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	<title>abre parêntese ( &#187; Ficções</title>
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		<title>João, o cafetão &amp; o pé de feijão</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Sep 2011 16:16:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[fábula]]></category>
		<category><![CDATA[João e o pé de feijão]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[paródia]]></category>
		<category><![CDATA[politicamente incorreto]]></category>
		<category><![CDATA[Roberto Weigand]]></category>

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		<description><![CDATA[Ilustração da página principal: Roberto Weigand Era uma vez um garoto franzino chamado João. Ele tinha onze anos e vivia no interior do nordeste, numa casinha de barro, com seu pai, sua madrasta e sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Ilustração da página principal: <a href="www.robertoweigand.com.br" target="_blank">Roberto Weigand</a></em></p>
<p style="text-align: right;"><em><br />
</em></p>
<p>Era uma vez um garoto franzino chamado João. Ele tinha onze anos e vivia no interior do nordeste, numa casinha de barro, com seu pai, sua madrasta e sua irmã Maria, de sete anos. Eles eram muito, muito pobres.</p>
<p>Um dia, quando a seca mais uma vez acabou com a esperança de realizar uma boa colheita, a ração rareou; a madrasta, que cantava de galo em casa, sugeriu ao pai que largasse os filhos em algum lugar no meio da caatinga, pois eram crianças e não aguentariam muito aquela vida; era melhor “irem embora” logo. “Além do mais, se for nós que morre, quem cuida deles?”</p>
<p>Então o pai inventou uma desculpa qualquer para pedi-los que o acompanhassem até a cidadezinha ao lado, enveredou com estes meninos por outros caminhos e, quando estavam bem afastados de casa, mandou que o esperassem ali, enquanto ele ia cagar.</p>
<p>Estranhando a ausência do pai por mais de duas horas, e já famintos e com sede, resolveram voltar para casa. Os pais nunca deveriam subestimar a inteligência dos filhos. Não foi tão difícil assim para João e Maria encontrarem o caminho de volta, pois obtiveram ajuda de uma jaguatirica que mandava no pedaço – a princípio ela queria comê-los, mas, vendo que eram só pele e osso, achou melhor levá-los para casa; quem sabe, mais tarde, não se tornariam apetitosos?</p>
<p>Pensando que o pai os esquecera e, naquele momento, estaria preocupadíssimo, eles se aproximaram do casebre em surdina, no intuito de fazer-lhe uma surpresa. Esconderam-se embaixo de uma janela.</p>
<p>Pobres João e Maria! Ouviram tudo, todo o plano cruel da madrasta e o relato aflito do pai, contanto a dificuldade que teve para resistir à tentação de não voltar atrás.</p>
<p>Apesar de tudo, seus coraçõezinhos se compadeceram daqueles dois adultos desalmados pela Fome; resolveram que seria melhor ir embora e não dar-lhes mais preocupações.</p>
<p>Tomaram o caminho da cidade. Mas estavam tão famintos, sedentos e cansados que dormiram agarrados um ao outro, na beira da estrada. Pela manhã, bem cedinho, passou por ali um homem numa carroça. Ele os acordou e os interrogou. Os garotos contaram sua triste história, e o homem então, bonzinho que era, ofereceu-lhes uma solução. Ele lhes daria algum dinheiro, e João poderia voltar para casa. Já Maria deveria seguir com ele; primeiro porque seria uma boca a menos para alimentar; depois porque ele a levaria para um lugar muito alegre, onde ela seria bem tratada, teria uma porção de amiguinhas para brincar e um monte de roupas novas e enfeites.</p>
<p>Como poderiam recusar?</p>
<p>Assim, João voltou; a felicidade estampada em seu rosto. Agora tudo ficaria bem: ele não precisaria mais sair de casa, pois tinha dinheiro para comprar comida para todos. E sua irmãzinha querida estaria bem acolhida, com tudo que sempre quis.</p>
<p>Mas em outro ponto da estrada, João se encontrou com um segundo homem. Este lhe perguntou o que fazia um garotinho ali, sozinho, àquela hora, e o menino contou toda a sua história de final feliz. O homem ouviu com atenção e, ao fim, fez-lhe uma proposta: ele tinha um saco de feijões mágicos, que vingariam até na mais terrível seca. Tais feijões eram muito raros (e caros!), mas como ele era um homem bom, faria o sacrifício de vendê-los a João pela bagatela de todo o dinheiro de que o garoto dispunha.</p>
<p>João ficou atônito. Aquilo era bom demais para ser verdade! Por que não fazer o negócio? Como o homem mesmo lhe disse: &#8220;Pense bem, garoto. Com o dinheiro, você só vai ter comida agora. Com os feijão, você vai ter por muitos e muitos anos.&#8221;</p>
<p>E lá foi João, abraçado ao saco de feijão, pensando em quão vibrantes ficariam seu pai e madrasta quando lhes contasse tudo.</p>
<p>Foi realmente um choque para os adultos. A princípio, uma felicidade para o pai e uma decepção para a sua esposa; mas quando João terminou de contar sua história, o pai se enfureceu como nunca, deu um soco na mesa, arrancou o saco de feijão das mãos do filho e o atirou pela janela. Como ele poderia ter caído naquele conto do vigário? Como ele teve coragem de vender a irmã? Foi até a parede e pegou o chicote que estava lá pendurado. João levou a maior surra da sua pequena vida, machucou-lhe até a alma.<br />
Ao cair da noite, trancado em seu quarto, triste e dolorido, João percebeu o quão tolo havia sido. Em um instante era o salvador da família; no outro, voltava a ser um estorvo. Decidiu então que ele não merecia ficar ali; aliás, não merecia ficar em lugar nenhum. Ele devia morrer.</p>
<p>Pulou a janela do quarto e partiu para o meio da caatinga. Encontrou-se com quem queria: sua amiga jaguatirica. Contou-lhe toda a sua história, que foi triste e feliz, e ao fim pediu-lhe para acabar com sua vida. Como boa amiga que era, a jaguatirica não poderia se negar a atender tão importante favor. Imediatamente pulou em cima do garoto e abocanhou seu pescoço.</p>
<p>No meio da madrugada, o céu cobriu-se por inteiro de pesadas nuvens. Um temporal aterrador começou a cair. Parecia que, enfim, o sertão viraria mar. Em frente à pobre casinha de barro, onde antes viviam João, um garoto franzino de onze anos, seu pai, sua madrasta e sua irmã Maria, de sete anos, começou a brotar, estranhamente veloz, uma enorme quantidade de palmas, que os adultos haviam plantado uma semana antes.</p>
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		<title>Uropsicanálise</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Jul 2011 21:03:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[banheiro]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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		<category><![CDATA[teoria]]></category>
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		<description><![CDATA[Publicado originalmente no blog O Purgatório, em 30/07/11 De tanto ser visto indo ao banheiro, os caras do escritório apelidaram o Irineu com o mais óbvio dos trocadilhos – ao flagrá-lo levantando-se da bancada com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Publicado originalmente no blog <a href="http://ilpurgatorio.wordpress.com" target="_blank">O Purgatório</a>, em 30/07/11</em></p>
<p style="text-align: right;"><em><br />
</em></p>
<p>De tanto ser visto indo ao banheiro, os caras do escritório apelidaram o Irineu com o mais óbvio dos trocadilhos – ao flagrá-lo levantando-se da bancada com o nariz voltado para a porta do sanitário, ou então quando cruzavam com ele nos arredores do toalete, logo o Alex, o Mendes, o Sampaio comentavam <em>sottovoce</em>, Lá vai o Urineu. O uso recorrente da piada cristalizara-a em um rito de ênfase à amizade, sagacidade e juventude dos caras do escritório, todos com menos anos de casa que o Irineu e nutrindo pelo colega desprezo semelhante ao que se tem para com um objeto de mau gosto. No núcleo desse menosprezo, o magma do temor de se tornarem iguais a ele: um homem de idade e meia cuja carreira não havia tido o mínimo de progresso desde o início. O Irineu era funcionário público.</p>
<p>As garotas da repartição conheciam a piada do Lá vai o Urineu, e até riam dela, porém nunca tomavam a iniciativa de proferi-la. Verdade seja dita, simpatizavam com o decano — só não o bastante para o convidarem com sinceridade para os <em>happy hours</em> de sexta e, tampouco, para inseri-lo na Lista dos Melhores Partidos Entre os Colegas de Trabalho. O Irineu era um <em>hors-concours</em> às avessas: sua ausência era premissa naquele rol permanentemente em construção, ponto de pauta constante na hora do almoço, já que, ali no escritório, o banheiro, tradicional local de sociabilização feminino, não era propício a tal função: era unissex. Todavia, o desinteresse sentimental das garotas pelo Irineu não o impedia de receber a cota de ternura dedicada aos homens de segunda divisão. Volta e meia, como colegiais crescidas, elas o brindavam com uma exposição de decote, uma piscadela, a mão pousada no ombro, o corriqueiro <em>bullying</em> feminino. Atribuíam a seus talentos de sedução os mimos que, de uns tempos pra cá, o Irineu começou a levar-lhes: um sonho de padaria para dona Arlete, uma alfazema pra dona Carminha, uma biju pra dona Norma.</p>
<p>Distraídos com seu rito, os caras do escritório passavam batidos pela existência de um padrão nas idas do Irineu ao sanitário, sempre depois das garotas. Elas, por sua vez, nem sonhavam que os presentinhos recebidos pudessem ser mais que agrados de um cinquentão na idade do lobo, quando na verdade faziam parte de um processo científico de alto gabarito, estando devidamente linkados às suas tantas viagens ao banheiro.</p>
<p>Antropólogo de formação, com gosto pelas demais áreas humanas, o Irineu vinha desenvolvendo pesquisas em campo pioneiro, o qual chamava de uropsicanálise, estudos uropsicossomáticos ou omnidiagnose ureica – ainda não havia decidido o nome da criança. A ideia surgira-lhe enquanto defecava na repartição.</p>
<p>Eis que, certa feita, ao entrar no banheiro imediatamente após dona Norma, não pôde deixar de notar o pedaço de papel higiênico do topo da pilha acumulada na lixeira, a folha dupla retangular enrugada bem no meinho, na parte onde estava úmida. Ato reflexo, Irineu coletou o papel, aproximou-o do nariz e aspirou-o timidamente. A acidez da ureia fez cócegas nos pelos da narina. Na segunda cafungada, sentiu o agridoce do xixi atrás do pomo de adão. E no instante seguinte, era a ponta da língua que raspava a superfície do papelzinho.</p>
<p>Seis meses e dois cadernos foram gastos no estágio inicial da pesquisa, que consistia em compreender a variação de cores e odores e, ademais, a densidade, acidez e outros elementos identificáveis com o auxílio de material de laboratório: uma fita que reagia ao contato com o xixi e uma tabela para interpretar os diversos quadradinhos que nela apareciam ao fim da reação. Trabalhando sempre com amostragem feminina, o Irineu passou a abordar as colegas com perguntas que lhes soavam estranhas mas cujo tom afável as incentivava a responder, questões do tipo, O que você jantou ontem?, Você toma algum suplemento vitamínico? No segundo semestre, as indagações viraram assertivas:</p>
<p>- Dona Carminha, a senhora precisa se alimentar direito, comer em intervalos de duas em duas horas – disse-lhe, quando descobriu a presença de cetonas na urina da colega, um forte indicador de jejum prolongado em não-diabéticos.</p>
<p>- Dona Arlete, não abuse do dorflex nos períodos de cólica – alertou-a em seu primeiro diferencial bem-sucedido, uma explicação para o enigma da recorrência conjunta de hemoglobinas e baixo pH no xixi da mulher.</p>
<p>Os acertos e erros eram todos registrados em seu diário de campo e, ao sentir-se seguro com a quantidade de predições, Irineu deu início à terceira etapa da pesquisa – algo mais ousado, que ia além do mero diagnóstico físico e condensava a parte <em>psico</em> de sua teoria. Ele tentaria, a partir de então, conhecer os humores das colegas por meio de uma análise imediata do seu xixi, valendo-se tão-somente dos seus sentidos. De certa forma, ao longo do ano já vinha se aprimorando em tal prática (gostava de pensar que era uma forma de arte, sutil, cheia de nuances): sabia, dentre outras coisas, sobre a marca de fetidez suprema provocada pelas genuínas comoções, daquelas que incluem choro; sabia também do doce cheiro advindo, inverossímil, de situações de estresse; e do fugaz toque de rosas secas que indicavam paz de espírito… No quinto caderno de anotações, uma máxima de Dior adulterada servia de epígrafe:</p>
<blockquote><p>O aroma da urina de uma mulher diz mais sobre ela que seu perfume e sua letra juntos.</p></blockquote>
<p>Ainda distraídos com sua sagacidade e juventude, os caras do escritório não percebem que algo mudou no clima da repartição no último mês; que, embora as garotas continuem rindo da piada do Lá vai o Urineu, é ele, o Irineu, quem elas primeiro chamam para os almoços e os<em> happy hours</em>. Sentem que ele as entende. Dona Norma chegou a dizer que o Irineu consegue ler seus pensamentos, pois sabe exatamente o que está sentindo sempre. Ela agora se levanta da bancada para dizer-lhe que, nesta quarta, enquanto o Alex assiste ao Brasileirão com os amigos no bar, ela o espera na sua casa para conversarem com mais tranquilidade, quem sabe beber um vinho e, definitivamente, provar sua nova receita de beringela à parmegiana.</p>
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		<title>O lado do pai</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jul 2011 04:04:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[assassinato]]></category>
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		<category><![CDATA[Marcelino Freire]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O conto(-homenagem) abaixo nasceu a partir de um pedido de colaboração para o excelente </em><a href="http://ilpurgatorio.wordpress.com/" target="_blank">O Purgatório</a><em>.</em></p>
<p><em><br />
</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Para <a href="http://marcelinofreire.wordpress.com" target="_blank">Marcelino Freire</a>, que acaba de lançar novo livro,</em> Amar é Crime</p>
<p>Meu filho? Meu filho é doutor, meu filho. Sim, senhor, tem canudo e tudo o mais: anel, jaleco, os direitos do médico. Desde que entrou pra faculdade – aquela que precisa de três anos de cursinho, de banca pro cursinho, de banca pra banca do cursinho. E eu banco! Quem não pode vai atrás de cota, mas depois não reclame se virar motivo de chacota, piada no Português. Onde já se viu deixar passar no vestibular quem mal e mal arranha o inglês? Como é que vai ler os artigos da <em>Science</em>, vai saber falar Parkinson, Huntington, Asperger, Alzheimer, Cushing e o escambau? Não vou aqui ser cara de pau e dizer que apoio. Medicina exige esforço, demanda disciplina, estudo em tempo integral; coisa que pobre não tem, não me leve a mal; falo é de tempo livre. Caridade melhor seria mandar o dinheiro da cota pro Irmã Dulce. Que nos socorra! Já viu quanto paga um plano de saúde? Haja saúde! Meu filho dá até três plantões seguidos, atende aqui, atende em Feira, de segunda a sexta-feira, viaja no Peugeot que eu dei. Chega o fim de semana e às vezes nem descansa. No dia do acidente, ele ligou: “Meu pai, hoje eu ia andar de lancha, mas pintou uma emergência, trabalhei mais que dobrado, eu que mal sou graduado. Cheguei tarde à casa dela, vi um copo de bebida, ela disse, Foi uma amiga, mas fiquei desconfiado. Não tinha batom.” Vai dizer que você não desconfiaria? Ah, meu filho… O cara tem todo o direito, principalmente se é rapaz bom, é doutor, com canudo e tudo o mais: anel, jaleco, o status de um médico. A arma é que eu não sei onde ele arranjou. Sei que atirou num momento de estresse. Se ele é culpado? Escreva aí no seu jornal, por favor: o caso é de se ponderar. Ele não queria a morte da menina. Feito o <em>mea culpa</em>, não é melhor deixá-lo livre? Pense bem, quantas vidas ele ainda há de salvar pela mão da medicina?</p>
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		<title>Minha barba por uma camisinha</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Nov 2010 04:09:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[adolescência]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A DEIXA</strong></p>
<p>&#8211; Bibi, vai fazer essa barba, que tá horrível! &#8211; protestou Luísa, minha irmã, pela quinta ou sexta vez naquela semana.</p>
<p>Era a deixa de que eu precisava.</p>
<p>Um dia antes, enquanto ela estava na faculdade, eu tinha investigado com minúcia seu quarto, para ter certeza de que não havia um estoque de barbeadores descartáveis na casa.</p>
<p>&#8211; Tem razão, Lu &#8211; dissimulei, passando a mão pela minha pelugem rala. &#8211; Já tô ficando agoniado; nesse calor, coça pra caralho. Cê tem barbeador aí? &#8211; minha cara, a mais cínica do mundo.</p>
<p>&#8211; Não.</p>
<p>&#8211; Droga! Vou ter de ir na farmácia comprar um pacote &#8211; fingi tédio.</p>
<p>&#8211; Ah, então peraí &#8212; ela largou o livro no sofá e correu até o quarto. &#8211;</p>
<p>Aproveita e compra um pra mim, mais uma cartela de aspirina e um pacote de absorventes. Sem abas, viu?</p>
<p>&#8211; Exploradora de menores &#8212; retruquei, recebendo o dinheiro. &#8212; Foi pra isso que mandou eu me barbear, né?</p>
<p>&#8211; Foi. Mas se você tá assim pra ir nalguma festa à fantasia vestido de lobisomem, deixa pra lá.</p>
<p>&#8211; Engraçadinha&#8230; &#8211; eu já abria a porta da rua.</p>
<p>&#8211; Auuuuuuu&#8230;</p>
<p><strong>TENTATIVA N° 1 OU AQUI NÃO É A PADARIA?</strong></p>
<p>Morar sozinho com a irmã mais velha tem destas coisas: apesar de não te tratar como mãe, ela te vê eternamente como um pirralho e acha que você é seu escravo. A vantagem é ter alguém que faça seus exercícios de matemática e que não fique mandando você arrumar o quarto o tempo todo. Ah! E quando sua mãe vem do interior para a inspetoria mensal e reclama da sua alimentação à base de pizza, hambúrguer, cachorro-quente e miojo, regados a coca-cola, você pode culpá-la, alegando que é ela a responsável pelo mercado.</p>
<p>Voltando ao tema, não pense que foi fácil chegar à situação em que me encontrava agora. Tive de fazer uma porrada de cálculos para encontrar um dia em que a minha barba estivesse grande, e minha irmã, sem barbeadores. Deu certo. Eu tinha então a desculpa perfeita para ir até a farmácia e comprar uma camisinha.</p>
<p>A dúvida era em qual farmácia ir. Na grande avenida onde eu morava havia quatro. Todavia, o melhor seria não levar em conta a primeira, ficava perto demais de casa.</p>
<p>Seguindo para a próxima, eu pensava no que ia dizer:</p>
<p>&#8211; Oi. Por favor, me dê dois pacotes de gilete, uma cartela de aspirinas, um pacote de absorventes, sem abas, viu?, e-e-e-</p>
<p>Não saia. Ah, mas tinha que sair. Vamos, Bibi, não tem nada demais: você já tem catorze, já tem barba, é um homem. Ninguém vai rir. Hm, e se eu tentar pelo nome comercial? Jontex, Prudence, Eros&#8230;</p>
<p>Entrei na segunda farmácia. O movimento estava razoável. Havia um atendente no caixa e outros três circulando, todos ocupados. Aproveitei para buscar em que parte do balcão de vidro havia camisinhas, assim ia direto ao ponto.</p>
<p>Não encontrei. Fiquei parado no meio da loja, com cara de bunda. Uma das vendedoras, gostosinha, terminou com seu cliente e se aproximou, perguntando se poderia ajudar.</p>
<p>&#8211; N-Não, brigado. Eu tava indo pra padaria aqui do lado.</p>
<p>Saí depressa e cabisbaixo dali. Na calçada, olhei de relance pra loja e vi que a vendedora me encarava com um esboço de sorriso nos lábios. Ela sacou, pensei; na próxima vez que passar aqui vou achar um cartaz com minha foto e a frase: “Ele não teve coragem de comprar camisinha.”</p>
<p><strong>TENTATIVA N° 2 OU TÁ TODO MUNDO ME OLHANDO</strong></p>
<p>No dia seguinte eu tinha uma grande festa pra ir. E já estava com um esquema mais ou menos armado com uma garota da oitava, a Flávia. Claro que ela tava comigo só pra entrar na festa, proibida para quem não fosse do ensino médio, mas a tirar por uns amassos anteriores, minha chance de perder a virgindade parecia mais próxima que nunca.</p>
<p>Todos os meus amigos já tinham transado, ou pelo menos diziam que já. O primeiro foi o Eric, que sempre foi o mais pegador. Chegou todo sorridente na rodinha e falou:</p>
<p>&#8211; Sabem a Priscila, do 1ºD? A loirinha do bocão? Comi!</p>
<p>Eu não achei legal ele ter dito o nome da garota pra galera. Claro que todo mundo queria saber, eu mesmo iria atrás de saber depois, mas tem uns caras que são bem fofoqueiros e zoadores, iam espalhar a notícia, escrever comentários na porta do banheiro e outras babaquices. Eu desconfiava de que era por atitudes desse tipo que as meninas dificultavam as coisas. Mas quando tentei pedir pra o pessoal falar mais baixo fui vaiado, deixei pra lá.</p>
<p>Dias depois o Jardel fez a mesma coisa, mas sem dar nomes; depois o Mateus, o Filipe Rios, o Filipe Santana, o Vini&#8230; Eles já começavam a me olhar com desdém. E não dava pra mentir, o Eric tinha umas amigas pelas quais conseguia confirmar ou desmentir qualquer informação.</p>
<p>Cheguei à terceira farmácia mais rápido que queria. Estava vazia, todos os vendedores próximos ao caixa, papeando. Impossível, todos iriam me observar pedindo um pacote de camisinhas.</p>
<p><strong>TENTATIVA N° 3 OU FINALMENTE, BIBI</strong></p>
<p>A Flávia era um ano mais nova que eu e bem desinibida. Aliás, mais desinibida que um monte de colegas minhas. Até algumas que hoje em dia são mais extrovertidas, ano passado pareciam freiras, de tão recatadas. O que eu vou dizer agora parece coisa de gente velha, mas é impressionante como essa galerinha mais nova que a minha está evoluindo rápido. Por isso eu achava que havia grandes chances de rolar com a Flávia.</p>
<p>Mas então eu precisava de uma camisinha, ora! Quem sabe até duas. Três! Não dava mais pra titubear. Era agora ou aos 40. A última farmácia estava a menos de dez metros.</p>
<p>Sem fixar os olhos em ninguém, entrei procurando o primeiro vendedor que me aparecesse, não importava se fosse homem ou mulher. Qual, então, não foi minha surpresa quando dei de cara apenas com uma pilha alta cestas de compras, várias prateleiras com os produtos que podiam ser vendidos sem receitas e os caixas lá no fundo. Nenhum atendente para incomodar e só dois clientes circulando &#8212; dois <em>caras</em>!</p>
<p>Apanhei rápido os barbeadores, as aspirinas, o pacote de absorventes e fui em busca do que eu mais queria. Ali estavam, penduradas naqueles ferrinhos brancos, uma variedade enorme de camisinhas: com aroma de banana, maçã, hortelã, chocolate, morango, com as cores do meu time, especiais para retardar a ejaculação, superlubrificadas, as básicas mesmo&#8230; Uni-duni-tê&#8230; Ah, na dúvida eu levei um pacote com aroma de chocolate, outra de morango e uma normal. Era bom manter um estoque razoável.</p>
<p>Joguei tudo na esteira e dei as costas para a garota do caixa, fingindo observar os drops. Só virei quando ela me pediu o dinheiro, e ia saindo sem pegar o troco, mas o cara que estava atrás de mim na fila me chamou e me entregou o dinheiro. Pude perceber, embaixo do seu bigode, um sorriso de aprovação ao ver os pacotinhos coloridos que eu transferia da sacolinha para o bolso.</p>
<p>A sensação era de ter vencido uma fase difícil de game.</p>
<p><strong>A SURPRESA</strong></p>
<p>Voltei pra casa.</p>
<p>&#8211; Bibi, é você? &#8212; gritou Luísa do banheiro; estava tomando banho.</p>
<p>&#8211; Não, o Robert Pattinson.</p>
<p>&#8211; Palhaço! Que demora foi essa? Trouxe tudo?</p>
<p>&#8211; Foi mal. É que eu encontrei o Téo na rua e fiquei batendo papo com ele.</p>
<p>Trouxe, sim. Barbeadores e absorvente <em>com</em> abas, né?</p>
<p>&#8211; Nãããão! Era <em>sem</em>, seu-</p>
<p>&#8211; Eu sei, idiota! Só falei pra te irritar!</p>
<p>&#8211; Seu peste! Deixa aqui em cima do balde de roupa suja, e põe o troco na minha carteira, por favor.</p>
<p>&#8211; Oxi, o troco não era meu? &#8212; brinquei, só pra ver o que ela dizia.</p>
<p>&#8211; Seu, nada. Eu vou precisar. Além do mais, cê ainda tem a grana que o vovô te deu de aniversário.</p>
<p>&#8211; Pão-duro!</p>
<p>&#8211; Traz isso logo.</p>
<p>A porta do banheiro estava aberta. Deixei as compras onde ela pedira, lhe dei uma olhada de relance, através do boxe escuro, e saí. Ter uma irmã é se desiludir da doçura e perfeição feminina que os livros e filmes passam. Você tem de vê-la tirando sujeira da unha do pé, usando bóbis, tirando meleca do nariz, soltando pum, coçando o sovaco e &#8212; é, aquele lugar também. Além disso, sempre corre o risco de meter a testa nas suas calcinhas molhadas que pairam em cima do boxe. Só não é muito pior porque você raramente vê sua irmã como uma mulher. Na maioria do tempo, ela é um homem de seios, que menstrua e demora<em> </em>horas para se arrumar.</p>
<p>Fui até o quarto de Luísa. A bolsa estava em cima da cama. Abri-a, apanhei a carteira e &#8212; de lá caiu alguma coisa.</p>
<p>Três camisinhas.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><em>Publicado originalmente no blogue </em><a href="http://queroumarevistadaplayboy.blogspot.com/" target="_blank">Quero uma revista da Playboy</a>, em outubro/2010.</p>
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		<title>Jogo Americano</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2009 04:09:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[briga familiar]]></category>
		<category><![CDATA[curtametragem]]></category>
		<category><![CDATA[diálogo]]></category>
		<category><![CDATA[jogo americano]]></category>
		<category><![CDATA[roteiro]]></category>
		<category><![CDATA[Tarantino]]></category>

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		<description><![CDATA[FADE IN INT. COPA – NOITE HOMEM, MULHER e CRIANÇA (UM GAROTINHO DE 6 ANOS) estão sentados ao redor de uma mesa pequena, comendo. O homem está na cabeceira. A mulher à sua esquerda, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>FADE IN</strong></p>
<p><strong>INT. COPA – NOITE</strong></p>
<p>HOMEM, MULHER e CRIANÇA (UM GAROTINHO DE 6 ANOS) estão sentados ao redor de uma mesa pequena, comendo. O homem está na cabeceira. A mulher à sua esquerda, o garoto à sua direita. Ouve-se o som dos talheres.</p>
<p>A criança pára de comer e encara, perplexa, o prato do homem.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Quê?</p>
<p>A criança aponta para a peça de JOGO AMERICANO abaixo do prato do homem.</p>
<p style="text-align: center; ">CRIANÇA</p>
<p style="text-align: center; ">Seu apoio de prato&#8230; Tá invertido.</p>
<p>O homem mastiga preguiçosamente.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM (DESINTERESSADO)</p>
<p style="text-align: center; ">E daí?</p>
<p>A criança olha de relance para a mulher, que lhe retribui o olhar. A criança se volta para o homem.</p>
<p style="text-align: center; ">CRIANÇA</p>
<p style="text-align: center; ">A mamãe falou que não é assim, que o lado onde tem o desenho tem sempre de ficar pra cima.</p>
<p>A criança aponta para sua própria peça de jogo americano.</p>
<p>O homem engole o que mastigava e encara seriamente a criança; curva-se um pouco em sua direção.</p>
<p>A mulher, cabisbaixa, ergue os olhos, escondidos pelos cabelos, para o homem.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Escuta só: nem tudo que lhe dizem que funciona de uma determinada maneira funciona <em>somente </em>como lhe disseram.</p>
<p>O homem aponta para a sua peça de jogo americano.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Vê? E daí que tá invertido? O importante é continuar funcionando.</p>
<p>A criança volta os olhos para a mulher. O homem percebe esse gesto e, diante do silêncio dela, ele, que voltara a comer, também a encara.</p>
<p>Ela ainda demora um pouco para falar.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER (MEIO RECEOSA)</p>
<p style="text-align: center; ">Por favor, não fale essas coisas pra ele.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Mas eu não falei nada demais, eu só tava ensinando ele a não se comportar maquinalmente, cumprindo as funções mais inúteis sem questionamentos.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER (UM POUCO MAIS SEGURA QUE ANTES)</p>
<p style="text-align: center; ">Você não tava ensinando ele a questionar, e sim a ser desobediente.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">O QUÊ?! De-Desobediente?! Você chama de desobediência o fato de ele não querer seguir um padrão idiota?</p>
<p>O homem ergue o prato da criança e vira seu apoio de prato.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Pronto, filho. Não se importe com essas coisas. Guarde os neurônios para as questões maiores.</p>
<p>A mulher se debruça sobre a mesa e conserta a peça de jogo americano do menino.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER (UM TANTO RAIVOSA)</p>
<p style="text-align: center; ">Em primeiro lugar, ele não é seu filho. Em segundo, isto é importante sim.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM (DEBOCHADO)</p>
<p style="text-align: center; ">Ó, que importância! Talvez os filósofos não tenham descoberto o sentido da vida porque perdiam o tempo olhando pro alto, em vez de olhar para baixo, pro seus jogos americanos.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER</p>
<p style="text-align: center; ">É importante, <em>sim</em>! Cria um&#8230; um&#8230; uma unidade visual. É harmônico. É estético!</p>
<p>O homem repete o ato de inverter o apoio de prato da criança.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Não dê ouvidos a esse lenga-lenga de estética e harmonia. Essas porcarias foram feitas pra não deixar cair comida na toalha da mesa. Então pouco importa se o desenhinho tá pra cima ou pra baixo. Aliás, a gente nem precisaria dessa tralha, era só estender uns guardanapos, ou mesmo folhas de jornal por debaixo dos pratos. Ou então tirar a droga da toalha e botá-la de volta depois. Repito, e preste bastante atenção, guri, essa é uma das lições mais importantes da vida e, ei, eu tô lhe dando de graça: a maioria das coisas não têm um único jeito de serem feitas, <em>capisci</em>?</p>
<p>A criança assente balançando a cabeça devagar.</p>
<p>A mulher torna a se debruçar, não sem certa brusquidão, sobre o prato do filho, para ajustar o apoio de prato.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER</p>
<p style="text-align: center; ">Não dê ouvidos a ele, querido. Faça como a mamãe disser e termin-</p>
<p>O homem segura o braço da mulher com força e a repele com rudeza, forçando-a a se sentar novamente. Ela não consegue ajeitar a peça de jogo americano do filho.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Porra, não tá vendo que tamos tendo uma conversa de homem pra homem? Acredite, um dia você vai me agradecer por isto. Vamos lá, guri. Eu quero agora que você me dê um exemplo que prove que você entendeu o que eu te disse.</p>
<p>A criança alterna o olhar entre a mulher (que está séria, indignada) e o homem (que lhe sorri, afável). Parece ponderar se deve falar algo ou não.</p>
<p>O homem dá um tapa na mesa.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM (ELEVANDO A VOZ)</p>
<p style="text-align: center; ">Vamos! Eu quero um exemplo!</p>
<p style="text-align: center; ">CRIANÇA</p>
<p style="text-align: center; ">Eh&#8230; Ahn&#8230; Bom, eu gosto de comer pizza com a mão, mas a mamãe diz que não pode, principalmente fora de casa&#8230;</p>
<p>O homem sorri de satisfação.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Tá vendo? Tá vendo que bobas são certas regras? O importante não é saborear uma deliciosa pizza? Que seja com a mão, então! Quer saber, eu vou comer esse bife com a mão agora. Depois eu lavo e pronto.</p>
<p>O homem cata um pedaço de carne no seu prato com a mão e o atira na boca. Mastiga-o com deleite.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Será que você é capaz de me dar outro exemplo? Esse primeiro foi muito bom, mas de certa forma ainda tem relação com o lance do jogo americano. Agora eu quero um que não tenha a ver com comida.</p>
<p>A criança pensa por uns instantes, agora sem se importar (nem mesmo reparar) com o olhar de repreensão da mulher.</p>
<p style="text-align: center; ">CRIANÇA</p>
<p style="text-align: center; ">Hum&#8230; A mamãe me faz arrumar a cama todo dia de manhã, mas eu nunca entendi pra que fazer isso, se de noite a gente vai bagunçar ela de novo.</p>
<p>O homem gargalha e aplaude.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Bravo! Bravo!</p>
<p>O homem lança um olhar meio debochado  para a mulher e em seguida torna a fitar a criança.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">E você já comentou isso com ela alguma vez?</p>
<p style="text-align: center; ">CRIANÇA</p>
<p style="text-align: center; ">Já, mas ela manda eu ficar quieto e diz: Obedeça a mamãe, obedeça sempre a mamãe.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; "><em>É mesmo</em>? E você acha essa uma resposta convincente?</p>
<p style="text-align: center; ">CRIANÇA</p>
<p style="text-align: center; ">Acho que sim, já que todo mundo diz sempre que a gente tem de obedecer às mamães.</p>
<p>A mulher sorri.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER</p>
<p style="text-align: center; ">Viu só? Ele sabe que a mamãe só quer o bem dele, e que só pede a ele para fazer isso porque são coisas boas para ele.</p>
<p>O homem se mostra um pouco abalado.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM (ENFÁTICO)</p>
<p style="text-align: center; ">As escolas! Elas só prestam pra reproduzir esse modelo caduco de vida que aí está. Provas, estrelinha de melhor aluno, punição&#8230; que tipo de educação é esta?! Pois se ele fosse meu filho, ia ser educado em casa, ou então em algum liceu como os da Grécia Antiga. Deve existir alguma escola progressista que copie o modelo grego&#8230;</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER</p>
<p style="text-align: center; ">Graças a Deus, ele não é seu filho.</p>
<p style="text-align: center; ">HOMEM</p>
<p style="text-align: center; ">Uh! Agora você não precisa mais da figura paterna que vive me pedindo para ser, né? Que bom, eu estou fora então. E acho até boa a possibilidade de ele virar gay por falta de figura paterna.  Assim <em>você</em> aprende que tem certas coisas que não funcionam só de uma maneira.</p>
<p>A mulher se levanta de vez.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER</p>
<p style="text-align: center; ">De toda sorte, ele cresceria longe de você, o que já seria ótimo! Eu não quero essas suas filosofias na cabeça do meu filho! Nada desse negócio de regras idiotas, de não ser errado fazer as coisas de tal ou tal forma. A gente sabe muito bem onde isso pode levar, né? Hoje é o jogo americano que pode ser usado invertido. Amanhã pode ser alguém que pode ser morto porque era um filho da p&#8230; um&#8230; um&#8230; alguém que não presta!</p>
<p>O homem também se levanta, bruscamente, levando a mão direita às costas. Encara a mulher com seriedade.</p>
<p style="text-align: center; ">MULHER</p>
<p style="text-align: center; ">E, no fundo, a gente sabe que pensar desse jeito é só uma desculpa pra você deitar a cabeça em paz num travesseiro, né?</p>
<p>O homem continua encarando a mulher, sério. Em instantes, toda a confiança dela se esvai, o medo emerge em seu rosto. O homem anda vagarosamente em direção à criança, ainda com a mão direita nas costas, escondida sob a blusa. Ele pega um pedaço de carne grande do prato da criança e lhe entrega em  mãos. Limpa a mão no guardanapo e a coloca sobre o ombro do garoto. Guia-o até fora da copa, fechando a porta. Tudo isso sem desviar o olhar da mulher.</p>
<p><strong>INT. CORREDOR – NOITE</strong></p>
<p>A porta atrás da criança acaba de se fechar. Ela recosta-se na porta, mas gira o pescoço para o lado, para o ouvido ficar mais próximo à porta e tentar ouvir alguma coisa. Ainda segura o pedaço de carne nas mãos. Ouve cochichos ininteligíveis. Depois, ouve a mãe gritando.</p>
<p style="text-align: center;">MULHER (V.S.)</p>
<p style="text-align: center;">Na-Não! Não!</p>
<p>A criança volta o rosto para frente, para a janela na parede oposta à porta. Tem os olhos arregalados. Aí atenta para a carne em suas mãos e morde-a. Enquanto mastiga, calmamente, ouve um TIRO.</p>
<p><strong>FADE OUT.</strong></p>
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		<title>A caçadora de borboletas</title>
		<link>http://abreparentese.com/2009/10/a-cacadora-de-borboletas/</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Oct 2009 03:40:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[A Tardinha]]></category>
		<category><![CDATA[borboletas]]></category>
		<category><![CDATA[butterfly]]></category>
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		<category><![CDATA[infantil]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar guardadas naquele livro. Ao abri-lo, soltou um grito de horror. “Elas estão mortas!”</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em cada página, havia uma borboleta diferente colada e protegida com um plástico duro por cima. Todas sem vida. Ida decidiu que nunca colecionaria bichos mortos, ainda mais as borboletas, tão bonitinhas. Ao fechar o álbum, leu na capa o nome butterfly. Que era? O pai explicou ser equivalente à palavra borboleta em inglês, e que a tradução ao pé da letra seria bicho-manteiga. Aquilo deu uma ideia à garota.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">De certa forma, ela prosseguiu a coleção do pai. Só que, em vez do inseto, Ida colecionava o nome usado para falar borboleta em outras línguas. Ao lado de cada termo, desenhava uma borboleta, o tamanho e as cores inspirados pela forma como ele lhe chegava aos ouvidos. Mariposa, papillon, farfalla, tagfalter… Quando Ida descobriu pelo Google que já haviam catalogado quase 7 mil línguas, pensou consigo mesma:</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">“Bom, pelo menos eu também vou ter uma coleção para a minha filha completar!”</div>
<p>Quando a primavera chegou, o pai de Ida entregou-lhe um volumoso álbum. “É um presente”, disse ele. “Esta é a minha velha coleção de borboletas”. Ida não compreendeu de imediato como as borboletas poderiam estar guardadas naquele livro. Ao abri-lo, soltou um grito de horror. “Elas estão mortas!”</p>
<p>Em cada página, havia uma borboleta diferente colada e protegida com um plástico duro por cima. Todas sem vida. Ida decidiu que nunca colecionaria bichos mortos, ainda mais as borboletas, tão bonitinhas. Ao fechar o álbum, leu na capa o nome butterfly. Que era? O pai explicou ser equivalente à palavra borboleta em inglês, e que a tradução ao pé da letra seria bicho-manteiga. Aquilo deu uma ideia à garota.</p>
<p>De certa forma, ela prosseguiu a coleção do pai. Só que, em vez do inseto, Ida colecionava o nome usado para falar borboleta em outras línguas. Ao lado de cada termo, desenhava uma borboleta, o tamanho e as cores inspirados pela forma como ele lhe chegava aos ouvidos. Mariposa, papillon, farfalla, tagfalter… Quando Ida descobriu pelo Google que já haviam catalogado quase 7 mil línguas, pensou consigo mesma:</p>
<p>“Bom, pelo menos eu também vou ter uma coleção para a minha filha completar!”</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-415  aligncenter" title="acacadoradeborboletas" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2009/10/acacadoradeborboletas.PNG" alt="acacadoradeborboletas" width="454" height="230" /></p>
<p style="text-align: center;">[publicado em <em>A Tardinha</em>, 17/10]</p>
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		<title>A moça da capa</title>
		<link>http://abreparentese.com/2009/08/a-moca-da-capa/</link>
		<comments>http://abreparentese.com/2009/08/a-moca-da-capa/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 30 Aug 2009 21:04:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[atriz]]></category>
		<category><![CDATA[cantora]]></category>
		<category><![CDATA[capa de revista]]></category>
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		<category><![CDATA[ficção]]></category>
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		<category><![CDATA[Playboy]]></category>
		<category><![CDATA[posar]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico! Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Quem diria, hein?!</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Entretanto, assim como a sorte vem&#8230; No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo&#8230;</div>
<p>Sempre que lhe perguntavam sobre a profissão, respondia, orgulhosa: modelo fotográfico!</p>
<p>Vá lá que, desde o começo, só trabalhava para uma mesma revista informativa de circulação nacional, mas isso não a afetava nem de longe, muito pelo contrário: via aquilo como um contrato de exclusividade. E se havia uma coisa da qual ela sabia, era da importância do seu trabalho; afinal, reportagem que se preze tem de ter fotografias ilustrativas.</p>
<p>Vaidosa, sempre ao receber elogios, tratava de informar, falsamente modesta, que aquela era uma profissão como qualquer outra; que por trás de todo o glamour havia um trabalho árduo (e citava a matéria sobre esportes radicais, na qual ela, acrófoba, teve de fazer alpinismo e saltar de pára-quedas, sem sumir o sorriso – um trabalho de atriz!); com suas privações (gente, e as preocupações com a saúde? E o sofrimento com regimes e malhação, para manter a forma? Imagine se ela toma um porre numa festinha de sexta-feira à noite e é requisitada no sábado de manhã para fotografar – como estaria sua cara? E se, nessa festa, pisam forte no seu pé, e no dia seguinte contatam-na porque precisam ilustrar uma matéria sobre calçados?), etc. Mas, apesar de todos os entraves, ela gostava do que fazia, estava feliz na sua profissão. Uma modelo fotográfico!</p>
<p>Ah, mas quando lhe perguntavam sobre um sonho profissional não realizado, ela empalidecia um pouco e respondia: fazer capa. Logo explicava que era uma questão de tempo, pois mais de uma vez já acontecera de ser escolhida para pivô das fotos da reportagem de capa e, na hora H, os diagramadores resolverem optar por uma montagem ou desenho.</p>
<p>Sim, questão de tempo. Não deu outra: mais tarde, lá estaria ela, de terninho com avental por cima, convidando o leitor a entender melhor a situação da mulher moderna. Naquele dia, sentiu-se extasiada. Apesar de estar há um bom tempo aparecendo pela revista, só depois de ser capa é que passou a ser reconhecida na rua. Era cumprimentada, dava autógrafos, tirava fotos e, principalmente, ouvia muitas cantadas. Aos amigos, dizia que era mesmo alguém especial.</p>
<p>Para sua surpresa, ela fora tão elogiada pelos leitores, que a editora da revista informativa resolveu convidá-la, a pedidos, muitos pedidos, para ser capa da sua revista mensal de nu artístico feminino.</p>
<p>Quem diria, hein?!</p>
<p>Ela topou, claro, e contou para os sempre curiosos amigos como era o ambiente no estúdio: uma equipe muito respeitadora, superprofissional e, ao mesmo tempo, com um clima familiar aconchegante. Aliás, foi exatamente essa descrição que ela usou num programa de auditório dominical do qual participara. Neste mesmo programa, após dar show no videokê, também revelou estar sendo sondada por um empresário competente para estrear como atriz ou cantora e, num futuro bem mais à frente, quem sabe até apresentadora, pois era importante experimentar novas vivências nas quais pudesse mostrar ao mundo seu talento.</p>
<p>Entretanto, assim como a sorte vem&#8230; No mês seguinte, o número de abordagens na rua e convites para eventos diminuiu sensivelmente; além do mais, a revista informativa resolveu dar um tempo com seus serviços, pois achavam que modelos fotográficos para ilustrar reportagens não deviam ser tão expostas. Porém o mais chato mesmo foi quando passou em frente a uma banca de revistas e ouviu dois homens conversando, enquanto folheavam a nova edição daquela mesma revista de nu artístico feminino.</p>
<p>– Rapaz, o que você achou da do mês passado, hein?</p>
<p>– Ih, velho, no mês passado? Quem foi que posou, mesmo? Ah, não lembro, mas olhe, olhe esses peitinhos, meu amigo&#8230;</p>
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		<title>Do diário de uma futura defunta</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 00:14:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ai, quase morro de emoção agora há pouco! Bom, não deixaria de ser irônico: é que meu caixão acaba de chegar da capital. Encomendei-o na melhor funerária do estado. Demorou uns três meses para ficar do jeitinho que eu queria, mas valeu a pena esperar. Ele está lá na sala, sendo admirado pelos filhos, netos e vizinhos. É de cerejeira, branco, com tampa de vidro, para deixar o corpo inteiro à mostra; nas laterais há rosas douradas e o final do Salmo 23 – &#8220;Minha morada é a casa do Senhor por dias sem fim&#8221; –, em letras também douradas. Ai, como é lindo meu caixão! Dá até vontade de morrer logo. Brincadeirinha. Quero viver por muito tempo ainda. Sem contar que faltam muitos preparativos para o funeral. Agora, com sua licença, vou contemplá-lo mais um tiquinho.</p>
<p style="text-align: center;">_____</p>
<p style="text-align: left;">Minha filha bate, revoltada, à porta do quarto. Ela está fora de si, em prantos, falando disparates. Ora, qual é o mal de se comprar o próprio caixão? Já estou com 74 anos. Cedo ou tarde eu não teria um? Pois que seja do meu gosto. Tudo do meu jeito: caixão, mortalha, coroas de flores, velório, enterro e missa de sétimo dia. Já tenho quase tudo planejado. No velório, quero que distribuam balas de tamarindo na entrada, o sabor ajudará as pessoas a canalizarem a emoção certa para essas ocasiões: inconformidade e encantamento. Sim, senhor, é assim que deve ser.</p>
<p style="text-align: left;">Ainda não terminei de escrever a mensagem que virá impressa no convite da missa de sete dias; quero um texto bem bonito e tocante. Estou lendo muito para me inspirar. Gosto da maneira como a Henriqueta Lisboa aborda o tema morte. Já dos ultra-românticos, aqueles do mal-do-século, não gosto muito.  Também separei algumas reflexões shakespearianas sobre o assunto. &#8220;A imagem da morte deve ser como a imagem de um espelho que nos ensina o quanto a vida é um sopro passageiro.&#8221; (Oh, esse moço sabia das coisas.)</p>
<p style="text-align: left;">Minha filha parou de bater à porta, depois de ter ameaçado sair de casa com seus filhos, caso eu não devolvesse ou jogasse fora o meu caixão. Muito engraçado. Até parece que ela tem para onde ir. Quem sabe volta para a casa daquele biltre do ex-marido dela, que já a expulsou uma vez, e divide a cama com ele e a nova mulher. Será que ela não percebe que estou fazendo isto para poupá-la destas preocupações menores quando, ao contrário do que eu gostaria, ela desabar, tornar-se um caco físico e emocional perante a minha passagem?  Já meu filho não deu grande importância. Achou até engraçado. Soltou um “mamãe, você é louca!” e, cinco minutos depois, saiu para o futebol. Provavelmente vai trazer os amigos para verem meu lindo caixão. Ai, é melhor eu preparar uns petiscos e fazer um cafezinho.</p>
<p style="text-align: center;">_____</p>
<p style="text-align: left;">Ufa! Já é quase meia-noite, e não faz quinze minutos que a última visita saiu. Nossa, quanta gente! Espero que todos compareçam com o mesmo empenho no “dia oficial”.</p>
<p style="text-align: left;">Ai, estou tão entusiasmada!</p>
<p style="text-align: left;">Assisti ao meu primeiro enterro quando tinha três anos de idade – era o da minha bisavó. Apesar de ser muito novinha, lembro de algumas imagens, algumas cenas das quais eu participava como espectador ignorante. Lembro-me, por exemplo, das pessoas chorando; da minha avó e seus irmãos orando no quarto, ao redor do corpo jazido na cama; da minha mãe me abraçando forte e tampando meus olhinhos durante a passagem do caixão pela sala.</p>
<p style="text-align: left;">O segundo foi o da minha avó. Eu contava então com 12 anos. Ali que realmente captei a reação das pessoas diante da morte. Mas eu não compartilhava dos mesmos sentimentos delas; não sentia pena, tristeza ou indignação – apenas uma ligeira saudade adiantada, confesso. Achava, e acho, que vovó havia ido para um lugar melhor. Abalo mesmo foi ver minha mãe chorando, abraçada a mim do mesmo modo que eu me agarrava a ela na minha infância. E também me chocou uma discussão durante a preparação do cadáver. Minha mãe e minha tia-madrinha queriam usar um vestido branco, simbolizando a paz; uma outra tia minha, porém, jurava de pé juntos que vovó lhe confidenciara a vontade de ser enterrada com o vestido azul que usara no seu último aniversário. Por maioria de votos, o branco ganhou. Creio ter sido aí que, meio inconscientemente, jurei a mim mesma ser a organizadora do meu próprio funeral.</p>
<p style="text-align: left;">A propósito, eu pretendo ser enterrada de azul. Tenho um vestido perfeito para a ocasião, e já o estou adaptando para uma manipulação mais fácil, trocando os botões por velcro.</p>
<p style="text-align: left;">Desde os 40 eu pretendia comprar meu caixão, e depois minha vaga no cemitério. Mas meu finado marido, Afrânio, que Deus o tenha, nunca me permitiu. Ele tinha pavor de tocar no assunto morte. Nem lia nos jornais as reportagens envolvendo assassinatos ou acidentes fatais. Há três anos, faleceu. Foi uma trabalheira arranjar tudo de última hora! Menina de Deus, você não tem noção!</p>
<p style="text-align: left;">Agora que Afrânio não está aqui para se incomodar, resolvi me permitir este grande e antigo sonho. Meu funeral será divino!</p>
<p style="text-align: center;">_____</p>
<p style="text-align: left;">Não tenho ideia de que horas sejam. É tarde; já se passaram mais de duas horas desde a minha última anotação.</p>
<p style="text-align: left;">O fato é que eu não consigo dormir. Então decidi me levantar. Fiquei a escutar se havia barulho em casa, não há. Protegida pela madrugada, vou experimentar meu caixão. Dar uma deitadinha rápida, para ter uma prévia da sensação, saber se é apertado lá dentro, essas coisas. Mas acho melhor tomar uma caneca de café antes. Minha filha acorda cedo para ir trabalhar. Vai que eu adormeço no meu caixão, e ela se depara com a cena. Do jeito que é aquela ali, é bem capaz de ter um troço e cair morta. E eu não pretendo ceder meu caixão dos sonhos a ninguém, nem aos meus familiares mais íntimos.</p>
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		<title>A chacina do Limoeiro</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Aug 2009 05:45:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu entrei no gibi, me senti oco – como se tivesse perdido todos os órgãos, todo o meu sangue. A arma, presa na cintura, pareceu triplicar de peso, e a segurei para não cair. Então, algo cheirando a suor passou voando rente ao meu nariz e eu quase me desequilibrei. Um grito: Cebola! Vamo, véi! Aquela voz de quem parecia ter um ovo na boca era minha conhecida. Ouvi-a muitas vezes num VHS de minha infância, <em>A rádio do Chico Bento</em>. Bons tempos. Quando o mundo parecia ter uma ordem clara e imutável; quando eu sabia que, depois da primeira série, o lógico seria ir para a segunda, e depois para a terceira, e quarta, e&#8230;</p>
<p>Agora, o caos. Cheguei ao terceiro ano e me disseram: Vá para onde quiser, conquanto seja para a universidade – e eu não soube escolher o que cursar, mas foi até bom, porque aí me disseram: Vá para o cursinho, até saber – e, por um instante, a ordem do mundo que eu conhecia pareceu voltar. Havia, contudo, qualquer coisa de frágil nela, e isto se revelou pela primeira vez quando o papa João Paulo II morreu. Ele, que eu julgava imortal. Dois anos depois, ACM, outro imortal, morre. Sandy &amp; Jr se separam. Todos estes pilares da minha infância sendo destruídos, e eu incapaz de fazer algo para impedir. Mas com a Turma da Mônica ia ser diferente. Eu não os deixaria crescer. Por isso entrei naquele gibi. Por isso &#8212; e por maior que fosse a vontade de abraçar o Cebolinha (meu predileto) quando o vi sair de casa e se aproximar do Cascão – por isso eu atirei. O mundo precisava voltar à sua ordem.</p>
<p>Passei pelos corpos caídos e parei no meio da rua. Saquei um bombom do bolso e o abri fazendo o maior ruído possível com a embalagem. A garota que meteu a cabeça para fora de casa só podia ser ela. Me olhou suplicante. Eu sorri e ofereci o doce com um gesto. Ela aceitou e sumiu da janela, mas não chegou a pôr os pés na rua: assim que a porta se abriu, o tiro a fez tombar para dentro.</p>
<p>Só restava a Mônica, e eu sabia que iria encontrá-la na primeira página. Tomei um atalho pelo rodapée cheguei a um quarto de menina adolescente, com pôsteres de galãs nas paredes e ursinhos nas prateleiras, disputando espaço com CDs. Vi dois pés de unhas pintadas se balançando na cabeceira alta da cama. Uma voz lia alguma coisa, e eu também conhecia a sua dona. Acerquei-me devagar, agachado. Espreitei por cima da cabeceira e vi um par de pernas roliças e desnudas, que terminavam numa calcinha azul-bebê, cujo coelhinho da estampa, com um olho tampado pela camisola desalinhada, parecia piscar para mim. Ouvi: Estou crescida – e não tive dúvidas. Repousei a arma no chão e pulei na cama, em cima das pernas da Mônica. Que, sim, estava crescida. E felizmente ainda não usava aparelho nos dentes.</p>
<p style="text-align: right;">[Publicado na revista <a href="http://www.revista-lupa.blogspot.com/" target="_blank">Lupa</a> #6, inverno/2009]</p>
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		<title>Os Gatunos</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jul 2009 03:10:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[26/08/09] Este é o primeiro capítulo de uma novelinha inacabada, escrita pelos idos de 2006. Os outros capítulos existentes estavam aqui, mas eu acabo de deletá-los, já que não tive tempo para terminá-la. Espero algum [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><em>[26/08/09] Este é o primeiro capítulo de uma novelinha inacabada, escrita pelos idos de 2006. Os outros capítulos existentes estavam aqui, mas eu acabo de deletá-los, já que não tive tempo para terminá-la. Espero algum dia dar o ponto final que ela merece.</em></p>
<p style="text-align: left;"><em><br />
</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>I</strong></p>
<p>Para os humanos, é apenas o campus de uma universidade, uma reserva florestal incrustada de edifícios de designs esquisitos; mas para outras espécies trata-se de seu último refúgio. Onde mais, em plena cidade grande, poderiam viver em paz cachorros, patos, micos, gatos, etc.?</p>
<p>Viver em paz em relação aos homens, claro. Paz não é bem o que reina ali. Os tempos dourados, quando existia um restaurante universitário central, se foram. Não há mais a moleza de um grande prédio onde se concentra toda a comida. Agora, cada faculdade do campus tem sua própria cantina, e a maioria delas se localiza injustamente nos andares mais altos, longe do alcance dos bichos. (Mesmo o lixo é mantido lá em cima, e só desce para ir direto ao caminhão que o recolhe.) Deste modo, as espécies que antes viviam em harmonia &#8212; o que se pode chamar assim sem excluir seus instintos naturais &#8211;, atualmente travam uma Guerra Fria, uma guerra sem lutas, mas que pode partir para o conflito físico a qualquer momento. Tudo pelo controle dos poucos restaurantes localizados nos térreos.</p>
<p>Entre os gatos existe uma figura lendária &#8212; Bósis, O Pançudo. É um belo felino de pelos negros, com manchas brancas nas patas, nas orelhas, barriga, rabo e focinho; impávidos olhos amarelos; garbos bigodes. Orgulha-se sobretudo de ser gordíssimo, pois, no seu entender, a obesidade transmite impressão de poder e fartura. Seu prestígio e fama já correram o campus tal qual os de Alexandre, O Grande correram o mundo. E merecidamente, diga-se, posto que Bósis, antes de ser O Pançudo, demonstrou-se um talentoso estrategista e líder durante a Guerra dos Gatos, um dos eventos mais brutais que já aconteceu no campus, e que o dever, mais que o desejo, me obriga a narrá-lo:</p>
<p>Na cantina da Faculdade de Matemática, hoje fechada, havia um estudante alérgico a gatos, que gritava sempre para o dono do estabelecimento que se livrasse daqueles &#8220;animais nojentos&#8221;. A cantina de Matemática era um dos dois pontos exclusivos dos gatos; só eles podiam circular por ali, miando e fazendo caras de coitadinhos*, no intuito de descolar alguma comida fácil e assim não precisarem partir para a caça aos ratos do local. Um dia, o estudante alérgico, em meio a uma forte crise de espirros, arrancou uma perna de uma mesa de plástico e atacou os gatos. Havia oito, dos quais cinco eram filhotes, na ocasião. Um dos pequenos morreu, e os outros quatro saíram com as patas quebradas.</p>
<p>Oh, aquilo exigia retaliação!</p>
<p>Os gatos convocaram uma assembleia para discutir o que fariam, e foi nela que o jovem e ousado Bósis impressionou a todos com seu plano brilhante: sujar a cantina com tanto cocô e xixi que ninguém ficasse indiferente à indignação dos gatos.</p>
<p>Assim foi feito. E apesar de parecer um plano essencialmente simples, não se engane: exigiu um esforço sobrefelino dos gatos, pois, como todos sabem, essa espécie é notória por sua higiene. Cocô e xixi, só em lugares onde se possa cobri-los com terra.</p>
<p>A princípio, não havia gatos suficientes para que a retaliação atingisse as proporções planejadas. E aí Bósis se destaca mais uma vez, por ter conseguido apoio mesmo dos pacatos cachorros e dos egoístas micos, que nunca se solidarizavam com as causas alheias.</p>
<p>Ao pobre estudante, também estava reservado seu quinhão no atentado. Por onde andava e sentava esbarrava-se com um cocô. Os micos, em especial, deram-lhe vários banhos de xixi quando este passava por debaixo de alguma árvore.</p>
<p>Mas a Guerra dos Gatos teve um fim imprevisto: por diversos motivos &#8212; que iam de medo de um segundo atentado até mesmo a consideração para com os gatos &#8211;, os estudantes passaram a não mais frequentar a cantina da Faculdade de Matemática, que foi obrigada a fechar. E o antes adorado Bósis recebeu a ojeriza de seus iguais, que o culpavam por ter perdido um dos dois pontos somente deles.</p>
<p>Magoado, Bósis decidiu abandonar a política e adentrar o submundo, dedicando-se, a partir de então, somente a causas de seu interesse.</p>
<p>E assim nasceu a máfia felina Os Gatunos.</p>
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<p style="margin-bottom: 0cm;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: x-small;"><span lang="es-ES"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;">* Como é sabido, os gatos em geral não são nada bons em fazer cara de coitadinho. Mas os do campus são uma exceção, graças a um curso com o renomado fisionomiologista canino Estanislavisque (os cachorros são mestres nesta arte).</span></span></span></span></span></span></p>
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