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	<title>abre parêntese ( &#187; Vida Real</title>
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		<title>Seth Rogen, ícone da geração desambiciosa?</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2012 01:52:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Desde que me mostraram uma foto de Seth Rogen e disseram-me que ele parecia comigo, passei a acompanhar sua vida profissional como ator. Embora não veja tanta semelhança entre nós, exceto por determinado visual que ele adota de vez em quando, com barba, passei a ver todos os seus filmes, levado pela vaidade de ter, reconhecidamente, um sósia famosinho; ou, vai ver, é para experimentar uma projeção em segundo grau, na qual eu me imagino aquele outro que se imagina um outro.</p>
<p>Apesar de ver seus filmes, eles não são do meu agrado. Geralmente, ele atua em comédias de humor retardado, grosseiro e escatológico, a exemplo de <em>Superbad</em> e <em>Vigia sob Vigilância</em> — talvez, seus maiores sucessos. Uma vez ou outra, faz algo diferente, como <em>Besouro Verde</em>, no qual não se saiu muito bem, porque seu talento é limitado; ele é aquele tipo de ator que só sabe interpretar um personagem, no seu caso, a figura do pós-adolescente, que tem entre 25-35 anos, um trabalhinho meia boca e só quer, mesmo, saber de transar, beber e fumar maconha.</p>
<p>Analisando as coisas nesses termos, elas não parecem nada demais. Deixe-me, então, reformular meu pensamento: Seth Rogen está sempre interpretando tipos sem ambição. Isso é extremamente curioso quando se verifica que seus filmes têm diferentes diretores. <em>50/50</em> é de Jonathan Levine. <em>Pineapple Express</em> é de David Gordon Green. <em>Ligeiramente Grávidos</em> (um dos poucos de que gosto) é de Judd Apatow. Em todos eles, os personagens — não apenas os de Rogen, que fique claro —, embora tenham características parecidas às dos tipos que os estadunidenses costumam chamar de perdedores (<em>losers</em>), não se definem por estas. Na narrativa tradicional do <em>loser</em>, ele tem ciência da sua condição de derrotado profissional, social ou amoroso, e seu mote é, justamente, a superação de alguma destas barreiras. Nas histórias em que Rogen aparece, os perdedores podem até ter sofrido bullying na escola e  não ter conquistado muitas garotas, mas isso não importa.</p>
<p>Pode-se imaginar que seja o caso de essa geração de atores, roteiristas e diretores estar transplantando para a tela a pouco explorada gente ordinária. O que chama mais atenção, nessa história toda, é o fato de essa gente não ter ambição — afinal, uma coisa não está associada a outra necessariamente, ou está?</p>
<p>Quando falo de ambição, não me refiro a ganância. Ter sonhos ou planos para o futuro são ambições, e os personagens e Seth Rogen não têm nada disso. A não ser por <em>Funny People</em>, em que ele faz um jovem garçom que quer se lançar como comediante, não me vem à memória, neste instante, outro filme no qual algum personagem apresente a ambição burguesa de ser bom em algum tipo de trabalho; a ambição machista de experimentar vivências radicais; ou outra qualquer, como formar uma família ou fazer uma viagem. Obviamente, como tipos de sua época, eles tampouco demonstram desejo algum de atuação social ou descoberta espiritual. Não são neobeatniks.</p>
<p>Então são o quê?</p>
<p>Como Seth Rogen só interpreta a si mesmo, posso crer que o estereótipo do desambicioso se encaixa, com as devidas adaptações idiossincráticas, com muita gente da sua geração, que também é a minha, afinal, temos quatro anos de diferença somente. Aumenta a minha certeza o meu estranhamento acerca dessa questão; estranhamento que nasce do reconhecimento da carência de aspirações em amigos e conhecidos. Como eu tenho ambições aos montes (o que não faz de mim alguém melhor, talvez apenas mais susceptível ao discurso dos meus ascendentes), achava que a minha percepção sobre essa ausência identificada em meu círculo social existia por contraposição dos outros a mim. Agora, pensando nos filmes de Seth Rogen, dou-me o ousadia de ampliar a questão: será um aspecto geracional?</p>
<p>Mais importante: que caminho nos trouxe até aqui?</p>
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		<title>Adeus, Scliar</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Feb 2011 19:07:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vida Real]]></category>
		<category><![CDATA[Moacyr Scliar]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje faleceu, aos 73 anos, o escritor gaúcho Moacyr Scliar. Sinto a sua morte não apenas por ser um de meus autores favoritos, mas igualmente por ser um modelo de vida. Quando li Scliar pela primeira vez &#8212; A <em>Mulher Que Escreveu A Bíblia</em>, uma obra-prima &#8212; eu era um adolescente de 13 anos que queria ser escritor e que ouvia da família que isso não dava dinheiro, que só medicina me proporcionaria um futuro estável. Eu começava então o ensino médio e, em meu colégio, uma instituição nascida de um cursinho, a equipe pedagógica confundia orientação para a vida adulta com orientação profissional. &#8220;Vestibular&#8221; era a palavra mais citada ali dentro. E dentro da minha casa também.</p>
<p>Ninguém me dizia que eu era obrigado a fazer medicina, felizmente. Por outro lado, eu ouvia com frequência histórias de adultos em aperto financeiro contadas com o tom macabro de uma boa história de terror. Em algumas ocasiões, um tio mais desbocado me alfinetava com um: &#8220;Não vai fazer medicina? E seus pais tão gastando tanto dinheiro em colégio caro para quê?&#8221;</p>
<p>Foi neste período que conheci Moacyr Scliar. Um médico que havia trocado o estetoscópio pela pena. Sem saber mais detalhes de sua biografia além deste fato, tomei o cara como evidência de que minha família poderia estar errada. Naqueles tempos sem Wikipédia nem internet banda larga, eu não soube que estava meio enganado; que, durante bastante tempo, ele conciliou as duas atividades (mais detalhes em sua autobiografia <em>Texto &#8212; Ou, A Vida</em>). Ainda bem. Assim, na minha cabeça eu pude pintar um Scliar projeção de mim mesmo; um tipo que se dera conta, após muitos anos de sofrimento e infelicidade estudando e trabalhando em uma atividade pela qual nutria zero interesse, que fez a escolha errada deixando-se levar pelos outros. Graças a esse Scliar, tomei coragem para dizer escancarada e definitivamente não à proposta da família. No fim das contas, acabei indo parar no curso de Ciência da Computação &#8212; essa, porém, é outra história.</p>
<p>Ao decidir ir adiante com a literatura, Scliar continuou comigo, mas agora na merecida condição de mestre. De narrativa, de estilo, de inventividade. Cheguei mesmo a desenvolver um interesse inusitado e permanente pela cultura judaica por conta dele. Li muito pouco da sua vasta bibliografia (mais de 70 livros), e agora esse deslize me vem a calhar: não me faltará a boa sensação de ler um Scliar pela primeira vez nos anos vindouros.</p>
<p>Tive a oportunidade de entrevistá-lo, via email, duas vezes. <a href="http://abreparentese.com/2009/04/com-o-coracao-e-as-tripas/" target="_blank">A primeira para uma página inteira da revista Muito</a>; a segunda para uma matéria sobre Hermann Hesse no Caderno 2+ do jornal A TARDE. Em ambas as ocasiões, ele foi simpático, atencioso e rápido nas respostas. Em 2009, fui plateia em um bate-papo que contou com sua presença na bienal do livro de Salvador. Deu uma vontade danada de furar a barreira da produção e, ao final, conversar com ele. Pedir um autógrafo. Dar-lhe um abraço e dizer-lhe o quanto era importante em minha formação. Contudo, fiquei com vergonha. Iria esperar por outra oportunidade, quem sabe quando escrevesse algo do qual me orgulhasse bastante e, assim, pudesse oferecer-lhe uma cópia da história sabendo que, se ele fizesse a gentileza de começar a ler, terminaria-a por prazer. Não terei esta chance, infelizmente. Adeus, Scliar.</p>
<p align="center"><iframe title="YouTube video player" width="425" height="349" src="http://www.youtube.com/embed/H2LWNhRDMTk" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>Diário da Bélgica: frutas podres no Paraíso</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Feb 2011 13:15:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bélgica]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[greve]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ouvi que o transporte público de Bruxelas estava parado, hoje cedo, pensei que se tratava de mais uma homenagem às 19 vítimas de Bulzingen, como são conhecidos os passageiros que morreram, em 15 de fevereiro de 2010, após o choque entre dois trens nos arredores de Bruxelas. A tragédia, considerada o pior acidente ferroviário dos últimos 50 anos, mobilizou no domingo uma marcha silenciosa de mil pessoas na capital, além de um minuto de silêncio nas estações de trem de todo o país.</p>
<p>Mas o ocorrido de hoje não tinha nada a ver com Bulzingen, e sim com uma briga envolvendo dois agentes do metrô e um passageiro ontem à noite. Rapidamente, e mesmo ainda não estando claro o motivo da peleja (o vídeo das câmeras de segurança mostra o motorista do metrô desferindo o primeiro golpe), o setor de funcionários do transporte público entrou em greve, exigindo mais segurança. A reunião que negociaria as exigências dos grevistas deve estar ainda em curso ou ter acabado há pouco, o principal jornal do país, <em><a href="http://www.lesoir.be" target="_blank">Le Soir</a></em>, ainda não trouxe as novidades, mas, no anúncio da paralização, já estava previsto o seu fim para amanhã, quarta-feira.</p>
<p>A greve, efetivamente, está sendo o assunto do dia em todos os locais, na minha aula de francês inclusive. Invariavelmente, o desenvolvimento do assunto descamba para a questão da segurança em Bruxelas. Aí é que as coisas ficam interessantes.</p>
<p>Em meio a uma turma de alunos cuja maioria vive na cidade há um bom tempo, pude ouvir diversas histórias sobre violência local: gente que viu assassinato na rua, gente que viu roubos, agressões, vandalismo &#8212; e gente que só viu a polícia dar de ombros e murmurar <em>qu&#8217;est-ce qu&#8217;on peut faire?</em> Em tempo: Bruxelas é considerada a cidade europeia com o maior número de policiais por habitante.</p>
<p>Recluso e sem querer contar vantagem do problema brasileiro &#8212; onde a gente sai, nas grandes cidades, com o dinheiro do ladrão separado &#8211;, limitei-me a ouvi-los. A professora, a única belga do recinto, sem demonstrar sentimentos xenófobos, atribuiu considerável parcela do problema à causa da guetização de certos bairros de imigrantes, onde o desemprego chega a alcançar taxas de 90% (a taxa geral da capital gira em torno de 30-40%). Dizque, nalguns, a polícia não tem coragem de entrar (!). Cheguei mesmo a ouvir o conselho de tomar cuidado com a rua após as 23h.</p>
<p>É claro que eu não fiquei amedrontado, afinal, como diz o velho ditado de estrangeiros andando em metrópoles europeias, brasileiro é escolado em andar atento. Todavia, me surpreendeu a apatia com que aceitavam a aumento dos índices de violência. Como todo mundo que tá fora de um jogo, só observando-o, sentia-me o único iluminado ali, minha vontade era de incitá-los a agir antes que tudo pudesse piorar. Ainda bem que não me prestei a tal papel arrogante.</p>
<p>Contudo, não me deixou de vir à mente o reinado do individualismo pós-moderno. Ele é uma espécie de bode expiatório abstrato hoje em dia, convenhamos. Não sabe a que atribuir a culpa? Culpe o indivualismo! Ele se encaixa em qualquer argumento, a exemplo da resposta que dou agora ao comentário do amigo <a href="http://www.pitacosdomanuca.com.br/" target="_blank">Manuca</a> em relação à <a href="http://abreparentese.com/2011/02/diario-da-belgica-a-crise/" target="_blank">possibilidade efetiva de separação do país</a>. &#8220;Se não há gente na rua se manifestado, quão possível é essa separação?&#8221;, perguntou-me Manuca. Não sei; um invidiualismo que se sobressaia à ideia de nacionalidade &#8212; um fato cultural mais comum na Europa que no Brasil &#8212; pode ser um dos fatores.</p>
<p>O Individualismo é filho dileto do Sistema.</p>
<p>Voltando à questão da violência, para concluir, a falta de dados não me permite saber detalhes sobre a relações entre o aumento das taxas de criminalidade e o crescimento populacional. De toda sorte, minha ingênua, alienada, idílica visão da Europa como um local à prova de <a href="http://write.fm/5y1bqn9" target="_blank">barbárie</a>, mesmo as pequenas &#8212; ainda que consiga entender suas causas &#8211;, nunca foi tão abalada quanto hoje; falha minha; tolo que sou, me esqueço sempre de que o lógico é existirem frutas podres no Paraíso.</p>
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		<title>Diário da Bélgica: a tatuagem</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Jan 2011 15:59:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bélgica]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<category><![CDATA[Caminho de Santiago]]></category>
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		<description><![CDATA[No creo en brujas, pero que las hay, las hay Em março de 2008 eu completava seis meses vivendo em Santiago de Compostela, na Espanha, e até então nunca havia entrado na Catedral, embora passasse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>No creo en brujas, pero que las hay, las hay</em></p>
<p>Em março de 2008 eu completava seis meses vivendo em Santiago de Compostela, na Espanha, e até então nunca havia entrado na Catedral, embora passasse em frente a ela todos os dias. De certo modo, via a igreja como um portal que me tiraria da espécie de sonho que estava vivendo e me levaria de volta para casa &#8212; pelo menos nos dois primeiros meses. Depois, a consciência do bloqueio se esvaneceu e só restou o tabu.</p>
<p>Contudo, como sempre digo, é mais fácil viver em Salvador à margem da cultura carnavalesco-industrial do que habitar Santiago sem se envolver com a peregrinação. Na pequena cidade, ela é a principal fonte de renda, e não há dia sequer que você não cruze com um peregrino pelas ruas. Assim, na véspera da Semana Santa de 2008, eu e um grupo de amigos decidimos fazer parte do Caminho de Santiago. 150 km, desde a fronteira galega, em O Cebreiro, o suficiente para ganhar o certificado, apreciar a paisagem mais bonita e, para mim, vencer a batalha contra o receio de adentrar a Cadetral.</p>
<p>Rememoro esta história porque, no penúltimo dia de Caminho, meu joelho travou e tive um pequeno surto de fé, como você pode conferir no pequeno diário daquela viagem postado abaixo. Eu, que sou agnóstico, prometi a Santiago que me tatuaria com seu símbolo, a concha, se conseguisse terminar o percurso restante. Mas devo confessar que, naquele momento, passava pelo meu julgamento a ideia de que ali estava um símbolo que preencheria todos os requisitos de quem quer fazer uma tatuagem: guardar resquícios de uma experiência marcante, encontrar um desenho pouco badalado, etc.</p>
<p>Quinta-feira, quase três anos depois de feita a promessa, cumpri-a. Foi bom ter esperado tanto, pois tive todo o tempo do mundo para deixar o subconsciente analisar a questão do possível arrependimento. Se eu não fosse voltar à Europa, talvez não tivesse tomado a decisão, mas, sabe como é?, <em>no creo en brujas, pero que las hay, las hay</em>, ainda que descrente eu não ousaria pisar de novo no Velho Continente sem cumprir o que prometi ao cara, que vive por lá.</p>
<div id="attachment_752" class="wp-caption aligncenter" style="width: 491px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/tatuagem.jpg"><img class="size-full wp-image-752" title="A conha é o símbolo de Santiago e está espalha por todo o Caminho. A tatuagem é de Gabi, do estúdio JP Tattoo" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/tatuagem.jpg" alt="A conha é o símbolo de Santiago e está espalha por todo o Caminho. A tatuagem é de Gabi, do estúdio JP Tattoo" width="481" height="270" /></a><p class="wp-caption-text">A concha é o símbolo de Santiago e está espalha por todo o Caminho. A tatuagem é de Gabi, do estúdio JP Tattoo</p></div>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><strong>DIÁRIO DE UM PEREGRINO</strong></p>
<p>Diz a lenda que o nome Compostela significa “campo de estrelas”, e que foram elas que guiaram o eremita Paio, no fim do século I, até onde estariam os restos do apóstolo Santiago e de dois discípulos seus. A catedral começou a ser construída em 874, acima das ruínas de um necrotério romano, por ordem do rei Afonso II, após voltar da sua peregrinação ao local.</p>
<p>Existem, hoje, vários Caminhos de Santiago: o primitivo, o inglês, o português, o via da prata (sul da Espanha), o francês… Pode-se fazê-los a pé, de bicicleta ou a cavalo. Os que chegam, recebem um certificado de peregrinação, a chamada Compostela.</p>
<p>Como disse no post anterior, é impossível viver em Santiago e ficar alheio à peregrinação. Ao contrário, você se sente obrigado a experimentá-la, mesmo que seja o trecho mais curto para se ganhar a Compostela, 100km. Foi por isso que eu e uns amigos decidimos embarcar na esquisita aventura de sair de casa para voltar a ela caminhando. E foi assim:</p>
<p><strong>DIA 1</strong></p>
<p>Depois de uma noite muito mal dormida, acordo às 6h da madrugada e preparo o café, para mim e uma das companheiras, a qual eu deveria buscar na estação de trem às 7h, voltar para casa para deixar suas coisas e, então, seguirmos juntos para a rodoviária, onde os outros cinco participantes estariam nos esperando para o ônibus das 8h. Não conseguimos chegar a tempo, o jeito foi pegar o próximo carro, das 9h45.</p>
<p>Ao chegar na rodoviária, fico sabendo que uma das companheiras acordou, arrumou a mochila, sentou-se no sofá e desistiu. Mulher de pouca fé. Então éramos seis – três homens e três mulheres. E mais de três horas tivemos de viajar até chegar a Pedrafita do Cebreiro, um <em>pueblo</em> com, no máximo, 20 casas. Paramos ao lado de um posto de gasolina e de uma placa que indicava a direção para o Caminho de Santiago.</p>
<p>Começamos a empreitada alegres, com piadas; eu comecei a vender garrafinhas de Gatorage por sete euros e fui chamado de farsante por ter comprado duas meias antibolhas, a seis euros o par. Meia hora subindo montanhas e ninguém conseguia mais contar piadas sem interrupção. Caminhamos nove quilômetros margeando a pista e pelo meio do mato até Hotel da Condessa, um povoado com cara de abandonado, de ar fantasmagórico. O albergue dos peregrinos nos surpreendeu pelo asseamento. Como o pagamento “não obrigatório” de três euros impede de ter lençóis e fronhas limpos todos os dias, recebemos roupa de cama descartável. Água quente para o banho só existiu para um. De jantar, barrinhas de cereal e Gatorage, já hiperfaturado para 5 euros, o gole.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<div id="attachment_756" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/seta.jpg"><img class="size-medium wp-image-756" title="O Caminho é inteiramente bem sinalizado por setas amarelas" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/seta-300x225.jpg" alt="O Caminho é inteiramente bem sinalizado por setas amarelas" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">O Caminho é inteiramente bem sinalizado por setas amarelas</p></div>
<p><strong> DIA 2</strong></p>
<p>É regra ter de deixar o albergue antes das 8h. Mais barrinhas de cereal e Gatorage no desjejum.</p>
<p>O plano era chegar a Sárria (km 110), onde por suposto nos esperariam mais três companheiras – a de pouca fé inclusive &#8211;, passando por Samos, uma das poucas bifurcações do Caminho, e que aumentaria o nosso trajeto em uns três quilômetros.</p>
<p>Caminhamos até as 11h em meio a um nevoeiro denso, a baixa temperatura congelando as gotas de umidade no meu cabelo. Estávamos a mais de 1.300 m de altitude. O Caminho abandonara o acostamento e adentrava uns metros a mata. A primeira ladeira que tivemos de subir é de preocupar o coração dos fumantes e ociosos. Sem contar os caninos enormes que nos grunhiam e que não sabíamos ser cães ou lobos, estes tão comuns na Galícia. Em um dos muitos povoados fantasmas pelos quais passamos, habitados somente pelos cachorros/lobos, uma velha bruxa surge da neblina nos oferecendo crepes. Eu tenho a certeza de que a comida está enfeitiçada, mas sou obrigado a comer um pedaço de massa de crepe que ela oferece a um amigo, pensando: vai que ela se sente ofendida e lança sobre mim uma azaração – ou, pior, um <em>avada kedrava</em>. Ela pede um euro pelo crepe, e meu amigo lhe dá, com as mãos trêmulas.</p>
<p>Adiante, fazemos uma pequena pausa para um café e a primeira selada do dia. É que o passaporte do peregrino que recebemos deve ser selado duas vezes por dia – em uma igreja, albergue ou qualquer negócio –, um controle mambembe de que você continua no Caminho. Um cachorro pequenino, branco com pintas marrons e de ar vulpino nos enche o saco.</p>
<p>Lá pelas 12h30 concluímos os 16 quilômetros até Triacastela, parada para almoço. À entrada da cidade, encontramos um húngaro que estava fazendo o Caminho francês completo e, pasmem!, o cão vulpino que, em momento algum, nos ultrapassou ou nos seguiu. Comemos um delicioso menu do dia – dois pratos + vinho por oito euros – e seguimos. Uma companheira começa a sentir o incômodo das primeiras bolhas e dores no joelho. Ela começa a ficar para trás, se perde da gente uma vez e, às 5h da tarde, após termos passado por Samos, pensa em voltar para esta cidade e passar a noite, porque não aguentaria os supostos 15 km que faltavam até Sárria. As outras meninas e um dos meninos também começam a sentir as bolhas. Após uma pausa para discutir se deveríamos aceitar ou não a dica-logro de um campesino de seguir pela estrada, e não pela mata, para encurtar caminho, rumamos todos para a mais difícil das caminhadas. Chegamos a Sárria pelas 20h30, semimortos. Lá, o cão vulpino nos surpreende de novo. Eu o batizo de Uni, pois tenho a certeza de que, como a bebê unicórnio de <em>Caverna do Dragão</em>, por trás daquela carinha fofinha se esconde um ser do mal, que atrapalhará a chegada ao nosso destino. Nos encontramos com as demais companheiras, mas não há vaga para todos no albergue dos peregrinos. Por sorte, nós, meninos, encontramos ao lado um albergue confortável por cinco euros. Antes de dormir, encaramos o prato de filé com batatas fritas, ovos e bacon mais gorduroso de todos os mundos possíveis.</p>
<div id="attachment_757" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/uni.jpg"><img class="size-medium wp-image-757" title="Uni" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/uni-300x225.jpg" alt="Uni" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Uni</p></div>
<p><strong>DIA 3</strong></p>
<p><a href="http://twitter.com/_camillacosta" target="_blank">Camilla Costa</a>, mais sábia e lacônica que eu, disse tudo no seu diário de peregrina [<em>não mais disponível online</em>]: “Aí começa de verdade o caminho da iluminação. Você acorda e se encontra no ponto exato onde Buda começou sua jornada rumo ao Nirvana: descobrindo que tudo é dor.” Às 2h, depois de andar uns 12 km, finalizados pela pior descida da jornada, paramos para almoçar em Portomarín, cidade à beira do Miño (o mesmo rio da <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BYa0UfsKF2w" target="_blank">famosa canção jovenguardista galega</a>). O grupo se divide: as novatas, sem compreender a necessidade de carne para continuar a andar, resolvem ir ao supermercado, comprar material para sanduíche e outras besteiras para beliscar. Ao tirar o sapato, uma das três meninas que iniciaram a jornada em O Cebreiro vê o estrago causado por uma bolha mal estourada na noite anterior: pus e sangue. Ela anuncia sua desistência. As piadinhas à Capitão Nascimento feitas durante os dois outros dias – “quem vai ser o zero-um?”, “pede pra sair!” — não aparecem. Na verdade, todos ficam muito sentidos, sem saber o que dizer ou fazer para ajudá-la; me sinto como esses participantes do <em>Big Brother</em> quando alguém deixa a casa. É, o Caminho deixa a gente meio brega, mas poderia ser pior: poderia ter sido minha a frase que um peruano disse, no quarto ou quinto dia — “Eu aprendi que o Caminho é como a vida: tem baixadas e subidas, e é preciso continuar”.</p>
<p>O frio aperta e o caminho até Gonzar, onde pensamos em passar a noite, é sofrido. Pela primeira vez a pergunta-chave – “por que eu tô fazendo isso?” — toma conta da cabeça. Superação física, orgulho de terminar o que já foi começado e a insistência em buscar a tal transformação que o Caminho proporciona, unidas, são boas respostas. Uma das novatas, que me gastara 16 euros no supermercado, percebendo a imprudência, começa a tentar se desfazer dos víveres, sem se importar para a mescla fatal que é chouriço com nescau.</p>
<p>Chegando em Gonzar, a notícia de que só havia uma vaga no albergue do peregrino, e o outro custava oito euros. A menina que, no segundo dia, começou a ficar para trás se desespera. Não consegue mais andar, mas não quer ficar sozinha ali. O jeito, então, é caminhar mais quatro quilometrozinhos (uma hora) até Ventas de Narón, onde certamente terá vaga. A menina que não consegue andar liga para o pai, aos prantos, em busca de consolo. Chegamos a Ventas (km 81 aprox.) congelados e exaustos, mas temos a sorte de pegar o melhor albergue de todos, com água quente, muita, para uma ducha de meia hora. Eu, além das dores nas pernas, ganho assaduras nas virilhas. Ando feito um cavaleiro sem cavalo.</p>
<p>Nenhum sinal de Uni. Isso me conforta.</p>
<div id="attachment_758" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/minho-e1295712880488.jpg"><img class="size-medium wp-image-758" title="O tren que me leva pola beira do Miño..." src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/minho-e1295712880488-300x225.jpg" alt="O tren que me leva pola beira do Miño..." width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">O tren que me leva pola beira do Miño...</p></div>
<p><strong>DIA 4</strong></p>
<p>A menina do chouriço com nescau desiste do Caminho logo no café da manhã. Zero-dois. Quem fica forma quatro ritmos: os meninos à frente; as duas novatas atrás; a menina do telefonema, munida de um pedaço de pau transformado em cajado; e, surpreendentemente, uma das decanas, que vinha bem, sente o joelho e fica na traseira de todos. Até o almoço ela será a zero-três, nossa última baixa. O caminho deveria inspirar bondade e compaixão, mas, carregando a mochila da zero-três quando não podíamos mais nem com as nossas, nós, meninos, somos invadidos por certo individualismo, advindo do objetivo de superação e, talvez, pela responsabilidade que, invariavelmente, os homens tendem a assumir sempre pelas mulheres ao seu lado. Decidimos conversar, e elas nos compreendem quando maldizemos a dificuldade que é diminuir o ritmo e fazer paradas que esfriam o corpo acostumado ao movimento. Combinamos de nos reunir com mais esparsamento, tipo de duas em duas horas, nas pausas para descansar.</p>
<p>O objetivo da tarde era chegar em Melide (km 52). Nos arredores da cidade, num lugar de descanso para peregrinos, encontramos quem?, quem? Sim, Uni! A menina do telefonema abraça o cachorrinho e está segura de que ela é nosso protetor. Começo a achar, no íntimo, o mesmo, mas mantenho a opinião anterior pelo bom humor.</p>
<p>Chegamos ao albergue às 6h e, mesmo sem sono, ficamos na cama o resto da noite, descansando o corpo. O chuveiro, de água fria e que funcionava só durante uns três segundos a cada pressionada no botão, é motivo de piadas. Encontramos o amigo húngaro e duas senhoras de La Coruña, que estavam fazendo o Caminho pela terceira vez e disseram-nos que a experiência o torna mais fácil. É muito forte, essa ligação entre os peregrinos. Durante as caminhadas, é de lei desejar un “buen camino” a todos, além de trocar umas palavras sobre a vida, bolhas e tudo mais. Não sinto mais os dedões dos pés: eles são só calos. As meias continuam a funcionar.</p>
<div id="attachment_761" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/placa.jpg"><img class="size-medium wp-image-761" title="A concha é símbolo de Santiago. Na forma estilizada, serve também como seta que que guia o Caminho" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/placa-e1295713356881-300x261.jpg" alt="A concha é símbolo de Santiago. Na forma estilizada, serve também como seta que que guia o Caminho" width="300" height="261" /></a><p class="wp-caption-text">A concha é símbolo de Santiago. Na forma estilizada, serve também como seta que que guia o Caminho</p></div>
<p><strong>DIA 5</strong></p>
<p>O sol, que já vinha nos abandonando aos poucos desde o terceiro dia, some de vez no quinto. Chuva, chuva, chuva. Eu me sinto mais cansado que nunca. O fato de já ter andado dois terços é que me impele a seguir. Chegando a Arzúa (km 37), onde combináramos de nos encontrar com as meninas para o almoço, sinto o joelho doer, e forte. A cada passo uma fisgada, e a imagem do histórico deslocamento de rótula do Ronaldinho toma minha cabeça. Começo a andar como uma tartaruga, mas os meus outros companheiros me motivam, parando sempre para me esperar. Pego um pedaço de madeira e faço-o de cajado, melhora um pouco. A força que ponho na mão que segura o cajado é tanta que me arranca um naco de pele, deixando a carne à mostra.</p>
<p>O trajeto da tarde era de 20 km até Arca O Pino, a 13 km de Santiago. A dor e o frio começam a fazer efeito na metade do trajeto: começo a enlouquecer. Rio, falo sozinho, começo a gritar para os outros que deveríamos ir até Santiago de uma vez só, no fundo porque eu não sabia se meu joelho iria funcionar no dia seguinte. Decido tatuar-me a concha de Santiago. Nunca antes eu tivera vontade de fazer uma tatuagem, sempre alegando que nada na minha vida era tão perene. Mas aquele sofrimento merecia uma homenagem, eu precisava de uma marca além de um possível joelho podre para o resto da vida. Depois fico pensando no Eterno Retorno nietzschiano, e me causa pânico imaginar que tenha de enfrentar o Caminho infinitamente. Em dado momento, encontro um altar a um peregrino que morrera durante o Caminho. Aquilo aumenta a loucura e penso na minha própria morte.</p>
<p>A três quilômetros de Arca, em Santa Irene, vejo, à porta de um albergue, um monte de cajados melhores que os meus. Com dor na consciência, deixo o meu e pego dois, um dos quais jogo fora com pesar, pois parte de mim queria voltar e deixá-lo de novo no lugar.</p>
<p>Os dois companheiros, por insistência minha, desistiram de me esperar. Andam alguns metros mais à frente. Na entrada de Arca, uma mulher passando de carro me buzina e me faz um gesto de “força!” com o punho fechado e erguido posto fora da janela. Me sinto como se estivesse fazendo a melhor das boas ações que jamais fizera e os pensamentos loucos me deixam, agora é só paz. Ou cansaço. Ao chegar ao albergue, compramos uma garrafa de vinho no supermercado ao lado, para afogar a alma e aquecer as mágoas.</p>
<div id="attachment_759" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/altar.jpg"><img class="size-medium wp-image-759" title="Nos últimos 50km, encontra-se um altar em memória a um peregrino que enfartou durante o Caminho" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/altar-300x225.jpg" alt="Nos últimos 50km, encontra-se um altar em memória a um peregrino que enfartou durante o Caminho" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Em algum canto dos últimos 50km, encontra-se um altar em memória a um peregrino que enfartou durante o Caminho</p></div>
<p><strong>DIA 6</strong></p>
<p>Domingo de Páscoa. Todos ansiosos para chegar a Santiago a tempo para a missa do peregrino de meio dia. Tento acordar todos às cinco da manhã, como o planejado, mas ninguém se move. Acordam só lá pelas seis e partimos às sete. Vejo meninos de 9 e 12 anos fazendo o Caminho. Também uma menina paraplégica, com sua família. Penso se o peregrino dono do meu cajado roubado conseguirá chegar sem ele. Me acho o ser mais desprezível de todos. Mas logo, na subida até o Monte do Gozo (que tem esse nome porque é dele a primeira vista de Santiago), os pensamentos se acabam, sou só corpo, moído, aleijado, mas que anda, anda, anda, porque não há o que fazer, e porque está tão perto… O ritmo de quatro quilômetros por hora já não existe, e cinco quilômetros me parecem dez. Uma peregrina me dá a dica de não andar pelo asfalto, mas pela terra, disse que é melhor para os pés. Sem pestanejar, obedeço-a.</p>
<p>Apesar da vista do Monte do Gozo ser frustrante, pois não dá para ver a Catedral, o fato de já estar na entrada de Santiago recupera o meu humor, eu começo a conversar com alguns outros jovens peregrinos. Ao entrar nas ruas, o Caminho perde a magia, eu me sinto um tico idiota em caminhar todo sujo e torto diante de lojas e restaurantes da zona nova, mas então entro na rua São Pedro de Mezonzo, que faz parte da velha cidade, e a sensação de vitória, a emoção de estar perto de casa, de ver Ste, Mari e Betta, meus <em>roomates</em>, minha família aqui, toma conta de mim. Não ligo para os olhares dos turistas ao baixar a Praça Cervantes e, com um nó na garganta, vejo a Catedral. Espero os outros para entrarmos juntos. A menina do telefonema, que sofreu muito mais que eu, com o joelho fisgando desde o segundo dia, me abraça e chora como um bebê. Zero-um, zero-dois e zero-três aparecem para nos receber. Betta e Ste também. Entro na catedral pela primeira vez, enquanto o coro gregoriano entoa algo que me conforta, apesar do frio que faz. Me sento nas escadas e sou só música. Quando ela para, reconheço os peregrinos que encontrei durante todos os dias e os cumprimento. Depois, vou pegar o meu certificado, a Compostela, que – ninguém me avisou! — não veio em latim por eu não ter alegado motivos religiosos no formulário que preenchi. Me perco de todos na saída e decido ir pra casa sozinho. Pela primeira vez, sinto uma falta danada de Uni.</p>
<div id="attachment_760" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/catedral.jpg"><img class="size-medium wp-image-760" title="A fachada da Catedral de Santiago de Compostela" src="http://abreparentese.com/wp-content/uploads/2011/01/catedral-300x225.jpg" alt="A fachada da Catedral de Santiago de Compostela" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">A fachada da Catedral de Santiago de Compostela</p></div>
<p><strong> </strong></p>
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		<title>Em busca da Princesa Encantada</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Jun 2009 06:54:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O cenário: uma sala comunal de albergue, cujo único atrativo é um <em>home theater</em>. Os personagens: um bando de rapazes, dos mais diversos tipos e nacionalidades. A ação: todos estão assistindo atentamente a uma comédia romântica estrelada pela Jennifer Aniston, eu inclusive.</p>
<p>Nas últimas semanas, assisti às quatro primeiras temporadas da sitcom <a href="www.cbs.com/primetime/how_i_met_your_mother" target="_blank"><em>How I Met Your Mother</em></a> (2005-), criada por Carter Bays e Craig Thomas. Descendente direta de <em>Friends</em>, <em>HIMYM</em> também conta a história de um grupo de amigos que vivem em Nova York e estão chegando aos 30 anos de idade &#8212; à vida adulta, no seu ponto de vista. Há o casal que namora desde os tempos da universidade e agora está pensando em casamento: Marshall e Lily (Jason Segel e Alyson Hannigan). Há o cara que só quer aproveitar a ótima fase física e financeira pela qual está passando para conquistar uma garota diferente a cada noite: Barney (Neil Patrick Harris). Há a garota que põe sua carreira acima de tudo e tem pavor às palavras &#8220;casamento&#8221; e &#8220;filhos&#8221;: Robin (Cobie Smulders). E, por fim, há o cara que justamente só pensa em casamento e filhos: Ted (Josh Radnor), o protagonista. O tempo de ação de <em>HIMYM</em> é, na verdade, 2030, quando Ted começa a contar a seus filhos a história de como ele conheceu a mãe deles. Assim, os episódios são constituídos quase integralmente por <em>flashbacks; </em>e a tirar pelo quantidade deles que já foi ao ar, vocês podem perceber que é uma longa história.</p>
<p>Sempre que eu penso em Ted, penso também na cena do albergue que presenciei/participei. E tenho a impressão de que <em>HIMYM</em> é o ápice momentâneo de uma linha de produtos ficcionais que contam histórias de amor para homens e que constroem e fortalecem, com sucesso, o que eu chamo de mito da Princesa Encantada. Chamo-o assim porque não me parece que estejamos falando do velho mito da Mulher Amada, inaugurado talvez por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe" target="_blank">Goethe</a> (1749-1832) e seu <em>Os sofrimentos do jovem Werther,</em> a história de um rapaz que se mata por amor, obra que é considerada fundadora do Romantismo literário.</p>
<p>O mito da Princesa Encantada é a evolução do mito da Mulher Amada e surge quando a Indústria Cultural se apropria deste. O mito da Princesa Encantada também está ligado diretamente a uma nova formação discursiva do que é ser homem, surgida graças aos movimentos de contra-cultura da metade do século XX. É a partir dos gays, me parece, que a preocupação com o vestir-se e com o corpo se reconfigura no universo masculino a ponto de, hoje em dia, podermos falar de metrossexualidade. E com os hippies, julgo eu, pudemos começar a  ver homens comuns, e não apenas artistas, falando sobre seus sentimentos, falando sobre o amor. Tudo isto alcança aquele bando de jovens que gastou um fim de tarde em Praga vendo uma história de amor; alcança Ted, cujo objetivo principal é encontrar uma mulher para constituir família, no estilo mais conservador possível. Ted é capaz de sentir o som do mundo sumir e o tempo desacelerar quando encontra uma garota que julga ser sua Princesa Encantada; é capaz mesmo de estragar o primeiro encontro perfeito por soltar um &#8220;eu te amo&#8221; precoce &#8212; uma situação que, na ficção, vemos sempre ser protagonizada por uma mulher, e sempre uma mulher desesperada, que nunca é a mocinha da trama.</p>
<p>O mito da Princesa Encantada está disponível a homens de todas as idades. Para os adolescentes, temos <em>American Pie</em> ou <em>Show de Vizinha</em>. Para os jovens adultos, <em>How I Met Your Mother</em> ou<em> Hitch &#8211; Conselheiro Amoroso</em>. Para os de meia-idade, filmes como <em>Um Lugar Chamado Notting Hill</em> ou <em>Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada</em>. E, finalmente, para os de idade inteira, <em>Alguém Tem Que Ceder</em> ou <em>Revelaçõ</em><em>es</em>. Efetivamente, em alguns desses filmes, como <em>Alguém Tem Que Ceder</em> ou <em>Um Lugar Chamado Notting Hill</em>, há uma certa dialética no modo de endereçamento, uma divisão do protagonismo, o que faz tanto homens quanto mulheres se encaixarem, em níveis muito próximos, no papel de espectador-ideal. Os demais citados aqui, porém, são claramente filmes dirigidos primariamente a um público masculino.</p>
<p>A ficção sempre teve muitas funções para nós. Desde a ludicidade até mesmo à politização, passando pela educação moral. Hoje em dia, como afirmou o psicanalista e colunista da<em> Folha de S. Paulo</em> Contardo Calligaris, em uma entrevista dada ao <em>A Tarde</em> cerca de dois anos atrás, ela também serve para nos oferecer modelos de vida. &#8220;O sujeito moderno aprende a viver na ficção. (&#8230;) A partir do momento em que já não há códigos nem norma de conduta, no lugar disso você tem um imenso repertório de vidas possíveis nas quais você vai encontrando inspiração.&#8221;</p>
<p>A grande questão que me faço é como o mito da Princesa Encantada associado à função modelar da ficção mudam/mudaram/vêm mudando o modo pelo qual os homens buscam, imaginam, vivenciam os relacionamentos amorosos. É preciso cuidado para responder a isto, e não me sinto pronto para fazê-lo. Sei, pelo menos, que não devemos fazer apenas uma transferência do que pensamos do mito do Príncipe Encantado para este novo &#8212; embora este ato não seja de todo errôneo, e digo isto pensando em mim próprio, que perco noites em devaneios e suspiros pela Princesa Encantada da vez; que me pego com frequência buscando a fórmula do &#8220;e viveram felizes para sempre&#8221;. Assim como Ted. E, talvez, assim como aqueles meus colegas de albergue.</p>
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		<title>Os leopardos de Kafka</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2009 16:44:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem, na TV, uma loja começava um anúncio de celulares da seguinte forma: Seu celular dançou na Avenida? Aproveite as ofertas da&#8230; Por mais sagaz que tenha sido a piadinha com o carnaval, ver aquilo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, na TV, uma loja começava um anúncio de celulares da seguinte forma:</p>
<blockquote><p><em>Seu celular dançou na Avenida? Aproveite as ofertas da&#8230;</em></p></blockquote>
<p>Por mais sagaz que tenha sido a piadinha com o carnaval, ver aquilo me fez pensar que, pronto!, se já estamos vendo piadas sobre roubos no horário nobre da TV, então já nos acostumamos definitivamente à coisa, a possibilidade de ser roubado ou assaltado (e ver-se obrigado a comprar novos objetos para repôr o que nos tomaram, afinal, dar queixa pra quê?, perda de tempo!) já foi aceita na nossa cultura urbana. Isto me remete a um texto de <a href="http://abreparentese.com/2009/01/o-legado-de-k/" target="_blank">Kafka</a>, que diz:</p>
<blockquote><p><em>Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim o conteúdo dos vasos sacrificiais; isso se repete sempre; finalmente, torna-se previsível e é incorporado ao ritual.</em></p></blockquote>
<p>Já fui assaltado quatro vezes. Um mendigo com um caco de vidro. Um grupo de meninos de rua. Três caras com facas no meu pescoço. Um cara com uma arma na minha cabeça. A perda material não é nada. O sentimento de fraqueza, de incapacidade e de fragilidade é que destrói a gente; destrói mesmo, passei dois ou três anos mal saindo de casa, por medo, depois das duas últimas vezes. Por isto não achei graça no comercial e me recuso a fazer o papel clichê da velhinha que sempre aparece após algum assalto, somente pra comentar que esse mundo anda mesmo violento e não há nada que a gente possa fazer, não é, meu filho?</p>
<p>Se seu celular dançou na Avenida, antes de correr para a loja que está com uma oferta imperdível de celulares, preste queixa, reclame.</p>
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		<title>Muito barulho por nada</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Feb 2009 19:04:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="widget-content">
<p>Lembra daquela história de que um grupo de amigos  que se conheceu no colégio ou na faculdade resolveu se  juntar para formar uma banda? Pois é&#8230; Esqueça a banda.  Aqui um grupo de amigos resolveu se juntar com um único propósito:  fazer barulho.</p>
<p>MUITO BARULHO POR NADA, além de ser uma honrosa menção ao mestre Shakespeare, é também uma forma de (não) deixar clara a despretensão que permeia esse projeto. Aqui vale fazer barulho com tudo: música, prosa, poesia, literatura, cinema, teatro, conversas, risos, espirros, roncos e o que mais a improvisação nos sugerir.</p>
<p>Nada mais a declarar.</p>
<p>Muito Barulho a fazer.</p>
<p>&#8220;O resto é silêncio&#8221;, como diria o camarada Hamlet&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://coletivomuitobarulhopornada.blogspot.com" target="_blank">www.coletivomuitobarulhopornada.blogspot.com </a></p>
</div>
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		<title>Desde pequena ela já sabe</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jan 2009 12:49:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Uma amiga, limpando o banheiro de casa. A sobrinha pequenina, 4 anos, sentada na privada, observando. Ela aponta para a cueca do avô, pendurada no box. &#8211; Homem usa cueca e mulher usa calcinha! &#8212; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma amiga, limpando o banheiro de casa. A sobrinha pequenina, 4 anos, sentada na privada, observando. Ela aponta para a cueca do avô, pendurada no box.</p>
<p>&#8211; Homem usa cueca e mulher usa calcinha! &#8212; ensina a guria.</p>
<p>&#8211; Muito bem! &#8212; diz minha amiga. &#8212; E o que a mulher usa na parte de cima?</p>
<p>&#8211; Silicone, ué!</p>
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		<title>Filósofa mirim</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jan 2009 12:43:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[sacadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu, conversando com minha prima de 7 anos: &#8211; Você acredita em Deus, Bia? Ela balança a cabeça. &#8211; Como é Deus? &#8211; É velhinho, ué. &#8211; E onde ele mora? Ela ergue o dedo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu, conversando com minha prima de 7 anos:</p>
<p>&#8211; Você acredita em Deus, Bia?</p>
<p>Ela balança a cabeça.</p>
<p>&#8211; Como é Deus?</p>
<p>&#8211; É velhinho, ué.</p>
<p>&#8211; E onde ele mora?</p>
<p>Ela ergue o dedo para o teto imediatamente.</p>
<p>&#8211; No apartamento de cima? Deus é seu vizinho!?</p>
<p>Ela ri.</p>
<p>&#8211; Não, Deus mora no céu. Nas nuvens.</p>
<p>&#8211; É mesmo? E o que é que Deus faz?</p>
<p>&#8211; Ele brinca comigo!</p>
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		<title>Educação infantil</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jan 2009 12:40:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida Real]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[sacadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu, na praça de alimentação do Shopping Barra. Na mesa ao lado, uma mãe e seu filhote, que termina de comer um McLanche Feliz. A moça da limpeza aparece e pergunta se pode retirar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu, na praça de alimentação do Shopping Barra. Na mesa ao lado, uma mãe e seu filhote, que termina de comer um McLanche Feliz. A moça da limpeza aparece e pergunta se pode retirar a bandeja. A mãe assente e fala pro filho:</p>
<p>&#8211; Qual é a palavrinha mágica?</p>
<p>O guri vira pra moça da limpeza e, num sorriso banguela, lhe diz:</p>
<p>&#8211; Abracadabra!</p>
]]></content:encoded>
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