse escrever algo, porém, li<a href="http://blog.estadao.com.br/blog/antonioprata/?title=senta_o_careca&amp;more=1&amp;c=1&amp;tb=1&amp;pb=1#comments" target="_blank"> uma crônica no blogue de Antonio Prata</a> que gerou alguma polêmica pelo fato de um personagem seu utilizar o termo &#8220;bicha&#8221; de forma depreciativa. Prata pediu desculpas <a href="http://blog.estadao.com.br/blog/antonioprata/?title=sobre_o_texto_do_aviao&amp;more=1&amp;c=1&amp;tb=1&amp;pb=1#comments" target="_blank">no post seguinte</a>, assumindo que &#8220;os preconceitos, assim como os clichês e as gripes, são males que contraímos e distribuímos sem perceber.&#8221; Esta, aliás, foi uma das questões discutidas por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Foucault" target="_blank">Foucault</a> em sua obra: como o discurso se constrói, como herdamos e reproduzimos um conjunto de afirmações que julgamos serem a Verdade, quando se trata apenas de uma construção histórica.</p>
<p>Para dar um exemplo rápido e relacionado ao assunto, quem estuda sobre a Grécia Antiga seguramente vai se bater com a informação de que a relação entre homens fazia parte da sua cultura. (Em <em>Banquete</em>, de Platão, uma belíssima obra sobre o amor, um dos personagens chega a falar que os melhores homens para companheiros são os que estão no início da puberdade.) Como dizer que um hábito cultural é <em>errado, </em>inatural? De natural, só temos nossos corpos, e olhe lá, senhoras e senhores vacinados.</p>
<p>Por compreender que construir aquele diálogo só ajudaria a corroborar o discurso homofóbico, com o qual não concordo, desisti dele. O que me levou, por outro lado, a pensar na pretensa liberdade criativa e discursiva da literatura. Era uma situação engraçada, afinal &#8212; e não falo aqui de um cara tentando convencer o outro de que ele não é gay, mas de encontrar Nietzsche ao lado de uma <em>G Magazine</em>.</p>
<p>No fim das contas, saiu este post.</p>
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