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	<title>abre parêntese ( &#187; Literatura</title>
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		<title>Poesia concreta</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Nov 2011 22:11:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">a c a s a l a d a l a n a c a s a d e l a n a minha mesmo não.</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
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		<title>O lado do pai</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jul 2011 04:04:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficções]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O conto(-homenagem) abaixo nasceu a partir de um pedido de colaboração para o excelente </em><a href="http://ilpurgatorio.wordpress.com/" target="_blank">O Purgatório</a><em>.</em></p>
<p><em><br />
</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Para <a href="http://marcelinofreire.wordpress.com" target="_blank">Marcelino Freire</a>, que acaba de lançar novo livro,</em> Amar é Crime</p>
<p>Meu filho? Meu filho é doutor, meu filho. Sim, senhor, tem canudo e tudo o mais: anel, jaleco, os direitos do médico. Desde que entrou pra faculdade – aquela que precisa de três anos de cursinho, de banca pro cursinho, de banca pra banca do cursinho. E eu banco! Quem não pode vai atrás de cota, mas depois não reclame se virar motivo de chacota, piada no Português. Onde já se viu deixar passar no vestibular quem mal e mal arranha o inglês? Como é que vai ler os artigos da <em>Science</em>, vai saber falar Parkinson, Huntington, Asperger, Alzheimer, Cushing e o escambau? Não vou aqui ser cara de pau e dizer que apoio. Medicina exige esforço, demanda disciplina, estudo em tempo integral; coisa que pobre não tem, não me leve a mal; falo é de tempo livre. Caridade melhor seria mandar o dinheiro da cota pro Irmã Dulce. Que nos socorra! Já viu quanto paga um plano de saúde? Haja saúde! Meu filho dá até três plantões seguidos, atende aqui, atende em Feira, de segunda a sexta-feira, viaja no Peugeot que eu dei. Chega o fim de semana e às vezes nem descansa. No dia do acidente, ele ligou: “Meu pai, hoje eu ia andar de lancha, mas pintou uma emergência, trabalhei mais que dobrado, eu que mal sou graduado. Cheguei tarde à casa dela, vi um copo de bebida, ela disse, Foi uma amiga, mas fiquei desconfiado. Não tinha batom.” Vai dizer que você não desconfiaria? Ah, meu filho… O cara tem todo o direito, principalmente se é rapaz bom, é doutor, com canudo e tudo o mais: anel, jaleco, o status de um médico. A arma é que eu não sei onde ele arranjou. Sei que atirou num momento de estresse. Se ele é culpado? Escreva aí no seu jornal, por favor: o caso é de se ponderar. Ele não queria a morte da menina. Feito o <em>mea culpa</em>, não é melhor deixá-lo livre? Pense bem, quantas vidas ele ainda há de salvar pela mão da medicina?</p>
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		<title>Sete Mulheres &amp; Um Banheiro</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 03:56:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Há muito, muito tempo, na tentativa de resolver a um dos maiores enigmas da humanidade &#8212; por que as mulheres vão juntas ao banheiro? &#8211;, escrevi uma peça de teatro, uma comédia adolescente sobre sete garotas do interior, entre seus 15 e 20 anos, que dividem um apartamento com apenas um banheiro na capital. O texto nunca foi montado, mas deixo-o à disposição de quem tiver interesse.</p>
<p><a title="View Sete Mulheres &#038; Um Banheiro on Scribd" href="http://www.scribd.com/doc/58518245/Sete-Mulheres-Um-Banheiro" style="margin: 12px auto 6px auto; font-family: Helvetica,Arial,Sans-serif; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 14px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; -x-system-font: none; display: block; text-decoration: underline;">Sete Mulheres &#038; Um Banheiro</a><iframe class="scribd_iframe_embed" src="http://www.scribd.com/embeds/58518245/content?start_page=1&#038;view_mode=list&#038;access_key=key-pwvquvzn19dboaci6qb" data-auto-height="true" data-aspect-ratio="0.772727272727273" scrolling="no" id="doc_69802" width="100%" height="600" frameborder="0"></iframe><script type="text/javascript">(function() { var scribd = document.createElement("script"); scribd.type = "text/javascript"; scribd.async = true; scribd.src = "http://www.scribd.com/javascripts/embed_code/inject.js"; var s = document.getElementsByTagName("script")[0]; s.parentNode.insertBefore(scribd, s); })();</script></p>
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		<pubDate>Sun, 17 Apr 2011 13:07:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[conto]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>De tão fininha, a pele – aquele pedaço que é a fronteira entre a planta e o peito do pé – refletia a luz do abajur. O reflexo me atingia os olhos. Fosse o da superfície de um relógio, o efeito seria o mesmo: aquilo era uma traquinagem. Eu poderia me arrastar alguns centímetros para o lado e me livrar do foco de luz, mas a minha posição me dava um ângulo perfeito dos seus pés. Eu estava sentado no chão, ela numa cadeira. Os pés cruzados por debaixo do assento. O esquerdo se acomodara na concavidade rasa formada entre tornozelo e calcanhar opostos, e o pé direito se balançava para lá e para cá, para cima e para baixo, ninando seu companheiro com suaves impulsos dos dedos plantados no chão. Ela tinha uma pintinha no segundo dedo do pé esquerdo, o preguiçoso. </p>
<p>Não que eu tenha fetiche por pés, mas com ela, desde o primeiro momento, eles me chamaram atenção. Quando nos encontramos, ela usava tamancos de borracha pavorosos, amarelos, que serviam de farol na rua escura. Não foi difícil segui-la. Entrei em sua casa. Ela tirou os tamancos e os deixou ao lado da cama. Sem querer ocupar a única cadeira do cômodo e tampouco sentar-me em sua cama, me acomodei ao lado deles. Um vestígio de chulé me alcançou. Senti também o cheiro dela, impregnando todas as coisas, aroma de flor. Ela me ofereceu um sanduíche e, enquanto eu comia, sentou-se na cadeira, diante do notebook. Perguntei-lhe se podia fumar, ela consentiu. Eu tinha duas pequenas amostras de vinho na mochila, abri uma garrafa e lhe ofereci outra. Brindamos. “À sua visita à cidade”, ela disse. “À sua hospitalidade”, retribui. “Desculpe não ter algo melhor para oferecer”. “Não diga isto, achei ótimo o lugar. Além do mais, você me fez economizar uma grana de hospedagem. Eu é que espero não estar te atrapalhando.” “De modo algum.” Ela apanhou uma folha de papel ao lado do computador. “Preparei uma listinha de pontos turísticos interessantes para você passear nestes dois dias. Sinto também não poder te acompanhar, mas as aulas, o trabalho.” “Sem problemas.”</p>
<p>Dei uma última tragada e joguei a bituca dentro da garrafinha vazia de vinho. Tampei-a e a agitei, para apagar o cigarro. “O que você  tá vendo aí?” Ela virou a tela para mim. “Ah, é  um <a target="_blank" href="http://www.youtube.com/watch?v=7w9sQDAq3JY">vídeo</a> que me mandaram, de um menininho que foi ao dentista e ficou chapado com a anestesia. Dá pra ver?” Ela abaixou a tela do notebook um pouco. Rimos por mais de um minuto e vimos o vídeo mais duas vezes. Ela então me encarou, com um sorriso. Ela tinha sardas e, quando sorriu, todas as suas pintinhas mudaram de lugar. Me lembrou Campo Minado, o joguinho de computador, no momento em que você perde e ele revela todas as minas. Com este sorriso revelador, ela perguntou: “Quer fumar um?” Abriu a gaveta e retirou um plastic-bag com seda, um cigarro aberto como uma banana e uma pedrinha de haxixe. “Você prepara?” </p>
<p>Enquanto eu queimava a pedrinha com um isqueiro, arrancando-lhe fragmentos e macerando-os entre meus dedos,  ela se voltara para o notebook e continuava suas coisas. Uma música começou a tocar. <a target="_blank" href="http://www.youtube.com/watch?v=EkHTsc9PU2A"><em>I&#8217;m yours</em></a>, de Jason Mraz. Vi de relance que ela abrira um site de letras, para acompanhar a canção. O cabo de um pente virou microfone. Foi neste momento que ela cruzou os pés sob o assento, o esquerdo se acomodando na concavidade rasa entre tornozelo e calcanhar direitos. Mesmo deitado, ele dançava, o pé preguiçoso. E dançava como aquelas pessoas que tocam guitarra imaginária; fazia movimentos de cordas, ondulatórios, os dedos se abriam, se esticavam, se contraiam, enquanto o pé direito, suportando o peso do outro, fazia a marcação do bumbo da bateria. Um Dois. Um Dois. Quando eu me encurvei para lamber a seda e fechá-la é que vi a pintinha, no segundo dedo, próxima à unha, quase oculta pelo dedo ao lado. Contrastava na pele. Me lembrei da piada da formiga em cima da geladeira: um pontinho preto numa superfície branca. Era assim, a pintinha. </p>
<p><em>¡Ostia! ¿Es que ese coloca, eh?</em> Não sei por que falei em espanhol. Soava melhor no momento. Rimos. Ela pôs mais uma vez o vídeo do garotinho muito doido, que começamos a imitar, e eu quase me mijei, de verdade, tive de ir ao banheiro. De volta, encontrei um colchão ao lado da cama preparado para mim. O notebook agora estava no criado-mudo, aos pés da cama, e ela já havia escolhido um filme para assistirmos. Deitei-me e constatei que os tamancos amarelos estavam próximos ao meu rosto. Mais uma vez sorvi o odor do seu chulé, que àquela altura quase não se destacava mais por entre o cheiro dela e o cheiro de haxixe queimado.</p>
<p>Foi difícil nos concentrarmos no início, continuávamos a imitar as frases do menininho muito louco. Aos poucos o filme nos pegou. Mas então, lá pela primeira meia hora, ela cruzou as pernas de modo que o seu pé pairou logo acima do notebook, do ângulo em que eu via. As luzes estavam apagadas, só a tela iluminava  – ela e o pedaço de pele entre a planta e o peito do pé, de tão fininho. O ambiente ainda estava turvo pela fumaça. Todavia, era suficiente para eu ver bem a pintinha sobre o dedo. Eu me sentia como se tivesse desvendado os segredos dela. Mesmo só a conhecendo pessoalmente havia algumas horas. Se você, em tão pouco tempo, sabe que uma mulher tem uma pintinha próxima à unha do segundo dedo do pé esquerdo, como não se sentir íntimo? Isto me deixava um tanto acabrunhado. Porque ela não sabia nada de mim. Conhecendo-me só de ouvir falar, ela me acolhera em sua casa; e ali estava eu, bisbilhotando sua privacidade. Não falo do chulé ou do baseado, mas das coisas que aquela pintinha me contava. Para além das suposições, eu tinha algumas certezas a partir daquele pontinho inesperado. Quantos homens não devem ter notado, e beijado, e adorado aquela pintinha? Quantos, em devoção à pintinha, não se deitaram ao seu lado com a cabeça voltada para seus pés, e quantas coisas (não) aconteceram nestes momentos simplesmente pelo fato de que eles não a estavam olhando nos olhos, mas olhavam a pintinha? Distraídos contaram segredos, admirando a beleza da composição. Temerosos se calaram justo no momento em que ela esperava uma frase deles, porque olhavam concentrados para a pintinha, com medo de perdê-la, deixá-la escapar. Mesmo um cético deve ter molhado a ponta do indicador com a língua e, em meio a deboches, esfregado-o contra a pintinha, duvidando da sua veracidade. Eu já havia visto pintinhas em lugares curiosos, na dobra do joelho com a panturrilha, atrás da orelha, no sexo, já havia visto pintas que nem mesmo eram inhas, mas brutas, rugosas. Nenhuma delas estabeleceu contato comigo. Uma pintinha no rosto, do tipo chamativo, é uma esnobe candidata a câncer de pele. Pintinhas nas costas são mapas, meros instrumentos para beijos perdidos. Em qualquer parte entre o umbigo e as virilhas – estas são as piores: revelam-se distração barata ao final. Aquela que fitava agora, porém, me encarava sério, cheia de convicções. E eu tive a certeza de que o sinal era um sinal. Se a melanina pôde ter se concentrado ali, no segundo dedo do pé esquerdo, próximo à unha, e dado um delicado enfeite a um lugar tão irrelevante e desprovido de atenção, bem, então valeria a pena prostrar-me aos pés daquela mulher. </p>
<p>Fiz um comentário qualquer, para fugir destes pensamentos. Ela não respondeu. Ergui-me um pouco para espiar-lhe. Dormia.  </p>
<p>Aproximei-me. Eu queria vê-la de perto, a pintinha. Queria eu também beijá-la, adorá-la. Mas não seria uma espécie de abuso? Seria mais grave, seria uma profanação. Não me havia sido dado o direito.  Antes eu deveria confessar meus pecados. Sentia que era o único meio de me ser permitido tocá-la, aquela pintinha sagrada, como uma chaga, como uma relíquia, sem maculá-la. Soprei seu nome. Ela se mexeu inteira, apertou o lençol contra si. Olhei para o seu rosto. As sardas estavam quietas. Voltei-me de novo para os pés,  mas agora estavam cobertos.</p>
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		<title>Adeus, Scliar</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Feb 2011 19:07:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Vida Real]]></category>
		<category><![CDATA[Moacyr Scliar]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje faleceu, aos 73 anos, o escritor gaúcho Moacyr Scliar. Sinto a sua morte não apenas por ser um de meus autores favoritos, mas igualmente por ser um modelo de vida. Quando li Scliar pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje faleceu, aos 73 anos, o escritor gaúcho Moacyr Scliar. Sinto a sua morte não apenas por ser um de meus autores favoritos, mas igualmente por ser um modelo de vida. Quando li Scliar pela primeira vez &#8212; A <em>Mulher Que Escreveu A Bíblia</em>, uma obra-prima &#8212; eu era um adolescente de 13 anos que queria ser escritor e que ouvia da família que isso não dava dinheiro, que só medicina me proporcionaria um futuro estável. Eu começava então o ensino médio e, em meu colégio, uma instituição nascida de um cursinho, a equipe pedagógica confundia orientação para a vida adulta com orientação profissional. &#8220;Vestibular&#8221; era a palavra mais citada ali dentro. E dentro da minha casa também.</p>
<p>Ninguém me dizia que eu era obrigado a fazer medicina, felizmente. Por outro lado, eu ouvia com frequência histórias de adultos em aperto financeiro contadas com o tom macabro de uma boa história de terror. Em algumas ocasiões, um tio mais desbocado me alfinetava com um: &#8220;Não vai fazer medicina? E seus pais tão gastando tanto dinheiro em colégio caro para quê?&#8221;</p>
<p>Foi neste período que conheci Moacyr Scliar. Um médico que havia trocado o estetoscópio pela pena. Sem saber mais detalhes de sua biografia além deste fato, tomei o cara como evidência de que minha família poderia estar errada. Naqueles tempos sem Wikipédia nem internet banda larga, eu não soube que estava meio enganado; que, durante bastante tempo, ele conciliou as duas atividades (mais detalhes em sua autobiografia <em>Texto &#8212; Ou, A Vida</em>). Ainda bem. Assim, na minha cabeça eu pude pintar um Scliar projeção de mim mesmo; um tipo que se dera conta, após muitos anos de sofrimento e infelicidade estudando e trabalhando em uma atividade pela qual nutria zero interesse, que fez a escolha errada deixando-se levar pelos outros. Graças a esse Scliar, tomei coragem para dizer escancarada e definitivamente não à proposta da família. No fim das contas, acabei indo parar no curso de Ciência da Computação &#8212; essa, porém, é outra história.</p>
<p>Ao decidir ir adiante com a literatura, Scliar continuou comigo, mas agora na merecida condição de mestre. De narrativa, de estilo, de inventividade. Cheguei mesmo a desenvolver um interesse inusitado e permanente pela cultura judaica por conta dele. Li muito pouco da sua vasta bibliografia (mais de 70 livros), e agora esse deslize me vem a calhar: não me faltará a boa sensação de ler um Scliar pela primeira vez nos anos vindouros.</p>
<p>Tive a oportunidade de entrevistá-lo, via email, duas vezes. <a href="http://abreparentese.com/2009/04/com-o-coracao-e-as-tripas/" target="_blank">A primeira para uma página inteira da revista Muito</a>; a segunda para uma matéria sobre Hermann Hesse no Caderno 2+ do jornal A TARDE. Em ambas as ocasiões, ele foi simpático, atencioso e rápido nas respostas. Em 2009, fui plateia em um bate-papo que contou com sua presença na bienal do livro de Salvador. Deu uma vontade danada de furar a barreira da produção e, ao final, conversar com ele. Pedir um autógrafo. Dar-lhe um abraço e dizer-lhe o quanto era importante em minha formação. Contudo, fiquei com vergonha. Iria esperar por outra oportunidade, quem sabe quando escrevesse algo do qual me orgulhasse bastante e, assim, pudesse oferecer-lhe uma cópia da história sabendo que, se ele fizesse a gentileza de começar a ler, terminaria-a por prazer. Não terei esta chance, infelizmente. Adeus, Scliar.</p>
<p align="center"><iframe title="YouTube video player" width="425" height="349" src="http://www.youtube.com/embed/H2LWNhRDMTk" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>Em que o poeta menor e bissexto homenageia o mestre</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Jan 2011 21:31:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Gregório de Matos]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Dos poetas da Bahia, ele, Gregório de Matos, nos deixa estupefatos com a fina ironia que contém sua poesia: ricos, pobres, brancos, pretos, eram todos objetos daquelas suas piadas que andavam disfarçadas de versinhos de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dos poetas da Bahia,<br />
ele, Gregório de Matos,<br />
nos deixa estupefatos<br />
com a fina ironia<br />
que contém sua poesia:<br />
ricos, pobres, brancos, pretos,<br />
eram todos objetos<br />
daquelas suas piadas<br />
que andavam disfarçadas<br />
de versinhos de sonetos.</p>
<p>Foi no séc&#8217;lo XVII ,<br />
(Salvador era bebê)<br />
imagine o que era ser<br />
um perfeito diabrete<br />
com uma pena-alfinete:<br />
crítica pra todo lado,<br />
foi até apelidado<br />
de O Boca do Inferno;<br />
Gregório é tão moderno!<br />
Não tem nada de antiquado.</p>
<p>Ai, se fosse hoje em dia!<br />
Com a TV, com a revista,<br />
a cada página vista<br />
uma resposta em zombaria;<br />
E tamanha ousadia<br />
é de deixar preocupado,<br />
veja bem se estou errado:<br />
um poeta com esse vício<br />
até mesmo no hospício<br />
podia ser internado!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>[entrevista] Arnaldo Antunes: &#8220;O poeta deve prezar pela saúde da língua&#8221;</title>
		<link>http://abreparentese.com/2011/01/entrevista-arnaldo-antunes-o-poeta-deve-prezar-pela-saude-da-lingua/</link>
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		<pubDate>Sat, 22 Jan 2011 14:23:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foram sete discos como integrante dos Titãs, alguns deles já considerados fundamentais para a história da música brasileira, a exemplo de Cabeça Dinossauro (1986). Na carreira solo, conta com dez discos lançados, o último no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foram sete discos como integrante dos Titãs, alguns deles já considerados fundamentais para a história da música brasileira, a exemplo de <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=LH8yvrSZCpQ" target="_blank">Cabeça Dinossauro</a></em> (1986). Na carreira solo, conta com dez discos lançados, o último no ano passado (<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=V886ojO-oiQ" target="_blank">Iê Iê Iê</a></em>). Ajudou a compor trilhas sonoras (<em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=zEzhL7pDS18" target="_blank">Bicho de Sete Cabeças</a></em>, <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=Aue8j0QP-TQ" target="_blank">Benjamim</a></em>, <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=Vnivtd9Ztro" target="_blank">Dois Perdidos Numa Noite Suja</a></em>, <em>Mil e Uma</em>) e, ao lado dos amigos Carlinhos Brown e Marisa Monte, lançou <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=smwj7ISnwXM" target="_blank">Os Tribalistas</a></em>, disco que tocou e tocou e tocou no ano de 2003. Este é o <a href="http://www.arnaldoantunes.com.br" target="_blank">Arnaldo Antunes</a> do qual a gente se lembra mais facilmente. Mas o músico é também artista plástico, com instalações e exposições montadas em importantes centros do País e no estrangeiro. E, olha, é poeta dos bons. Herdeiro do concretismo, movimento que afirmava – nas palavras do russo Vladimir Mayakovsky – não haver arte revolucionária sem forma revolucionária, o poeta Arnaldo Antunes, 49, acaba de lançar o livro <em><a href="http://abreparentese.com/2010/05/mensagem-e-percepcao-da-palavra-enquanto-signo/" target="_blank">N.D.A.</a> </em>[Editora Iluminuras, 208 p., R$ 44], o décimo de sua peralta trajetória de subversor das palavras. Indiciado pela reportagem, declara a seu favor: faz isso pela saúde da língua. Ainda bem.</p>
<p><strong> </strong></p>
<div id="attachment_737" class="wp-caption alignleft" style="width: 273px"><strong><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/202_g.jpeg"><img class="size-full wp-image-737 " style="margin: 5px;" title="Foto: Marcia Xavier / Divulgação" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/202_g.jpeg" alt="Foto: Marcia Xavier / Divulgação" width="263" height="410" /></a></strong><p class="wp-caption-text">Foto: Marcia Xavier / Divulgação</p></div>
<p><strong>Nunca te interessou fazer apresentações híbridas, meio show, meiosarau?</strong></p>
<p>Os circuitos são muito diferentes. As coisas da música têm constância maior, pela própria requisição do meio. Show é uma atividade mais comum. Mas surgem alguns convites de festivais de literatura e poesia para fazer performance– e não só no Brasil. Às vezes eu as faço sozinho; às vezes, junto com um músico (já me apresentei com Edgard Scandurra, com Chico Neves e com Marcelo Jeneci). Uso elementos musicais em performances, mas não resultando em canções, é mais em cima da poesia mesmo. Eventualmente eu digo um poema num show, ou canto alguma canção à capela numa performance. Pode ser que, algum dia, venha a misturar as duas coisas.</p>
<p><strong>Você se sente parte de uma cena poética? Se é que há cena poética no Brasil hoje&#8230;</strong></p>
<p>Olha, hoje em dia a gente vive numa realidade cultural muito diversificada, na qual as iniciativas individuais predominam mais que movimentos coletivos. Não vejo essa possibilidade de resumir cada poeta dentro de uma tendência. Da minha poesia, posso dizer que ela tem influência de uma poesia mais construtivista, mais lúdica, que é ligada à poesia concreta. A João Cabral de Melo Neto, um poeta que tem preocupação formal. E aos desdobramentos da poesia concreta–várias gerações de poetas que vêm explorando a poesia junto com a visualidade gráfica. Ao mesmo tempo, tem influência da própria tradição de canções, da poesia contracultural e do rock ‘n roll. Tem também um pouco de influência mais lírica, que me seduz. Manuel Bandeira, Drummond, Vinicius. E tem as coisas que prezo na poesia, né? A precisão, a clareza, o lúdico.</p>
<p><strong>Esses aspectos seriam dogmas? Preceitos talvez? </strong></p>
<p>Não chamaria de dogmas, tampouco de preceitos. Quando escrevo, não penso em regras,nem em dogmas a serem seguidos. Simplesmente faço e, enquanto estou fazendo, estou preocupado com alguns critérios. Seriam mais critérios e inspirações da maneira de se criar do que preceitos; poder subverter gramaticalmente; poder quebrar palavras, quebrar vocábulos ao meio e sugerir palavras dentro de palavras; ter uma liberdade de organização sintática e gráfica muito, muito grande.</p>
<p>Após anos de labuta com a poesia concreta, as possibilidades de explorar novas relações de forma e conteúdo não se vão esgotando?</p>
<p>Não, a gente faz poema justamente para renovar as maneiras das coisas se combinarem. As formas de relacionar forma e conteúdo são muitas. A poesia é um território de linguagens onde forma é conteúdo e conteúdo é forma – onde essas coisas perdem um pouco a sua dualidade e se tornam integralmente uma coisa só. Neste sentido, é um exercício que acho sempre renovador, sempre renovável. A cada poema.</p>
<p><strong>É a primeira vez que você é responsável também pela composição gráfica de um livro seu? </strong></p>
<p>Faço isso em todos os meus livros. Grande parte do meu trabalho depende do trabalho gráfico. Muitas coisas não existiriam enquanto poema se não fosse naquela configuração visual. O suporte faz parte estrutural da mensagem; ele não entra como um adorno, um enfeite, é mais um elemento que atua junto como verbal.</p>
<p><strong>É mais difícil tornar o papel parte visível da poesia ou &#8220;esconder&#8221; diversas linhas melódicas em prol da unidade harmônica de uma canção? </strong></p>
<p>É um pouco parecido. Sou um artista que lida com a palavra, e a palavra tende a outros códigos em busca de uma ressignificação. Seja ao entoar a palavra em uma melodia, ou entoá-la através de um grafismo – ou de uma configuração das palavras na página, ou do atrito com alguma imagem –, essa palavra acaba sendo uma espécie de trampolim de onde me aventuro em direção a audiolinguagens, justamente no anseio de dar-lhe uma carga de significação que ela, por si, não atingiria.</p>
<p><strong> </strong></p>
<div id="attachment_738" class="wp-caption alignright" style="width: 155px"><strong><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/15_g.jpeg"><img class="size-full wp-image-738 " style="margin: 5px;" title="N.D.A. [Editora Iluminuras, 208 p., R$ 44]" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/15_g.jpeg" alt="N.D.A. [Editora Iluminuras, 208 p., R$ 44]" width="145" height="205" /></a></strong><p class="wp-caption-text">N.D.A. [Editora Iluminuras, 208 p., R$ 44</p></div><strong>Em <em>N.D.A</em>. alguns poucos textos lembram letras de música. Às vezes você fica em dúvida sobre o fim de determinado texto?</strong></p>
<p>Geralmente, quando estou fazendo, já intuo se aquilo vai ser um poema ou uma canção. Agora, as exceções acabam se tornando inúmeras. Há poemas que, depois de um tempo, foram musicados por mim mesmo ou por outro compositor. Há coisas que surgiram como letras de música, mas aí descubro lá dentro um trecho que pode se tornar um poema visual. Esse movimento é constante. O diálogo entre uma área e outra é constante.</p>
<p><strong>É a primeira vez que você monta um capítulo inteiro apenas com fotografias,certo? </strong></p>
<p>É, sim. Venho fotografando há muitos anos placas de ruas, nas cidades por onde passo. Não só por paixão pela coisa gráfica e a urbanidade, mas porque, muitas vezes, uma placa, um letreiro de loja, salta com um sentido que, tirado do seu contexto original, ganha uma relevância poética interessante e inusitada. Tenho um material muito grande de fotos e tenho o desejo de fazer, com elas, um livro que fosse como uma história em quadrinhos, ou um enredo de espécie qualquer. Tenho também o desejo de fazer uma brincadeira com essas fotos, usando recursos de animação.  É um trabalho que ainda pode se desdobrar para vários lados.</p>
<p><strong>O que você acha da internet como plataforma para experimentação artística, em particular para a poesia? Tem projetos feitos para a web? </strong></p>
<p>Especialmente para a web, só fiz dois poemas para a revista <em><a href="http://www.erratica.com.br" target="_blank">Errática</a></em>. E fiz o vídeo <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=cb-wRyhvdyU" target="_blank">Nome</a></em>, que conjuga linguagens em um resultado poético híbrido, é uma coisa que poderia funcionar na net, mas nunca pensei em nada interativo. De qualquer forma, o meio é muito sedutor. A poesia, na net, tem um território interessante, tanto na exploração de recursos – você poder acessar ao mesmo tempo música, imagem, vídeo, fotografia – quanto na divulgação de poetas, sejam verbais ou visuais. Nos anos 1970 e 1980, a gente tinha uma série de publicações alternativas que eram muito interessantes. Esse movimento, de certa forma, deslocou-se para a rede.</p>
<p><strong>Falar de internet é rememorar também o excesso de oferta artística dos dias atuais, que por vezes angustia bastante as pessoas. Como você lida com esse excesso? </strong></p>
<p>O excesso é uma das recorrências do nosso tempo – não só na web, mas na rua, nas relações afetivas entre as pessoas. Principalmente para quem vive numa cidade como São Paulo. Mais do que nunca se faz necessário um contrapeso, aspectos críticos, um olhar seletivo que elimine o que não me interessa. Temos de ter o cuidado de encontrar um ponto em que possamos nos aprofundar e não ficar apenas na superfície da onda, surfando na internet.</p>
<p><strong>Qual a sua relação com a prosa, enquanto artista? </strong></p>
<p>Prosa de ficção não é uma coisa que eu tenha interesse em realizar como projeto, pelo menos nesse momento. O que faço é algo de prosa ensaística, contaminada pela poesia; ou faço poemas em prosa, confundindo as coisas. Publiquei já um livro de ensaios, o <em><a href="http://www.arnaldoantunes.com.br/sec_livros_view.php?id=7" target="_blank">40 Escritos</a></em> [Editora Iluminuras, 2000], e tenho até o desejo de fazer um <em>Outros 40</em>. Alguma hora vai pintar esse volume.</p>
<p><strong>O poeta tem alguma missão? </strong></p>
<p>O uso preciso da língua é uma responsabilidade dos poetas. Por mais que seja minoritária a poesia, por mais que haja muito pouca gente que se interesse pela poesia, a gente deve prezar pela saúde da língua, pelo uso preciso e adequado das palavras. Esta é uma lição que acaba sendo usada em todas as instâncias de comunicação, mas a poesia, talvez, seja o setor onde ela se aplique de maneira mais radical.</p>
<p style="text-align: center;">[entrevista feita por mim, publicada no <a href="http://caderno2mais.atarde.com.br/" target="_blank">Caderno 2+</a> em 18/05/2010]<br />
[leia a resenha de <a href="http://abreparentese.com/2010/05/mensagem-e-percepcao-da-palavra-enquanto-signo/" target="_blank">N.D.A.</a>]
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		<title>[entrevista] Benicio: pulp fiction made in Brazil</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Jan 2011 16:40:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Meu primeiro contato com Benicio e seu trabalho se deu em 2009, quando estava em busca de uma entrevista que versasse sobre ilustrações na era do cinema de animação. Inicialmente, ele me ganhou com a simpatia e solidariedade em ajudar um jornalista desconhecido no dia de Natal. A entrevista foi publicada, ficou massa, e a história poderia ter terminado aí. Mas fiquei fã das suas pinups e heróis de </em><em>pulp fiction</em> <em>e, agora, ando sempre atento ao nome &#8220;Benicio&#8221;. Seu último trabalho que vi foram as ilustrações para </em><a href="http://abreparentese.com/2011/01/entrevista-xico-sa-modos-de-macho/" target="_blank">Chabadabadá <em>(2010)</em>, </a><em><a href="http://abreparentese.com/2011/01/entrevista-xico-sa-modos-de-macho/" target="_blank">do Xico Sá</a>. Taí, inclusive, um ótimo exemplo para quem acha que ilustrações são &#8220;só&#8221; complemento.</em></p>
<p><em><br />
</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>A ilustração esclarece o que se quer dizer com palavras</strong></p>
<div id="attachment_711" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/benicio2.jpg"><img class="size-full wp-image-711 " style="margin: 5px;" title="Benicio" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/benicio2.jpg" alt="Benicio" width="300" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Benicio / Divulgação</p></div>
<p>Seus traços fizeram a felicidade de muitos garotos das décadas de 1960 e 1970, fãs da sexy espiã de pulp fiction <a href="http://documentariobenicio.blogspot.com/" target="_blank">Brigitte Montfort</a>. Embora o mulherão criado por <a href="http://www.benicioilustrador.com.br/" target="_blank">José Luiz Benicio</a> não tenha ido para o cinema, o próprio ilustrador foi – a trabalho. São dele os cartazes de 30 longas dos Trapalhões e de outros clássicos, como <em>Dona Flor e Seus Dois Maridos</em> e <em>Beijo no Asfalto</em>. Aos 73, o gaúcho radicado no Rio de Janeiro conta que não vê as adaptações cinematográficas como danosas para os ilustradores, que não se adaptou às novas tecnologias e que a propaganda vence a literatura no quesito maior relevância para a ilustração.</p>
<p><strong>O que significa para você fazer ilustração? </strong></p>
<p>É transmitir em imagens aquilo que a gente quer contar, naturalmente, observando as regras de estética, de bom gosto. A ilustração é um complemento visual, uma maneira de esclarecer para o leitor aquilo que você quer dizer com as palavras.</p>
<p><strong>Que mudanças a ilustração sofreu nos últimos tempos? </strong></p>
<p>O advento do computador mudou muito a maneira de desenhar. Mas eu não me dou bem com ele; prefiro a maneira antiga. Sou adepto do guache, me expresso melhor com o guache que com outros materiais.</p>
<p><strong>Por que livros de ficção para adultos não costumam ter ilustrações? Seria uma subvalorização da ilustração por parte desse mundo? </strong></p>
<p>Pode ser, mas acho que é uma questão fundamental de dinheiro: é mais barato sem. Neste mundo de produtos fabricado em série, o desenho é um artesanato. [pausa.] Mas eu não me encaminhei muito pra literatura. Meu negócio sempre foi publicidade e propaganda, em que o primeiro impacto é sempre visual (e na literatura não). Meu trabalho é muito mais comercial do que artístico</p>
<p><strong>O que significa desassociar arte do trabalho comercial? </strong></p>
<p>Os meus cartazes, por exemplo, querem captar, atrair o público. Esta é sua finalidade: vender. A finalidade do trabalho artístico é o contrário, é lançar uma maneira nova de trabalhar as coisas. É mais importante do que eu faço.</p>
<p><strong> </strong></p>
<div id="attachment_712" class="wp-caption alignright" style="width: 391px"><strong><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/ZZ72.jpg"><img class="size-full wp-image-712  " style="margin: 5px;" title="A sexy Brigitte Montfort" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/ZZ72.jpg" alt="A sexy Brigitte Montfort" width="381" height="400" /></a></strong><p class="wp-caption-text">A femme fatale Brigitte Montfort</p></div>
<p><strong> Mas você fez a Brigitte Montfort&#8230; Um trabalho na área literária, aliás.</strong></p>
<p>Ah, eu fiquei muito feliz de ter dado vida a essa personagem de Lou Carrigan. A Brigitte era o tipo boazuda, sabe? Aquelas espiãs que chegam aos 90 anos, mas continuam boazudas! (risos)</p>
<p><strong>As animações cinematográficas tornam o público mais exigente para com as ilustrações? </strong></p>
<p>Naturalmente. As pessoas vão se acostumando com as maneiras novas de se apresentações gráficas, mas é assim que elas acabam se desenvolvendo, e a ilustração não fica de fora.</p>
<p style="text-align: center;">[publicado originalmente no <a href="http://caderno2mais.atarde.com.br/" target="_blank">Caderno 2+</a> em 26/12/09]</p>
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		<title>[entrevista] Joca Reiners Terron: o alquimista literário</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Jan 2011 15:19:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Entrevistei Joca Terron,  para  a revista Muito (suplemento do jornal A TARDE), quando ainda não tinha sido lançado seu fabuloso Do fundo do poço se vê a lua (Cia. das Letras, 280 p., R$ 43), seguramente o melhor romance [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevistei <a href="http://jocareinersterron.wordpress.com/" target="_blank">Joca Terron</a>,  para  a <a href="http://revistamuito.atarde.com.br" target="_blank">revista Muito</a> (suplemento do jornal A TARDE), quando ainda não tinha sido lançado seu fabuloso <em><a href="http://compare.buscape.com.br/do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua-9788535916522.html" target="_blank">Do fundo do poço se vê a lua</a> </em>(Cia. das Letras, 280 p., R$ 43), seguramente o melhor romance nacional da safra do ano passado e o meu candidato a vencer a <a href="http://twitter.com/copaliteratura" target="_blank">Copa de Literatura 2010/2011</a> . De toda sorte, já era seu grande fã desde o <em><a href="http://compare.buscape.com.br/sonho-interrompido-por-guilhotina-joca-reiners-terron-8577340244.html" target="_blank">Sonho interrompido por guilhotina</a> </em>(Casa da Palavra, 184 p., R$ 32), de 2006, e foi uma honra tê-lo entrevistado. Considero Joca um dos melhores.</p>
<div id="_mcePaste">
<div id="attachment_702" class="wp-caption alignnone" style="width: 393px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/Joca_Reiners_Terron_2.jpg"><img class="size-full wp-image-702   " title="Foto: Isabela Santana / Divulgação" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/Joca_Reiners_Terron_2.jpg" alt="Jocalquimista por Isabela Santana" width="383" height="287" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Isabela Santana / Divulgação</p></div>
</div>
<p>Joca Reiners Terron, 42, nasceu no Mato Grosso, mas saiu de lá pequeno e viveu em várias cidades, até fixar-se em São Paulo, faz 15 anos.</p>
<p>É designer por formação e, alega, escritor por insistência — “escrevo desde criança. Mas não me enxergo como escritor, não acredito nessa total identificação com uma atividade. As pessoas fazem o que fazem por curiosidade ou simplesmente por não refletirem muito sobre o assunto.”</p>
<p>Fundou a editora Ciência do Acidente e, por ela, lançou seu primeiro livro, os poemas de <em>Eletroencefalodrama</em> (1998). Escreveu ainda <em>Animal Anônimo</em> (2002), <em>Não Há Nada Lá</em> (2001), <em>Hotel Hell</em> (2003), <em>Curva de Rio Sujo</em> (2004) e <em>Sonho Interrompido Por Guilhotina</em> (2006). Joca também se aventura pelo mundo dos quadrinhos; está roteirizando uma <em>graphic novel</em> com o desenhista Gabriel Cóes e publica em seu <a href="http://jocareinersterron.wordpress.com/" target="_blank">blog</a> alguns de seus desenhos.</p>
<p>Para este ano, adianta o lançamento de um livro ambientado em <a href="http://blogdojocaterron.blogspot.com/" target="blank">Cairo, no Egito</a>, para a coleção Amores Expressos (Cia. das Letras).</p>
<p><strong>Depois de anos em São Paulo, o que resta do Joca cuiabano?</strong></p>
<p>Morei em Cuiabá apenas o primeiro ano de vida. Estou em SP há 15 anos, mas não me sinto daqui. Para falar a verdade, não me sinto pertencendo a lugar nenhum.</p>
<p><strong>Como aconteceu o Joca escritor?</strong></p>
<p>Pela insistência, creio, pois escrevo desde criança. Mas não me enxergo como escritor, não acredito nessa total identificação com uma atividade. As pessoas fazem o que fazem por curiosidade ou simplesmente por não refletirem muito sobre o assunto. Sabe aquela coisa de seguir a atividade do pai? Não é o meu caso, mas nunca pensei muito em ser isso ou aquilo, apenas fui fazendo.</p>
<p><strong>E se você não escrevesse?</strong></p>
<p>Iria desenhar (já desenho, mas não com muita regularidade). Acho que eu sofreria mesmo se fosse impedido de ler. Sempre que penso no Borges, penso no sofrimento dele com a cegueira. Sou amigo de Glauco Mattoso e sei como ele sofre por não poder ler. Dois bibliotecários!</p>
<p><strong>Como escritor, você se atribui alguma espécia de missão?</strong></p>
<p>Nem. Pensar.</p>
<p><strong>Em <em>Sonho Interrompido&#8230;</em> você diz que há dois tipos de escritores que abandonam a literatura: o que para de escrever e o que se profissionaliza, perdendo assim a &#8220;inocência&#8221; necessária à &#8220;alquímica transformação de desejo em ficção&#8221;. Com seu trabalho intenso, não tem medo se &#8220;profissionalizar&#8221;?</strong></p>
<p>Tenho, mas fazer o quê? Preciso pagar pensão alimentícia. Melhor se profissionalizar do que ir pra cadeia.</p>
<p><strong>No <a href="http://www.twitter.com/jocaterron">Twitter</a>, você é o cara que indica &#8220;o que há de melhor nas novas gerações&#8221; literárias. O que há de melhor atualmente?</strong></p>
<p>Tanta coisa. Mas novo e melhor para mim ainda são Daniel Galera e Fabrício Corsaletti.</p>
<p><strong>Se você fosse um personagem de livro, em vez de escritor?</strong></p>
<p>Acho que o fracasso não seria muito diferente.</p>
<p><strong>Há algum dos livros esgotados, como o <em>Hotel Hell</em>, em vias de republicação?</strong></p>
<p>Nenhunzinho. Uma tristeza. Os editores só querem saber de coisas novas.</p>
<p><strong>E qual será a próxima publicação? O livro do Amores Expressos? [<em><a href="http://abreparentese.com/2010/11/do-fundo-do-poco-se-ve-a-lua/" target="_blank">leia a resenha</a>]</em></strong></p>
<p>Sim. Sai em algum momento entre abril e junho. Não tem título definitivo ainda, mas estou surpreendentemente otimista com ele.</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="560" height="340" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/WAgpzi7QRnM?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="560" height="340" src="http://www.youtube.com/v/WAgpzi7QRnM?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: center;">[publicada originalmente na <a href="http://revistamuito.atarde.com.br/" target="_blank">revista Muito</a> em 13/02/2010]</p>
<p style="text-align: center;">
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		<title>[entrevista] Xico Sá: modos de macho</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Jan 2011 05:40:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ele é uma mescla de Bukowski, Flaubert, música brega e boemia. Um role model do cabra homi. Cronista-mor de costumes de boteco da República. Ou cronista-mor da República de costumes de boteco. Ou ainda botequeiro-mor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_672" class="wp-caption alignleft" style="width: 289px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/xicote.jpg"><img class="size-full wp-image-672 " style="margin: 5px;" title="El Xico" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/xicote.jpg" alt="El Xico" width="279" height="420" /></a><p class="wp-caption-text">El Xico</p></div>
<p>Ele é uma mescla de Bukowski, Flaubert, música brega e boemia. Um <em>role model</em> do cabra homi. Cronista-mor de costumes de boteco da República. Ou cronista-mor da República de costumes de boteco. Ou ainda botequeiro-mor da República acostumada cronicamente a&#8230; Deixa pra lá. Ele é <a href="http://twitter.com/xicosa" target="_blank">Xico Sá</a>.</p>
<p>Entrevistei-o em meados de 2010, quando do lançamento de <em><a href="http://compare.buscape.com.br/chabadabada-xico-sa-8501088986.html" target="_blank">Chabadabadá &#8212; aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha</a> </em>(Record, 187 p., R$ 37,90), compilação de crônicas sobre relacionamentos que, juntas, demonstram a falha da máxima wildeana: estamos todos na sarjeta, sim, mas não é preciso olhar para as estrelas para encontrar a beleza.</p>
<p>Para tomar uma dose dos textos de El Xico, visite seu blogue, <a href="http://carapuceiro.zip.net/" target="_blank">O Carapuceiro</a>.</p>
<p><strong>Quem é macho mais perdido da literatura clássica? E a fêmea que mais se acha?</strong></p>
<p>Vamos pegar um exemplo brasileiro: o Euclydes da Cunha sofreu muito com mulher, ficou tonto de chifre, coitado, tentou matar o amante da mulher e foi assassinado por ele. A fêmea mais metida é a comadre Simone de Beauvoir – pior é que tinha razão, gostemos ou não, era uma grande mulher e ainda teve que aguentar o mala do Sartre.</p>
<p><strong>Por que será que há mais escritores que escritoras?</strong></p>
<p>As mulheres são mais sábias: sacam logo cedo que escrever é uma roubada! Ô ramo difícil, minha Nossa Senhora do Bom Parto.</p>
<p><strong>Que escritora te deu importantes lições ou dicas?</strong></p>
<p>Clarice Lispector, pela loucura e pelo mulherzismo exagerado e genial. Outras que curto: Dorothy Parker e a Suzana Flag que encarnava no Nelson Rodrigues.</p>
<p><strong>Você tem frescura na hora de escrever?</strong></p>
<p>Não é frescura, é quase exigência: quando não faço sexo – nem que seja comigo mesmo –, não consigo me concentrar.</p>
<p><strong><em>Haute culture</em>, para você, é…</strong></p>
<p>Frescura da grossa.</p>
<p><strong>O que faz Xico Sá chorar?</strong></p>
<p>Traição, cachaça, cinema e morte de parente ou amigo.</p>
<p><strong>Qual a máxima de amor mais bonita que você já escreveu?</strong></p>
<p>Homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite.</p>
<p><strong>Do que um aspirante a cronista precisa?</strong></p>
<p>Leitura e um bom ouvido para escutar as confidências da mesa do bar ao lado.</p>
<p><strong>Embora <a href="http://www.youtube.com/watch?v=4BEnftn7g3g" target="_blank">assumidamente mal diagramado</a>, você é muito cortejado? Qual foi a maior cantada que você já levou?</strong></p>
<p>Digamos que eu não tenho do que reclamar, afinal de contas a vida é como uma luta de boxe em que os bonitões ganham por nocaute e os feios ganham por pontos, minando o juízo das moças devagarzinho. Rapaz, não sou o Wando, mas já recebi uma calcinha dentro de um envelope em uma noite de autógrafos. Foi lindo.</p>
<p><strong>Como morar décadas em São Paulo e não ter as raízes nordestinas diluídas [<em>Xico nasceu no Crato, Ceará, em 1962</em>]?</strong></p>
<p>Estou há quase 20 anos em São Paulo, mas, além de ir sempre para o Nordeste, convivo muito com os novos-baianos daqui, isso ajuda a não se afrescalhar, não deixa perder o sotaque nem a autenticidade da origem.</p>
<p><strong>Há distinção entre o atual homem metropolitano do Nordeste e o homem metropolitano do Sudeste?</strong></p>
<p>Pegando carona no foclórico e no caricatural, diria que os do Nordeste são mais machos do que os daqui.</p>
<p><strong>E no que diz respeito à mulher?</strong></p>
<p>Essa raça é igual em qualquer canto, por isso que amo. E até na braveza são iguais: no cosmopolitismo de SP, já namorei duas que eram praticamente a mesmo pessoa em matéria de pau de macarrão na minha cabeça, embora D. fosse filha de pais da Calábria e A. uma legítima fêmea do sertão da Bahia.</p>
<p><strong>Se Deus existe, o que ele pensa de você?</strong></p>
<p>Acho que ele diz: deixa esse velho maluco e safado se divertir, não me custa nada.</p>
<p><strong>Como Xico Sá gostaria de ser lembrado na posteridade?</strong></p>
<p>Com um sorriso cada vez que o meu santo nome for pronunciado entre as mulheres. Porque as broxadas são inesquecíveis, elas sempre vão lembrar e rir um pouco disso.</p>
<div id="attachment_671" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/chabadabada.jpg"><img class="size-medium wp-image-671" title="Chabadabadá (2010): o título vem da trilha do melodrama francês Um Homem, Uma Mulher, parodiado outrora assim: Sábado ela dá, sábado ela dá." src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/chabadabada-300x300.jpg" alt="Chabadabadá (2010): o título vem da trilha do melodrama francês Um Homem, Uma Mulher, parodiado outrora assim: Sábado ela dá, sábado ela dá." width="300" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Chabadabadá (2010): o título vem da trilha do melodrama francês Um Homem, Uma Mulher (1966), parodiado outrora assim: Sábado ela dá, sábado ela dá...</p></div>
<p style="text-align: center;">[publicado originalmente na <a href="http://revistamuito.atarde.com.br" target="_blank">revista Muito</a>, em 05/06/2010]</p>
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