Deixa beijar

August 26, 2009

Sei que esse papo da complexidade das mulheres é tema já batido e surrado, mas fiz uma descoberta revolucionária e, portanto, preciso revolvê-lo um pouco mais.

Como sabemos, as mulheres são seres minuciosos, e é preciso ser um sherlock para apreender cada sinal enviado por elas. Ainda que a natureza da mensagem seja a mais simples possível, verbal, não se deixe enganar pelos seus ouvidos. Muitas dizem “talvez” quando querem dizer “não” e dizem “quem sabe” quando querem dizer “sim” – percebe a sutileza?

Pesquisas recentes estimam que apenas 30% da nossa comunicação se estabeleça pelo diálogo. A linguagem corporal reina, com 70% de participação. Agora, trata-se de uma média entre o comportamento de ambos os sexos. Como um representante dos homens, posso  afirmar que devemos ceder ao corpo, quando muito, uns 10% de crédito em nossa comunicação. Logo, para chegarmos à média de 70%, temos de considerar a linguagem corporal feminina como 130% atuante. Os números parecem absurdos, eu sei, eu nunca fui bom com eles; porém, dentro do contexto, até que soam razoáveis, não é?

Alguns destes sinais corporais já são absolutamente claros para nós: quando ela mexe o cabelo ou se inclina em nossa direção, temos ciência de ser um modo de demonstrar interesse. Pergunto-me quantos séculos os homens demoraram para decifrar este código, e a única resposta satisfatória envolve  a  hipótese de que uma mulher tenha revelado o segredinho a um amigo, e este tratou de espalhá-lo. Sendo assim, o mérito não é todo nosso.

O discurso vigente é que, se estamos lost in translation, é por pura negligência, compadres. Então, ao levar bronca por não termos reparado que ela aparou as pontas do cabelo ou está com os cotovelos menos ressecados, nos sentimos mal e reiteramos nossa culpa. Mas quer saber? Nem elas mesmas caem nessa lorota de negligência. O fato é que somos incapazes de alcançar o grau de comunicabilidade desenvolvido pelas mulheres. Elas sabem disto e, se usam este argumento simplório da incúria, é só para não ter de dar maiores explicações; afinal, não dá para explicar à garotada da 3ª série que os interesses financeiros e políticos estão por trás de todos os grandes eventos históricos, não é?  3ª série – é onde estamos.

A minha descoberta é prova irrevogável da tremenda evolução feminina. Pois eu descobri, meus amigos, que existe uma cor de esmalte chamada Deixa Beijar.

Sim, sim, sim. Enquanto os homens ainda estão desenvolvendo sua visão para além das 20 e poucas cores, incluindo aí os tons claros e escuros; enquanto eles demoram anos para identificar a cor salmon sem confundi-la com o goiaba; enquanto tentam utilizar as novas teorias no campo da física quântica para decifrar cores como henna e gelo fosco – enquanto tudo isto acontece, as mulheres já elaboraram um sistema no qual as cores não expressam simplesmente cores.

Não falo nem do clássico estado de espírito que a cromoterapia, o Feng Shui e suas variantes estabeleceram em nossa cultura. Refiro-me a estados de espírito condizentes com o sujeito pós-modernidade (Sexy, Preguicinha, Energia); estou falando da capacidade feminina de expressar, com as cores, as condições climáticas (Amanhecer, Fog); as regiões político-geográficas (Nova York, França, Arábia); os ritmos musicais (Samba, Blues, Jazz); comida (Leite de Coco, Cappuccino, Maçã do Amor); a história (Rosa Antigo); as coisas mais variadas, como Poema, Videoclipe, Blecaute… Existe mesmo uma cor Vida e uma Via Láctea!

Ao contrário de nós, homus sapiens oculus primitivus, as mulheres já se configuraram seres oculus sapiens sapiens, e conseguem encontrar uma cor para tudo que é, que foi e que será. As pontas de seus dedos não mais se restringem ao ato de nos chamar, nos fazer aquelas cosquinhas leves ou mesmo tirar meleca do nariz: elas são um espaço de discurso para as mulheres. Deve-se ter cuidado quando tocar as unhas dela; você pode descompassar o seu samba, perturbá-la durante sua preguicinha ou mesmo meter a manopla suja na sua deliciosa maçã do amor.

Como saber o que estaremos enfrentando?

Particularmente, nenhuma dessas cores me deixa tão angustiado quanto o Deixa Beijar. Agora, quando uma garota estiver falando comigo e passar a mão pelos lábios ou pelo pescoço – ela estará apenas se coçando ou se insinuando, provocando, falando com todos os dedos que ela me Deixa Beijar? Entrementes, e se não for o Deixa Beijar mas o Tem Que Morder? Ou mesmo o Não Me Toque? Um erro pode ser fatal e acabar com todo o sonho.

Que Deus nos ajude, camaradas, sobretudo aos que têm problema de visão como eu. A implacável lei darwiniana da sobrevivência do mais apto logo nos alcançará com força, e daqui pra frente só os que conseguirem montar um degradê perfeito sobreviverão.

Quando eu entrei no gibi, me senti oco – como se tivesse perdido todos os órgãos, todo o meu sangue. A arma, presa na cintura, pareceu triplicar de peso, e a segurei para não cair. Então, algo cheirando a suor passou voando rente ao meu nariz e eu quase me desequilibrei. Um grito: Cebola! Vamo, véi! Aquela voz de quem parecia ter um ovo na boca era minha conhecida. Ouvi-a muitas vezes num VHS de minha infância, A rádio do Chico Bento. Bons tempos. Quando o mundo parecia ter uma ordem clara e imutável; quando eu sabia que, depois da primeira série, o lógico seria ir para a segunda, e depois para a terceira, e quarta, e…

Agora, o caos. Cheguei ao terceiro ano e me disseram: Vá para onde quiser, conquanto seja para a universidade – e eu não soube escolher o que cursar, mas foi até bom, porque aí me disseram: Vá para o cursinho, até saber – e, por um instante, a ordem do mundo que eu conhecia pareceu voltar. Havia, contudo, qualquer coisa de frágil nela, e isto se revelou pela primeira vez quando o papa João Paulo II morreu. Ele, que eu julgava imortal. Dois anos depois, ACM, outro imortal, morre. Sandy & Jr se separam. Todos estes pilares da minha infância sendo destruídos, e eu incapaz de fazer algo para impedir. Mas com a Turma da Mônica ia ser diferente. Eu não os deixaria crescer. Por isso entrei naquele gibi. Por isso — e por maior que fosse a vontade de abraçar o Cebolinha (meu predileto) quando o vi sair de casa e se aproximar do Cascão – por isso eu atirei. O mundo precisava voltar à sua ordem.

Passei pelos corpos caídos e parei no meio da rua. Saquei um bombom do bolso e o abri fazendo o maior ruído possível com a embalagem. A garota que meteu a cabeça para fora de casa só podia ser ela. Me olhou suplicante. Eu sorri e ofereci o doce com um gesto. Ela aceitou e sumiu da janela, mas não chegou a pôr os pés na rua: assim que a porta se abriu, o tiro a fez tombar para dentro.

Só restava a Mônica, e eu sabia que iria encontrá-la na primeira página. Tomei um atalho pelo rodapée cheguei a um quarto de menina adolescente, com pôsteres de galãs nas paredes e ursinhos nas prateleiras, disputando espaço com CDs. Vi dois pés de unhas pintadas se balançando na cabeceira alta da cama. Uma voz lia alguma coisa, e eu também conhecia a sua dona. Acerquei-me devagar, agachado. Espreitei por cima da cabeceira e vi um par de pernas roliças e desnudas, que terminavam numa calcinha azul-bebê, cujo coelhinho da estampa, com um olho tampado pela camisola desalinhada, parecia piscar para mim. Ouvi: Estou crescida – e não tive dúvidas. Repousei a arma no chão e pulei na cama, em cima das pernas da Mônica. Que, sim, estava crescida. E felizmente ainda não usava aparelho nos dentes.

[Publicado na revista Lupa #6, inverno/2009]

123456789

August 7, 2009

Hoje é 07/08/09. Logo mais, às 12h34min56seg, a hora e a data formarão a sequência 123456789. É o que eu e outros estamos chamando no Twitter de #123456789Moment — apesar de me dar conta, agora, de que, como os norte-americanos trocam o mês pelo dia, o deles já passou. O fato é que será um momento único em nossas vidas. Tá, você pode alegar que todos os momentos são únicos, mas colabore, vá. Porque o lance fica interessante quando você inventa de marcá-lo com alguma coisa, e logo pensa: ei, mas o que é possível fazer em 1 segundo para torná-lo inesquecível? Hein?

[26/08/09] Este é o primeiro capítulo de uma novelinha inacabada, escrita pelos idos de 2006. Os outros capítulos existentes estavam aqui, mas eu acabo de deletá-los, já que não tive tempo para terminá-la. Espero algum dia dar o ponto final que ela merece.


I

Para os humanos, é apenas o campus de uma universidade, uma reserva florestal incrustada de edifícios de designs esquisitos; mas para outras espécies trata-se de seu último refúgio. Onde mais, em plena cidade grande, poderiam viver em paz cachorros, patos, micos, gatos, etc.?

Viver em paz em relação aos homens, claro. Paz não é bem o que reina ali. Os tempos dourados, quando existia um restaurante universitário central, se foram. Não há mais a moleza de um grande prédio onde se concentra toda a comida. Agora, cada faculdade do campus tem sua própria cantina, e a maioria delas se localiza injustamente nos andares mais altos, longe do alcance dos bichos. (Mesmo o lixo é mantido lá em cima, e só desce para ir direto ao caminhão que o recolhe.) Deste modo, as espécies que antes viviam em harmonia — o que se pode chamar assim sem excluir seus instintos naturais –, atualmente travam uma Guerra Fria, uma guerra sem lutas, mas que pode partir para o conflito físico a qualquer momento. Tudo pelo controle dos poucos restaurantes localizados nos térreos.

Entre os gatos existe uma figura lendária — Bósis, O Pançudo. É um belo felino de pelos negros, com manchas brancas nas patas, nas orelhas, barriga, rabo e focinho; impávidos olhos amarelos; garbos bigodes. Orgulha-se sobretudo de ser gordíssimo, pois, no seu entender, a obesidade transmite impressão de poder e fartura. Seu prestígio e fama já correram o campus tal qual os de Alexandre, O Grande correram o mundo. E merecidamente, diga-se, posto que Bósis, antes de ser O Pançudo, demonstrou-se um talentoso estrategista e líder durante a Guerra dos Gatos, um dos eventos mais brutais que já aconteceu no campus, e que o dever, mais que o desejo, me obriga a narrá-lo:

Na cantina da Faculdade de Matemática, hoje fechada, havia um estudante alérgico a gatos, que gritava sempre para o dono do estabelecimento que se livrasse daqueles “animais nojentos”. A cantina de Matemática era um dos dois pontos exclusivos dos gatos; só eles podiam circular por ali, miando e fazendo caras de coitadinhos*, no intuito de descolar alguma comida fácil e assim não precisarem partir para a caça aos ratos do local. Um dia, o estudante alérgico, em meio a uma forte crise de espirros, arrancou uma perna de uma mesa de plástico e atacou os gatos. Havia oito, dos quais cinco eram filhotes, na ocasião. Um dos pequenos morreu, e os outros quatro saíram com as patas quebradas.

Oh, aquilo exigia retaliação!

Os gatos convocaram uma assembleia para discutir o que fariam, e foi nela que o jovem e ousado Bósis impressionou a todos com seu plano brilhante: sujar a cantina com tanto cocô e xixi que ninguém ficasse indiferente à indignação dos gatos.

Assim foi feito. E apesar de parecer um plano essencialmente simples, não se engane: exigiu um esforço sobrefelino dos gatos, pois, como todos sabem, essa espécie é notória por sua higiene. Cocô e xixi, só em lugares onde se possa cobri-los com terra.

A princípio, não havia gatos suficientes para que a retaliação atingisse as proporções planejadas. E aí Bósis se destaca mais uma vez, por ter conseguido apoio mesmo dos pacatos cachorros e dos egoístas micos, que nunca se solidarizavam com as causas alheias.

Ao pobre estudante, também estava reservado seu quinhão no atentado. Por onde andava e sentava esbarrava-se com um cocô. Os micos, em especial, deram-lhe vários banhos de xixi quando este passava por debaixo de alguma árvore.

Mas a Guerra dos Gatos teve um fim imprevisto: por diversos motivos — que iam de medo de um segundo atentado até mesmo a consideração para com os gatos –, os estudantes passaram a não mais frequentar a cantina da Faculdade de Matemática, que foi obrigada a fechar. E o antes adorado Bósis recebeu a ojeriza de seus iguais, que o culpavam por ter perdido um dos dois pontos somente deles.

Magoado, Bósis decidiu abandonar a política e adentrar o submundo, dedicando-se, a partir de então, somente a causas de seu interesse.

E assim nasceu a máfia felina Os Gatunos.

* Como é sabido, os gatos em geral não são nada bons em fazer cara de coitadinho. Mas os do campus são uma exceção, graças a um curso com o renomado fisionomiologista canino Estanislavisque (os cachorros são mestres nesta arte).

Uma das primeiras coisas que faço ao ter um livro em mãos é ler sua frase inicial. Não é raro que eu ignore orelhas e as aspas da contracapa. Quando estou na livraria, olhando títulos aleatoriamente, apanho uma obra, leio sua primeira frase ou primeiro parágrafo, devolvo-a à estante e passo para a seguinte. A frase inicial é, mesmo, um dos principais fatores de decisão na hora da compra.

Ao comentar tal idiossincrasia no Twitter, o amigo Leonardo Pastor, do Vísceras Literárias, me enviou um link com um top 100 de melhores inícios de narrativas, feito pela American Book Review. Com a modéstia que cabe à situação, decidi fazer a minha própria lista, mas não com 100 itens, apenas 10. A bem da verdade, não é propriamente um top, já que não pretendo, nem faz sentido, estabelecer uma classificação de superioridade para os excertos abaixo. Fui-os elencando à medida que me vinham à mente. São todos memoráveis.

Admito: sou interno de um hospício.
[Günter Grass, O Tambor]

Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
[Franz Kafka, A Metamorfose]

No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5:30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.
[Gabriel García Márquez, Crônica de uma Morte Anunciada]

Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.
[Leon Tolstoi, Anna Karenina]

O meu dono, Baltazar Van Dum, só sentiu os calções mijados cá fora, depois de ter sido despedido pelo director Nieulant.
[Pepetela, A Gloriosa Família]

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daquia pouco chegarão com o mar.
[João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro]

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.
[José de Alencar, Iracema]

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.
[José de Alencar, Senhora]

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas “Memórias póstumas”.
[Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas -- dando função literária à página de dedicatória]

No século XVIII viveu na França um homem que pertenceu à galeria das mais geniais e detestáveis figuras daquele século nada pobre em figuras geniais e detestáveis.
[Patrick Süskind, O Perfume]

“Nenhuma vida está completa sem um grande desastre”, afirma o professor Benjamim Schianberg em seu livro O que vemos no mundo. Em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios [Cia. Das Letras, 229 p., R$ 41,50], de Marçal Aquino, o desastre é o amor.

É uma história simples: Cauby é um fotógrafo paulista morando numa cidade de garimpo do Pará. Um dia, conhece Lavínia, por quem se apaixona. Ela é casada e tem dupla personalidade, mas é a primeira pessoa por quem Cauby sente aquilo, ele vai encarar os riscos.

Nos últimos anos, o escritor paulista Marçal Aquino tem se destacado mais nos roteiros de cinema. Já [co-]assinou sete longas, entre os quais O Invasor, Nina, O Cheiro do Ralo e Cão Sem Dono. Com tal currículo, poderíamos esperar um romance com forte pegada cinematográfica, mas, ao que parece, ele sabe bem distinguir o que é próprio de cada linguagem: Aquino mostra a força da palavra numa trama de ritmo ágil, cheia de parágrafos curtos e incivisos. E com humor bem peculiar, a começar pelo nome do protagonista — Cauby — como o cantor?, é! — , pelo tresloucado professor Benjamim Schianberg e seu ensaio sobre a vida citado a todo momento, ou mesmo pelos títulos dos capítulos — “O amor é sexualmente transmissível”, “Postais de Sodoma à luz do primeiro fogo”.

Além do mais, ele consegue dar um desfecho que surpreende e comove, que nos faz manter os cantos dos lábios suspensos até o ponto final. E, depois, pôr o livro sobre o peito e olhar pro teto, pensando em nossos próprios desastres. Digo, amores.

O cenário: uma sala comunal de albergue, cujo único atrativo é um home theater. Os personagens: um bando de rapazes, dos mais diversos tipos e nacionalidades. A ação: todos estão assistindo atentamente a uma comédia romântica estrelada pela Jennifer Aniston, eu inclusive.

Nas últimas semanas, assisti às quatro primeiras temporadas da sitcom How I Met Your Mother (2005-), criada por Carter Bays e Craig Thomas. Descendente direta de Friends, HIMYM também conta a história de um grupo de amigos que vivem em Nova York e estão chegando aos 30 anos de idade — à vida adulta, no seu ponto de vista. Há o casal que namora desde os tempos da universidade e agora está pensando em casamento: Marshall e Lily (Jason Segel e Alyson Hannigan). Há o cara que só quer aproveitar a ótima fase física e financeira pela qual está passando para conquistar uma garota diferente a cada noite: Barney (Neil Patrick Harris). Há a garota que põe sua carreira acima de tudo e tem pavor às palavras “casamento” e “filhos”: Robin (Cobie Smulders). E, por fim, há o cara que justamente só pensa em casamento e filhos: Ted (Josh Radnor), o protagonista. O tempo de ação de HIMYM é, na verdade, 2030, quando Ted começa a contar a seus filhos a história de como ele conheceu a mãe deles. Assim, os episódios são constituídos quase integralmente por flashbacks; e a tirar pelo quantidade deles que já foi ao ar, vocês podem perceber que é uma longa história.

Sempre que eu penso em Ted, penso também na cena do albergue que presenciei/participei. E tenho a impressão de que HIMYM é o ápice momentâneo de uma linha de produtos ficcionais que contam histórias de amor para homens e que constroem e fortalecem, com sucesso, o que eu chamo de mito da Princesa Encantada. Chamo-o assim porque não me parece que estejamos falando do velho mito da Mulher Amada, inaugurado talvez por Goethe (1749-1832) e seu Os sofrimentos do jovem Werther, a história de um rapaz que se mata por amor, obra que é considerada fundadora do Romantismo literário.

O mito da Princesa Encantada é a evolução do mito da Mulher Amada e surge quando a Indústria Cultural se apropria deste. O mito da Princesa Encantada também está ligado diretamente a uma nova formação discursiva do que é ser homem, surgida graças aos movimentos de contra-cultura da metade do século XX. É a partir dos gays, me parece, que a preocupação com o vestir-se e com o corpo se reconfigura no universo masculino a ponto de, hoje em dia, podermos falar de metrossexualidade. E com os hippies, julgo eu, pudemos começar a  ver homens comuns, e não apenas artistas, falando sobre seus sentimentos, falando sobre o amor. Tudo isto alcança aquele bando de jovens que gastou um fim de tarde em Praga vendo uma história de amor; alcança Ted, cujo objetivo principal é encontrar uma mulher para constituir família, no estilo mais conservador possível. Ted é capaz de sentir o som do mundo sumir e o tempo desacelerar quando encontra uma garota que julga ser sua Princesa Encantada; é capaz mesmo de estragar o primeiro encontro perfeito por soltar um “eu te amo” precoce — uma situação que, na ficção, vemos sempre ser protagonizada por uma mulher, e sempre uma mulher desesperada, que nunca é a mocinha da trama.

O mito da Princesa Encantada está disponível a homens de todas as idades. Para os adolescentes, temos American Pie ou Show de Vizinha. Para os jovens adultos, How I Met Your Mother ou Hitch – Conselheiro Amoroso. Para os de meia-idade, filmes como Um Lugar Chamado Notting Hill ou Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada. E, finalmente, para os de idade inteira, Alguém Tem Que Ceder ou Revelações. Efetivamente, em alguns desses filmes, como Alguém Tem Que Ceder ou Um Lugar Chamado Notting Hill, há uma certa dialética no modo de endereçamento, uma divisão do protagonismo, o que faz tanto homens quanto mulheres se encaixarem, em níveis muito próximos, no papel de espectador-ideal. Os demais citados aqui, porém, são claramente filmes dirigidos primariamente a um público masculino.

A ficção sempre teve muitas funções para nós. Desde a ludicidade até mesmo à politização, passando pela educação moral. Hoje em dia, como afirmou o psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo Contardo Calligaris, em uma entrevista dada ao A Tarde cerca de dois anos atrás, ela também serve para nos oferecer modelos de vida. “O sujeito moderno aprende a viver na ficção. (…) A partir do momento em que já não há códigos nem norma de conduta, no lugar disso você tem um imenso repertório de vidas possíveis nas quais você vai encontrando inspiração.”

A grande questão que me faço é como o mito da Princesa Encantada associado à função modelar da ficção mudam/mudaram/vêm mudando o modo pelo qual os homens buscam, imaginam, vivenciam os relacionamentos amorosos. É preciso cuidado para responder a isto, e não me sinto pronto para fazê-lo. Sei, pelo menos, que não devemos fazer apenas uma transferência do que pensamos do mito do Príncipe Encantado para este novo — embora este ato não seja de todo errôneo, e digo isto pensando em mim próprio, que perco noites em devaneios e suspiros pela Princesa Encantada da vez; que me pego com frequência buscando a fórmula do “e viveram felizes para sempre”. Assim como Ted. E, talvez, assim como aqueles meus colegas de albergue.

Outro dia eu fui à banca de revistas e encontrei uma edição vagabundíssima de Ecce Homo, de Nietzsche. Era um livro molenga, com uma capa verde-cocô-de-diarréia e a clássica foto de perfil do filósofo abaixo do título, em tamanho 3×4.

Até aí nada demais. De hoje que as bancas vendem livros filosóficos, não é mesmo? O intrigante, aqui, é que ele estava na seção de publicações pornográficas, ao lado de uma G Magazine.

Partindo do pressuposto de que o dono da banca não conhece Nietzsche, sua lógica foi implacável: um livro com a palavra HOMO no título, seguido de uma foto com um bigodudo nos moldes que o Tom Cavalcante, baseado no figurino do Village People (?), criou para seu personagem Pit Bicha — deve se tratar, realmente, de algo voltado para uma parcela do público gay masculino.

Oh, isto renderia um diálogo engraçadíssimo sobre o que aconteceria caso um comprador assíduo de Playboy, Brazil, Sexxxy e afins decidisse comprar aquele livro na mão daquele vendedor. O vendedor, do tipo heterossexual conservador se passando por descolado, não conseguiria esconder seu espanto. O cliente, embora não tivesse problema algum com a homossexualidade, tentando provar para o outro que se tratava apenas de um livro filosófico, abriria em uma página aleatória e leria:

“Pobre quem nunca esteve enfermo o bastante, como para GOZAR desta ‘VOLUPTUOSIDADE DO INFERNO’ (…) Creio que conheço melhor que ninguém as façanhas gigantescas que WAGNER é capaz de realizar”.

Antes que eu pudesse escrever algo, porém, li uma crônica no blogue de Antonio Prata que gerou alguma polêmica pelo fato de um personagem seu utilizar o termo “bicha” de forma depreciativa. Prata pediu desculpas no post seguinte, assumindo que “os preconceitos, assim como os clichês e as gripes, são males que contraímos e distribuímos sem perceber.” Esta, aliás, foi uma das questões discutidas por Foucault em sua obra: como o discurso se constrói, como herdamos e reproduzimos um conjunto de afirmações que julgamos serem a Verdade, quando se trata apenas de uma construção histórica.

Para dar um exemplo rápido e relacionado ao assunto, quem estuda sobre a Grécia Antiga seguramente vai se bater com a informação de que a relação entre homens fazia parte da sua cultura. (Em Banquete, de Platão, uma belíssima obra sobre o amor, um dos personagens chega a falar que os melhores homens para companheiros são os que estão no início da puberdade.) Como dizer que um hábito cultural é errado, inatural? De natural, só temos nossos corpos, e olhe lá, senhoras e senhores vacinados.

Por compreender que construir aquele diálogo só ajudaria a corroborar o discurso homofóbico, com o qual não concordo, desisti dele. O que me levou, por outro lado, a pensar na pretensa liberdade criativa e discursiva da literatura. Era uma situação engraçada, afinal — e não falo aqui de um cara tentando convencer o outro de que ele não é gay, mas de encontrar Nietzsche ao lado de uma G Magazine.

No fim das contas, saiu este post.

Em 11 de agosto de 1264, através da bula Transiturus, o papa Urbano IV instituiu a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, ou Corpus Christi…

— IMUUUUUUUUUUUUUNDAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

…Um gérmen da celebração já existia desde 1230, na paróquia belga de Saint Martin, sob tutela do arcediago Tiago Pantaleão de Troyes, que se tornaria o papa Urbano IV 31 anos mais tarde…

— Olha o pingente da imuuuunda! Rainha majestade!

…A idéia surgiu a partir de um segredo revelado ao arcediago pela freira agostiniana Juliana Mont Cornillon, que há 20 anos tinha visões do disco lunar com uma parte escura. O que foi interpretado como a ausência de uma festa no calendário litúrgico…

— Alguém me traz uma piscina, por favor?

…O intuito desta celebração é honrar e realçar a presença real de Cristo na Eucaristia, um dos sete sacramentos da Igreja Católica, no qual se celebra justamente a memória da morte sacrificial e a ressurreição de Jesus…

— Diga a ele que o eu convidei, sim, mas que não é hoje, não, é sábado.

…Porque a Eucaristia foi celebrada pela 1a vez na Quinta-Feira Santa, Corpus Christi se celebra sempre na primeira quinta-feira após o primeiro domingo depois de Pentecostes…

— Ah, imuuuuuunda! Você não tinha trocado a sexta pelo sábado comigo? Agora desfez o trato só pra ir pro Arraiá da Capitá, é?

Mas veja como, de uma hora pra outra, o bar ficou intransitável. E já passa da 1 da manhã. O que essa quinta-feira de Corpus Christi significa pra toda essa gente? — o quê, o quê?

Feriadão, é óbvio.

— Boa noite, senhoras e senhores, gays, lésbicas e simpatizantes. Muito obrigado pelo carinho e pela paciência. É muito bom ver essa casa cheia desse jeito. O nosso show de hoje vai ser muito especial, e com direito a convidadas. Praqueles que
não me conhecem, eu sou Valerie O’rarah.

[Texto completo]

Quarta-feira, 03/06, fui ao colégio Mercês, bater papo com a galera da sexta série, que leu O Mistério da Casa da Colina. Superbacana. Eles me presentearam com desenhos do livro encadernadinhos, e com direito a algumas páginas com bilhetes também. Escaneei aleatoriamente alguns desenhos para deixar aqui, no blogue.

:)

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