Caso meu projeto de comercialização de últimas frases não deslanche (sabe como é, às vezes o mundo não está preparado para certas idéias), hei de seguir a dica empreendedora de Ugo Sangiorgi e migrar para o ramo da publicidade. No teto.

Graças à grande popularidade de ferramentas como o Google Maps, os tetos agora são um ponto de propaganda estratégico! Imagine você utilizando uma delas para ver fotos aéreas de Salvador e, de repente, pá!, vê o teto do Iguatemi todo pintado de vermelho, com o logo da Coca-Cola, ou um conjunto de edifícios que permitam pintar, enorme, o logo da McDonald’s. Não é genial?!

Dizque Alfred Hitchcock, consagrado diretor de thrillers, como Um Corpo Que Cai (1958) e Psicose (1960), pediu que seu epitáfio fosse: “É isto que acontece com os maus garotos” — mas não realizaram seu desejo.

Eu nunca acreditei na veracidade das últimas palavras geniais. Se mesmo nos textos de Shakespeare os moribundos falam coisas superficiais, do tipo “Oh! Mataram-me!” [Polônio, conselheiro do rei da Dinamarca, em Hamlet], imagine na vida real.

Uma vez pensei em montar um negócio de criação de últimas palavras. O cliente que nos contratasse teria sua vida estudada e, a partir disto, faríamos um levantamento das maneiras mais prováveis dele morrer. Assim, criaríamos uma frase específica para cada situação possível. Tudo sob o seu crivo, claro. Desta forma, quando ele viesse a bater as botas, daríamos um jeito de forjar a cena da morte e trazer à tona as suas… caham… últimas palavras. E ninguém correria o risco de levar fama eterna por algo que não fosse do seu apreço.

Em 1998, quando a internet ainda se apresentava no Brasil, e verbetes como “blog” ou “redes sociais” não participavam do nosso vocabulário, um grupo de jovens escritores em Salvador se valeu da rede para fazer literatura — inclusive fazendo experimentações com a potencialidade do hipertexto.

Através do Internet Archive (http://www.archive.org), um grande histórico da internet, é possível encontrar armazenados tanto resquícios de sites que não estão mais no ar quanto versões antigas de sites que ainda funcionem. Foi através dele que pude conhecer um dos e-zines (fanzines eletrônicos) pioneiros da Bahia, o K Zine, e também conhecer o Textorama, essa experimentação literária envolvendo a não-linearidade do hipertexto. Caras como Patrick Brock, Wladimir Cazé e outros são vanguardistas; tiro meu chapéu não só pela iniciativa como pelo ótimo texto (coisa da qual ando sentindo falta nos nossos destaques de hoje).

Para conhecer um pouco desta história, talvez a maior iniciativa literária feita na última década aqui na Bahia, leia uma entrevista que fiz com Brock para a Lupa Digital.

Aproveito para indicar, aos que se interessam também por jornalismo cultural, uma busca no Internet Archive pelo finado Claque, assinado por Juliana Protásio, Greice Schneider, Gabriela Almeida, Lucas Falcão, Rodrigo Barreto, Érico Monte e colaboradores. O melhor jornalismo cultural feito aqui desde que me entendo por gente. Difícil encontrar um conjunto tão bom hoje, embora tenhamos, agora espalhadas pelos seus próprios blogs, pessoas preparadíssimas, aqui na Bahia, fazendo jornalismo cultural, a exemplo do crítico de cinema Saymon Nascimento.

O amigo Marcelino Freire, bróder da prosa afiada, esteve na IX Bienal do Livro Bahia e nos deu a honra de passar uns dias cá em Salvador, trocando ideias e risadas com a gente, do Coletivo Muito Barulho Por Nada. Pra quem não conhece o MBPN ainda, trata-se de uma galera, da qual faço parte, que decidiu se juntar para produzir coisas.

O projeto nasceu quando o poeta e ator baiano Gabriel Pardal, que atualmente vive no Rio, fez uma participação improvisada nas jam sessions que rolam no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) aos sábados. A performance de Pardal, que tem textos fantásticos, inspirou João Vinícius (ex-Roleta Russa) a bolar um projeto que mesclasse literatura & música. João convocou a Gabriel Camões (ex-Roleta Russa) e a mim para uma reunião e começamos a lapidar sua idéia. Um dia depois, encontramos Mariele Góes, fotógrafa, pelo Rio Vermelho e, num bate-papo informal, ela trouxe a fotografia para o balaio. Daí resolvemos escancarar de vez as portas e abraçar toda forma de expressão artística que aparecesse. No nosso blogue tem de tudo: de música instrumental a videoclipe, de curtametragens a declamações.

Efetivamente, por uma questão de interesse, de traquejo e de interação entre os atuais membros, a dobradinha literatura-música acaba impondo sua presença com mais frequência. Eis duas amostras do que se pode encontrar no nosso blogue:

Carta pra Driu foi nosso texto inaugural. É uma carta de amor que eu havia escrito, e que aqui é lida por Camões; a música é de João.

Já o próximo áudio é um excerto do clássico romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, um dos meus livros prediletos. Estava na casa de João, vendo filmes, conversando sem compromisso, e ele decidiu gravar a leitura que eu fazia. Cebola Pessoa, em seguida, pegou este material e criou uma base que é — putz, de uma beleza inefável.

Assine o feed do blogue do MBPN porque, nas próximas semanas, vem muita coisa bacana, inclusive um texto inédito do Marcelino. E, em breve, eu volto com este assunto aqui no abre parêntese (, mas desta vez será para convidar você para nossas primeiras apresentações ao vivo. Bó fazer barulho!

Daniel Galera, 29, nasceu em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. Foi lá que, junto com amigos, fundou a editora independente Livros do Mal. Com quatro livros publicados, é um dos principais autores da nova geração.

Daniel Galera_Como nasceu o Daniel Galera escritor?

Depois de tentar inutilmente transcender a introspecção falando, pintando, desenhando e compondo músicas, arrisquei escrever contos. Eu já tinha uns 16, 17 anos. Funcionou. Sentia que tinha algum talento para aquilo, ainda que mínimo, que a prosa de ficção era uma forma viável e potente de me expressar. Fui um leitor voraz desde a infância. As primeiras publicações na internet me permitiram encontrar um pequeno público leitor, e a partir dali a escrita se tornou parte essencial da minha vida.

_Além da literatura, a que atividades você se dedica?

Natação, corrida, churrasco e videogame.

_Quais as peculiaridades da aproximação que você mantém com os seus leitores pela internet?, participando dos debates na sua comunidade no Orkut, por exemplo.

Tenho um site pessoal e uso Orkut, Facebook, MSN, Skype. Gosto de manter contato com leitores. O depoimento de um leitor é a etapa final da publicação de um livro, é quando o círculo da experiência literária se fecha.

_Qual o comentário mais marcante que você recebeu a respeito da sua obra?

“Obrigado.”

_Em seu extingo blog, você escreveu que percebia, entre as pessoas de sua idade e classe social, certa apatia causada por “um excesso de possibilidades que desnorteava (…), tornava tudo no mundo equivalente, e portanto igualmente desinteressante.” O desejo da protagonista de “Cordilheira” de ter um filho seria uma forma de lutar contra esta apatia?

Escrevi que percebia essa tendência de comportamento numa certa parcela da minha geração, não acho que seja um traço onipresente. Tratei disso de forma mais ampla no meu primeiro romance, “Até o dia em que o cão morreu”, em que o protagonista manifesta essa tendência de forma exacerbada, paralisante. No caso da Anita, protagonista do “Cordilheira”, não era minha intenção tratar disso. Pensei nela mais como anti-heroína em meio a ideais cultivados por mulheres urbanas modernas. Anita desdenha de carreira, independência, liberdade, realização emocional. Quer ter um filho e ser, nas palavras dela, “nada mais que a mulher de um homem”.

_Você sofre deste desnorteamento pelo excesso de possibilidades?

As possibilidades me deixam meio tonto, às vezes, mas creio que na maior parte do tempo consigo manter o foco no que interessa. Não sou uma pessoa de muitas expectativas. Quando noto um excesso, eu as decepo.

_Você quer ter filhos?

Quero três coisas: uma mulher que fale pouco, uma piazinha ranhenta com os joelhos ralados e um Blue Heeler que aprenda a me acompanhar sem coleira.

_Pode contar algo a respeito do próximo livro?
Cedo demais. Mas tenho quatro idéias e pretendo escrever as quatro.



[publicada na revista Muito em 19/04/2009]

O encontro

April 20, 2009

O Encontro

Ele vinha correndo, e eu, sentada no banco ao lado da entrada, podia assisti-lo atravessar todo o pátio que separava o seu prédio da portaria. A corrida era inútil, afinal, eu já estava ali, e não faria diferença esperar um ou dois ou dez minutos, mas ele corria, driblando os guris que jogavam futebol, pulando por sobre a cabeça das meninas que pulavam corda, porque eu havia chegado mais cedo do que o previsto, ele ainda estava no banho quando o porteiro interfonou para seu apartamento, e não queria que eu o esperasse muito. Talvez ele é quem não quisesse esperar muito para me ver, mesmo só fazendo vinte e duas horas e dez minutos desde que me vira pela última vez, quinze dias desde que me vira pela primeira vez, numa sessão fechada da minha nova peça, A Paixão No Tribunal, na qual ele só entrou por ser amigo de um amigo do elenco, da qual ele só não saiu porque, nas entrelinhas do texto cheio de clichês, pôde deslumbrar na advogada de tailleur uma mulher capaz de não romantizar a paixão em excesso, de não encobrir suas partes feias, virar a cara nem tratá-las com cinismo, e, ainda assim, uma mulher disposta a entregar-se a uma paixão como uma mãe é capaz de amar seu filho natimorto. Foi isso que ele me escreveu no convite de amizade no Orkut, e foi o que reiterou quando eu o aceitei no MSN, logo depois de mencionar a beleza dos meus olhos, dos meus cachos, meu sorriso, minha bunda.

Enquanto ele corria para mim, eu adivinhava em cada músculo que se retesava o desejo represado no dia anterior, numa feijoada da galera do teatro em Guarajuba, quando todos nos deixaram a sós, eu na rede, ele no chão, me balançando, me empurrando para longe e para perto, menos longe e mais pra perto, mais pra perto, e então pra longe. Ele corria, e no suor da testa escorria a frustração de não ter me visto na formatura de ontem à noite, que eu teria ido só por ele, mas não com ele, e que perdera porque o amigo que me daria convite e carona me levou para uma outra festa. Eu não soube o que fazer. À meia noite ele me ligou, o ruído da música das duas festas não deixou a gente conversar direito, quando ele disse Eu quero te ver, bem poderia ter sido Eu vou te esquecer, e aí sim eu soube o que fazer, pedi pra ir embora e fiquei até as três da manhã despetalando metade do buquê que ele me mandara e ouvindo o mp3 que me enviou, com Cazuza cantando que tinha um medo, que medo!, de dizer que me amava, e eu queria ser amada por aquele cara – o cara que via em mim uma mulher de curvas lindas, de opiniões firmes e de amor incondicional; o cara que havia ido à feijoada com o amigo de um amigo só para me ver; que, não tendo coragem de me beijar, me empurrava para longe, mas aí tentava de novo, e de novo — e essas tentativas já anunciavam todas as brigas que superaríamos, com ele me puxando para perto sempre que eu ousasse me afastar. Queria, sim, amar aquele cara que corria, arrodeando as meninas que brincavam de rodinha, se esquivando dos meninos que brincavam de pega-pega, e que tinha me ligado logo cedo convidando para comer um acarajé, de modo tão inesperado que eu, num ato falho, dissera-lhe que acabara de comer um, no que ele contestou com um E que tal um abará agora?, e eu ri e logo depois estava na casa dele, esperando no banco da portaria, enquanto ele vinha correndo.

Finalmente, ele chegou. Largou-se ao meu lado no banco, pôs os óculos antes de me encarar e, arfando, sorrindo, exclamou:

– Oi.


[publicado no Dez! em 31/03/2009. Ilustração: Aziz]

Hoje começa a IX Bienal do Livro Bahia, que vai até dia 26 de abril. No dia 26, aliás, estarei lá, a partir das 15h, no stand da editora FTD. Mas este agora é que será o fim de semana mais interessante pra mim, com a presença de dois dos meus autores favoritos: Moacyr Scliar (sábado, 15h) e Marcelino Freire (domingo, 19h). Não perderei a oportunidade de ouvi-los e de receber um autógrafo nos meus exemplares de Manual da Paixão Solitária (Scliar) e Rasif (Marcelino), seus últimos lançamentos, ambos muito bons. Nos vemos?

A seguir, entrevista feita por mim com sir Scliar pra Muito.



Com o coração e as tripas

O gaúcho Moacyr Scliar, que completa 72 anos amanhã, é um dos mais prolíficos autores brasileiros, com cerca de 70 livros, entre ensaios, romances, contos e crônicas. Scliar é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003.

Atualmente, o senhor se dedica a quais outras atividades, além da literatura?

Sou médico de saúde pública e durante muito tempo tratei de compatibilizar minhas atividades nesta área com a literatura. Agora trabalho menos em saúde, mas ‘mantenho meus vínculos. Viajo muito, dou muitas palestras, escrevo para jornais e revistas no país e no exterior – enfim, é uma existência movimentada…

Há quem defenda que o papel do escritor sofreu uma radical mudança nos últimos anos; sendo, anterioramente, alguém lido pela capacidade de nos levar a pontos desconhecidos da emoção, da compreensão das coisas, hoje ele seria um igual, que compartilha conosco sentimentos já conhecidos; e isto afetaria em muito a literatura produzida, sem paixão, sem coragem. O senhor enxerga alguma mudança no papel do escritor e na literatura ocorrida nos últimos tempos?

Não há dúvida de que, com o avanço da tecnologia, a atividade literária – durante muito tempo algo elitista, inclusive porque pouca gente tinha acesso à palavra escrita – agora está ao alcance de muito mais gente, através dos blogs, por exemplo. Claro, o risco da banalização, do culto ao ego, existe; mas, como no passado, literatura tem de ser feita com emoção, com o coração e com as tripas, se possível.

Há uma citação do senhor que diz: “Escrevo pelo prazer de criar situações e personagens (nesta ordem, infelizmente).” A que se deve este “infelizmente”?

Sempre achei que a literatura deveria partir do personagem e a partir dele criar situações; não por outra razão escritores se imortalizam através de personagens: Dom Quixote, Hamlet, Capitu. Mas para mim estas situações, a trama que as une, são fundamentais. O personagem vai sendo gerado em função delas. Mas é meu jeito…

O senhor sempre diz que Jorge Amado foi um dos autores que te influenciou bastante. Qual a sua visão da obra de Jorge?

Conheci Jorge e Zelia desde a minha infância – eles eram amigos de minha família. E desde criança os admirava. A obra de Jorge me fascinava sobretudo pelo engajamento, pela espontaneidade, pelo retrato do Brasil que representava. Nesta obra, e o tempo o mostra, as qualidades superam os defeitos.

Em “O Texto, ou: A Vida”, que conta a sua trajetória literária e onde se pode ler seus escritos inicias, a sua Porto Alegre, o seu Rio Grande do Sul são muito pessoais. O senhor, que foi ligado ao movimento juvenil, nunca cogitou escrever algo mais denuncista, em que os dramas da cidade e do estado tivessem notoriedade?

Vejo a denúncia como uma atividade sobretudo jornalística. A ficção pode, e deve, mostrar problemas sociais, mas de uma forma diferente, mediada pela imaginação. É o que acontece em muitos de meus livros. O primeiro deles “O Carnaval dos Animais”, reúne uma série de contos nos quais, em linguagem metafórica, eu falava da ditadura, então em seu auge.

Existe algum personagem que o senhor gostaria de reencontrar? Aliás, existe algum plano para este reencontro?

Parto do princípio de que meus personagens, e meus livros em geral, fazem parte de determinadas épocas. Não costumo me reler, nem costumo voltar a temas e/ou personagens. Para mim vale o desafio do novo, do desconhecido.

Qual a história da vez? Pode contar algo sobre ela?

Estou trabalhando num ensaio sobre medicina e poder, estudando as figuras de médicos que, como Che Guevara, trocaram o estetoscópio pelo fuzil.

A sua relação com o judaísmo envolve, tanto quanto formação cultural, a prática da fé?

Não. Não religioso, embora respeite a fé religiosa das pessoas. Minha aproximação ao judaísmo é histórica, é cultural, sobretudo literária; aprendi, e continuo aprendendo muito, com os escritores de temática judaica de vários países.


[publicada na revista Muito de 22/03/2009]

Notícias

April 16, 2009

Olá, bonitos leitores.

Que sacanagem, a minha, deixar vocês sem posts durante quase dois meses, hein?

É que eu tive um raro problema de saúde. Aos 22, fui diagnosticado com osteoporose, no quadril esquerdo. “Até na doença você é precoce”, gozou uma amiga. Os médicos não sabem como diabos isto aconteceu, o diagnóstico foi tão surpreendente que eu devo ser um dos principais temas das rodas de conversa do Clube dos Médicos da Bahia atualmente. Desconfia-se que eu carrego um gene de uma doença muito pancadona, chamada osteogenesis imperfecta (pelo menos o nome é charmoso, se for isto mesmo, mando tatuar). Veja bem, não que eu tenha a doença, que originalmente provoca deformação óssea assim que a pessoa nasce — ao que parece, a osteoporose seria uma forma branda de a doença se manifestar, quase uma sequela por tão-somente postar o gene. Nada foi confirmado, efetivamente. O fato é que estou de muletas desde janeiro, e a previsão atual é que não me livre delas até junho. Além desta medida de precaução, meu tratamento está sendo feito à base de comprimidos de cálcio e de um medicamento relativamente novo, Actonel. Nem queiram ver a lista de possíveis efeitos colaterais. Mas até então tem dado tudo certo, a inflamação cedeu bastante e não sinto mais dores. A única parte chata é que é preciso, após ingerir o remédio, ficar meia-hora de pé, para evitar uma esofagite. Agora, imagine quão agradável era ficar em pé estando de muletas, terminantemente proibido de pôr peso sobre a perna doente? PQP! Agora, pelo menos, estou liberado para, vezenquando, usar apenas uma muleta, que eu tratei de substituir por uma bengala, no melhor estilo Dr. House. Falta só aprender a girá-la feito uma baqueta.

Agora que você está compadecido com o meu drama, nem preciso explicar que, em tese, eu deveria era ter aproveitado este tempo de bastante repouso para postar mais, mas que enjoei rapidinho do ex-novo template do blogue, que era muito vivo, nada condizente com minha natureza sóbria e algo pra baixo. O novo layout, ainda em construção, acabou sendo muito parecido com o primeiro. No post inaugural desta versão 2.0, fiz um discurso bonito sobre as mudanças. Caí no clichê das promessas de Ano Novo. Até!

Amanhã, primeira segunda-feira pós-Carnaval,  seguindo a tradição soteropolitana, é que o ano novo começa. Somando esta particularidade do tempo aqui na Bahia ao ao meu desejo de fazer algum top — esta “sutil e obsessiva arte”, como bem diz Denis Pacheco, do Topismos — eis cá um top 5 das minhas leituras de 2008. Mas não vou pôr em ordem de predileção (isto faz do meu top somente uma lista, né?, tudo bem, é bonito ficar chamando-a de top 5), acho que aí embaixo tem coisas com tamanho grau de qualidade que dizer se isto é melhor que aquilo é uma discussão sobre o sexo dos anjos.

top52008

MÚSICA PERDIDA [Luis Antonio de Assis Brasil]

O Livro começa cheio de Letras Maiúsculas, e você logo pensa: iiih, lá vem. Então, no primeiro virar de página — O Maestro exeprimenta a presença da morte. Sentiu-a faz alguns dias, instalada e dilatando-se em seu corpo. Se lhe perguntassem, não saberia dizer se é essa tontura ou a náusea angustiada, essa repugância, ou esses fogos que cruzam por sua retina, ou são os pés, que sente presos ao chão. Mais do que o transtorno corporal, é a certeza metafísica de que vive seus últimos instantes. [...] Ademais, os velhos morrem em agosto e agosto está no fim.

O romance conta a história do maestro Joaquim José de Mendanha, ou melhor, a história que Assis Brasil cria para ele, a despeito de Medanha ter, efetivamente, existido (é o autor do hino do Rio Grande do Sul). E essa história é uma busca enlouquecedora por uma cantata, sua obra-prima da juventude, nunca executada, cuja partitura se perdeu e cuja memória não consegue mais alcançar. É a história de um gênio reduzido a maestro de igreja e compositor de hinos sob encomenda — reduzido, enfim, à mediocridade aplaudida. Pois é isso o que resta a quem, um dia, atingiu a perfeição.

Vale destacar a narrativa lacônica: conta pouco, mas diz tudo que precisamos saber — e se não o diz, é na falta do que nos dá que está também seu charme.

A VIAGEM DO ELEFANTE [José Saramago]

Literatura da ironia mais refinada, este é o relato, baseado em fatos reais, do elefante Salomão, que, tendo antes sido trazido de Goa a Lisboa, é ofertado ao arquiduque austríaco Maximiliano, e, assim, empreende viagem até Viena, surpreendendo as gentes pelo caminho não apenas pelo seu porte, tamanho, tromba ou barrito, mas também pelos seus atos, tais quais ser capaz de refrear um coice ao perceber que havia um padre atrás de si, abraçar carinhosamente os seus serviçais, ou mesmo ajoelhar-se diante do arquiduque. Seus porquês são um mistério, posto que não nos é dado o privilégio de entrar na mente elefantina, todavia fica-nos sempre a prova do tato e da paciência que é preciso ter um elefante ao relacionar-se com os homens. Entre os elefantes recordam-se com freqüência as famosas palavras pronunciadas por um dos seus profetas, aquelas que dizem, Perdoai-lhes, senhor, porque eles não sabem o que fazem, eles sendo nós.

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR [Luigi Pirandello]

Pirandello, o mais importante dramaturgo italiano do século XX, escreveu, em 1921, esta peça sobre seis personagens que, rechaçados pelo seu criador, invadem um ensaio para convencer o diretor a encenar sua história. Fazerem crer-se de que são personagens reais, embora inventados por um autor, e que seus dramas são reais, embora em relação ao palco, suscita uma discussão metalinguística a respeito do teatro, e uma busca das relações entre arte e vida real. Pelo fato de o diretor não ter em mãos um roteiro, dominado por um narrador, a versão de cada personagem para o drama que lhes ocorreu adianta aí, em quase 40 anos, a base da noção de teatralização do cotidiano, do sociólogo canadense Ervin Goffman.

O INIMIGO DO REI [Lira Neto]

Não é ficção, mas uma biografia. A biografia de José de Alencar, escrita com um esmero de Jornalismo Literário que, seguramente, revelou-se das mais penosas tarefas, uma vez que Lira Neto tinha apenas registros escritos como base.

Sempre tive um ranço para com o estilo de Alencar, e não engolia aquele papo sobre sua obra ser deveras importante, a precursora de um retrato do Brasil. Até ler O Inimigo do Rei.

Essa deliciosa narrativa vem para tirar a poeira da obra de Alencar e render merecida homenagem ao romancista que [como diz o subtítulo] colecionava desafetos, azucrinava d. Pedro II e acabou inventando o Brasil.

SEARA VERMELHA [Jorge Amado]

Nesta obra, de 1946, Jorge Amado cria uma verdadeira saga, protagonizada por uma família de imigrantes nordestinos que, expulsos da fazenda onde se formou, vão em busca do sonho de fazer a vida em São Paulo. É a fome e a doença, os cadáveres vão ficando pelo caminho, estrumando a terra da caatinga, e mais viçosos nascem os mandacarus, maiores os espinhos para rasgar novas carnes dos sertanejos fugidos.

Os personagens de Jorge são brutos, mas vivem sob um código de ética estrito, a hipocrisia não faz parte da sua realidade, a honra é o único tesouro que carregam. Já a caatinga de Jorge é de uma beleza dura, espinhos e mandacarus, cangaceiros e beatos. Seara Vermelha é, assim, um quê de Cem Anos de Solidão, uma quê de O Senhor dos Anéis, arquitetada pelo gênio singular e prolífico de Jorge Amado.

Manual do Paulistano Moderno e DescoladoSabe aquele amigo que só vê filme “de arte”? Ou aquele que fecha a cara quando gritavam “toca Anna Julia!” em show do Los Hermanos? Ou ainda aquela amiga hetero que deu pra beijar outras garotas em festas? Pois se está procurando um presente para algum deles, o Manual do Paulistano Moderno e Descolado [Martins Fontes, 118 p., R$ 20,80], de Gustavo Piqueira, é ideal.

Não se engane com o título: de manual e de bairrista, o livro não tem nada. Trata-se de um conjunto de crônicas que, com ironia quase nunca deslizante e bastante fluidez, criticam a pose de quem ambiciona os rótulos de cool-indie-hype. O narrador [com alto teor biográfico] teve a idéia de escrevê-lo quando leu para uma namorada a seguinte nota: “Se você nunca ouviu falar no Cansei de Ser Sexy, deve ter morado os dois últimos anos em Marte”; no que ela retrucou: “Em quem?”

Este é o primeiro de 14 relatos do seu dia-a-dia de jovem adulto de classe média — notória em parecer mais do que efetivamente é. A tese sustentada por Piqueira é a de que quem quer aparecer [e não tem perfil de Big Brother] só tem a exibir hoje cultura e dinheiro.

Mas o repertório cultural por si só não garante mais admiração, e se valer tão-somente do poder aquisitivo é demasiado cafona. “A correta dosagem é fundamental”, escreve.

Ainda a despeito do título, temos cá um livro tradicional, propondo uma discussão. Nada daquelas obras modernas e descoladas, que escondem o discurso [se houver] sob camadas de símbolos e jogam a responsabilidade para o leitor “interpretar como quiser/puder”


[publicado no Caderno Dez! em junho de 2008]