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Depois de esperar dez temporadas de Arquivo-X na expectativa de vê-lo dando uns pegas na Scully, depois de me decepcionar com o insosso beijo sem língua que eles trocam no final do último episódio, qual não foi minha surpresa ao ver o Ag. Mulder (David Duchovny), no piloto da série Californication (2007-), tendo sonhos eróticos com freiras e pegando ninfetas de 16? Sensacional.

Em Californication, criado por Tom Kapinos (Dawson’s Creek), Duchovny é o escritor Hank Moody, um maldito, cuja vida degringolou após deixar a cinzenta Nova Iorque pela ensolarada Los Angeles, para trabalhar na adaptação de seu best-seller, God Hates Us All (Deus Odeia Todos Nós), e vê-lo ser transformado em uma comédia romântica com o ridículo título de This Crazy Little Thing Called Love (Essa Coisinha Chamada Amor). Fossem outros os tempos, Moody, esse “cara analógico num mundo digital”, talvez resolvesse se vingar de Hollywood com um romance ácido, mas o problema — o problema maior, de fato — é que ele está na crise da meia-idade, e tenta o tempo inteiro revertê-la, ou melhor, esquecê-la, entorpecendo-se com álcool e cigarros; sobretudo após a mulher da sua vida, Karen (Natascha McElhone), ter se separado dele para ir morar com outro, levando junto a sua adorada filhinha gótica Becca (Madeline Zima), 12.

Eu até me enveredaria por uma comparação de Moody com Bukowski, mas, para ficar no universo de séries, em algum grau, ele lembra também o dr. House. Ambos são personagens inteligentes, de ironia refinada, solitários e com um problema que só eles podem resolver, embora este problema seja a origem do seu charme. Mas Californication tem uma estética mais underground, tosca, desde a abertura com imagens em super-8 (?); seus personagens são mais caricatos — destaque para o punheteiro Charlie Runkle (Evan Handler), agente de Moody, e sua esposa Marcy (Pamela Adlon), com seu molejo de Queen Latifa branca –; e o sexo é sempre um dos temas principais, com cenas de nu e piadas sobre paus, xoxotas e orgasmos. Ah, as piadas! Os diálogos são muito, muito bons. As cenas de Moody com Becca, que é uma versão em miniatura do pai, são antológicas.

Não sei como anda a repercussão da série, que parte para a terceira temporada agora em 2009. Aqui se fala pouco. Os três ou quatro fãs que conheci eram, como eu, caras que, sob algum aspecto, se identificavam com o protagonista. Tudo bem. Moody gostaria de saber que ele é Lado C.



Californication:cenas selecionadas do piloto