Miss Lonelyhearts“A vida, para a maioria de nós, parece uma terrível batalha de dor e desilusão, sem esperança ou alegria. Ah, meus queridos leitores, apenas parece ser assim. Todo homem, não importa quão pobre ou humilde, pode aprender a usar seus sentidos. Vejam o céu pontilhado de nuvens, o mar que se veste de espuma… As melhores coisas da vida são de graça”

Você acredita nisto? Nem o próprio autor destas palavras, Miss Lonelyhearts, o Srta. Corações Solitários. Quando o contrataram para dar conselhos aos leitores de um jornal, apesar de considerar o trabalho um atraso de vida e uma piada, ele o aceitou na esperança de que poderia levá-lo a uma coluna de fofocas e, de qualquer forma, estava cansado de ser repórter. Mas, depois de vários meses, a piada começou a perder a graça; ele percebeu que a maioria das cartas eram súplicas profundamente humildes por conselhos morais ou espirituais, expressões inarticuladas de um sofrimento genuíno. Ciente de que seus correspondentes o levavam a sério, ele agora é obrigado a examinar seus valores, e “esse exame lhe mostra que é a vítima da piada, e não seu perpetrador.”

Publicada em 1933, Miss Lonelyhearts [Imago, 100 p., R$24], do  norte-americano Nathanael West [1903–1940, é uma obra-prima do humor negro. A sobriedade com a qual West se vale da fé para ridicularizar o mítico valor ocidental da satisfação plena [felicidade, se preferir] chega, por vezes, a ser nauseante. O editor de Miss Lonelyhearts talvez esteja certo: nós somos homens de engolir camelos só para fazer força na privada.


[publicado no caderno Dez! em 14/10/08]

Em 1998, quando a internet ainda se apresentava no Brasil, e verbetes como “blog” ou “redes sociais” não participavam do nosso vocabulário, um grupo de jovens escritores em Salvador se valeu da rede para fazer literatura — inclusive fazendo experimentações com a potencialidade do hipertexto.

Através do Internet Archive (http://www.archive.org), um grande histórico da internet, é possível encontrar armazenados tanto resquícios de sites que não estão mais no ar quanto versões antigas de sites que ainda funcionem. Foi através dele que pude conhecer um dos e-zines (fanzines eletrônicos) pioneiros da Bahia, o K Zine, e também conhecer o Textorama, essa experimentação literária envolvendo a não-linearidade do hipertexto. Caras como Patrick Brock, Wladimir Cazé e outros são vanguardistas; tiro meu chapéu não só pela iniciativa como pelo ótimo texto (coisa da qual ando sentindo falta nos nossos destaques de hoje).

Para conhecer um pouco desta história, talvez a maior iniciativa literária feita na última década aqui na Bahia, leia uma entrevista que fiz com Brock para a Lupa Digital.

Aproveito para indicar, aos que se interessam também por jornalismo cultural, uma busca no Internet Archive pelo finado Claque, assinado por Juliana Protásio, Greice Schneider, Gabriela Almeida, Lucas Falcão, Rodrigo Barreto, Érico Monte e colaboradores. O melhor jornalismo cultural feito aqui desde que me entendo por gente. Difícil encontrar um conjunto tão bom hoje, embora tenhamos, agora espalhadas pelos seus próprios blogs, pessoas preparadíssimas, aqui na Bahia, fazendo jornalismo cultural, a exemplo do crítico de cinema Saymon Nascimento.

O amigo Marcelino Freire, bróder da prosa afiada, esteve na IX Bienal do Livro Bahia e nos deu a honra de passar uns dias cá em Salvador, trocando ideias e risadas com a gente, do Coletivo Muito Barulho Por Nada. Pra quem não conhece o MBPN ainda, trata-se de uma galera, da qual faço parte, que decidiu se juntar para produzir coisas.

O projeto nasceu quando o poeta e ator baiano Gabriel Pardal, que atualmente vive no Rio, fez uma participação improvisada nas jam sessions que rolam no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) aos sábados. A performance de Pardal, que tem textos fantásticos, inspirou João Vinícius (ex-Roleta Russa) a bolar um projeto que mesclasse literatura & música. João convocou a Gabriel Camões (ex-Roleta Russa) e a mim para uma reunião e começamos a lapidar sua idéia. Um dia depois, encontramos Mariele Góes, fotógrafa, pelo Rio Vermelho e, num bate-papo informal, ela trouxe a fotografia para o balaio. Daí resolvemos escancarar de vez as portas e abraçar toda forma de expressão artística que aparecesse. No nosso blogue tem de tudo: de música instrumental a videoclipe, de curtametragens a declamações.

Efetivamente, por uma questão de interesse, de traquejo e de interação entre os atuais membros, a dobradinha literatura-música acaba impondo sua presença com mais frequência. Eis duas amostras do que se pode encontrar no nosso blogue:

Carta pra Driu foi nosso texto inaugural. É uma carta de amor que eu havia escrito, e que aqui é lida por Camões; a música é de João.

Já o próximo áudio é um excerto do clássico romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, um dos meus livros prediletos. Estava na casa de João, vendo filmes, conversando sem compromisso, e ele decidiu gravar a leitura que eu fazia. Cebola Pessoa, em seguida, pegou este material e criou uma base que é — putz, de uma beleza inefável.

Assine o feed do blogue do MBPN porque, nas próximas semanas, vem muita coisa bacana, inclusive um texto inédito do Marcelino. E, em breve, eu volto com este assunto aqui no abre parêntese (, mas desta vez será para convidar você para nossas primeiras apresentações ao vivo. Bó fazer barulho!

Daniel Galera, 29, nasceu em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. Foi lá que, junto com amigos, fundou a editora independente Livros do Mal. Com quatro livros publicados, é um dos principais autores da nova geração.

Daniel Galera_Como nasceu o Daniel Galera escritor?

Depois de tentar inutilmente transcender a introspecção falando, pintando, desenhando e compondo músicas, arrisquei escrever contos. Eu já tinha uns 16, 17 anos. Funcionou. Sentia que tinha algum talento para aquilo, ainda que mínimo, que a prosa de ficção era uma forma viável e potente de me expressar. Fui um leitor voraz desde a infância. As primeiras publicações na internet me permitiram encontrar um pequeno público leitor, e a partir dali a escrita se tornou parte essencial da minha vida.

_Além da literatura, a que atividades você se dedica?

Natação, corrida, churrasco e videogame.

_Quais as peculiaridades da aproximação que você mantém com os seus leitores pela internet?, participando dos debates na sua comunidade no Orkut, por exemplo.

Tenho um site pessoal e uso Orkut, Facebook, MSN, Skype. Gosto de manter contato com leitores. O depoimento de um leitor é a etapa final da publicação de um livro, é quando o círculo da experiência literária se fecha.

_Qual o comentário mais marcante que você recebeu a respeito da sua obra?

“Obrigado.”

_Em seu extingo blog, você escreveu que percebia, entre as pessoas de sua idade e classe social, certa apatia causada por “um excesso de possibilidades que desnorteava (…), tornava tudo no mundo equivalente, e portanto igualmente desinteressante.” O desejo da protagonista de “Cordilheira” de ter um filho seria uma forma de lutar contra esta apatia?

Escrevi que percebia essa tendência de comportamento numa certa parcela da minha geração, não acho que seja um traço onipresente. Tratei disso de forma mais ampla no meu primeiro romance, “Até o dia em que o cão morreu”, em que o protagonista manifesta essa tendência de forma exacerbada, paralisante. No caso da Anita, protagonista do “Cordilheira”, não era minha intenção tratar disso. Pensei nela mais como anti-heroína em meio a ideais cultivados por mulheres urbanas modernas. Anita desdenha de carreira, independência, liberdade, realização emocional. Quer ter um filho e ser, nas palavras dela, “nada mais que a mulher de um homem”.

_Você sofre deste desnorteamento pelo excesso de possibilidades?

As possibilidades me deixam meio tonto, às vezes, mas creio que na maior parte do tempo consigo manter o foco no que interessa. Não sou uma pessoa de muitas expectativas. Quando noto um excesso, eu as decepo.

_Você quer ter filhos?

Quero três coisas: uma mulher que fale pouco, uma piazinha ranhenta com os joelhos ralados e um Blue Heeler que aprenda a me acompanhar sem coleira.

_Pode contar algo a respeito do próximo livro?
Cedo demais. Mas tenho quatro idéias e pretendo escrever as quatro.



[publicada na revista Muito em 19/04/2009]

Hoje começa a IX Bienal do Livro Bahia, que vai até dia 26 de abril. No dia 26, aliás, estarei lá, a partir das 15h, no stand da editora FTD. Mas este agora é que será o fim de semana mais interessante pra mim, com a presença de dois dos meus autores favoritos: Moacyr Scliar (sábado, 15h) e Marcelino Freire (domingo, 19h). Não perderei a oportunidade de ouvi-los e de receber um autógrafo nos meus exemplares de Manual da Paixão Solitária (Scliar) e Rasif (Marcelino), seus últimos lançamentos, ambos muito bons. Nos vemos?

A seguir, entrevista feita por mim com sir Scliar pra Muito.



Com o coração e as tripas

O gaúcho Moacyr Scliar, que completa 72 anos amanhã, é um dos mais prolíficos autores brasileiros, com cerca de 70 livros, entre ensaios, romances, contos e crônicas. Scliar é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003.

Atualmente, o senhor se dedica a quais outras atividades, além da literatura?

Sou médico de saúde pública e durante muito tempo tratei de compatibilizar minhas atividades nesta área com a literatura. Agora trabalho menos em saúde, mas ‘mantenho meus vínculos. Viajo muito, dou muitas palestras, escrevo para jornais e revistas no país e no exterior – enfim, é uma existência movimentada…

Há quem defenda que o papel do escritor sofreu uma radical mudança nos últimos anos; sendo, anterioramente, alguém lido pela capacidade de nos levar a pontos desconhecidos da emoção, da compreensão das coisas, hoje ele seria um igual, que compartilha conosco sentimentos já conhecidos; e isto afetaria em muito a literatura produzida, sem paixão, sem coragem. O senhor enxerga alguma mudança no papel do escritor e na literatura ocorrida nos últimos tempos?

Não há dúvida de que, com o avanço da tecnologia, a atividade literária – durante muito tempo algo elitista, inclusive porque pouca gente tinha acesso à palavra escrita – agora está ao alcance de muito mais gente, através dos blogs, por exemplo. Claro, o risco da banalização, do culto ao ego, existe; mas, como no passado, literatura tem de ser feita com emoção, com o coração e com as tripas, se possível.

Há uma citação do senhor que diz: “Escrevo pelo prazer de criar situações e personagens (nesta ordem, infelizmente).” A que se deve este “infelizmente”?

Sempre achei que a literatura deveria partir do personagem e a partir dele criar situações; não por outra razão escritores se imortalizam através de personagens: Dom Quixote, Hamlet, Capitu. Mas para mim estas situações, a trama que as une, são fundamentais. O personagem vai sendo gerado em função delas. Mas é meu jeito…

O senhor sempre diz que Jorge Amado foi um dos autores que te influenciou bastante. Qual a sua visão da obra de Jorge?

Conheci Jorge e Zelia desde a minha infância – eles eram amigos de minha família. E desde criança os admirava. A obra de Jorge me fascinava sobretudo pelo engajamento, pela espontaneidade, pelo retrato do Brasil que representava. Nesta obra, e o tempo o mostra, as qualidades superam os defeitos.

Em “O Texto, ou: A Vida”, que conta a sua trajetória literária e onde se pode ler seus escritos inicias, a sua Porto Alegre, o seu Rio Grande do Sul são muito pessoais. O senhor, que foi ligado ao movimento juvenil, nunca cogitou escrever algo mais denuncista, em que os dramas da cidade e do estado tivessem notoriedade?

Vejo a denúncia como uma atividade sobretudo jornalística. A ficção pode, e deve, mostrar problemas sociais, mas de uma forma diferente, mediada pela imaginação. É o que acontece em muitos de meus livros. O primeiro deles “O Carnaval dos Animais”, reúne uma série de contos nos quais, em linguagem metafórica, eu falava da ditadura, então em seu auge.

Existe algum personagem que o senhor gostaria de reencontrar? Aliás, existe algum plano para este reencontro?

Parto do princípio de que meus personagens, e meus livros em geral, fazem parte de determinadas épocas. Não costumo me reler, nem costumo voltar a temas e/ou personagens. Para mim vale o desafio do novo, do desconhecido.

Qual a história da vez? Pode contar algo sobre ela?

Estou trabalhando num ensaio sobre medicina e poder, estudando as figuras de médicos que, como Che Guevara, trocaram o estetoscópio pelo fuzil.

A sua relação com o judaísmo envolve, tanto quanto formação cultural, a prática da fé?

Não. Não religioso, embora respeite a fé religiosa das pessoas. Minha aproximação ao judaísmo é histórica, é cultural, sobretudo literária; aprendi, e continuo aprendendo muito, com os escritores de temática judaica de vários países.


[publicada na revista Muito de 22/03/2009]

Amanhã, primeira segunda-feira pós-Carnaval,  seguindo a tradição soteropolitana, é que o ano novo começa. Somando esta particularidade do tempo aqui na Bahia ao ao meu desejo de fazer algum top — esta “sutil e obsessiva arte”, como bem diz Denis Pacheco, do Topismos — eis cá um top 5 das minhas leituras de 2008. Mas não vou pôr em ordem de predileção (isto faz do meu top somente uma lista, né?, tudo bem, é bonito ficar chamando-a de top 5), acho que aí embaixo tem coisas com tamanho grau de qualidade que dizer se isto é melhor que aquilo é uma discussão sobre o sexo dos anjos.

top52008

MÚSICA PERDIDA [Luis Antonio de Assis Brasil]

O Livro começa cheio de Letras Maiúsculas, e você logo pensa: iiih, lá vem. Então, no primeiro virar de página — O Maestro exeprimenta a presença da morte. Sentiu-a faz alguns dias, instalada e dilatando-se em seu corpo. Se lhe perguntassem, não saberia dizer se é essa tontura ou a náusea angustiada, essa repugância, ou esses fogos que cruzam por sua retina, ou são os pés, que sente presos ao chão. Mais do que o transtorno corporal, é a certeza metafísica de que vive seus últimos instantes. [...] Ademais, os velhos morrem em agosto e agosto está no fim.

O romance conta a história do maestro Joaquim José de Mendanha, ou melhor, a história que Assis Brasil cria para ele, a despeito de Medanha ter, efetivamente, existido (é o autor do hino do Rio Grande do Sul). E essa história é uma busca enlouquecedora por uma cantata, sua obra-prima da juventude, nunca executada, cuja partitura se perdeu e cuja memória não consegue mais alcançar. É a história de um gênio reduzido a maestro de igreja e compositor de hinos sob encomenda — reduzido, enfim, à mediocridade aplaudida. Pois é isso o que resta a quem, um dia, atingiu a perfeição.

Vale destacar a narrativa lacônica: conta pouco, mas diz tudo que precisamos saber — e se não o diz, é na falta do que nos dá que está também seu charme.

A VIAGEM DO ELEFANTE [José Saramago]

Literatura da ironia mais refinada, este é o relato, baseado em fatos reais, do elefante Salomão, que, tendo antes sido trazido de Goa a Lisboa, é ofertado ao arquiduque austríaco Maximiliano, e, assim, empreende viagem até Viena, surpreendendo as gentes pelo caminho não apenas pelo seu porte, tamanho, tromba ou barrito, mas também pelos seus atos, tais quais ser capaz de refrear um coice ao perceber que havia um padre atrás de si, abraçar carinhosamente os seus serviçais, ou mesmo ajoelhar-se diante do arquiduque. Seus porquês são um mistério, posto que não nos é dado o privilégio de entrar na mente elefantina, todavia fica-nos sempre a prova do tato e da paciência que é preciso ter um elefante ao relacionar-se com os homens. Entre os elefantes recordam-se com freqüência as famosas palavras pronunciadas por um dos seus profetas, aquelas que dizem, Perdoai-lhes, senhor, porque eles não sabem o que fazem, eles sendo nós.

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR [Luigi Pirandello]

Pirandello, o mais importante dramaturgo italiano do século XX, escreveu, em 1921, esta peça sobre seis personagens que, rechaçados pelo seu criador, invadem um ensaio para convencer o diretor a encenar sua história. Fazerem crer-se de que são personagens reais, embora inventados por um autor, e que seus dramas são reais, embora em relação ao palco, suscita uma discussão metalinguística a respeito do teatro, e uma busca das relações entre arte e vida real. Pelo fato de o diretor não ter em mãos um roteiro, dominado por um narrador, a versão de cada personagem para o drama que lhes ocorreu adianta aí, em quase 40 anos, a base da noção de teatralização do cotidiano, do sociólogo canadense Ervin Goffman.

O INIMIGO DO REI [Lira Neto]

Não é ficção, mas uma biografia. A biografia de José de Alencar, escrita com um esmero de Jornalismo Literário que, seguramente, revelou-se das mais penosas tarefas, uma vez que Lira Neto tinha apenas registros escritos como base.

Sempre tive um ranço para com o estilo de Alencar, e não engolia aquele papo sobre sua obra ser deveras importante, a precursora de um retrato do Brasil. Até ler O Inimigo do Rei.

Essa deliciosa narrativa vem para tirar a poeira da obra de Alencar e render merecida homenagem ao romancista que [como diz o subtítulo] colecionava desafetos, azucrinava d. Pedro II e acabou inventando o Brasil.

SEARA VERMELHA [Jorge Amado]

Nesta obra, de 1946, Jorge Amado cria uma verdadeira saga, protagonizada por uma família de imigrantes nordestinos que, expulsos da fazenda onde se formou, vão em busca do sonho de fazer a vida em São Paulo. É a fome e a doença, os cadáveres vão ficando pelo caminho, estrumando a terra da caatinga, e mais viçosos nascem os mandacarus, maiores os espinhos para rasgar novas carnes dos sertanejos fugidos.

Os personagens de Jorge são brutos, mas vivem sob um código de ética estrito, a hipocrisia não faz parte da sua realidade, a honra é o único tesouro que carregam. Já a caatinga de Jorge é de uma beleza dura, espinhos e mandacarus, cangaceiros e beatos. Seara Vermelha é, assim, um quê de Cem Anos de Solidão, uma quê de O Senhor dos Anéis, arquitetada pelo gênio singular e prolífico de Jorge Amado.

Manual do Paulistano Moderno e DescoladoSabe aquele amigo que só vê filme “de arte”? Ou aquele que fecha a cara quando gritavam “toca Anna Julia!” em show do Los Hermanos? Ou ainda aquela amiga hetero que deu pra beijar outras garotas em festas? Pois se está procurando um presente para algum deles, o Manual do Paulistano Moderno e Descolado [Martins Fontes, 118 p., R$ 20,80], de Gustavo Piqueira, é ideal.

Não se engane com o título: de manual e de bairrista, o livro não tem nada. Trata-se de um conjunto de crônicas que, com ironia quase nunca deslizante e bastante fluidez, criticam a pose de quem ambiciona os rótulos de cool-indie-hype. O narrador [com alto teor biográfico] teve a idéia de escrevê-lo quando leu para uma namorada a seguinte nota: “Se você nunca ouviu falar no Cansei de Ser Sexy, deve ter morado os dois últimos anos em Marte”; no que ela retrucou: “Em quem?”

Este é o primeiro de 14 relatos do seu dia-a-dia de jovem adulto de classe média — notória em parecer mais do que efetivamente é. A tese sustentada por Piqueira é a de que quem quer aparecer [e não tem perfil de Big Brother] só tem a exibir hoje cultura e dinheiro.

Mas o repertório cultural por si só não garante mais admiração, e se valer tão-somente do poder aquisitivo é demasiado cafona. “A correta dosagem é fundamental”, escreve.

Ainda a despeito do título, temos cá um livro tradicional, propondo uma discussão. Nada daquelas obras modernas e descoladas, que escondem o discurso [se houver] sob camadas de símbolos e jogam a responsabilidade para o leitor “interpretar como quiser/puder”


[publicado no Caderno Dez! em junho de 2008]