Minha avó, de 79 anos, é a única pessoa da minha família que gosta de ler como eu. Todavia, apesar de ela ter me criado dos zero aos 12 anos, sua influência na minha formação como leitor não se deu de modo tão direto. Morávamos numa cidade pequena, sem biblioteca e, se bem que houvesse uma estante com pouco mais de 50 livros em casa, desses antigos, de capa dura e boa encadernação, nada ali era infantil, exceto por uma coleção com os clássicos — Pinóquio, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho & cia — dada por minha mãe. Mas eu não dava muita bola, a princípio, para estes livros. O que eu gostava mesmo era das histórias que ela me contava antes de dormir: lendas folclóricas, causos de sua juventude, quando morava na roça, anedotas e mesmo alguma invenção própria.

Com o tempo, porém, seu repertório minguou, ao contrário da minha sede por histórias novas. Por sorte, minha mãe me fez uma assinatura da Turma da Mônica nessa época, o que me sustentou pelos anos seguintes. Em seguida, descobri por uma amiga de meu pai a coleção Vagalume, da editora Ática. Eu devorava tudo, eu queria histórias. Os dois únicos livros de não-ficção com os quais tive relação na minha infância foram um dicionário de inglês Michaelis e a parte de uma enciclopédia Universal, do começo do século, que contava a história das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, com lindíssimas ilustrações. Por conta disto, me considero mais ficcionista que escritor: o que eu gosto é de inventar histórias, só calhou de as ter descoberto primeiro nos livros, já que a TV era constantemente controlada por minha vó porque, quando o aparelho ficava quente, ela achava que era hora de desligar, para não queimar.

O fato, aliás, de minha avó preferir o meu primeiro livro me deixa com uma pulga atrás da orelha: O Mistério da Casa da Colina foi a única coisa que sobrou de uma fase sem preocupação literária. Como escreveu Joca Reiners Terron em um conto de Sonho Interrompido Por Guilhotina, teria eu deixado de ser escritor quando me “profissionalizei” e perdi, assim, a “inocência necessária à alquímica transformação do desejo em ficção”?

Ah, mas cá estou eu de novo fazendo rodeios antes de entrar no assunto principal (não é à toa que este blogue se chama Abre Parêntese). Vamos a ele: o gosto literário de minha avó.

Minha avó está aqui em Salvador, de visita, e como sempre tenho que separar uma razoável quantidade de livros para ela ler agora e também para ela levar para o interior. Ela está lendo neste momento Precisamos falar sobre o Kevin, de uma norte-americana chamada Lionel Shriver, que conta a história de um fictício columbine day. Mas ela não gosta de literatura inglesa, porque não consegue falar os nomes das pessoas corretamente e muito menos compreende as referências dadas. A única exceção desde então foi Harry Potter. Eu morava na Espanha quando saiu o livro 7, e ela tomou a iniciativa de comprá-lo e deixá-lo na minha estante, para eu ler quando voltasse. Ela descobriu que agora pode comprar livros por um catálogo de cosméticos, lá no interior. Que só tem o que tá na lista de best-sellers, né? O bróder de O Caçador de Pipas (que ela insiste para que eu leia, um dia talvez), Dan Brown, Zibia Gasparetto, etc., etc. Ela adora a todos. Hoje de manhã, alegou que Zibia escreve melhor que Machado! Corri para a cozinha e tomei um copo d’água com açúcar. Ao voltar ao quarto,  ficamos ambos olhando para minha estante, rememorando nossas leituras. Ela se lembrou de que gosta muitíssimo de O Mundo de Sofia, e deseja relê-lo pela terceira vez; que Oscar Wilde não fede nem cheira (o que me irritou); que Günter Grass é tão chato quanto Cervantes, ela prefere Flaubert e Tólstoi. Brigamos feio na hora de passar a vista pelos livros de Paulo Coelho, tivemos uma pequena reconciliação ao lembrar das histórias de Dos Passos em Pilatos, de Carlos Heitor Cony e definitivamente nos abraçamos e declaramos amor eterno e prova de parentesco indelével quando assumimos que não há quem escreva melhor que João Ubaldo Ribeiro. Neste momento, ela decidiu parar com o “difícil” Precisamos falar sobre o Kevin e reler o “engraçado” Arte & Ciência de Roubar Galinha, do Ubaldo. Eu fui inventar de dizer que, apesar da ótima releitura, ela andava era com preguiça de forçar a mente para coisas novas, no que ela, apontando para uma coleção completa de Jorge Amado da década de 70, que era sua mas agora é minha, disse:

– Você já leu isso tudo aí?

– Não, vó. Só uns dois ou três.

– Pois você pode até saber ler esses nomes complicados desse livro aí do Kevin, mas enquanto não ler tudo de Jorge Amado, não tem moral para discutir comigo!

E cá estou eu, às 4 da manhã, embalando minha insônia com Seara Vermelha.

No último post, falei sobre a versatilidade da expressão baiana “é nenhuma”. É preciso fazer uma retificação contudo:

“É nenhuma” é — até onde eu saiba — uma expressão exclusivamente soteropolitana. Há quem possa, de repente, tê-la levado para Vitória da Conquista ou Ilhéus, mas será mais uma questão de intercâmbio léxico interestadual que a prova de unificação cultural.

Por tratar-se da capital, é esperado que os hábitos, o modo de falar, a música de Salvador e região metropolitana acabem sendo tomados como manifestações baianas. Só que grande parte da Bahia tem um perfil muito mais parecido com o cenário de Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos, que com o sangue, suor e cerveja dos personagens de Jorge Amado. Eu mesmo vivi por doze anos em uma minúscula e pobre cidade da região sudoeste, a quase 800km de Salvador, chamada Riacho de Santana. Nascida na época de ouro do algodão, sofrendo há anos a crise do desmatamento que a produção (nem sempre legal) de carvão vegetal proporcionou, hoje Riacho de Santana vai sobrevivendo com o que der, sem muitas expectativas ou ilusões.

Sem acarajé, sem mar e sem capoeira, o riachense cria a sua cultura de uma mescla do que absorve de Salvador; de São Paulo, por conta do grande número de pessoas que migram para lá (além da antena parabólica que tem em toda casa); um pouquinho de coisa do norte de Minas; e também de outras cidades da região, como Macaúbas, terra de Pepe Moreno, notória pela artisticidade do seu povo, ou Bom Jesus da Lapa, com a qual mantemos a política da boa vizinhança baseada em uma saudável troca de impropérios — “Seus comedores de peixe com abroba!”, gritamos; “Pés-vermelhos [de terra]!”, retrucam.

Assim que, com toda essa influência, o riachês, nosso delicioso dialeto, é dotado de expressões bem particulares, que podem confundir o forasteiro. Mas não se preocupe, simpático leitor, bonita leitora. Caso esteja pensando em dar uma passadinha por lá, tomar uma cerveja no bar de Dim e conhecer a legendária figura de Tetê Poca Oi, o brilhante Gato Rosa (que merece um post separado aqui), fiz um pequeno dicionário que lhe será muito útil, ei-lo:

- Adoido - Interjeição. Indica surpresa, espanto, admiração. Quanto mais se estende o primeiro “o” (que tem som de “u”), mais surpreso/espantado/admirado se está. Ex.: Cê comeu 15 goiabas de vez? Adoooooooooooooooooooido!

- Bandaia - Substantivo ou adjetivo, usado exclusivamente para as mulheres. É um ponto não-fixo na linha que opõe uma puta e uma festeira.

- Botar de sal e de doce - O equivalente em riachês para o baianês “Botar pra foder”, ou pro malhaçãonês “Ah, moleque!, mandou bem! (Isso merece uma rodada de suco pra galeara! [sic])”. O jeito correto de pronunciar é não transformando o “l” de “sal” em “u”, falar “doce” como 2 em espanhol e, com exceção do “botar”, transformar a expressão numa palavra só. Ex.: – Fiz três gols no baba de hoje! – Adoooido!, botou de salededossss.

- Que nem brita - Locução adverbial. Indica quantidade grande, às vezes tão grande que exige o uso de “adoido”. Ex.: Adoooido!, comi goiaba que nem brita! Variação: Que nem duas de dez.

- Só tá o lóro - Expressão usada para indicar mal-acabamento, algo que não está em seu melhor estado. Há quem traduza para “A coisa tá preta”, mas acho que isso poda tanto sua abrangência quanto seu feeling. Ex.: (1) Rapaz, o cara teve uma queda feia de moto. Só tá o lóro! (2) Rapaz, eu bebi demais ontem: só tô o lóro! Variações: Só tá o pau da rabiola; Só tá o cu e a catinga (Só tá o couro e a catinga para os mais púdicos).

E aproveite a estadia!

É nenhuma

February 1, 2009

Quando estava de intercâmbio em Santiago de Compostela, na Espanha, certa festa brinquei de telefone sem fio (telefone árabe, para eles) com pessoas de várias nacionalidades. Porém, como os meus amiguinhos não falavam espanhol tão bem,  resolvemos experimentar frases na língua de cada um: teve italiano, francês, galego, português (“tenho saudade de você”), flamenco e até mesmo afegão (! Algo que queria dizer “adoro você” e cujo som era algo parecido a “la dolce vita”). Acabadas as línguas, passamos aos dialetos, e eu inventei de soltar, em bom baianês, “é nenhuma, meu rei”. Foi a sensação da noite. Me pediram para escrevê-lo e ficaram repetindo a expressão todo o tempo.

Para os não-baianos:

A regra que rege o baianês é versatilidade. Nossas expressões mais corriqueiras se adequam aos mais diversos contextos com bastante eficácia. O caso mais conhecido é o do “porra”, a palavra mais funcional do nosso idioma. Pode ser interjeição (“Porra! O que você fez?”), adjetivo (“O que você fez, seu porra?”), substantivo (“Pega essa porra aí pra mim”), sem contar as mais variadas locuções adverbiais – de lugar (“Esse bar fica na casa da porra!”), de quantidade (“Comprei chocolate pra porra!”), de distância (“É longe pra porra!), etc; etc. E quem disser que baiano vive com a boca cheia de porra vai ser assaltado em cada ponto turístico que visitar quando for a Salvador.

Todavia falava eu do “é nenhuma (, meu rei)” — hoje em dia estão tentando substituí-la pela péssima “tá de boa (, negão)”, mas quanto a isso sou conservador. Usamo-la para se dizer que está tudo bem, tranquilo, em paz. Dois baianos, quando se encontram, podem iniciar a conversação assim:

– E aí, é nenhuma?
– É nenhuma!

Mas também é útil em outras situações, como quando alguém esbarra em você e te pede desculpas. Ou quando você quer saber a opinião de outro para a nova posição de um objeto (“Esse porta-retrato assim tá é nenhuma? É nenhuma”); ou quando você está, sei lá, comprando algo por quilo, e o vendedor quer saber se a quantidade que pôs estava boa; ou…

Passado um pouco o frisson, eu ainda quis impressionar com o dialeto dos traficantes cariocas, mais “alemão” foi a primeira palavra que me veio à cabeça, e preferir calar-me em respeito à linda alemã que estava presente. E que não quis nada comigo, mas… é nenhuma.

Certa feita, Luis Fernando Verissimo contou numa crônica que os criadores dos dicionários forjam verbetes para poderem monitorar eventuais cópias. Ou seja, os caras inventam umas palavras e depois ficam de olho nos novos lançamentos, pra ver se elas aparecem — evidência de plágio.

Nessa onda, ele levanta a hipótese de que “esdrúxula” tenha sido uma palavra inventada que acabou ganhando notoriedade. Afinal, quer palavra mais esdrúxula que “esdrúxula”?

A minha palavra preferida do português é “tornozelo”. Acho-a de uma lascívia discreta, escorregadia, misteriosa. É linda! Tornozeeeeelo…

Já “fofoca” é a mais feia. Tem essa dobradinha buzinuda de “fo”, e ainda por cima termina em “foca”, um bicho feio cujo som parece o de uma buzina. Até “fonfonar”, que é sinônimo de buzinar, é mais bonitinha — verbos são sempre charmosos. E a onomatopéica “fonfom” idem: é curtinha, acaba antes de incomodar, o que lhe dá até um ar engraçadinho.

“Fofoca” não tem jeito. É uma palavra muito fanfarrona pra meu gosto.

O legado de K

January 25, 2009

Gabriel García Márquez conta um fato muito bonito a respeito do seu início na literatura: que foi A Metamorfose, de Kafka [1883-1924], que o incentivou a escrever; a partir desta leitura, ele desejou contar histórias tão instigantes quanto a que se inicia com “Certa manhã, ao acordar de sonhos intranqïlos, Gregor Samsa encontrou-se, na sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso.” E, convenhamos, ele conseguiu seu intento. Para ficarmos apenas com um exemplo, a primeira frase de Crônica de uma Morte Anunciada — “El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 para esperar el buque en el que llegaba el Obispo” — é tão deliciosa quanto a de A Metamorfose.

Eu não tenho algo tão legal assim para contar a respeito do amor e fascínio que tenho para com a literatura de Kafka. Gosto muito e ponto. Gosto a ponto de a pessoa Kafka também exercer sobre mim grande curiosidade, uma relação idêntica a que os adolescentes estabelecem para com seus ídolos do rock. Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi a semana que passei em Praga, capital da República Checa, onde ele nasceu e viveu. Conheci a casa em que morava, a sinagoga que frequentava, o edifício onde funcionava sua escola, o café no qual se encontrava com seus amigos. Aliás, só para constar como nota, não é muito difícil relacionar-se com Kafka estando em Praga. Seu nome está estampado em camisetas, canecas, chaveiros, canetas, pôsteres, etc., etc. — eis a prova de que o pop não poupa ninguém. Estou seguro de que, se Kafka pudesse ressurgir nas ruas de sua cidade-natal hoje em dia, antes do fim do dia ele já teria cometido suicídio.

Kafka sempre carregou consigo o sentimento de inadaptação. A tudo: do jogo hipócrita e absurdo da socialização, a matéria-prima de sua obra, até mesmo ao amor (são notórios seus fugidios romances). E é sobre os relacionamentos de Kafka que quero falar aqui. Tenho uma teoria que, apesar da falta de provas, tem muita coerência: Kafka é o inventor daquela famosa frase usada para romper relacionamentos — “o problema não é com você, é comigo”.

Até consigo imaginar que, em algum trecho dos seus diários, havia uma nota assim:

“Estou às vésperas de desistir do meu casamento com Felice. Escrevi-lhe uma carta ontem. Sei o quanto vou magoá-lo, mas, Deus, é melhor fazê-lo agora e poupá-la de uma eterna convivência comigo. Se bem conheço Felice e as mulheres, se nos casarmos, ainda que ela sinta, logo nos primeiros meses, o erro que cometeu, não desistirá da idéia que alimenta a sua fantasia a respeito do matrimônio como uma instituição feliz. Como ser feliz ao lado do pior homem que jamais existiu? Sou desprezível enquanto ser humano. E foi isso que tentei explicar-lhe na carta que lhe escrevi, com todo o tato: o problema não está nela, está em mim.”

Estátua de Kafka no bairro judeu de Praga

Provavelmente, dias depois, surgiu a seguinte nota: “Quando contei a Max que havia rompido com Felice, ele não pareceu surpreso. Mostrou-se curioso em escutar os meus porquês, mas algo em meu discurso o fez rir e sair do seu papel de amigo confessor. Dando-me um afetuoso tapinha no ombro, Max disse que eu havia lhe dado uma desculpa perfeita para terminar um relacionamento com uma certa senhorita que já estava lhe causando irritação. Ele não me deixou perguntar qual desculpa teria sido essa até o início da noite, quando retornou ao Arco e, tornando a parabenizar-me, anunciou a mim e aos demais amigos reunidos ali após o trabalho, como de costume, que era novamente um homem solteiro. ‘Afinal, o que você disse a ela, Max?’, perguntei-lhe. ‘Ora, Franz, meu amigo, o mesmo que você disse a Felice: que o problema não era com ela, e sim comigo. No que ela se condoeu de pena e me liberou de qualquer obrigação a seu respeito. Disse-me que tomasse o meu tempo para resolver minhas angústias, pois, de sua parte, ela não iria prejudicar o homem que tanto amava, com seus caprichos de mulher a aumentar minha aflição existencial. E que, quando desejasse, teria sempre os seus macios braços abertos para confortar a minha dor.’ Dito isso, secou os lábios, mas sem perder o ricto de satisfação.”

E foi assim que começou a espalhar-se o maior legado que Kafka deixou para nós, mesmo que suas palavras tenham sido completamente desvirtuadas, a confissão sincera tenha se tornado cinismo velado.

Há quem possa clamar pela ilegitimidade de minha teoria, alegando não haver nada parecido nos diários de Kafka que foram publicados. Ao ingênuo que pensa assim, eu pergunto: tendo sido Max Brod quem, desobedecendo ao último desejo de Kafka, tomou a iniciativa de publicar seus escritos, você acha mesmo que ele deixaria passar denúncia tão grave a respeito de si? Mais importante: Max iria cometer a burrice de popularizar uma desculpa tão eficiente quanto essa, para que ela perdesse o seu valor?

Talvez, na época, ele não imaginasse que esse lance do “problema não é contigo, é comigo” não sairia da rodinha dos Arconautas, como eles chamavam a si próprios, em homenagem ao seu próprio Giga, o Café Arco. Mas sabe como é, né? Impossível frear a globalização e o descaramento masculino.

P.S.: A foto que ilustra o post é de uma estátua de Kafka que fica no bairro judeu de Praga.

Não-homens

January 21, 2009

– Como assim, tá pegando ele? Gente, ele é tão… não-homem

– Você quer dizer ele é gay?

– Não, não é isso. É que eu nunca pensei nele como um cara pegável.

– Pô, o cara é até bonitinho; além de ser gente fina, brincalhão…

– É, eu sei, mas ele é tudo isso de um jeito diferente. Você já viu aquela figura dançando? Ah, porque se visse iria entender. Ele faz uns… passinhos estranhos… E não é só isso, é também… Ah, sei lá!

Foi difícil extrair de minha amiga todas as caraterísticas que ela atribui a um não-homem; é um juízo tão arraigado, que ela não consegue mais trazê-lo à luz. Não somente ela, mas as mulheres em geral: porque depois eu fui me certificar com outras amigas, de maneira muito sutil, e a infeliz constatação a qual cheguei é que, ao contrário de nós, compadres, que enxergamos uma potencial ficante até naquela conhecida mais baranga, as mulheres têm muito bem dividido seu conjunto de amizades masculinas: existem os pegáveis e os não-pegáveis, ou seja, os não-homens.

O não-homem não precisa ser necessariamente um grande amigo, embora grandes amigos tendam a se transformarem em não-homens: ele é simplesmente um cara que “está ali”, como me disse uma. Elas aceitam de bom grado todo o jogo de sedução que esses homens – ou melhor, não-homens – fazem, mas menos por interesse que por vaidade.

O não-homem é aquele cara que entra de bom grado no universo feminino, achando, pobrezinho, que ali está uma forma de cativar. Falar de sentimentos, de signos, analisar relações amorosas (as suas, as dela e a de terceiros) e gostar de dançar algo que não seja forró – estes elementos compõem o grau de não-hombridade mais agudo que eu registrei. Elogiar roupa, reparar que ela cortou o cabelo, frequentar o cinema ou a praia com ela vêm logo abaixo.

Isto me lembra uma história que contam sobre o famoso diretor de cinema neo-realista Pier Paolo Pasolini: Dizque um amante seu, um operário pobre e bruto, certa feita leu um romance (talvez pego da estante do próprio Pasolini) e, tendo-o achado interessante, resolveu comentá-lo com o namorado. Pois Pasolini rompeu o relacionamento, irado com tal atitude. Para ele, literatura era um assunto para conversar com seus outros amigos bichas, não com seu amante. Como Pasolini era praticamente uma moça, o exemplo também serve para ilustrar o que faz de um cara um não-homem.

No fim das contas, eu tenho para mim que as mulheres, apesar de todos os reclames contrários, simplesmente não aceitam descobrir que  seu homem (que nós, homens) é um ser frágil, cheio de dúvidas, ou mesmo que consiga deixar-se levar e hipnotizar-se por um som, igualzinho a elas. Portanto, mesmo se você não faz o tipo macho alfa, futebol, consertar coisas e cerveja com os amigos, saiba que seguir o outro viés não vai adiantar. Não que você precise deixar de se interessar por assuntos que elas julguem exclusivo delas e dos amigos gays, como signos e análise de relacionamentos, mas encontre um bróder para discuti-los; com as mulheres é melhor fazer piadas e aproveitar deixas para lançar frases de duplo sentido — “Quer dizer que taurinos são convencionais? Tô pra te provar que não, hem?”.  E, por fim, lembre-se: na pista de dança, nada de se mover mais que dois centímetros pra lá, dois pra cá.

Venho de uma família de médicos. A começar pelo meu avô, que encarna bem o papel de patriarca do interior do nordeste, coronel. Dos catorze netos, a minha geração conta com sete, eu sou o terceiro mais velho. Apesar de me destacar no interesse pelo que meu avô chama de cultura geral — era o que mais lia –, não havia uma aposta específica em mim, pela família, a respeito do futuro como médico: todos éramos guiados para tal futuro. Exceto por um tio (engenheiro, diga-se de passagem) que sempre podava qualquer outra alternativa à resposta sobre o que você vai ser quando crescer com o traumatizante É assim que você retribuirá o dinheiro que seus pais gastam com você, pagando colégio caro? — tirando ele, nunca houve uma cobrança pela escolha da medicina como profissão, apenas tentativas de influência sutis. O dinheiro, claro, sempre presente na argumentação.

Eu disse que da parte da família não havia apostas específicas, e isto é certo. Já da parte dos meus avós, que me criaram, era distinto. Minha avó, até hoje, gosta de me assustar com uns Eu ainda tenho esperança de que você faça medicina. Meu avô fala pouco comigo atualmente, mas não tem a ver com isto (assim espero), e sim porque eu me mudei de cidade e o vejo pouco, ele não gosta de telefones, nem é do tipo que vai até os outros — como bom coronel, os outros é que vão ter com ele.

Da minha geração três fazem medicina, uma fez enfermagem porque não conseguiu medicina, outra faz engenharia ambiental, tem um que ainda não entrou na faculdade e tem eu, que saí de um curso de ciência da computação para o de jornalismo, além da atividade não-acadêmica de escritor. Faço coisas tão estranhas ao universo profissional de minha família, que eles simplesmente não conseguem discutir as benesses ou malefícios da carreira, minhas boas e más decisões. Tive a sorte de dar-lhes algumas coisas palpáveis — livros publicados, nome no jornal –, o que lhes passa a segurança de que eu, ao menos, estou fazendo algo. Tenho amigos que enfrentam o mesmo drama e ainda não conseguiram essas provas materiais.

Mas toda essa apresentação familiar foi necessária para falar de uma prima, a segunda na hierarquia etária, quem mais disputou comigo nos últimos anos de colégio, apesar de ser um ano à frente. (Não nego que pensei em esfregar na cara dela, quando passei no meu primeiro vestibular, que eu agora estava na faculdade e ela ainda enfrentaria anos de cursinho.) Há um tempo, ocorreu um episódio que me deixou chocado:

Estávamos na casa da minha avó. Ela me havia presentado com um livro sobre orixás, repleto de fotos. Eu babava folheando-o, quando minha prima apareceu e perguntou do que se tratava meu fascínio. Expliquei-lhe, ofereci-lhe o livro emprestado e recebi em resposta um olhar desinteressado e um bruto E eu lá tenho tempo para isso! Enquanto você fica aí, vendo essas bestagens, eu estou estudando medicina!

Atribuí a resposta, em parte, ao histórico familiar; em parte a outro fator: há até quem diga que o curso de medicina é tão puxado, que as pessoas acabam tendo de se alienar para os demais assuntos. Para mim é desculpa. Desculpa de preguiçoso, porque conheço estudantes de medicina que mantêm interesses fixos em outras áreas e estudantes de outras áreas que são bitolados em sua especialidade.

Até compreendo que, para se destacar em uma atividade, é preciso toda a dedicação do mundo, mas a gente não precisa perder a visão periférica. Algumas áreas, como Política, História e Filosofia são fundamentais para nosso crescimento enquanto cidadãos e enquanto gente, ser humano. Entendo que minha prima não queira ler um livro sobre orixás, mas diminuí-lo em prol da medicina (fosse a área que fosse) é de uma pretensão idiota.

Aí, anteontem, conversamos sobre House, o famoso seriado norte-americano. Ela adora. Eu também, teci vários elogios. Escutei como resposta: Tá vendo? Até você, que não é da área, gosta!

Fui para a cozinha. Não adiantaria indagar se ela achava que House é um documentário gravado pelas câmeras de segurança do hospital.

O lema é conhecido: ano novo, vida nova. Mas o que fazer para ter uma nova vida? Como apagar o passado sem a desvantagem de perder a experiência ganha pelo que se viveu? Uma opção é mudar-se para um lugar onde ninguém te conheça — logo, ninguém sabe o que esperar de ti. O Zé Dirceu passou anos vivendo sob falsa identidade, no interior do Paraná, durante a ditadura militar; fez até cirurgia plástica para alterar a aparência; nem a sua esposa sabia do seu passado de militante. Eu já fiz cirurgias plásticas e já morei em outro país, onde ninguém me conhecia, porém sou menos competente que o Dirceu, porque todos os que conheci depois destes feitos acabaram sacando meu passado.

Diante da impossibilidade de ter uma nova vida, eu me contento com um novo blogue. O título se manteve, porque tenho muito carinho por ele (o apego é um grande delator do que somos, tome nota o leitor que estiver planejando imitar o Dirceu), mas o layout está diferente, todo o arquivo de posts foi deletado e a linha editorial agora é outra. Estou otimista. Posso não ter muita astúcia para reinventar a vida, mas a escrita, acho que dou conta. Feliz 2009.