Orô
“Aquele homem parecia um gigante; para cima ou para os lados, ela só via seu corpo, estendendo-se até o horizonte. Suas mãos seriam capazes de envolvê-la como um casulo, e foi justamente o que ele fez. As roupas se rasgaram: era a hora da borboleta. Ele a ergueu, um primeiro incentivo para um vôo bem-sucedido. Com as pernas e braços presos às costas dele, ela descia e subia, descia e subia, voando, voando, talvez já próxima à lua — se fosse noite de lua.”
Publicado originalmente no blog do Animapet IV, 20/05/06.
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O que Jesus fez dos 12 aos 30?
“Jesus, por causa da zoação dos amiguinhos, pressionou sua mãe para que lhe explicasse como podia ele ter nascido aloirado e com olhos verdes no Oriente Médio. Ao saber da verdade, emancipado que era (já passava sermão nos mais velhos e tudo!), partiu para Roma, em busca do seu pai. Ei! Estamos falando da Roma pagã! Quem viu Calígula, de Tinto Brass, sabe a que me refiro.“
Publicado originalmente na revista Lupa, 02, verão 2006/2007.
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Lá, onde habitavam os monstros
“É como estar num caixão – aliás, o local que eu aconselharia aos leitores de Diário de Um Mago prestes a fazer o Exercício do Enterrado Vivo. São apenas 4,6m² de área total – 25cm de altura. Do nariz até o limite superior, só há 9cm de espaço (7cm se estiver com as mãos sob a cabeça). Você fica tão perto das tábuas, que consegue ver com detalhes seu relevo, parecido com impressões digitais, inclusive em sua unicidade.”
Publicado originalmente (sob o título A cama) na revista Lupa, 03, inverno 2007.
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Lápis de cor
“– Olha só: ano passado eu ganhei uma caixa que nem essa sua, grandona. Mas demorou tanto para os lápis acabarem, que eu fiquei o ano inteirinho com a minha caixa de lápis de cor velha. Agora, não. Esse ano, eu pedi uma pequena, porque acaba mais rápido, e eu posso ganhar uma nova logo, logo.
– Eh… Ainda assim, é mais legal o grandão.
– Mesmo velho? Eu não. Só gosto de coisa nova, bonitinha, limpinha, sem usar.
– Eu também.
– Pois é. Então você não gosta de caixa grande, não é?
– Eu acho que você tem razão, Juquinha. Droga! Agora só vou ganhar outra caixa de lápis de cor no ano que vem.
‘Ah! Enganei o bo-bo na casca do o-vo’, pensou Juquinha, de novo.”
Publicado originalmente no caderno A Tardinha, 06/12/08.
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O encontro
(…) e eu queria ser amada por aquele cara – o cara que via em mim uma mulher de curvas lindas, de opiniões firmes e de amor incondicional; o cara que havia ido à feijoada com o amigo de um amigo só para me ver; que, não tendo coragem de me beijar, me empurrava para longe, mas aí tentava de novo, e de novo — e essas tentativas já anunciavam todas as brigas que superaríamos, com ele me puxando para perto sempre que eu ousasse me afastar.
Publicado originalmente no caderno Dez!, 31/03/09.