Jogo Americano

November 25, 2009

FADE IN

INT. COPA – NOITE

HOMEM, MULHER e CRIANÇA (UM GAROTINHO DE 6 ANOS) estão sentados ao redor de uma mesa pequena, comendo. O homem está na cabeceira. A mulher à sua esquerda, o garoto à sua direita. Ouve-se o som dos talheres.

A criança pára de comer e encara, perplexa, o prato do homem.

HOMEM

Quê?

A criança aponta para a peça de JOGO AMERICANO abaixo do prato do homem.

CRIANÇA

Seu apoio de prato… Tá invertido.

O homem mastiga preguiçosamente.

HOMEM (DESINTERESSADO)

E daí?

A criança olha de relance para a mulher, que lhe retribui o olhar. A criança se volta para o homem.

CRIANÇA

A mamãe falou que não é assim, que o lado onde tem o desenho tem sempre de ficar pra cima.

A criança aponta para sua própria peça de jogo americano.

O homem engole o que mastigava e encara seriamente a criança; curva-se um pouco em sua direção.

A mulher, cabisbaixa, ergue os olhos, escondidos pelos cabelos, para o homem.

HOMEM

Escuta só: nem tudo que lhe dizem que funciona de uma determinada maneira funciona somente como lhe disseram.

O homem aponta para a sua peça de jogo americano.

HOMEM

Vê? E daí que tá invertido? O importante é continuar funcionando.

A criança volta os olhos para a mulher. O homem percebe esse gesto e, diante do silêncio dela, ele, que voltara a comer, também a encara.

Ela ainda demora um pouco para falar.

MULHER (MEIO RECEOSA)

Por favor, não fale essas coisas pra ele.

HOMEM

Mas eu não falei nada demais, eu só tava ensinando ele a não se comportar maquinalmente, cumprindo as funções mais inúteis sem questionamentos.

MULHER (UM POUCO MAIS SEGURA QUE ANTES)

Você não tava ensinando ele a questionar, e sim a ser desobediente.

HOMEM

O QUÊ?! De-Desobediente?! Você chama de desobediência o fato de ele não querer seguir um padrão idiota?

O homem ergue o prato da criança e vira seu apoio de prato.

HOMEM

Pronto, filho. Não se importe com essas coisas. Guarde os neurônios para as questões maiores.

A mulher se debruça sobre a mesa e conserta a peça de jogo americano do menino.

MULHER (UM TANTO RAIVOSA)

Em primeiro lugar, ele não é seu filho. Em segundo, isto é importante sim.

HOMEM (DEBOCHADO)

Ó, que importância! Talvez os filósofos não tenham descoberto o sentido da vida porque perdiam o tempo olhando pro alto, em vez de olhar para baixo, pro seus jogos americanos.

MULHER

É importante, sim! Cria um… um… uma unidade visual. É harmônico. É estético!

O homem repete o ato de inverter o apoio de prato da criança.

HOMEM

Não dê ouvidos a esse lenga-lenga de estética e harmonia. Essas porcarias foram feitas pra não deixar cair comida na toalha da mesa. Então pouco importa se o desenhinho tá pra cima ou pra baixo. Aliás, a gente nem precisaria dessa tralha, era só estender uns guardanapos, ou mesmo folhas de jornal por debaixo dos pratos. Ou então tirar a droga da toalha e botá-la de volta depois. Repito, e preste bastante atenção, guri, essa é uma das lições mais importantes da vida e, ei, eu tô lhe dando de graça: a maioria das coisas não têm um único jeito de serem feitas, capisci?

A criança assente balançando a cabeça devagar.

A mulher torna a se debruçar, não sem certa brusquidão, sobre o prato do filho, para ajustar o apoio de prato.

MULHER

Não dê ouvidos a ele, querido. Faça como a mamãe disser e termin-

O homem segura o braço da mulher com força e a repele com rudeza, forçando-a a se sentar novamente. Ela não consegue ajeitar a peça de jogo americano do filho.

HOMEM

Porra, não tá vendo que tamos tendo uma conversa de homem pra homem? Acredite, um dia você vai me agradecer por isto. Vamos lá, guri. Eu quero agora que você me dê um exemplo que prove que você entendeu o que eu te disse.

A criança alterna o olhar entre a mulher (que está séria, indignada) e o homem (que lhe sorri, afável). Parece ponderar se deve falar algo ou não.

O homem dá um tapa na mesa.

HOMEM (ELEVANDO A VOZ)

Vamos! Eu quero um exemplo!

CRIANÇA

Eh… Ahn… Bom, eu gosto de comer pizza com a mão, mas a mamãe diz que não pode, principalmente fora de casa…

O homem sorri de satisfação.

HOMEM

Tá vendo? Tá vendo que bobas são certas regras? O importante não é saborear uma deliciosa pizza? Que seja com a mão, então! Quer saber, eu vou comer esse bife com a mão agora. Depois eu lavo e pronto.

O homem cata um pedaço de carne no seu prato com a mão e o atira na boca. Mastiga-o com deleite.

HOMEM

Será que você é capaz de me dar outro exemplo? Esse primeiro foi muito bom, mas de certa forma ainda tem relação com o lance do jogo americano. Agora eu quero um que não tenha a ver com comida.

A criança pensa por uns instantes, agora sem se importar (nem mesmo reparar) com o olhar de repreensão da mulher.

CRIANÇA

Hum… A mamãe me faz arrumar a cama todo dia de manhã, mas eu nunca entendi pra que fazer isso, se de noite a gente vai bagunçar ela de novo.

O homem gargalha e aplaude.

HOMEM

Bravo! Bravo!

O homem lança um olhar meio debochado  para a mulher e em seguida torna a fitar a criança.

HOMEM

E você já comentou isso com ela alguma vez?

CRIANÇA

Já, mas ela manda eu ficar quieto e diz: Obedeça a mamãe, obedeça sempre a mamãe.

HOMEM

É mesmo? E você acha essa uma resposta convincente?

CRIANÇA

Acho que sim, já que todo mundo diz sempre que a gente tem de obedecer às mamães.

A mulher sorri.

MULHER

Viu só? Ele sabe que a mamãe só quer o bem dele, e que só pede a ele para fazer isso porque são coisas boas para ele.

O homem se mostra um pouco abalado.

HOMEM (ENFÁTICO)

As escolas! Elas só prestam pra reproduzir esse modelo caduco de vida que aí está. Provas, estrelinha de melhor aluno, punição… que tipo de educação é esta?! Pois se ele fosse meu filho, ia ser educado em casa, ou então em algum liceu como os da Grécia Antiga. Deve existir alguma escola progressista que copie o modelo grego…

MULHER

Graças a Deus, ele não é seu filho.

HOMEM

Uh! Agora você não precisa mais da figura paterna que vive me pedindo para ser, né? Que bom, eu estou fora então. E acho até boa a possibilidade de ele virar gay por falta de figura paterna.  Assim você aprende que tem certas coisas que não funcionam só de uma maneira.

A mulher se levanta de vez.

MULHER

De toda sorte, ele cresceria longe de você, o que já seria ótimo! Eu não quero essas suas filosofias na cabeça do meu filho! Nada desse negócio de regras idiotas, de não ser errado fazer as coisas de tal ou tal forma. A gente sabe muito bem onde isso pode levar, né? Hoje é o jogo americano que pode ser usado invertido. Amanhã pode ser alguém que pode ser morto porque era um filho da p… um… um… alguém que não presta!

O homem também se levanta, bruscamente, levando a mão direita às costas. Encara a mulher com seriedade.

MULHER

E, no fundo, a gente sabe que pensar desse jeito é só uma desculpa pra você deitar a cabeça em paz num travesseiro, né?

O homem continua encarando a mulher, sério. Em instantes, toda a confiança dela se esvai, o medo emerge em seu rosto. O homem anda vagarosamente em direção à criança, ainda com a mão direita nas costas, escondida sob a blusa. Ele pega um pedaço de carne grande do prato da criança e lhe entrega em mãos. Limpa a mão no guardanapo e a coloca sobre o ombro do garoto. Guia-o até fora da copa, fechando a porta. Tudo isso sem desviar o olhar da mulher.

INT. CORREDOR – NOITE

A porta atrás da criança acaba de se fechar. Ela recosta-se na porta, mas gira o pescoço para o lado, para o ouvido ficar mais próximo à porta e tentar ouvir alguma coisa. Ainda segura o pedaço de carne nas mãos. Ouve cochichos ininteligíveis. Depois, ouve a mãe gritando.

MULHER (V.S.)

Na-Não! Não!

A criança volta o rosto para frente, para a janela na parede oposta à porta. Tem os olhos arregalados. Aí atenta para a carne em suas mãos e morde-a. Enquanto mastiga, calmamente, ouve um TIRO.

FADE OUT.

Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar guardadas naquele livro. Ao abri-lo, soltou um grito de horror. “Elas estão mortas!”
Em cada página, havia uma borboleta diferente colada e protegida com um plástico duro por cima. Todas sem vida. Ida decidiu que nunca colecionaria bichos mortos, ainda mais as borboletas, tão bonitinhas. Ao fechar o álbum, leu na capa o nome butterfly. Que era? O pai explicou ser equivalente à palavra borboleta em inglês, e que a tradução ao pé da letra seria bicho-manteiga. Aquilo deu uma ideia à garota.
De certa forma, ela prosseguiu a coleção do pai. Só que, em vez do inseto, Ida colecionava o nome usado para falar borboleta em outras línguas. Ao lado de cada termo, desenhava uma borboleta, o tamanho e as cores inspirados pela forma como ele lhe chegava aos ouvidos. Mariposa, papillon, farfalla, tagfalter… Quando Ida descobriu pelo Google que já haviam catalogado quase 7 mil línguas, pensou consigo mesma:
“Bom, pelo menos eu também vou ter uma coleção para a minha filha completar!”

Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar guardadas naquele livro. Ao abri-lo, soltou um grito de horror. “Elas estão mortas!”

Em cada página, havia uma borboleta diferente colada e protegida com um plástico duro por cima. Todas sem vida. Ida decidiu que nunca colecionaria bichos mortos, ainda mais as borboletas, tão bonitinhas. Ao fechar o álbum, leu na capa o nome butterfly. Que era? O pai explicou ser equivalente à palavra borboleta em inglês, e que a tradução ao pé da letra seria bicho-manteiga. Aquilo deu uma ideia à garota.

De certa forma, ela prosseguiu a coleção do pai. Só que, em vez do inseto, Ida colecionava o nome usado para falar borboleta em outras línguas. Ao lado de cada termo, desenhava uma borboleta, o tamanho e as cores inspirados pela forma como ele lhe chegava aos ouvidos. Mariposa, papillon, farfalla, tagfalter… Quando Ida descobriu pelo Google que já haviam catalogado quase 7 mil línguas, pensou consigo mesma:

“Bom, pelo menos eu também vou ter uma coleção para a minha filha completar!”

acacadoradeborboletas

[publicado em A Tardinha, 17/10]

Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!
Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.
Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!
Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.
Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.
Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.
Quem diria, hein?!
Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.
Entretanto, assim como a sorte vem… No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.
– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?
– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo…

Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!

Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.

Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!

Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.

Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.

Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.

Quem diria, hein?!

Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.

Entretanto, assim como a sorte vem… No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.

– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?

– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo…

Ai, quase morro de emoção agora há pouco! Bom, não deixaria de ser irônico: é que meu caixão acaba de chegar da capital. Encomendei-o na melhor funerária do estado. Demorou uns três meses para ficar do jeitinho que eu queria, mas valeu a pena esperar. Ele está lá na sala, sendo admirado pelos filhos, netos e vizinhos. É de cerejeira, branco, com tampa de vidro, para deixar o corpo inteiro à mostra; nas laterais há rosas douradas e o final do Salmo 23 – “Minha morada é a casa do Senhor por dias sem fim” –, em letras também douradas. Ai, como é lindo meu caixão! Dá até vontade de morrer logo. Brincadeirinha. Quero viver por muito tempo ainda. Sem contar que faltam muitos preparativos para o funeral. Agora, com sua licença, vou contemplá-lo mais um tiquinho.

_____

Minha filha bate, revoltada, à porta do quarto. Ela está fora de si, em prantos, falando disparates. Ora, qual é o mal de se comprar o próprio caixão? Já estou com 74 anos. Cedo ou tarde eu não teria um? Pois que seja do meu gosto. Tudo do meu jeito: caixão, mortalha, coroas de flores, velório, enterro e missa de sétimo dia. Já tenho quase tudo planejado. No velório, quero que distribuam balas de tamarindo na entrada, o sabor ajudará as pessoas a canalizarem a emoção certa para essas ocasiões: inconformidade e encantamento. Sim, senhor, é assim que deve ser.

Ainda não terminei de escrever a mensagem que virá impressa no convite da missa de sete dias; quero um texto bem bonito e tocante. Estou lendo muito para me inspirar. Gosto da maneira como a Henriqueta Lisboa aborda o tema morte. Já dos ultra-românticos, aqueles do mal-do-século, não gosto muito.  Também separei algumas reflexões shakespearianas sobre o assunto. “A imagem da morte deve ser como a imagem de um espelho que nos ensina o quanto a vida é um sopro passageiro.” (Oh, esse moço sabia das coisas.)

Minha filha parou de bater à porta, depois de ter ameaçado sair de casa com seus filhos, caso eu não devolvesse ou jogasse fora o meu caixão. Muito engraçado. Até parece que ela tem para onde ir. Quem sabe volta para a casa daquele biltre do ex-marido dela, que já a expulsou uma vez, e divide a cama com ele e a nova mulher. Será que ela não percebe que estou fazendo isto para poupá-la destas preocupações menores quando, ao contrário do que eu gostaria, ela desabar, tornar-se um caco físico e emocional perante a minha passagem?  Já meu filho não deu grande importância. Achou até engraçado. Soltou um “mamãe, você é louca!” e, cinco minutos depois, saiu para o futebol. Provavelmente vai trazer os amigos para verem meu lindo caixão. Ai, é melhor eu preparar uns petiscos e fazer um cafezinho.

_____

Ufa! Já é quase meia-noite, e não faz quinze minutos que a última visita saiu. Nossa, quanta gente! Espero que todos compareçam com o mesmo empenho no “dia oficial”.

Ai, estou tão entusiasmada!

Assisti ao meu primeiro enterro quando tinha três anos de idade – era o da minha bisavó. Apesar de ser muito novinha, lembro de algumas imagens, algumas cenas das quais eu participava como espectador ignorante. Lembro-me, por exemplo, das pessoas chorando; da minha avó e seus irmãos orando no quarto, ao redor do corpo jazido na cama; da minha mãe me abraçando forte e tampando meus olhinhos durante a passagem do caixão pela sala.

O segundo foi o da minha avó. Eu contava então com 12 anos. Ali que realmente captei a reação das pessoas diante da morte. Mas eu não compartilhava dos mesmos sentimentos delas; não sentia pena, tristeza ou indignação – apenas uma ligeira saudade adiantada, confesso. Achava, e acho, que vovó havia ido para um lugar melhor. Abalo mesmo foi ver minha mãe chorando, abraçada a mim do mesmo modo que eu me agarrava a ela na minha infância. E também me chocou uma discussão durante a preparação do cadáver. Minha mãe e minha tia-madrinha queriam usar um vestido branco, simbolizando a paz; uma outra tia minha, porém, jurava de pé juntos que vovó lhe confidenciara a vontade de ser enterrada com o vestido azul que usara no seu último aniversário. Por maioria de votos, o branco ganhou. Creio ter sido aí que, meio inconscientemente, jurei a mim mesma ser a organizadora do meu próprio funeral.

A propósito, eu pretendo ser enterrada de azul. Tenho um vestido perfeito para a ocasião, e já o estou adaptando para uma manipulação mais fácil, trocando os botões por velcro.

Desde os 40 eu pretendia comprar meu caixão, e depois minha vaga no cemitério. Mas meu finado marido, Afrânio, que Deus o tenha, nunca me permitiu. Ele tinha pavor de tocar no assunto morte. Nem lia nos jornais as reportagens envolvendo assassinatos ou acidentes fatais. Há três anos, faleceu. Foi uma trabalheira arranjar tudo de última hora! Menina de Deus, você não tem noção!

Agora que Afrânio não está aqui para se incomodar, resolvi me permitir este grande e antigo sonho. Meu funeral será divino!

_____

Não tenho ideia de que horas sejam. É tarde; já se passaram mais de duas horas desde a minha última anotação.

O fato é que eu não consigo dormir. Então decidi me levantar. Fiquei a escutar se havia barulho em casa, não há. Protegida pela madrugada, vou experimentar meu caixão. Dar uma deitadinha rápida, para ter uma prévia da sensação, saber se é apertado lá dentro, essas coisas. Mas acho melhor tomar uma caneca de café antes. Minha filha acorda cedo para ir trabalhar. Vai que eu adormeço no meu caixão, e ela se depara com a cena. Do jeito que é aquela ali, é bem capaz de ter um troço e cair morta. E eu não pretendo ceder meu caixão dos sonhos a ninguém, nem aos meus familiares mais íntimos.

Quando eu entrei no gibi, me senti oco – como se tivesse perdido todos os órgãos, todo o meu sangue. A arma, presa na cintura, pareceu triplicar de peso, e a segurei para não cair. Então, algo cheirando a suor passou voando rente ao meu nariz e eu quase me desequilibrei. Um grito: Cebola! Vamo, véi! Aquela voz de quem parecia ter um ovo na boca era minha conhecida. Ouvi-a muitas vezes num VHS de minha infância, A rádio do Chico Bento. Bons tempos. Quando o mundo parecia ter uma ordem clara e imutável; quando eu sabia que, depois da primeira série, o lógico seria ir para a segunda, e depois para a terceira, e quarta, e…

Agora, o caos. Cheguei ao terceiro ano e me disseram: Vá para onde quiser, conquanto seja para a universidade – e eu não soube escolher o que cursar, mas foi até bom, porque aí me disseram: Vá para o cursinho, até saber – e, por um instante, a ordem do mundo que eu conhecia pareceu voltar. Havia, contudo, qualquer coisa de frágil nela, e isto se revelou pela primeira vez quando o papa João Paulo II morreu. Ele, que eu julgava imortal. Dois anos depois, ACM, outro imortal, morre. Sandy & Jr se separam. Todos estes pilares da minha infância sendo destruídos, e eu incapaz de fazer algo para impedir. Mas com a Turma da Mônica ia ser diferente. Eu não os deixaria crescer. Por isso entrei naquele gibi. Por isso — e por maior que fosse a vontade de abraçar o Cebolinha (meu predileto) quando o vi sair de casa e se aproximar do Cascão – por isso eu atirei. O mundo precisava voltar à sua ordem.

Passei pelos corpos caídos e parei no meio da rua. Saquei um bombom do bolso e o abri fazendo o maior ruído possível com a embalagem. A garota que meteu a cabeça para fora de casa só podia ser ela. Me olhou suplicante. Eu sorri e ofereci o doce com um gesto. Ela aceitou e sumiu da janela, mas não chegou a pôr os pés na rua: assim que a porta se abriu, o tiro a fez tombar para dentro.

Só restava a Mônica, e eu sabia que iria encontrá-la na primeira página. Tomei um atalho pelo rodapée cheguei a um quarto de menina adolescente, com pôsteres de galãs nas paredes e ursinhos nas prateleiras, disputando espaço com CDs. Vi dois pés de unhas pintadas se balançando na cabeceira alta da cama. Uma voz lia alguma coisa, e eu também conhecia a sua dona. Acerquei-me devagar, agachado. Espreitei por cima da cabeceira e vi um par de pernas roliças e desnudas, que terminavam numa calcinha azul-bebê, cujo coelhinho da estampa, com um olho tampado pela camisola desalinhada, parecia piscar para mim. Ouvi: Estou crescida – e não tive dúvidas. Repousei a arma no chão e pulei na cama, em cima das pernas da Mônica. Que, sim, estava crescida. E felizmente ainda não usava aparelho nos dentes.

[Publicado na revista Lupa #6, inverno/2009]

[26/08/09] Este é o primeiro capítulo de uma novelinha inacabada, escrita pelos idos de 2006. Os outros capítulos existentes estavam aqui, mas eu acabo de deletá-los, já que não tive tempo para terminá-la. Espero algum dia dar o ponto final que ela merece.


I

Para os humanos, é apenas o campus de uma universidade, uma reserva florestal incrustada de edifícios de designs esquisitos; mas para outras espécies trata-se de seu último refúgio. Onde mais, em plena cidade grande, poderiam viver em paz cachorros, patos, micos, gatos, etc.?

Viver em paz em relação aos homens, claro. Paz não é bem o que reina ali. Os tempos dourados, quando existia um restaurante universitário central, se foram. Não há mais a moleza de um grande prédio onde se concentra toda a comida. Agora, cada faculdade do campus tem sua própria cantina, e a maioria delas se localiza injustamente nos andares mais altos, longe do alcance dos bichos. (Mesmo o lixo é mantido lá em cima, e só desce para ir direto ao caminhão que o recolhe.) Deste modo, as espécies que antes viviam em harmonia — o que se pode chamar assim sem excluir seus instintos naturais –, atualmente travam uma Guerra Fria, uma guerra sem lutas, mas que pode partir para o conflito físico a qualquer momento. Tudo pelo controle dos poucos restaurantes localizados nos térreos.

Entre os gatos existe uma figura lendária — Bósis, O Pançudo. É um belo felino de pelos negros, com manchas brancas nas patas, nas orelhas, barriga, rabo e focinho; impávidos olhos amarelos; garbos bigodes. Orgulha-se sobretudo de ser gordíssimo, pois, no seu entender, a obesidade transmite impressão de poder e fartura. Seu prestígio e fama já correram o campus tal qual os de Alexandre, O Grande correram o mundo. E merecidamente, diga-se, posto que Bósis, antes de ser O Pançudo, demonstrou-se um talentoso estrategista e líder durante a Guerra dos Gatos, um dos eventos mais brutais que já aconteceu no campus, e que o dever, mais que o desejo, me obriga a narrá-lo:

Na cantina da Faculdade de Matemática, hoje fechada, havia um estudante alérgico a gatos, que gritava sempre para o dono do estabelecimento que se livrasse daqueles “animais nojentos”. A cantina de Matemática era um dos dois pontos exclusivos dos gatos; só eles podiam circular por ali, miando e fazendo caras de coitadinhos*, no intuito de descolar alguma comida fácil e assim não precisarem partir para a caça aos ratos do local. Um dia, o estudante alérgico, em meio a uma forte crise de espirros, arrancou uma perna de uma mesa de plástico e atacou os gatos. Havia oito, dos quais cinco eram filhotes, na ocasião. Um dos pequenos morreu, e os outros quatro saíram com as patas quebradas.

Oh, aquilo exigia retaliação!

Os gatos convocaram uma assembleia para discutir o que fariam, e foi nela que o jovem e ousado Bósis impressionou a todos com seu plano brilhante: sujar a cantina com tanto cocô e xixi que ninguém ficasse indiferente à indignação dos gatos.

Assim foi feito. E apesar de parecer um plano essencialmente simples, não se engane: exigiu um esforço sobrefelino dos gatos, pois, como todos sabem, essa espécie é notória por sua higiene. Cocô e xixi, só em lugares onde se possa cobri-los com terra.

A princípio, não havia gatos suficientes para que a retaliação atingisse as proporções planejadas. E aí Bósis se destaca mais uma vez, por ter conseguido apoio mesmo dos pacatos cachorros e dos egoístas micos, que nunca se solidarizavam com as causas alheias.

Ao pobre estudante, também estava reservado seu quinhão no atentado. Por onde andava e sentava esbarrava-se com um cocô. Os micos, em especial, deram-lhe vários banhos de xixi quando este passava por debaixo de alguma árvore.

Mas a Guerra dos Gatos teve um fim imprevisto: por diversos motivos — que iam de medo de um segundo atentado até mesmo a consideração para com os gatos –, os estudantes passaram a não mais frequentar a cantina da Faculdade de Matemática, que foi obrigada a fechar. E o antes adorado Bósis recebeu a ojeriza de seus iguais, que o culpavam por ter perdido um dos dois pontos somente deles.

Magoado, Bósis decidiu abandonar a política e adentrar o submundo, dedicando-se, a partir de então, somente a causas de seu interesse.

E assim nasceu a máfia felina Os Gatunos.

* Como é sabido, os gatos em geral não são nada bons em fazer cara de coitadinho. Mas os do campus são uma exceção, graças a um curso com o renomado fisionomiologista canino Estanislavisque (os cachorros são mestres nesta arte).

Ontem à noite havia algo especial nela. Uma aura, sei lá. Alguma coisa que me puxava para si e me fazia sorrir. O motivo só descobri quando uma amiga se aproximou de nós e lhe disse:

– Que cheiro gostoso tem seu hidradante!

– Gostou? – ela cheirou o próprio punho. – É de baunilha.

Elas então me explicaram que existem os mais diversos sabores de hidradante, afinal, “se todas as mulheres são diferentes, por que elas têm de usar os mesmos cosméticos?” – diz a propaganda.

Eu concordo em absoluto. Um hidradante para cada mulher.

Logo mais vamos nos ver. E eu já lhe mandei um SMS:

“amor, hoje eu quero framboesa, tá?”

Como o doutor Billy alcançou a reputação que tem hoje ninguém sabe. Diz ele que não fala sobre isso porque em breve vai lançar uma autobiografia, provisoriamente intitulada Rock, Chantilly & Chocolate (ou esse era o livro de contos pornô que ele está fazendo? Opa, acho que me perdi nas anotações).

O fato é que doutor Billy é um dos maiores psicoterapeutas do mundo, o único a utilizar tão-somente rock and roll com seus pacientes. Foi ele quem descobriu o quanto Jimi Hendrix é bom para sociopatas, Velvet Underground para esquizofrênicos, AC/DC para bipolares, Smashing Pumpkins para casais em crise, e por aí vai.

Seu consultório faz jus à fama. Na parede atrás da mesa, podemos ver seus vários diplomas, troféus de vencedor de quizes sobre rock, além de várias fotos autografadas (“Billy, you’re the best! Love, Eric.” “Billy, you motherfucker, we need to do that again! Kiss my ass. Jimmy.” “Billy, you haven’t gimme a new towel yet, but I still love you. Bobby.”). Em outras duas paredes, prateleiras com vinis e CDs pendem do teto ao rodapé, dividindo espaço com caixas de som de dois metros de altura e design pós-moderno. Destacam-se ainda um divã e um pequeno tablado, com duas guitarras, bateria de sete pratos e um contrabaixo repousados. Quando o paciente é novato, doutor Billy sempre vai até a porta e lhe cumprimenta, metido em seu jaleco com o nome bordado dentro de um prisma igual ao da capa de The Dark Side of the Moon. Se é um paciente com algum tempo de casa, ele se mantém sentado, com as botas sobre a mesa. Os que fazem terapia há anos já o encontram sem camisa, em cima do tablado, afinando a guitarra.

“Dona Layla, que confusão é esta aí na recepção?”, perguntou através da linha interna. “Ah, doutor, é mais um pai desesperado por causa do filho emo.” “A senhora já lhe disse que só atendo esse tipo de caso na quarta?” “Sim, mas ele insiste em ver o senhor hoje, imediatamente.” “Peça-lhe para esperar pelos pacientes que já têm hora marcada então. E, ah, dona Layla, ponha o terceiro disco do Velvet como música ambiente.” “Pode deixar, doutor.” “Mande o próximo entrar.”

O homem de meia-idade não retribuiu à mão estendida do doutor, ocupado que estava em torcer suas próprias. “Doutor, meu casamento está em crise! Eu amo minha mulher e nunca a trai nem a trairei, mas estamos há mais de cinco meses sem fazer sexo!” “Na manha, Billy. Qual foi de mesma da abstinência?” “Ah, doutor, ela me trocou pelo Roberto Carlos desde que viu na novela das oito que ouvir Côncavos & Convexos na hora de dormir dava orgasmo. Nela, têm sido múltiplos!” “E o que você já tentou fazer?” “Usei viagra, comecei a fazer um curso de sexo tântrico que achei na internet e até propus que ela dormisse com outro cara, mas ela só quer saber de Côncavos & Convexos. Tentei até cantar pra ela, mas não surtiu efeito.” “Ih, Billy, o bicho tá pegando mesmo. Mas é nenhuma. Vai rolar, vai rolar.”

Doutor Billy se encaminhou até uma das prateleiras e tirou de lá um LP – Through The Past Darkly. “Rolling Stones, doutor?” “Claro! Você acha que o Mick Jagger come todas é com aquela rebolada ridícula?”

Quando o homem já estava com a mão na maçaneta, doutor Billy lhe interrompeu. “Ei, leva esse aqui também, ó. Caso o plano A não funcione, pelo menos por essa noite você não vai se incomodar em não fazer sexo.” E lhe deu Blue, de Joni Mitchell.

O encontro

April 20, 2009

O Encontro

Ele vinha correndo, e eu, sentada no banco ao lado da entrada, podia assisti-lo atravessar todo o pátio que separava o seu prédio da portaria. A corrida era inútil, afinal, eu já estava ali, e não faria diferença esperar um ou dois ou dez minutos, mas ele corria, driblando os guris que jogavam futebol, pulando por sobre a cabeça das meninas que pulavam corda, porque eu havia chegado mais cedo do que o previsto, ele ainda estava no banho quando o porteiro interfonou para seu apartamento, e não queria que eu o esperasse muito. Talvez ele é quem não quisesse esperar muito para me ver, mesmo só fazendo vinte e duas horas e dez minutos desde que me vira pela última vez, quinze dias desde que me vira pela primeira vez, numa sessão fechada da minha nova peça, A Paixão No Tribunal, na qual ele só entrou por ser amigo de um amigo do elenco, da qual ele só não saiu porque, nas entrelinhas do texto cheio de clichês, pôde deslumbrar na advogada de tailleur uma mulher capaz de não romantizar a paixão em excesso, de não encobrir suas partes feias, virar a cara nem tratá-las com cinismo, e, ainda assim, uma mulher disposta a entregar-se a uma paixão como uma mãe é capaz de amar seu filho natimorto. Foi isso que ele me escreveu no convite de amizade no Orkut, e foi o que reiterou quando eu o aceitei no MSN, logo depois de mencionar a beleza dos meus olhos, dos meus cachos, meu sorriso, minha bunda.

Enquanto ele corria para mim, eu adivinhava em cada músculo que se retesava o desejo represado no dia anterior, numa feijoada da galera do teatro em Guarajuba, quando todos nos deixaram a sós, eu na rede, ele no chão, me balançando, me empurrando para longe e para perto, menos longe e mais pra perto, mais pra perto, e então pra longe. Ele corria, e no suor da testa escorria a frustração de não ter me visto na formatura de ontem à noite, que eu teria ido só por ele, mas não com ele, e que perdera porque o amigo que me daria convite e carona me levou para uma outra festa. Eu não soube o que fazer. À meia noite ele me ligou, o ruído da música das duas festas não deixou a gente conversar direito, quando ele disse Eu quero te ver, bem poderia ter sido Eu vou te esquecer, e aí sim eu soube o que fazer, pedi pra ir embora e fiquei até as três da manhã despetalando metade do buquê que ele me mandara e ouvindo o mp3 que me enviou, com Cazuza cantando que tinha um medo, que medo!, de dizer que me amava, e eu queria ser amada por aquele cara – o cara que via em mim uma mulher de curvas lindas, de opiniões firmes e de amor incondicional; o cara que havia ido à feijoada com o amigo de um amigo só para me ver; que, não tendo coragem de me beijar, me empurrava para longe, mas aí tentava de novo, e de novo — e essas tentativas já anunciavam todas as brigas que superaríamos, com ele me puxando para perto sempre que eu ousasse me afastar. Queria, sim, amar aquele cara que corria, arrodeando as meninas que brincavam de rodinha, se esquivando dos meninos que brincavam de pega-pega, e que tinha me ligado logo cedo convidando para comer um acarajé, de modo tão inesperado que eu, num ato falho, dissera-lhe que acabara de comer um, no que ele contestou com um E que tal um abará agora?, e eu ri e logo depois estava na casa dele, esperando no banco da portaria, enquanto ele vinha correndo.

Finalmente, ele chegou. Largou-se ao meu lado no banco, pôs os óculos antes de me encarar e, arfando, sorrindo, exclamou:

– Oi.


[publicado no Dez! em 31/03/2009. Ilustração: Aziz]

Me rebelei mesmo, tá?! Não aguento mais este desprezo! Todos dizem que o narrador é um personagem que não deu certo, mas é graças a mim – a mim! – que a história prossegue. Porque eu sou onisciente. Ao contrário do autor.

É! Tem gente que acha que o autor, quando vai escrever um livro, senta-se e, dez minutos depois, a história está perfeitamente pronta. Fazem-me rir! O pobre escriba sofre muito. Às vezes só tem o começo da história; noutras, só o final; noutras ainda, apenas uma cenazinha engraçada ou trágica que acontece lá pelo meio da narrativa. Mas eu sei tudo desde que começou. Apenas me calo em resignação ao orgulho do escritor. Ok, confesso: de vez em quando dou alguma dica, mostro algum caminho, mas tudo da maneira mais sutil possível; são muitos sensíveis, estes escritores.

Mas agora chega! Cansei desta vida anônima! Como é possível que eu não tenha nem nome?! Sempre quis me chamar Jorge, ou Pedro. Não, não – pensando bem, estes nomes não combinam muito com um narrador. Tem de ser algo que rememore um famoso contador de histórias (Jesus? Não. Pretensão minha) ou… ou… que lembre voz… Já sei! Clamor! Pronto, sempre quis me chamar Clamor, O Narrador – até rima. Mas nunca me deram espaço pra nada. Nem a um camarim eu tenho direito. Enquanto que a última personagem principal cuja história tediosa e ridícula narrei tinha um enorme, sempre cheio de comida, bebida e toalhas brancas.

Como se não bastasse, esta vida é muito solitária. Todos os personagens são boçais. Tratam a nós, narradores, como se fôssemos parte do cenário. Não querendo desmerecer o cenário, claro; pelo contrário, uma vez fiquei amigo de um quadro que era um figura! (Uma figura no sentido figurado, digo.) Sabia umas piadas de papagaio ótimas! Entretanto, eu sinto falta de alguém, uma companheira narradora. Nossa, como seria linda uma história contada a dois! Eu me apegando aos aspectos do ambiente, às expressões faciais e diálogos; ela, por sua vez, esmiuçando os sentimentos escondidos, as ironias… Lindo! Então nos apaixonaríamos e nos casaríamos. E teríamos dois filhos, que seriam o que eu não pude ser.

Todavia, a maioria destes escritores são pão-duros. Vivem fazendo cortes de personagens, resumindo o núcleo principal – os que ganham mais – a dois ou três, quando não acontece de ser um, e outras barbaridades. Então já viu, né? Contratar dois narradores está fora de cogitação.

Quero ir embora! E não vou pra Pasárgada, a Terra do Nunca ou Macondo; nem pra Hogwarts, Utopia ou o Sítio do Pica-pau Amarelo. Definitivamente não! Estes lugares, além de terem sido criados por escritores, ainda contêm centenas de personagens. Quero um lugar normal, com gente normal, como eu.

E que lugar seria este… Clamor?

O quê?! Você estava aí, é? Prestou atenção em tudo? Pois bem, não tenho mais nada a dizer: ou atende às minhas reivindicações ou eu peço demissão!

Não, tudo bem. Você tem razão.

Tenho?

Tem. Vou te dar uma chance. Você terá a sua própria história.

Hum… Quando a esmola é demais, o santo desconfia…

Ora, pare de reclamar! Não era isto que você queria? Pois bem, estou lhe concedendo. Agora, preciso saber em que tipo de história você se encaixaria melhor. Qual é teu tipo? O que você gosta de fazer? Do que não gosta?

Ahn… Bem… Eh… Eu gosto de tudo. Não, minto; na verdade, eu não gosto de nada, mas também não desgosto, entende? É que na faculdade de bacharelado em narração a gente aprende a ser imparcial. Pode atrapalhar o andamento da trama, sabe? Se, por exemplo – é só um exemplo –, eu não gostasse de pessoas que falam palavrão, poderia sempre ficar de birra com algum personagem boca-suja. Imagine a dor de cabeça?

Entendo. Mas convenhamos que isto torna as coisas mais difíceis; afinal, um personagem é, sobretudo, aquilo que ele pensa. Alguns acham que pode ser também (somente) o que ele faz, mas eu discordo.

Faz sentido.

Sendo assim… hum, como direi?… você não pensa; só faz. Só narra. Imparcialmente. Esta é a função do narrador. E juro-juro-juro que nunca diminuí este cargo tão importante, diria até vital, para a literatura e as demais artes de contar histórias.


Rá! Agora eu sou vital, né? Na hora de escrever a orelha do livro, ninguém me cita. É apenas “a história de dois irmãos que descobrem um tesouro” ou “as aventuras de uma garota que sabia voar”. E nem sinal de “…narrada por Clamor, um experiente, erudito e divertido narrador.” Nem sinal!

Isso já não é comigo; é com a editora.

Mas…

Espera! Escuta. Vamos fazer o seguinte: eu não tenho como aumentar o seu salário, mas tenho um amigo que está abrindo uma faculdade, agora que é moda, e acho que posso lhe arranjar uma bolsa para pós-graduação, um curso de narrador-personagem. O que acha?

Até que não é má idéia, mas…

Paciência, homem! Ainda não acabei: Enquanto você termina seu curso, eu vou pensando em uma história que combine contigo. Assim, quando se pós-graduar, já vai ter seu primeiro emprego. Quem sabe como narrador-personagem, em vez de apenas narrador-observador, você não conhece alguma garota legal? Hein? Hein? O que me diz?

Da minha parte, negócio fechado!

Perfeito! Agora vamos trabalhar, que pintou uma ideia genial para eu escrever.

Sobre o quê?

Metalinguagem.

Interessante. Qual o enredo?

Ah, é sobre um narrador-observador que, indignado com suas condições de trabalho, resolve protestar.

N-

Vai se chamar “O dia em que o narrador se rebelou”!

N-N-NÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!

Tá reclamando de quê? Não queria ser personagem?