Ontem à noite havia algo especial nela. Uma aura, sei lá. Alguma coisa que me puxava para si e me fazia sorrir. O motivo só descobri quando uma amiga se aproximou de nós e lhe disse:

– Que cheiro gostoso tem seu hidradante!

– Gostou? – ela cheirou o próprio punho. – É de baunilha.

Elas então me explicaram que existem os mais diversos sabores de hidradante, afinal, “se todas as mulheres são diferentes, por que elas têm de usar os mesmos cosméticos?” – diz a propaganda.

Eu concordo em absoluto. Um hidradante para cada mulher.

Logo mais vamos nos ver. E eu já lhe mandei um SMS:

“amor, hoje eu quero framboesa, tá?”

Apesar de já estar bastante gasta, não há outra palavra a não ser GENIAL para explicar a performance de Tomzé nesta entrevista ao Programa do Jô, explicando porque Atoladinha tem um “metarrefrão microtonal e polissemiótico”:

Como o doutor Billy alcançou a reputação que tem hoje ninguém sabe. Diz ele que não fala sobre isso porque em breve vai lançar uma autobiografia, provisoriamente intitulada Rock, Chantilly & Chocolate (ou esse era o livro de contos pornô que ele está fazendo? Opa, acho que me perdi nas anotações).

O fato é que doutor Billy é um dos maiores psicoterapeutas do mundo, o único a utilizar tão-somente rock and roll com seus pacientes. Foi ele quem descobriu o quanto Jimi Hendrix é bom para sociopatas, Velvet Underground para esquizofrênicos, AC/DC para bipolares, Smashing Pumpkins para casais em crise, e por aí vai.

Seu consultório faz jus à fama. Na parede atrás da mesa, podemos ver seus vários diplomas, troféus de vencedor de quizes sobre rock, além de várias fotos autografadas (“Billy, you’re the best! Love, Eric.” “Billy, you motherfucker, we need to do that again! Kiss my ass. Jimmy.” “Billy, you haven’t gimme a new towel yet, but I still love you. Bobby.”). Em outras duas paredes, prateleiras com vinis e CDs pendem do teto ao rodapé, dividindo espaço com caixas de som de dois metros de altura e design pós-moderno. Destacam-se ainda um divã e um pequeno tablado, com duas guitarras, bateria de sete pratos e um contrabaixo repousados. Quando o paciente é novato, doutor Billy sempre vai até a porta e lhe cumprimenta, metido em seu jaleco com o nome bordado dentro de um prisma igual ao da capa de The Dark Side of the Moon. Se é um paciente com algum tempo de casa, ele se mantém sentado, com as botas sobre a mesa. Os que fazem terapia há anos já o encontram sem camisa, em cima do tablado, afinando a guitarra.

“Dona Layla, que confusão é esta aí na recepção?”, perguntou através da linha interna. “Ah, doutor, é mais um pai desesperado por causa do filho emo.” “A senhora já lhe disse que só atendo esse tipo de caso na quarta?” “Sim, mas ele insiste em ver o senhor hoje, imediatamente.” “Peça-lhe para esperar pelos pacientes que já têm hora marcada então. E, ah, dona Layla, ponha o terceiro disco do Velvet como música ambiente.” “Pode deixar, doutor.” “Mande o próximo entrar.”

O homem de meia-idade não retribuiu à mão estendida do doutor, ocupado que estava em torcer suas próprias. “Doutor, meu casamento está em crise! Eu amo minha mulher e nunca a trai nem a trairei, mas estamos há mais de cinco meses sem fazer sexo!” “Na manha, Billy. Qual foi de mesma da abstinência?” “Ah, doutor, ela me trocou pelo Roberto Carlos desde que viu na novela das oito que ouvir Côncavos & Convexos na hora de dormir dava orgasmo. Nela, têm sido múltiplos!” “E o que você já tentou fazer?” “Usei viagra, comecei a fazer um curso de sexo tântrico que achei na internet e até propus que ela dormisse com outro cara, mas ela só quer saber de Côncavos & Convexos. Tentei até cantar pra ela, mas não surtiu efeito.” “Ih, Billy, o bicho tá pegando mesmo. Mas é nenhuma. Vai rolar, vai rolar.”

Doutor Billy se encaminhou até uma das prateleiras e tirou de lá um LP – Through The Past Darkly. “Rolling Stones, doutor?” “Claro! Você acha que o Mick Jagger come todas é com aquela rebolada ridícula?”

Quando o homem já estava com a mão na maçaneta, doutor Billy lhe interrompeu. “Ei, leva esse aqui também, ó. Caso o plano A não funcione, pelo menos por essa noite você não vai se incomodar em não fazer sexo.” E lhe deu Blue, de Joni Mitchell.

No segundo semestre de 2008, na Rádio Facom, apresentei um programa de crônicas radiofônicas curtinhas, de viés humorístico, que iam ao ar sob o nome de Rapidinha. Era bem divertido de fazer, infelizmente me faltou tempo para continuar. A recepção da galera também era bem legal, sobretudo para com o antológico episódio em que eu defino o que é ser gente bonita e para com a entrevista cantada, nos moldes do Tobby, que fiz com Marcelo Camelo.

Acabo de pôr todas as Rapidinhas no portfólio. Passa lá.

Castro Alves. Não o convidarei, bonito leitor, a conhecer a vida e obra de Castro Alves só porque ele é um dos [poucos] gênios baianos da literatura. Quero que você se sinta tocado pela sua poesia. Então, o seguinte: Antes de continuar esta leitura, vá ao Google, ou à sua estante, ou a uma biblioteca – onde quer que possa encontrar seus poemas. Fico na espera. Pronto? Que tal escutar O navio negreiro, com Caêts e Bethânia, pra efeitos de ambientação? É o que estou fazendo.

Dois poemas vou mostrar. Fatalidade ele talvez tenha feito para se desculpar com Eugênia, após uma briga:

Pálido e triste, atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só…
É que eu sentia que um fadário estranho
Meus sonhos todos reduzia a pó.

Mas tu vieste… E acreditei na vida…
Abri os braços… caminhei pr’a luz…
E a borboleta da fatal crisálida
Soltou as asas pelos céus azuis.

Em Mocidade e morte, quando de uma das primeiras hemoptises, disse:

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
[...]
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sobre a lájea fria.

Deixo aqui outros títulos, como a delicada Cestinha de costura; a epopéica Cachoeira de Paulo Afonso ou a sublime Adeus. Se, por mínimo que seja, esses poemas te tocaram, então talvez você se interesse em ler uma leve biografia, escrita recentemente por Alberto da Costa e Silva: Castro Alves — Um poeta sempre jovem [Cia. das Letras, 200 p., R$34,50].


[publicado no caderno Dez! em 05/02/08]

Ainda Seremos Felizes (Meet Me In St Louis, 1944) é um dos meus filmes favoritos. É um musical dirigido por Vincente Minnelli, estrelando Judy Garland. Inclusive, o casamento deles foi depois deste trabalho, o que sempre me deixa em dúvida em relação ao foco de maior inveja para com Minnelli: por ter feito este filme ou pela oportunidade de ter Judy cantando ao seu ouvido durante seis anos?

É uma história simples: uma família composta por pai, mãe, avô, quatro filhas e um rapaz, além da empregada, vive feliz e cantante em St. Louis, onde todo ano acontece uma mega Feira Mundial. Naquele ano de 1944, o evento mal começara a ser organizado e já estava dando o que falar. Mas o pai recebeu uma oferta de trabalho em Nova Iorque e anunciou que todos se mudarão para lá depois do Natal (e antes da Feira).

O filme deu duas grandes contribuições para o gênero musical: a primeira foi ter tirado as tramas dos palcos da Broadway; a segunda, ter transformado as canções em elementos narrativos. Porque até então elas eram usadas de forma mais solta — por exemplo, o personagem entrava em um bar, e neste havia um palco, no qual um show estava sendo feito. Vide a letra da canção que Garland canta enquanto observa o novo vizinho, por quem está apaixonada:


Ainda Seremos Felizes: Judy Garland canta The Boy Next Door


Agora Seremos Felizes é todo perfeito: a montagem tem um ritmo legal; o cenário é deslumbrante; a fotografia, idem; e a atuação é digna de aplaudir-se de pé, especialmente a da garotinha Tootie, interpretada por Margaret O’Brian. O papel lhe rendeu até um mini-Oscar.


Ainda Seremos Felizes: Judy Garland e Margaret O’Brian cantam Under the Bamboo Tree

Miss Lonelyhearts“A vida, para a maioria de nós, parece uma terrível batalha de dor e desilusão, sem esperança ou alegria. Ah, meus queridos leitores, apenas parece ser assim. Todo homem, não importa quão pobre ou humilde, pode aprender a usar seus sentidos. Vejam o céu pontilhado de nuvens, o mar que se veste de espuma… As melhores coisas da vida são de graça”

Você acredita nisto? Nem o próprio autor destas palavras, Miss Lonelyhearts, o Srta. Corações Solitários. Quando o contrataram para dar conselhos aos leitores de um jornal, apesar de considerar o trabalho um atraso de vida e uma piada, ele o aceitou na esperança de que poderia levá-lo a uma coluna de fofocas e, de qualquer forma, estava cansado de ser repórter. Mas, depois de vários meses, a piada começou a perder a graça; ele percebeu que a maioria das cartas eram súplicas profundamente humildes por conselhos morais ou espirituais, expressões inarticuladas de um sofrimento genuíno. Ciente de que seus correspondentes o levavam a sério, ele agora é obrigado a examinar seus valores, e “esse exame lhe mostra que é a vítima da piada, e não seu perpetrador.”

Publicada em 1933, Miss Lonelyhearts [Imago, 100 p., R$24], do  norte-americano Nathanael West [1903–1940, é uma obra-prima do humor negro. A sobriedade com a qual West se vale da fé para ridicularizar o mítico valor ocidental da satisfação plena [felicidade, se preferir] chega, por vezes, a ser nauseante. O editor de Miss Lonelyhearts talvez esteja certo: nós somos homens de engolir camelos só para fazer força na privada.


[publicado no caderno Dez! em 14/10/08]

Depois de esperar dez temporadas de Arquivo-X na expectativa de vê-lo dando uns pegas na Scully, depois de me decepcionar com o insosso beijo sem língua que eles trocam no final do último episódio, qual não foi minha surpresa ao ver o Ag. Mulder (David Duchovny), no piloto da série Californication (2007-), tendo sonhos eróticos com freiras e pegando ninfetas de 16? Sensacional.

Em Californication, criado por Tom Kapinos (Dawson’s Creek), Duchovny é o escritor Hank Moody, um maldito, cuja vida degringolou após deixar a cinzenta Nova Iorque pela ensolarada Los Angeles, para trabalhar na adaptação de seu best-seller, God Hates Us All (Deus Odeia Todos Nós), e vê-lo ser transformado em uma comédia romântica com o ridículo título de This Crazy Little Thing Called Love (Essa Coisinha Chamada Amor). Fossem outros os tempos, Moody, esse “cara analógico num mundo digital”, talvez resolvesse se vingar de Hollywood com um romance ácido, mas o problema — o problema maior, de fato — é que ele está na crise da meia-idade, e tenta o tempo inteiro revertê-la, ou melhor, esquecê-la, entorpecendo-se com álcool e cigarros; sobretudo após a mulher da sua vida, Karen (Natascha McElhone), ter se separado dele para ir morar com outro, levando junto a sua adorada filhinha gótica Becca (Madeline Zima), 12.

Eu até me enveredaria por uma comparação de Moody com Bukowski, mas, para ficar no universo de séries, em algum grau, ele lembra também o dr. House. Ambos são personagens inteligentes, de ironia refinada, solitários e com um problema que só eles podem resolver, embora este problema seja a origem do seu charme. Mas Californication tem uma estética mais underground, tosca, desde a abertura com imagens em super-8 (?); seus personagens são mais caricatos — destaque para o punheteiro Charlie Runkle (Evan Handler), agente de Moody, e sua esposa Marcy (Pamela Adlon), com seu molejo de Queen Latifa branca –; e o sexo é sempre um dos temas principais, com cenas de nu e piadas sobre paus, xoxotas e orgasmos. Ah, as piadas! Os diálogos são muito, muito bons. As cenas de Moody com Becca, que é uma versão em miniatura do pai, são antológicas.

Não sei como anda a repercussão da série, que parte para a terceira temporada agora em 2009. Aqui se fala pouco. Os três ou quatro fãs que conheci eram, como eu, caras que, sob algum aspecto, se identificavam com o protagonista. Tudo bem. Moody gostaria de saber que ele é Lado C.



Californication:cenas selecionadas do piloto

Caso meu projeto de comercialização de últimas frases não deslanche (sabe como é, às vezes o mundo não está preparado para certas idéias), hei de seguir a dica empreendedora de Ugo Sangiorgi e migrar para o ramo da publicidade. No teto.

Graças à grande popularidade de ferramentas como o Google Maps, os tetos agora são um ponto de propaganda estratégico! Imagine você utilizando uma delas para ver fotos aéreas de Salvador e, de repente, pá!, vê o teto do Iguatemi todo pintado de vermelho, com o logo da Coca-Cola, ou um conjunto de edifícios que permitam pintar, enorme, o logo da McDonald’s. Não é genial?!

Dizque Alfred Hitchcock, consagrado diretor de thrillers, como Um Corpo Que Cai (1958) e Psicose (1960), pediu que seu epitáfio fosse: “É isto que acontece com os maus garotos” — mas não realizaram seu desejo.

Eu nunca acreditei na veracidade das últimas palavras geniais. Se mesmo nos textos de Shakespeare os moribundos falam coisas superficiais, do tipo “Oh! Mataram-me!” [Polônio, conselheiro do rei da Dinamarca, em Hamlet], imagine na vida real.

Uma vez pensei em montar um negócio de criação de últimas palavras. O cliente que nos contratasse teria sua vida estudada e, a partir disto, faríamos um levantamento das maneiras mais prováveis dele morrer. Assim, criaríamos uma frase específica para cada situação possível. Tudo sob o seu crivo, claro. Desta forma, quando ele viesse a bater as botas, daríamos um jeito de forjar a cena da morte e trazer à tona as suas… caham… últimas palavras. E ninguém correria o risco de levar fama eterna por algo que não fosse do seu apreço.